Bet com t mudo

Minha foto
BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

terça-feira, 3 de março de 2026

CHOCALHOS QUE NOS DESPERTAM...

 De minha primeira viagem internacional, em 1992, trouxe da França um cartaz de uma exposição que, já emoldurado no Brasil, acabou esquecido no quartinho dos fundos. Por acaso, reencontrei-o após uma chuva de janeiro de 2026 tê-lo molhado. Foi então que o olhar curioso de Catarine, minha encantadora sobrinha, se deteve sobre ele, pedindo-me explicações. Essa agradável tarefa se transformou numa conversa cheia de lembranças e conexões inesperadas.

Recuperamos o quadro, dei de presente para ela e redigi as “explicações” que agora apresento. Curiosamente, ela havia criado há pouco tempo um pequeno vídeo sobre a parábola bíblica da ovelha perdida. Uma coisa leva a outra, mas antes vamos ao cartaz, cuja estética já chama a atenção.  Ele está em francês, com o título Passion de Bergers (Paixão de Pastores), trazendo informações sutis: uma carta escrita à mão como fundo, desenhos como rabiscos e a fotografia imponente de um típico pastor da região, à direita. Aliás, esse lugar do pastor demonstra que o teor da carta é a mensagem a que devemos dar mais atenção.

A exposição destaca o tema “Cloches et sonnailles: usages et fabrications” (Sinos e chocalhos: usos e fabricação), na parte inferior da foto.

 

Com a ajuda de minha amiga francesa, Dominique Poudevigne, moradora de Saint Martin de Londres, na França, conseguimos transcrever a carta e fiz uma tradução literal.


PASSION DE BERGERS

ALPES et PROVENCE        

A. GRAS (Drôme)

Feuillants par ses filles

Le 14 Juin 1946

              Monsieur

Je vous serai obligé de bien vouloir m'indiquer s'il vous serait possible de me livrer deux cloches de troupeau chèvres dont le son une claire et l'autre grave pour et s'entendre 2500 à 2000 m à vol d'oiseau.

Il me serait agréable d'avoir votre appréciation à ce sujet ainsi que le prix et votre mode de paiement, par mandat, etc.

Dans l'attente veuillez agréer nos respectueuses salutations.

                     AGras

 

Dimensions approximatives

 

Cloches et sonnailles: usages et fabrications



Eis a tradução literal do cartaz, o que pôde ser legível...

Paixão dos Pastores

Feuillants   (pequena cidade onde mora o remetente da carta)

ALPES e PROVENCE (regiões da França)

A. GRAS (Subentende-se que seja o nome de quem assina essa carta)

 Drôme - refere-se ao código postal do Departamento onde se situa Feuillands

14 de junho de 1946 (data da carta manuscrita)

 

Senhor,

 

Ficaria gentilmente grato se fosse possível o senhor me entregar dois sinos para rebanho de cabras, cujo som fosse um baixo e o outro grave para se ouvir, de 1.500 a 2.000 m em linha reta, um voo de pássaro.

 

Seria agradável para mim receber vossa apreciação sobre este assunto, assim como o preço e o método de pagamento pela encomenda etc.

À espera de seu contato, aceite nossas respeitosas saudações.

                             A.Gras

Dimensões aproximadas (relativa ao pedido, ao tamanho e à forma dos sinos. Observe que os desenhos, ligeiramente rabiscados, reproduzem também os animais, cabras no caso, portando os chocalhos no pescoço)

 

Sinos e chocalhos: usos e fabricação (nome da exposição)

Há outras informações no cartaz: local, datas e horários da exposição e “carimbos” da responsabilidade oficial pelo evento.

 

O que se depreende desse cartaz e da exposição? Sobretudo, uma relação emotiva muito grande na chamada em destaque como “paixão” de pastores, a carta transcrita e o insólito do pedido, para dois sinos (que, no Brasil, também conhecemos como chocalhos, guizos ou cincerros) para que o som tivesse longo alcance como o voo de um pássaro. Ora, isso faz parte de um sistema de signos comunicativos e culturais bastante antigo das atividades pastoris, em vários tipos de rebanho.

Esse fator é destacado na apresentação da exposição. Veja na tradução no link dado. No link  também constam algumas fotos do acervo.

Exposição itinerante.

Os sinos e os guizos (chocalhos) estão intimamente ligados à pecuária. Acompanham a vida do rebanho, dão ritmo a sua vida e auxiliam no pastoreio e na condução dos animais, mas também são o orgulho do pastor, sendo os mais belos reservados para a transumância. Ele os escolhe um a um de acordo com a "música" que deseja extrair do rebanho. Esta exposição evoca a paixão dos pastores pelos sinos e guizos que ressoam com seus rebanhos,

Desde sua fabricação, passando por seus usos práticos e simbólicos, do Val d´Aran ao Vale d´Aosta, passando pela Provença e o Vercors, a exposição convida você a descobrir esses objetos particulares, reflexos de um mundo e de uma cultura.


Tive a oportunidade de ver essa exposição em Saint Martin de Londres, perto de Montpellier, sul da França, em setembro de 1992. Na ocasião, trouxe a ideia de fazer uma exposição semelhante, aqui em Petrolina, pesquisando nossa realidade e o costume. Eu tenho pronta, e já apresentei em várias ocasiões, uma pesquisa sobre os ferros de marcar boi e esse estudo poderia complementar algo que está em processo.

 

No sistema de signos que sustenta o pastoreio, como bem observou uma amiga, todos operam como dispositivos de identificação e localização, não importa a espécie. A função do chocalho é única, ecoa pelos ares, numa orquestração em que os ruídos da natureza são distintos e decodificados em regras simbólicas de identidade, de controle e de posse. Esse saber ancestral é realmente apaixonante.

 

Também pude ver, nas ruas medievais e apertadas de Saint Martin, a passagem dos animais, a transumância da região. Inesquecível! Centenas de animais, na ocasião eram ovelhas, enfeitadas com pompons coloridos, pastores e seus cães conduzindo o rebanho.

https://www.lamarseillaise.fr/societe/sur-l-aigoual-la-fete-de-la-transhumance-JE11377961

Em França, há que se observar a "decoração" do rebanho de ovelhas, os chocalhos e os pompons coloridos. Além do chocalho em si, em sua diversidade de tamanhos, de sons, há também o artesanato, geralmente em couro, de uma espécie de coleira que o prende ao pescoço do animal. 

Durante o verão, os pastores levam milhares de ovelhas dos vales mais quentes da Provence para os altos pastos alpinos, um processo fundamental para o manejo da vegetação e para a diversidade de queijos locais. Isso é a transumância, uma atividade ainda trabalhosa e difícil pois há vários perigos, desde terrenos íngremes a rios turbulentos, mas uma rotina que se mantém há séculos na região.

 Em áreas de pastagens abertas, montanhosas ou com vegetação densa, os chocalhos e os sons são, pois, essenciais na localização dos animais do rebanho, de sua segurança, do manejo e até na identificação de possíveis predadores. Em geral, nos rebanhos de gado bovino, os animais acompanham o som a que estão acostumados de um animal guia, o que facilita o manejo e a condução.


https://www.tourisme-couserans-pyrenees.com/en/le-couserans-coeur-des-pyrenees/les-traditions-vivantes/les-transhumances/


Atualmente, é possível visitar pastores nos Pirineus Franceses e na Provence para vivenciar o cotidiano deles, conhecer cães pastores e experimentar os produtos locais. Existem agências especializadas para esse tipo de turismo. A questão, como bem observou Catarine, é que o turista comum quer tirar uma foto de Paris, com a torre Eiffel no fundo, e divulgar seu “cartão postal”, como se conhecesse a França... bem, esse é outro assunto! 

Aguardo, se possível, informações sobre essa prática no Brasil, principalmente aqui no Nordeste. Sinos e chocalhos, apesar de estarem em desuso ultimamente, já que o rebanho agora vive confinado em sua maioria, ainda tem registros próprios a serem estudados e interpretados como signos de um pertencimento que nos caracteriza social e culturalmente. "Tengo, lengo, tengo", no canto triste do aboio de Luiz Gonzaga nos faz relembrar o som do chocalho no pastoreio das quebradas do sertão...



Elisabet Gonçalves Moreira

elisabetmoreira2014@gmail.com


Petrolina, 3 de março de 2026