Bet com t mudo

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BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

quinta-feira, 25 de junho de 2020

O AMARGOR DA PITANGA


Vermelha, amarela.... de dois em dois anos recolho uma, como, experimento. Porque é assim que floresce e frutifica a pitangueira, esporadicamente, em meu quintal.

Também eu experimento uma tipologia de escritas, pesquisas, textos ora longos ou curtos, crônicas, contos, um amálgama de escritos repensando a vida, seus sabores amadurecidos vagarosamente...

Meu pé de pitanga, no estreito canteiro junto ao muro do quintal, não consegue crescer. Pitangueiras são plantas arbustivas, de pequeno porte. Ainda mais, no meu caso, quando o piso do canteiro está cimentado e as raízes não penetram fundo na terra. Mesmo adubada, continua na periferia. Similar a mim. Constato, pouco a pouco, certas aprendizagens entre muros e quintais.

Noto ligeira semelhança entre o travo do caju – por mais maduro que esteja – e o sabor da pitanga madura, entre doce e amargo. Tem gente que não acha assim... ou é doce ou cospe para lá. Até porque a semente precisa mesmo ser cuspida. Se a cusparada cai no chão, será varrida, jamais brotada.

Não existe colheita de minhas escritas, escrituras de travo amargo. Já me cobraram mais de um livro, talvez uma coletânea. Sim, tenho muito material. Textos publicados e em arquivos. Mas ainda não me sinto com estrutura para um arranjo. Claro que sonho com um livro que tenha sabor e presença. Talvez ainda tenha tempo para nisso pensar. Até me arrisquei com um pequeno livro em edição quase manual, “Leituras exemplares, à maneira de Tolstói”, há um ano e apenas 100 exemplares. Há uma postagem neste blog, apresentando o livro e sua proposta, e alguns textos, em 2019, julho, 7.

Não obtive mais do que meia dúzia de retorno... mas foram alertas importantes sobre esta escrita. Por escrito, houve um leitor que devolveu opinião, aprovação e divulgação. O escritor Políbio Alves assim se manifestou num simpático cartão, enviado pelos correios.

     


“Prezada Professora Elisabet      Li. Reli com desmedida paixão e entusiasmo “Leituras Exemplares (à maneira de Tolstói)”. Obrigado por um texto tão prazeroso de se ler. Obrigado também por me tornar, agora, mais um leitor compulsivo de sua obra. A qual, desde já, vou doá-la par a Biblioteca Escritor Políbio Alves, da Escola Estadual Antonio Pessoa, aqui na minha cidade.   Fraterno abraço. E, dê notícias, espero.    Políbio Alves   9/7/2019”

Meu blog, www.betcomtmudo.blogspot.com, tem poucos seguidores, nome ciber para os leitores virtuais, mas, quando comentado, a pitanga fica doce... Sim, é isso que esperam os autores. Esporádicos, porém ciosos do aspecto comunicacional de um tempo de maturação.

Então, continuo a produzir...

(Sim, ainda tenho alguns livros “Leituras exemplares (à maneira de Tolstói)”. À disposição...)

quinta-feira, 28 de maio de 2020

FRONTEIRAS DO IMAGINÁRIO: TEX WILLER, UM FAROESTE ITALIANO EM QUADRINHOS

    
Tex Willer, como herói de quadrinhos, um cowboy, ambientado no oeste dos Estados Unidos do século XIX, existe desde 1948, uma criação de Gianluigi Bonelli, com desenho original de Aurelio Galleppini, ou simplesmente Galep, editado na Itália, em Milão. Foi depois complementado por outros autores e desenhistas para os fumetti (quadrinhos em italiano), um sucesso de público há décadas e claramente inspirado nos filmes de bang bang (onomatopeia dos tiros) ou faroeste.

Os filmes de faroeste (far = longe e oeste western em inglês) exerceram influência no mundo todo, sobretudo criando estereótipos que marcaram a história do cinema e o mito do herói do velho Oeste, das histórias de bandido e mocinho. Este, sempre um galã, branco, leal, valente e defensor dos injustiçados, enquanto o bandido é o sujeito mal encarado, comanchero ou o índio cruel, matando e escalpelando colonos inocentes. Um mito inventado, mas que, reproduzido à exaustão, criou a aura do cowboy, do vaqueiro destemido. Enfim, um maniqueísmo que acompanha nossa identificação mais geral com os mitos na luta do bem contra o mal. E que o bem, apesar de todos os percalços, sempre vence, para glória do herói e de nossa catarse. Assim, também nos gibis de Tex Willer, acompanhamos a saga épica desse herói aventureiro e valente, bom de tiro e de caráter.

Quem é fã de gibis, das histórias em quadrinhos, provavelmente conheça Tex Willer. Pode ser associado aos filmes do “western spaghetti” ou faroeste macarrônico (ironia com os italianos) por certa visão diferenciada do mocinho, mais violenta, e que acabou influenciando até novos filmes americanos de faroeste. Este intercâmbio é bastante instigador, pois há interesses claramente evidenciados na indústria cultural. Sucesso de público é também garantia de retorno financeiro.

Mas o fato é que os gibis de Tex Willer chegam a muitos países, por aqui, e, curiosamente, menos nos Estados Unidos da América. Já explicaram que existe uma lógica nisso, afinal Tex Willer, um ranger a serviço do Estado, em suas aventuras épicas, matando índios e bandidos com um senso de justiça cristão, revela ou melhor desvelaria metaforicamente características da própria Itália em sua luta pela unificação, após as sequelas da segunda guerra mundial. Sabemos também que a mídia e a indústria cultural têm seus interesses comerciais na distribuição deste tipo de produto e seu consumo. Portanto, a confluência destes dois aspectos pode ter assegurado o êxito desses gibis, iniciado na Itália.

A periodicidade dos gibis Tex é mensal, mas há sempre várias revistas em oferta, almanaques, edições históricas, números especiais e outros. As edições mensais na maioria têm 114 páginas em tamanho livreto padrão e, às vezes, há continuação do enredo no número seguinte. Esse número dobra em edições especiais. Para atingir o número de páginas, observei também que, às vezes, coexistem duas histórias. São invariantes três tiras horizontais em cada página, um a três quadrinhos em cada tira, a maioria com moldura.

A editora atual no Brasil, Mythos Editora, não publica a tiragem, mas, acredito que seja considerável, pela popularidade do gibi. Comprei um exemplar na Itália; também não há o número da tiragem. Entretanto, em uma entrevista de um dos herdeiros e roteiristas da editora, Sergio Bonelli, de 2008, há uma referência a 200 mil exemplares mensais, somente na Itália, sem contar as edições especiais. O preço é variável. Em fevereiro de 2020, o Almanaque Tex, em formato livreto, custou R$ 13,90 e 4 euros na Europa.

Os desenhos internos são em preto e branco (nanquim, bico-de-pena) com as capas coloridas, às vezes uma arte de outros desenhistas. Há também edições totalmente coloridas, com recursos de aquarela e nanquim. O trabalho de arte é bem realista, acadêmico e plenamente realizado, seja na sequência dos quadrinhos, na movimentação das cenas, na expressão dos personagens e cenários, que atrai o leitor para closes e diferentes perspectivas.

Os roteiros são cheios de ação, aventura, muito tiro e pancadaria. Nada é estático, tudo se encadeia numa dinâmica simples e envolvente, quase cinematográfica e que, talvez por isso, seja esse realmente um dos elementos de sucesso desses HQs, como leitura de entretenimento.

Tex Willer em ação (desenho de Gallep). Uma boa história, muito ação e movimentos dão dinâmica aos quadrinhos do gibi, como se estivéssemos assistindo à cena. Inicialmente em preto e branco, há também gibis coloridos desde 2007.

Não sou leitora desses gibis, mas aqui em casa e na de meu filho há estantes destes exemplares, os gibis do Tex, colecionados há anos. Meu marido, desde sempre, quando ia à banca de revistas, perguntava: “E o cavalo do Tex, já chegou?”  Ele lê e relê estas aventuras em quadrinhos e defende essa leitura como entretenimento, sabendo sempre que Tex vai vencer, o herói típico, infalível.

Realmente, entre a seriedade de seus livros de política e economia, os gibis de Tex são uma alternativa lúdica, prazerosa, assim como para meu filho jornalista. Ambos, pai e filho, trocam revistas e falam destas aventuras. E que aventuras... eles mesmo as ironizam muitas vezes pelo exagero de certas situações, mas o encantamento não abala o fascínio de seus leitores. Aliás, um fascínio em que se misturam elementos de ironia e comédia, além de referências históricas e geográficas para embasar certa verossimilhança narrativa.

Quando falei que iria escrever sobre Tex, ambos selecionaram uma porção de histórias para eu me situar. Sim, porque outra motivação é que, em viagem aos Estados Unidos, em 2018, conheci o estado do Colorado. Já conhecia algumas estradas, paisagens e cidades do estado do Kansas e do Texas, especialmente Laredo na fronteira com o México, com o Rio Grande (tão miúdo, me pareceu!) onde a influência mexicana e a própria história se confundem ainda hoje. Pois bem, no estado do Colorado, viajando de carro ou fazendo caminhadas pelas marcantes paisagens das pradarias, lagos e montanhas, meu marido sempre associava em tom de brincadeira “Tex passou por aqui...” Aliás, o criador de Tex assume a influência da história americana em seus enredos dos quadrinhos e encontrei uma foto de Gianluigi Bonelli com os filhos no estado do Arizona em um dos gibis. Então não é mera coincidência...
Paisagem do Colorado, planícies, vales e montanhas (foto própria).
Há muito material sobre Tex Willer na web, pesquisas inclusive acadêmicas, análises críticas e fãs ardorosos da série. Não é assunto para o blog fazer uma análise da evolução desse personagem ou de suas revistas, mas lançar também um olhar sobre outro personagem, o índio Ouray, chefe dos Utes, e como foi utilizado em uma das histórias. Se Tex Willer é um personagem de ficção, o chefe índio Ouray é um personagem histórico, nativo, que viveu nos Estados Unidos. Não sou especialista em história americana, mas foram muitas coincidências para este desafio.

Geografia, História e Ficção... A história de um chefe da nação indígena dos Utes, me foi apresentada sob diversos aspectos. E ele está lá, representado nos gibis de Tex Willer. 





 Ouray, chefe indígena dos Utes, em foto de 1874. Ouray, desenhado por Ticci no gibi Tex, número 474, “O assédio dos Utes”, São Paulo, Mythos Editora, abril 2009.

Ouray se tornou personagem de gibi italiano e lhe deram voz e vida. Mas uma voz de figurante e não da importância que esse homem teve na história dos Utes e das negociações sobre as reservas indígenas no século XIX. Há uma sequência de três revistas em que se prepara o aparecimento de Ouray, mais pelos Utes, a tribo, constituírem uma ameaça. Os números 472, Os soldados-búfalo, 473, O esquadrão de ébano e o número 474, O assédio dos Utes. O argumento narrativo é uma criação de Mauro Boselli, com arte de Ticci, editado na Itália em 2008. Portanto, 60 anos depois do primeiro gibi, de 1948.

Com o fim da guerra civil, em 1866, o novo desafio para essa nascente América “unida pelo fogo e pelo sangue”, era representada pela conquista dos territórios da fronteira oeste. Aliás, o significado de fronteira já dá um substrato interessante para se entender o maniqueísmo, o lado de cá, civilizado e o lado além da fronteira, selvagem, mas rico em terras e possibilidades, ocupado por selvagens e foras-da-lei.

Para combater os selvagens peles-vermelhas, nada melhor que usar também os desprezados afro-americanos. Nestas três histórias, o protagonismo é dado aos valorosos soldados negros, soldados-búfalo, assim denominados pelos índios e não especificamente aos Utes ou a Ouray. Ex-escravos afro-americanos combatiam nas fileiras do exército, mas sempre foram vítimas de preconceito. Esta trilogia procura redimir, pelos olhos de Boselli, esses soldados tão fortes e corajosos como os soldados brancos. Há algo de politicamente correto nesta alternativa, mesmo que os soldados sejam clichês representativos em muitos quadrinhos e na própria sequência da história.   
    
Há uma sinopse bem interessante no início do número 473, que facilitará minha apreciação.

“Tex e Carson estão no Utah à caça de Pablo Carrizo, um comanchero que escapou deles alguns anos atrás e que atualmente vive com os Utes do chefe Ouray nas montanhas Uintah. Na pradaria, os rangers são obrigados a defender um grupinho de caçadores de búfalos do ataque dos Utes e, em seu socorro, chegam dois soldados negros do décimo de cavalaria, conhecidos como soldados-búfalo. Um deles, o sargento Bill Johnson, é um velho conhecido dos dois parceiros, por quem vêm a saber que Ouray está irritado com os brancos pela presença em seu território de um povoado fora-da-lei, Destiny, e que é justamente Carrizo quem instiga a ira do velho chefe. Em Forte Duchesne, onde o Décimo de Cavalaria está lotado, os dois rangers pedem para ser acompanhados por uma pequena patrulha em sua missão de negociar com Ouray. Mas, ao chegarem aos pés da montanha, descobrem que a agência indígena do rio White já está sob o assédio dos Utes e dos comancheros de Carrizo...”

Os personagens aqui referidos são os mocinhos, ambos rangers, Tex Willer e Kit Carson, este também uma criação original de G. Bonelli, que nada tem a ver com o verdadeiro Kit Carson, com uma vida bem tumultuada em várias frentes, seja um batedor do exército americano, seja combatendo índios. O Kit Carson dos gibis é um ranger mais velho, amigo e compadre de Tex Willer de longa data. Ambos não admitem injustiças e, mesmo matando índio e bandido, apresentam uma lógica que os torna “mocinhos” do bem.

Acho esclarecedor colocar esta pequena pesquisa sobre quem seriam os rangers e os comancheros, abundantes nestas histórias. Os rangers são basicamente agentes de aplicação da lei numa terra sem lei como eram as terras da fronteira, o longínquo oeste. Ao longo dos anos, os Texas Rangers (oriundos desse estado) investigaram crimes diversos, caçaram fugitivos e perseguiram índios e bandidos, agindo como patrulheiros da fronteira. Atuaram como batedores, espiões, correios e guias para os colonos americanos. Há certa “aura” lendária em torno dos rangers e uma suposta brava atuação, mas hoje em dia esta é bastante questionada pois há exemplos de métodos usados tão brutais como o de seus oponentes.  De todo modo fazem parte da mitologia do velho Oeste.

Interessante observar que a história pregressa de Tex Willer, agora ranger, também passou por diferentes estágios e perspectivas. Ele já foi rancheiro e cowboy no Texas no início do século XIX, participou na guerra civil mexicana e na guerra de Secessão. Já foi até bandido, um fora-da-lei procurado, por causa de uma vingança familiar, matando para se defender. E quem já não viu heróis desse tipo nas mais variadas culturas?

Tex depois se casou com uma índia navajo, filha do chefe e, por isso, se tornou índio, conhecido como Águia da Noite. Com a morte do chefe, ele se torna (imaginem!) chefe índio. Tiveram um filho, Kit Willer, que o acompanhará quando jovem em suas aventuras. A esposa, Lírio Branco, também chamada Lilyth (um nome que carrega grande significado para a mitologia do gênero feminino) morreu depois que traficantes colocaram doenças nos cobertores da tribo. E isso foi muito conveniente para uma história essencialmente baseada na virilidade e protagonismo masculino. E estas diversas facetas do herói rendem bons argumentos para as histórias.

A definição de comanchero no dicionário é a de um comerciante que negociava com as tribos nômades nativas americanas, como os povos Comanche, Navajo e Apache. Esses comerciantes eram geralmente de ascendência hispânica ou mestiços e assim nomeados porque os Comanches eram seus melhores clientes. Vendiam ou trocavam produtos manufaturados, ferramentas e tecidos, farinha, bebidas alcoólicas, fumo e pão por peles, gado e escravos, especialmente mulheres índias. Traficavam armas e pólvora, armando os peles-vermelhas em sua luta com os brancos, rancheiros e cavalaria. Homens da fronteira, foram também caracterizados como bandidos e foras-da-lei.

Em algumas revistas Tex, aparecem introduções explicativas sobre os editores, personagens ou fatos. No Almanaque Tex, nº 20, dezembro de 2003, levei até um susto: “Captain Jack: O verdadeiro Tex Willer” por Rino Di Stefano, pesquisador e jornalista italiano. “Para todos era o mais temido e respeitado Texas Ranger que jamais existiu.” O autor acha que Gianluigi Bonelli, o criador do Tex Willer, tenha se inspirado nesse famoso ranger da vida real.  Um resumo da vida dele, como apresentado, reforça características semelhantes entre a vida e a atuação dos dois rangers. Se non é vero...

No número 474, O Assédio dos Utes, Ouray aparece apenas como uma referência de um valente chefe indígena, um sakem. Sua figura é mostrada em poucos quadrinhos, atacando os soldados da cavalaria americana, enganado que foi pelo comanchero. Um bandido fora-da-lei e um coronel branco racista e sanguinário dão o tom do confronto, pois os soldados-búfalo é que são mostrados como verdadeiros heróis nessa batalha. A palavra assédio tem aqui seu sentido original, de operação militar, onde se estabelece um cerco com a finalidade de exercer um domínio e vencer os que lá estão na defesa. Há uma certa ambiguidade neste título da revista, pois a guerra e a matança se justificam também pelo perigo do assédio.

Atacados, Ouray e seus guerreiros acabam fugindo para as montanhas. Na verdade, uma derrota. Mais adiante, Tex Willer, fala como ranger vencedor e autoridade de chefe dos navajos a um prisioneiro ute, argumentando dessa maneira: “... tanto nós quanto vocês fomos arrastados neste trágico erro por dois instigadores de ódio... Carlos, um ute que desonra a sua tribo, e o comanchero Pablo Carrizo, um falso amigo dos homens vermelhos!”. Continua no quadrinho seguinte: “Carrizo enganou os Utes, porque estava aqui pelo ouro das montanhas Uintah, exatamente como os outros brancos que invadiram as suas terras, enlameando o tratado!”. Síntese da guerra também no tom autoritário de Tex Willer: “Agora Carlos está morto! Os soldados-búfalo o mataram e Carrizo o seguirá no inferno! E ninguém mais deverá seguir o seu exemplo e levantar de novo a machadinha de guerra, porque os soldados-búfalo não vão permitir!” (página 37 da revista em referência).

Tex liberta os prisioneiros, dá-lhe cavalos e ainda um presente para Ouray, dizendo-se confiante no “bom senso de Ouray”. Fica evidenciado que são bandidos, como Carrizo, que “enlamearam o tratado” com os Utes. E a história do gibi continua na perseguição a Carrizo em muitas páginas à frente, derramando-se em elogios aos soldados negros da cavalaria. Ouray sai de cena literalmente pois esta história é a final da trilogia citada.

No encerramento da história, em sua página final, há mais uma fala, do coronel do forte, sobre as negociações com o chefe índio: “Ouray tem a cabeça no lugar e aceitará as nossas condições!” O vencedor não deixa dúvidas quanto a isso. E termina com festa e brinde aos soldados-búfalos.

O que podemos inferir daqui? O primeiro e mais importante, me parece, é o fato de termos um batalhão da cavalaria americana constituída por soldados negros, denominados “soldados búfalos” pela aparência. Isso é inusitado nos gibis. Ponto para Bonelli e sua equipe editorial. Aliás, o autor, na primeira parte da trilogia, a inicia “Esta é a lenda dos soldados-búfalo...” com um belo quadrinho panorâmico e alegórico de um batalhão flutuando no ar sobre as pradarias do oeste. Uma lenda certamente, na representação criada pelo autor, como personagens de um gibi. O autor da história, Mauro Boselli, declarou em uma entrevista que precisava de um argumento inovador para a o gibi pois, na Editora Bonelli, o ritmo de produção é alto, envolvendo outros heróis e outras HQ.

Os autores estudam a história americana, mas não conseguem se deslocar de sua visão europeia, etnocêntrica. Os soldados negros da cavalaria americana realmente existiram, dentro do contexto da Guerra de Secessão. São assim apresentados “Soldados tenazes e obstinados como búfalos e aos quais, como aos búfalos, o grande espírito havia oferecido uma cabeleira dura e lanosa.” (página 12, do gibi 472) Fortes e valorosos, os soldados-búfalos mostram-se defensores competentes dos interesses da dominação branca neste “faroeste”. Em nenhum momento se identificam com os peles-vermelhas; afinal são soldados e obedecem a ordens.  Apesar de estigmatizados pelos racistas, na figura do comandante coronel branco, o batalhão dos soldados negros faz parte do núcleo de heróis do bem.

E quanto a Ouray? A importância histórica deste chefe não é mostrada, mas ele teve um desempenho significativo na luta contra os brancos e nas negociações com o governo pelas terras e reservas indígenas dos Utes. 

Encontrei este livro Ouray, chief of the Utes, com abundante e esclarecedor registro fotográfico da história de Ouray e das circunstâncias históricas de sua vida.  Autoria de P. David Smith, editado pela Wayfinder press, do Colorado, 1996. É um livro sem ficha catalográfica, acredito que edição do autor. Observa-se na montagem da capa uma figura feminina ao lado de Ouray, sua esposa Chipeta, que teve importante atuação na vida do marido e, quando viúva, foi também uma negociadora nos tratados de reservas com os brancos. Ela não aparece nos gibis.

A capa traz a informação: “A fascinante história do mais famoso e controverso Chefe Índio do Colorado.” Ouray nasceu perto de Taos, Novo México em 1833 e faleceu em 1880 no Colorado. Sua mãe e seu pai eram indígenas, ligados aos Utes e aos Apaches. Vivendo em uma localidade culturalmente diversificada, foi criado na religião católica, aprendeu espanhol e inglês e mais tarde a língua dos Utes e Apaches.  Passou grande parte de sua juventude trabalhando para rancheiros mexicanos. Com 18 anos mudou-se para o Colorado onde se tornou membro da tribo Utes dos Tabeguache pois seu pai havia se tornado chefe, ainda que tivesse sangue apache. De lá até 1860, ele viveu como os Utes, caçando e lutando. E se tornou chefe aos 27 anos, após a morte de seu pai.

É aí que talvez possamos localizar Ouray na história de Tex Willer. Pois a biografia do chefe Ouray mostra que ele se tornou um negociador nos tratados entre índios e brancos, tendo-se reunido com os presidentes Lincoln, Grant, e Hayes e foi chamado o homem de paz, porque procurou fazer acordos com os colonos e o governo. Esse foi um período de grandes mudanças sociais e políticas e que marca a submissão de toda uma orgulhosa nação indígena, expulsa de suas terras originais e forçada a aceitar sua realocação em reservas. 

Após o episódio sangrento, conhecido como massacre Meeker, de 1879, Ouray viajou, ainda em 1880, ano de sua morte, para a capital Washington.  Ele tentou garantir um tratado para a tribo, que queria ficar no Colorado, mas, no ano seguinte, os Estados Unidos forçaram os Utes a se deslocarem a oeste das reservas, na atual Utah.

Embora Ouray tenha confiado nas autoridades, foi enganado e traído. Hoje é reconhecido como um dos maiores chefes Utes pela sua persistência e diplomacia. Desde 1939, na reserva dos Utes, há um memorial de honra dedicado aos grandes chefes, incluindo Ouray.

Entre os fatos históricos e a ficção, o Ouray mostrado nos gibis, há uma clareza explícita na superioridade do homem branco sobre o nativo “selvagem”. Superioridade mediada pelo fala de Tex Willer representando o grande vencedor. Mesmo que Boselli tenha justificado a cobiça do homem branco pelas terras e riquezas, traindo os acordos, a ameaça ou chantagem aos Utes é digna de menção. Talvez que este “bom senso de Ouray”, dito na fala de Tex, seja também a análise sucinta da personalidade do grande chefe, esperada pelo conquistador branco.

A traição que sofre Ouray na história, que levou à sua derrota, é atribuída a um comanchero fora-da-lei, um bandido. De certa forma, há uma verossimilhança com a vida real do chefe índio, pois ele acreditou nas promessas dos brancos para sua tribo. Um ingênuo ou um perdedor inevitável? A integridade não se coaduna com a ganância dos mais espertos. E isso fica demonstrado alegoricamente no gibi.

Assim se representam, índios e negros, submissos a uma colonização forçada, que procura amenizar séculos de exploração e genocídio.  Heróis ou bandidos, a visão dominante é a do branco vencedor, com certa aura de justiça – e aí percebe-se também os resquícios de uma cultura cristã - no seu envolvimento na conquista do Oeste e da formação do povo “americano” (na verdade, americanos também somos nós da América do Sul e Central).

Se a história é assim representada, também os aspectos físicos do velho oeste americano o são. Pradarias, vales, rios, pequenas cidades de madeira garantem certa fidelidade à paisagem, cenário natural das aventuras. Tipos físicos também; além dos já citados, convivem mineiros, prostitutas, cowboys, xerifes, num amálgama híbrido de fatos e de origens, partícipes e figurantes de inúmeras aventuras.

Reproduzo aqui trecho do depoimento de G. Bonelli, o criador do Tex Willer, no gibi Tex Especial 60 anos, de setembro de 2008: “Até onde eu me lembro (...) eu sempre tentei recriar, nas histórias de Tex, a atmosfera real do Oeste Selvagem, onde, infelizmente, os homens “justos” eram forçados pelas circunstâncias a usar “o velho Juiz Colt” para reprimir os abusos e as violências praticados por elementos sem escrúpulos e, de consequência, essa minha posição de intérprete fiel do modo de viver daqueles tempos muitas vezes me levou a usar uma linguagem bastante forte e a fazer roteiros notavelmente violentos."

E acrescenta:  "Tex não tem nenhum fundo psicológico e eu nunca pretendi lhe dar um. Tex é um justiceiro que dá razão a quem tem, sem se preocupar com o resto. Para Tex não existem problemas raciais ou sociais. Como eu já disse, para ele quem está errado, está errado, ainda que seja o arrogante coronel do forte, ansioso para se cobrir de glória e fazer carreira às custas da pele de seus soldados e daqueles pobres diabos dos índios, ou se é o costumeiro político sujo e ultra corrupto que, para encher o cofre, vende terras que não são suas para especuladores com uma consciência coberta por uma floresta de pelos digna de um mamute!” Aê mocinho!!!!

Por estas palavras, pelas comparações, conhecemos não só a linha característica do personagem, como de seu autor. Tex Willer sempre será o representante do vencedor.
Hoje, os EUA reconhecem as tribos indígenas como nações domésticas independentes. Entretanto, em suas reservas, as dificuldades de sobrevivência se acentuaram, pois o modo de vida é outro de sua cultura ancestral. Ainda são muito criticados por causa de algumas "benesses", mas problemas com alcoolismo e  alto nível de desemprego constituem aspectos negativos da aceitação de sua realidade no mundo atual.

Evidente que esse trabalho não tem a pretensão de esgotar as relações aqui abordadas, há muitas leituras possíveis. O mundo dos HQs, representativo de uma cultura letrada, é fonte de uma multiplicidade de desafiadoras abordagens. Temos uma mitologia quase romântica de um oeste que foi duramente conquistado para a civilização, para a lei e para a ordem, pelo homem branco. Sabendo que o leitor dos quadrinhos é uma invenção do século XX, reforça-se, dessa maneira, uma visão estereotipada não só dessa abrangência como de justificativas para o racismo e a superioridade da etnia branca ainda tão presentes nos dias civilizados de hoje sobre os nativos, negros e imigrantes. 

Assim na Europa como nos EUA.

Olha o bonitão Tex Willer aí, um texano, vestido como um ator de cinema, forte, viril, bem armado, tendo ao fundo o cenário, a pradaria americana e a entrada para um rancho de colono, nos tempos da conquista do oeste.

E o cavalo do Tex, já chegou por aí?


Para terminar, convido para este bem humorado vídeo clipe nacional. Raul Seixas “Cowboy fora-da-lei”, com todos os clichês do cowboy do faroeste. No final do clipe, o “herói”, deitado na cama, está lendo um gibi... do Tex. Close nele.


https://youtu.be/4syrZTW2aiI





Alguns links que complementam o interesse pelos gibis de Tex Willer.

Elisabet Gonçalves Moreira
Petrolina, maio de 2020.






domingo, 23 de fevereiro de 2020

RADICALIZAR A DEMOCRACIA



Como adjetivamos uma pessoa?

Rotulamos em geral com prejulgamentos, estereótipos, manipulação... para o bem e para o mal. Convivemos diariamente com este tipo de discurso, alicerçado tanto pelo entorno ideológico, pela mídia insana, como pelo que assumimos individualmente. Ignorantes ou alienados, acomodados no senso comum, acredito que uma boa dose de reflexão pode ajudar, se tivermos em conta que tudo é relativo e que é preciso pesquisar, procurar no conhecimento algo mais que o mero impressionismo ou a falsa interpretação.

Então, como adjetivar Zé Dirceu??? Ele que esteve aqui em Petrolina dia 19, falou e lançou seu livro Zé Dirceu:  Memórias (São Paulo: Geração Editorial, 2018, v. 1) é a referência. Uma de minhas filhas comentou “...sempre achei Dirceu uma figura obscura.” Essa opinião acendeu o mote para minhas conjeturas. Não há dúvidas de que, neste momento de barbárie em que vivemos, Zé Dirceu tenta clarear seu percurso histórico. Não faltam expectativas no ar...

Pela visita do homem agora com 73 anos – nascemos no mesmo ano – também ativei minhas memórias dos tempos de estudante na USP, quando participei das lutas estudantis contra a ditadura militar instalada em nosso belo país de tantas desigualdades. E que perduram...

Nas assembleias, Zé Dirceu era um dos líderes sem dúvidas. Havia muitos deles, muita desconfiança, mas o objetivo comum nos unia. O livro de Zé me fez recordar de sua atuação e de outros companheiros, dos embates dos partidos comunistas, das greves, das passeatas, das perseguições, do medo das torturas e da esperança de mudar a história.  Acompanhar essa narrativa é uma maneira de compreender aquilo que ficou conhecido como “anos de chumbo”. E que alguns ainda têm a ousadia de contestar.

Evidente que o livro vai além destes inícios da juventude, detalhando fatos e atuação política no decorrer dos anos 70 até hoje. Não vou querer justificar atitudes, erros e acertos. É o hoje que me mobiliza, no discurso e na prática.

Já na orelha do livro de Zé Dirceu, seu editor, abaixo da chamada “72 anos de som e fúria”, o adjetiva: “personagem épico e controvertido”, “Tanto se escreveu sobre José Dirceu que ele se tornou uma espécie de lenda. Para muitos, um herói; para militantes do PT e de grupos de esquerda, o “comandante”; para o procurador da República que, sem provas, apenas com “convicções”, pediu sua condenação, um “chefe de quadrilha”; para os juízes que o condenaram em primeira e segunda instância, culpado por crimes que nem sequer conseguiram definir com clareza.”

No livro A VERDADE VENCERÁ O povo sabe por que me condenam/Luiz Inácio Lula da Silva [et al]; organização Ivana Jinkings – 1. Ed. – São Paulo:  Boitempo, 2018, o ex-presidente assim se refere a Zé Dirceu, quando questionado sobre a trama do Mensalão. “Eu acho que o José Dirceu é um guerreiro. Acho que, às vezes, ele não cuida da própria imagem. Mas é um homem de muita dignidade e é um companheiro que soube enfrentar de cabeça erguida todo esse processo que está sofrendo.” (página 80).

O recado dele, que ficou muito claro para mim, neste momento, ao final de sua fala no Café Filosófico, foi “radicalizar a democracia”. Não foi isso o que ele sempre fez? Parece contraditório ao protótipo conceitual de democracia, mas há uma farsa em andamento, sob os auspícios de um presidente eleito. Não dá para desenvolver opiniões sobre este fato, tantas são, mas no ponto em que chegamos, de militarização crescente e o protagonismo evangélico de cunho fanático, sim, precisamos radicalizar a democracia.


Foto de Chico Egídio. Zé Dirceu e eu, no Café de Bule em Petrolina.

Não temos receitas fáceis, nem Dirceu as deu. Mobilização em todas as frentes, indispensável e urgente. Entendo que estratégias e procedimentos serão construídos cotidianamente. Sem esmorecer, sem apatia. Gostei, por exemplo, quando ele deu uma referência que eu, feminista histórica nestas margens, passo a cogitar. Assim como as “avós” argentinas da Praça de Maio lutaram contra ditadura, temos as “mães” do Bolsa Família... Sim, no desmonte atual deste programa exemplar, mais que um protesto, uma conscientização dessas mães certamente faria diferença no contexto de exclusão social e da pobreza “em vertigem”.

Como se organizar então para o embate político de novas eleições neste ano de 2020?

Responde pela regra geral o Zé Dirceu: “(com)...novas formas de luta e de organização ... é preciso ir ao povo trabalhador e organizar sua luta social e política. Responder à radicalização da direita com luta política e social e um programa, como eles fazem, que vá à raiz da questão nacional, democrática e social.” E essa “retomada da luta política e social e do fracasso político e eleitoral da direita, que, para vencer, tem que banir Lula e o PT da vida política e social, o que não conseguiram e não conseguirão.” (página 466)

Não existe somente o PT como partido político de esquerda, mas o que ele representou para a história do Brasil e o que realizou econômica e socialmente, não pode ser desmontado como está sendo feito por este governo de extrema direita, de cunho militarista, atrelado aos interesses norte-americanos e ao neoliberalismo nitidamente fascista.

Questionamentos feitos, compartilho compromissos de quem sabe – ou saberá – se posicionar.  Como adjetivamos a nós mesmos???




Petrolina, 23 de fevereiro de 2020










terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Reis e bruxa em visita ao menino Deus


"Adoração dos magos” do pintor Perugino  (1450-1523)

6 de janeiro: no Brasil temos o dia de Reis, o Reisado de tantas tradições populares, ainda presente nos rincões de nosso país, ou na Ilha do Massangano de Petrolina, com especial significado.

“Oh de casa, nobre gente, escutai o que eu direis, na partida do Oriente, a chegada dos três reis...”

 “O Reisado mede os janeiros”, afirma Dona Amélia, já que a comemoração se estende na visita às casas da ilha, no samba de roda e toda sua inesquecível e brincante alegoria.

Final do ciclo dos festejos natalinos, a visita dos três reis magos trazendo presentes ao menino Jesus, que nascera exilado, é comemorada em múltiplas variações, da magia à fé em energias e bênçãos. De acordo com o calendário litúrgico da Igreja Católica, a epifania está diretamente relacionada a uma manifestação divina.

Folia de Reis (alegoria em arte bordada do Brasil)


Etimologicamente, este termo se originou a partir do grego epiphanéia, podendo ser traduzido literalmente como “manifestação” ou “aparição”.

A palavra “mago” era empregada para “sábio”, especialmente aos sacerdotes da Caldeia que foram os primeiros a estudar a astronomia no mundo. Como não perceber esta relação ou ocultar o aspecto mágico do nascimento de Jesus, da estrela guia?

Na Itália, onde me encontro neste janeiro, toca-me a comemoração deste feriado em grande estilo. No Brasil dizemos que o ano só começa após o carnaval; aqui há um equivalente:  L’Epifania tutte le feste porta via (A Epifania leva embora todas as festas).

Assim, a epifania é também a festa da Befana, uma bruxa boa, que visita as casas onde têm crianças, com sua vassoura mágica, para colocar doces nas meias dos bons meninos e carvão nas meias dos maus... Haja comportamento!!! E cada vez mais esta festa, alicerçada pela mídia, vai sendo substituída pelos presentes natalinos. 


Percebe-se que o nome Befana é também ele uma corruptela de Epifania, agora uma mágica aparição, uma mulher, uma bruxa, e não mais um rei do Oriente.

Como quase todas as festas populares de origem religiosa, as origens da lenda da Epifania são pagãs. Nos tempos antigos, os romanos acreditavam que no prazo de 12 dias após o solstício de inverno seria celebrado a morte e renascimento da Mãe Natureza. Assim, doze figuras femininas lideradas por Diana, a deusa da lua e da vegetação, voariam sobre os campos para torná-los férteis.

Obviamente, a Igreja condenou essas crenças como influências diabólicas e do mal. E através de misturas das religiões ao longo dos séculos na Idade Média, chegou-se à Befana de hoje, uma velhinha mais próxima à imagem de uma bruxa boa. Este aspecto da idosa pode também sugerir uma representação do “ano passado” e das boas novas anunciadas pelo nascimento de uma criança.

Pesquisando, achei também outras versões da lenda da Befana: argumenta-se que nasceu de um festival romano ligado à troca de presentes. Outros acreditam que está relacionado com as deusas mitológicas germânicas da natureza invernal.

Na versão “católica”, a lenda nasce com a história dos Reis Magos que durante a sua viagem a Belém para conhecer o menino Jesus e doar os presentes, eles se perdem na estrada e encontram uma senhora idosa que os ajuda, porém não quer acompanhá-los. Depois, essa senhora sentiu remorsos e decide também levar um presente a Jesus. Não encontrando os Magos e nem a manjedoura, decidiu parar em todas as casas para dar doces a todas as crianças. 

Aqui em Roma, dando uma volta na Piazza Navona, no formigueiro humano em que se transformou o turismo de massa (ainda mais que no inverno, todo mundo está coberto da cabeça aos pés, predominando o tom escuro), observei um parquinho de diversões limitado a alguns estandes de tiro ao alvo, pescarias, com muitas bruxas bonecas, maçãs do amor, doces vários e um belíssimo carrossel. O show de marionetes seria mais tarde e achei melhor ir embora...


Comprei esta simpática Befana como lembrança deste dia. Também no mercadinho, perto de casa, havia vários expositores com “meias” recheadas de doces de diferentes marcas para se comprar e substituir a befana em seus presentes. Doce ou carvão...


Mas o melhor ficou para a noite. Meu simpático genro alugou um carro e, após um grande congestionamento nesta Roma capital, fomos ver um concerto de canções populares italianas e gregas no Auditorium Santa Cecília. “Come in cielo così in strada” Assim no céu como na terra...

Cantos de Natal na tradição popular de várias regiões italianas, também da Grécia, onde o sentido da epifania foi ressaltado, da magia iluminada da visita ao menino Jesus. Sanfonas insólitas, dança grega, muitos cantos... Solistas e coral... O que mais me encantou foi o Pater Noster em bizantino.

Enfim, aprendi uma grande lição... o respeito à epifania cristã, uma fé ultimamente bastante abalada. Como este momento ainda pode gerar belas manifestações e tocar nossos sentimentos.
Há muitas outras maneiras de se celebrar o 6 de janeiro, seja no sentido religioso ou profano, ou nesta mescla admirável da cultura que nos mostra a nossa humanidade em evolução e aprendizado.

Perceber sobretudo como tradições se cruzam em espaços e momentos, através dos tempos, oceanos e ares... uma dinâmica em constante movimento e significados.
“Assim na terra, como no céu.”

(Uma pequena amostra do concerto)


Roma, Itália, 7 de janeiro de 2020



sábado, 28 de dezembro de 2019

ONDE?


“Somos todos viajantes de uma jornada cósmica - poeira de estrelas, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna. Mas suas expressões são efêmeras, momentâneas, transitórias”.
Deepak Chopra 

Entre lugares, sítios, cidades, construí pontes, desvelei enigmas e alegorias, me reconheci. Dar lugar ao amor é um mote humano e sensível. Epifania em deslumbramentos onde o olhar amoroso se encontra disponível se bem o vermos.

Abrir os olhos e o coração para as possibilidades do tempo e do espaço. Assim fiz e faço em minhas viagens. Aquelas onde tenho um transporte para mover e aquelas em que viajo dentro de mim, um constante ir e vir, assentando a expansão do conhecimento e das leituras que faço desse aprendizado.

Assim se deu, assim se fez, assim relato. Neste aqui, o trânsito se tornou perene e fixo na memória.


Saravá!

Décadas depois, relembro as emoções de conhecer, na mítica cidade de Salvador, Bahia brasileira, suas praias distantes, um terreiro de candomblé, a moqueca na lagoa do Abaeté, a capoeira de Mestre Pastinha... tantas lembranças e... um amor que até hoje me embalança.

Ali fui levada num sonho de mulher jovem e aventureira, desejosa de sol e de ver gente morena e bonita. Estudante paulista tem no imaginário a Bahia como referência para férias idealizadas, um projeto de vida em expectativa.

Primeiro foi uma viagem de quase três dias, em ônibus de linha comum, recurso para uma estudante sem dinheiro bastante. Desconfortável, fui aprendendo, em outros olhares, uma vista do interior brasileiro numa geografia de planos rápidos. Ao meu lado estava sentado um homem magro, muito simples e sério. Fiquei receosa, mas ele foi de uma postura elegante e correta. Sequer puxava conversa.

Aliás, foi só quando adentramos no estado da Bahia, numa parada na cidade de Vitória da Conquista que ele me ofereceu os frutos da época, doces e azedos umbus. Estava feliz, via nos seus olhos, e então soube que ele voltava para sua terra. O burburinho das pessoas oferecendo frutos e artesanato do lado de fora para os passageiros em suas janelas era vivo e forte. Tão distante do barulho da cidade grande, a poluição era de gente que respirava outros ares e anunciava lances para meu entendimento de um mundo a ser descoberto. E amado.

Tantos episódios. Minha ingenuidade e desconhecimento geográfico já se deu quando, ao anunciar que chegávamos à cidade de Salvador, eu achei que era um equívoco. Porque não via as serras, não havia curvas, como nas estradas de São Paulo ao litoral Paulista. Bem, a Serra do Mar acabara quilômetros antes... Essa possibilidade de comparação geográfica e humana é uma aprendizagem fundamental para o viajante de primeira ou última viagem.

Outro episódio, cômico, foi que, apertada para ir ao sanitário, entrei correndo no banheiro e fui barrada por uma funcionária que me disse, não, esse banheiro é masculino. Quando eu falei, ela então reconheceu em mim uma moça que, após três dias na estrada, nem parecia gente, quanto mais mulher. Ademais estava vestida como um menino, camisa e calças jeans, cabelos curtos. Um tempo de contestação também no visual.

Tinha o endereço do Hotel Colonial, na Ladeira da Barra. Havia sido indicação de uma amiga que, por sinal, também me indicara um primo que morava em Salvador, para algum contato, se preciso. Como minha amiga não fora na viagem que havíamos combinado, lá estava eu sozinha num grande quarto. Casarão branco antigo, altas portas e janelas azuis, o sonho estava se realizando.

Precisava comer. Sabia do restaurante universitário não muito longe dali. Fiz sucesso ali. Conheci o encarregado e conheci uma atração predestinada. Ele não liberou a comida de graça, como eu achava que minha carteira de estudante pudesse fazer, mas consegui o mesmo preço pago pelos estudantes locais.

Bem, o fato é que ele se desdobrou para me mostrar Salvador, para ficar a meu lado. Quando entrávamos no restaurante, os estudantes batiam os talheres no bandejão, saudando e fazendo comentários sobre o baiano que “ganhara” a paulista. Inda mais que ele era do interior do estado, lá das margens do rio São Francisco, um barranqueiro...

O Brasil vivia momentos políticos de repressão. Ditadura militar em curso. Havia uma vida paralela que não mostrávamos claramente, estudantes em lides ideológicas, procurando sobreviver em constantes conflitos. Não falávamos sobre isso, mas eu sabia – sempre soube – de que lado estava. Assim, “descartei” logo o apoio do primo da amiga, um burguês cheio de preconceitos. E ficava feliz com muitos pretendentes nesta Bahia de tantas cores. Minha juventude e graça tiveram seu momento de glória...

Mas eu escolhi sem titubear. Um fato. Um amor em sincronia.

No Pelourinho, um sítio dos mais atraentes da Salvador colonial, passeava com o barranqueiro, conhecendo e estabelecendo empatias nos mesmos gostos.  De repente, ele começou a assobiar, bem afinado, uma bela canção do folclore russo. Não acreditei, o espanto foi mútuo. Como, você conhece esta canção?

Conhecíamos.

Entramos na Igreja de Nossa Senhora dos Pretos e ele, emocionado, fez uma jura de amor, simbolizado neste encontro de conexões e emoções.


Fechando 2019, após 50 anos deste encontro, questiono e admiro o destino que me estava reservado neste lugar. Ou desde sempre predestinado?!



Ladeira do Pelourinho - Salvador, Bahia

domingo, 24 de novembro de 2019

Um saci no meu jardim



Não sei como ele foi parar lá...

Ele estava vivinho, pulando em sua perna cotó. Deve ter vindo das matas vizinhas como os anuns, pombinhas asa branca, passarinhos variados expulsos de suas árvores e espaços abertos. A vida nas cidades iluminadas também atrai os seres dos cafundós da memória.

Da janela da sala, quase meia-noite, depois de assistir a um filme na tv paga - filme que nem lembro qual foi - vi uma luz vermelha que acendia e apagava. Como baforada. Era baforada. Mas disso eu não esqueci.

Saci fumando cachimbo, baforadas de fumante inveterado, olhava no meio das moitas das sempre floridas e vermelhas icsórias, mexia no canteiro central, até pulou nos galhos mais baixos do meu pé de salgueiro chorão... Acho que estava com sede, como os passarinhos, borboletas e formigas que habitam meu jardim e lhe dão vida em movimento.

Pensei, vou falar com ele. Será que ele falaria comigo? Pensei de novo: vou dormir e ver se ele retorna amanhã. Mas vou deixar uma caneca de água em cima do banco. Se tiver sede, ele bebe.

E assim fiz... e ele bebeu, e veio mais vezes. Sem ter como comprar fumo de rolo, comprei um maço de cigarro comum. Deixei lá. Ele, sabidinho, rasgou o papel e colocou o fumo industrializado no cachimbo. Acho que gostou, pois foram várias vezes que lhe ofereci este presente, aguardando que ele se acostumasse com essa pessoa atrás da janela. Assim, fumei um cigarro que acendia um enviesado risco vermelho no reflexo do vidro.

O saci também estava curioso. Uma noite chegou mais perto do vidro da janela e nos encaramos. Eu o saudei abanando ligeiramente a mão. Ele deu um pulo para trás e se escondeu na moita de icsórias. Mas podia ver o cachimbo encandeando nas baforadas.

Ele estava morando lá, no meu jardim. Como ficava escondido durante o dia, eu não sei, mas vou contar depois, se me lembrar.

Virou um jogo de aproximação. Deixei um pirulito vermelho, de morango. Ele gostou pelo jeito. Porque depois deixei um pirulito verde, sabor menta. Ele odiou. Encontrei o doce jogado no chão, dia seguinte. Voltei para o sabor morango.

Após alguns dias, resolvi que era hora de conversar com ele.

Abri a porta com cuidado. A luz do poste vizinho iluminava algumas sombras. Pude vê-lo ligeiramente quando o cachimbo era aceso. E ele me viu também.

Eu lembrava do saci de Monteiro Lobato, das lendas que povoaram nossa imaginação infantil. Tão brasileirinho, esse moleque cor de carvão fez parte da história dos velhos e de tias contadoras de histórias que não tinham heróis americanos de desenhos animados nas tvs. Porque eles viam o saci e acompanhavam suas traquinagens.

Assim nos chegamos. Não precisamos de apresentações. Já nos conhecíamos. 

No banco do meu jardim podíamos conversar. Estávamos meio desconfiados nesse primeiro encontro. Falei do tempo, do calor, se estava gostando de morar no meu jardim, dos presentinhos que lhe dera. Ele mais ouvia que falava. Murmurava, como o vento nas folhagens.

Mas seus grandes olhos falaram mais. O garoto que havia neles me encantou. Esse encanto continuou por vários dias. Falava sobre tudo, meu confidente especial. De todo modo, eu sentia sono e me despedia sem muita demora.

Sabe, saci, minha mãe dizia que você aprontava dentro de casa, escondendo a tesourinha de unha, a agulha de costura, azedava o leite, todas essas coisas que dão errado e a gente fica com raiva.

Ele só fazia rir e... lá vai baforada.

Você ri, mas tenho certeza que hoje em dia esconde o celular das pessoas. Ou as chaves. É ou não é?

Nem sim nem não... baforada ao vento.

Então lhe pedi um favor. 

Proteja-me saci, proteja minha casa dos olhares invejosos, dessa gente que acha lindo meu jardim e, não demora muito, a planta, antes viçosa, começa a definhar. 

Ou do meu gato que ficou doente e não há meio de ficar bom de novo. 

Ou do retorno de meu marido que saiu de casa há três anos...

Aí ele me encarou apertando o cenho. Me assustei. Colocou seu dedo indicador em minha testa, me empurrando e me fazendo encará-lo. Então eu vi, pude ver. Nos seus olhos iluminados havia raiva, brabeza de saci sem mais nem pra quê...

Afinal, pude entender. Sem explicação, revi eu mesma perdida na vida, ainda que meus cabelos brancos mostrassem os anos por onde passara.

Saci, você pode me achar em mim mesma?

Ainda procuro a luz do seu cachimbo nas noites do meu jardim.