Bet com t mudo

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BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

domingo, 23 de janeiro de 2022

PALAVRA E MEIA


“Literatura é linguagem carregada de significado até o máximo grau possível”
                         Ezra Pound


Tomando um texto curto para análise, receptora nesse ato de comunicação, adentro no poema Passatempo de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) e sua possibilidade de uma leitura crítica. E, bem sei, de antemão, que a própria escolha do texto já aí se situa, não por ser “curto” mas, sim, pela sua extensão poética...

                                             PASSATEMPO

                                                    O verso não, ou sim o verso?

                                                    Eis-me perdido no universo

                                                    do dizer, que, tímido, verso,

                                                    sabendo embora que o que lavra

                                                    só encontra meia palavra.

Carlos Drummond de Andrade (in Corpo. S. Paulo: Record, 1984, p. 89)

Ler e reler o texto em primeiro lugar. Sentir. Ouvir sua própria voz. Apreciar a sonoridade, o que o poema traduz, o conjunto em seu primeiro contato. Fazer isso com prazer.

Você pode até pesquisar. Situar a obra. Do livro Corpo, de 1984, quando o poeta contava 82 anos, pouco antes de sua morte. Livro que teve uma reação um tanto negativa da crítica, a cobrar-lhe a poesia social dos anos 30 e 40, o poeta volta-se para uma poesia mais sensual, lírica e irônica ao mesmo tempo, o que nunca deixou de ser.

        Tratando o texto: decodificando-o visualmente, formalmente, atitude necessária para um crítico entender procedimentos e significação. Vejo um título em destaque e apenas cinco versos, distribuídos em duas orações. Releio mais uma vez. Já no primeiro verso temos uma interrogação motivadora (“O verso não, ou sim o verso?”) e uma possibilidade de resposta nos versos seguintes, uma quadra, constituindo uma oração afirmativa completa nos “enjambements” (encadeamentos) de um verso a outro.

        Aqui não se visualiza o verso “livre”; exercito a metrificação. Contagem: oito sílabas poéticas e que, unindo som e significação fica-se em dúvida no último verso, nos limites entre “forçar” oito sílabas ou ficar com sete, já que o poeta diz que “só encontra meia palavra” e não uma palavra inteira...

O jogo formal se amplia: rimas finais, todas paroxítonas, verbos e substantivos em assonâncias e contrastes:

verso/universo/verso/lavra/palavra (a/a/a/b/b)

(substantivo/substantivo/verbo/verbo/substantivo) 

Uma construção melódica de grande sonoridade, desde o próprio título, duas palavras fundidas: o uso de sibilantes; o t e p tão próximos foneticamente e separados pela nasalização do -em-, já a nos inquirir que tipo de passatempo seria este.

Passatempo (passa/tempo) 

        E ele se apresenta como desafio no primeiro verso, na interrogação, mediado pela vírgula, separando o ser ou não ser, isto é, o sim e o não. Metalinguagem explícita, o poeta questiona o verso e sua indecisão e o eu lírico responde a seguir, afirmando sua voz; “Eis-me perdido no universo/do dizer”.

Esse dizer que o deixa perdido, mas “que, tímido, verso”. Percebe-se, pela análise um pouco mais atenta que, no primeiro verso, a palavra verso é um substantivo, repetida duas vezes, quase numa gangorra rítmica do sim e do não; continua a rima em universo, outro substantivo, mas, no terceiro verso, temos esta palavra funcionando, morfologicamente, como um verbo: (eu) verso.

Tensão ou harmonia dos contrários: “O verso não, ou sim o verso?” A grande questão, o que decidir como referencial literário? O não e o sim divididos na metade do verso. Não há separação entre forma e conteúdo, se bem lermos. Estabelece-se um diálogo no próprio texto, entre o autor e o eu poético. O poeta pode até se mostrar indeciso, mas sabe muito bem de sua escolha...

        O verbo versar tem vários significados. No texto, a ambiguidade semântica (já conotada na indecisão do sim e do não do primeiro verso) amplia-se aqui. Tanto pode ser sinônimo de versejar, atividade que o poeta afinal está fazendo, como pode ser também, de acordo com sua origem etimológica, voltar, no sentido do verso, que vai e volta, ou manejar, exercitar.

        Quanto ao adjetivo tímido, destacado entre vírgulas, pode ser interpretado com base na personalidade do escritor. Carlos Drummond era um mineiro retraído, avesso a badalações, considerado um tímido como pessoa, significado que ele pode estar reiterando, mas pode ser também relativo aos seus versos, já que ele se confessa “perdido” neste “universo do dizer”.

O jogo se acentua nessa tentativa de acerto. O poeta agora usa a palavra verso como um verbo, na primeira pessoa do presente. O eu lírico se posiciona: perdido. Achará? Eco em universo, com significado ambíguo em todo o contexto, pois sua abrangência é aberta, mas é também uni. No dizer: a palavra, esse signo verbal carregado na dialética entre significante e significado, entre o sim e o não subliminar.

        Os dois últimos versos, no entanto, são uma afirmação forte, quase que dogmática “sabendo embora que o que lavra/ só encontra meia palavra”. Tradicionalmente, as rimas b são rimas “ricas”, pois lavra está funcionando como verbo e palavra é um substantivo. Neste instante, conhecimentos sobre a biografia do autor ajudam a entender e justificar o uso do verbo lavrar.

Drummond nasceu no estado de Minas Gerais e só saiu de lá depois de adulto. A exploração colonial das minas de ouro marcou a história das “lavras do ouro”. Portanto, lavrar é um verbo forte, repleto de conotações. Nada é gratuito num texto plenamente realizado, tudo tem significados além da estrutura superficial.

        Mesmo “perdido”, o poeta usa um gerúndio (presente contínuo) para afirmar que sabe (Sabendo...) Sabe, tem certeza, que nesse universo, aquele que trabalha (onde está o passatempo?) não encontra tudo acabado, pronto ou perfeito, só “meia palavra”.

Observe-se o uso da adversativa “embora”, conotando os limites deste universo que ele assume - agora é o sim - como um trabalho, mas um não nas suas dificuldades, já que qualquer poeta, percebido pelo pronome oblíquo o (não somente ele) nunca encontrará a palavra inteira. Generalizando todos os que se perdem, como ele, no “universo do dizer”.

        Portanto, este poema, dentro da poesia de Carlos Drummond de Andrade, reitera a impossibilidade do dizer poético, entre aquele que vê o verso como um ofício de garimpagem do verso e das palavras, mas constata ser apenas um passatempo, triste ironia, que não se completa.

        Função poética dominante da linguagem, na concepção jakobsiana, o poeta se vale da referência metalinguística para, de um ponto de vista pessoal e emotivo, mostrar-nos os dilemas, perplexidades e constatações da poesia, seus limites e virtualidades.

        Neste poema vejo, sintetizada, a poética de Drummond, seus questionamentos existenciais e seu labor literário, dúvidas e angústias do fazer. Mesmo que seja um “passatempo”, ironia no que o lúdico se integra nessa “perdição” de não encontrar toda a possibilidade do verso: o signo sempre trará a marca de sua incompletude.

                


Carlos Drummond de Andrade 

(Obs.: esta análise foi feita aos poucos, em sala de aula, em descobertas gradativas... também o sentido pleno do texto não nos é dado de uma vez só, é preciso “curtir”, aguardar, refletir... 23/01/22)

 


segunda-feira, 6 de dezembro de 2021

LITERATURA/ ANÁLISE LITERÁRIA: COORDENADAS POSSÍVEIS

 Justificando a postagem: 

Este texto foi refeito em 4/12/21, para complementar “conversa” no Tear Literário/UPE, assim divulgado  no card do convite. O título dado à minha fala é muito bom, mas só vim a saber dele na véspera. Haviam me dado alguns motes, falar sobre literatura, crítica literária e até mesmo minha escrita. Então recuperei textos e fiz um power point bem didático que, depois, vou também escrever e colocar no blog. Reconheço que este texto poderia ser mais desenvolvido, por isso o subtítulo "Coordenadas Possíveis". Agradeço comentários...


            Análise, segundo os dicionários, em seu significado básico, denotativo, é a separação de um todo em seus elementos constitutivos (em oposição a síntese). Assim, esse processo é visto como método de estudo da natureza de alguma coisa ou da determinação de suas características essenciais e suas relações. Sem dúvidas, já fizemos análise sintática, por exemplo, em nossos estudos de gramática.

         No entanto, essa caracterização como literária, modificando a palavra análise, delimita e direciona nosso trabalho. Literária vem de literatura. Portanto, é preciso, neste caso, saber o que é literatura para entender o seu alcance como análise literária.

         Literatura não é fácil de ser definida, bem o sabemos. Não estamos lidando com ciências exatas, mas com conceitos dentro das chamadas ciências humanas que carregam grande carga de subjetividade, baseadas na ideologia e visão do mundo de quem as manipula, atreladas à historicidade e evolução destes mesmos conceitos.

         Assim, Literatura, em sentido amplo, é a arte da palavra.  Escrita ou oral, não importa. Mas, o que é mesmo arte? As questões se ampliam, gerando mais e mais conceitos e (in)definições na esfera subjetiva de ver e sentir a arte como necessidade humana em suas múltiplas possibilidades de representação e dar sentido a nossas vidas.

A história literária se ocupou muito em classificações, de prosa ou poesia nos seus diversos gêneros como poemas líricos, de narrativas como epopeias, lendas, contos, romances e formas que não se enquadram em nenhuma classificação tradicional, oscilando em seus limites. Há enorme diversidade, além da interação de linguagens e de outras artes.

         Na verdade, os estudos modernos da Literatura, aliados sobretudo aos estudos de Linguística e da Semiótica, trouxeram a ideia mais abrangente de generalização como texto, onde se podem “ler” diversas linguagens e pontos de vista.

Análise literária e crítica literária

          Embora possam ser consideradas disciplinas isoladas, dentro dos estudos literários em geral ou da Teoria da Literatura, a análise e a crítica literária estão muito próximas. Para se fazer uma crítica, com o mínimo de legitimação, há que se analisar. E crítica conota julgamento do mérito de um trabalho qualquer, destacando virtudes e defeitos quando não somente a ideia de que crítica é sempre uma apreciação desfavorável, uma condenação ou uma reprovação, algo que deve ser completamente afastado numa visão moderna dos estudos literários.

         A relação entre as duas disciplinas é porque praticamente a análise literária leva a uma crítica, na medida em que, ao se “desmontar” um texto ou decodificá-lo, serve para mostrar as qualidades ou defeitos deste texto. Escolher um texto para análise já implica numa primeira crítica, na medida em que ele leva a uma intenção ou significa mais que outro.

A imanência na análise de texto; o espaço da leitura

         Nossa postura é que qualquer análise de texto é imanente, isto é, parte sempre de dentro do próprio texto para as relações extratextuais. Portanto, é basicamente um exercício de leitura. Há vários tipos de leitura e de leitores. Neste caso, somos um leitor especial, com uma formação epistemológica em Letras, na maioria das vezes, e um objetivo de avaliação, em que o texto é a referência constante, não só como objeto da análise mas como sujeito, isto é, não se enquadrar prioritariamente em teorias, mas, sim, teorias que surgem a partir da própria leitura.

Procurar sua “literariedade”, como formulou Roman Jakobson, isto é, o que faz dele ser literário. Não existem fórmulas prontas, existem caminhos. Cada texto é um texto e, em sua verdade, ele é quem conduzirá a análise. A análise não pode ser separada da síntese, procedimentos dialéticos que conduzem a análises dignas de crédito porque demonstram o a estrutura e o funcionamento do texto literário em sua dinâmica própria.

A análise literária é também criação

         Você, como decodificador, tem na desconstrução imanente do texto a possibilidade de um usufruto também criativo, na medida em que o resultado pode ser a produção de um texto de sua autoria, confiável, e não uma opinião meramente impressionista. Percebendo a obra como um ato de comunicação, o receptor/leitor estabelece um diálogo interativo com a obra e sua autoria. Lembrar que somos seres sociais, interagindo culturalmente

Existe um método de análise literária

         Há vários. Assim como existe uma história da literatura, existe uma história da crítica literária, de metodologias, de procedimentos para se estudar a literatura, para compreender este fenômeno criativo do ser humano. Não se pretende dar “receitas”, mas mostrar possibilidades de leituras, de análises críticas e criativas como consequência. Aqui já se explicitaram algumas coordenadas, o resto é com você. Você faz o método servir a você e não o contrário; ficar amarrado a modelos só limitam. Procure, portanto, seu próprio modelo. Cada texto é um texto, singular em sua essência, assim como cada análise é uma análise.

Qual a utilidade em se fazer análise literária?

        Para os pragmáticos, existe análise literária como profissão. Jornais, revistas apresentam críticas ou resenhas críticas. Mas se você é um professor, ou aluno, os conhecimentos de análise literária muito o auxiliarão no descobrir do literário, do fazer poético. Não se prenderá a críticas preestabelecidas ou julgamentos preconceituosos, terá um aval muito maior, porque terá capacidade de mostrar no funcionamento da própria obra como o poético se instaura, a criatividade, o estilo do escritor, sua grandeza e imortalidade. Ver e sentir a obra literária como cultura e como ato de comunicação especial, particular. Não entra em questão somente o gosto, antes todo um complexo cultural que é levado também em conta, o gênero, a história, o escritor em inter-relação. Compreender a estrutura artística como um processo em dinâmica com objetividade e suscetibilidade ao mesmo tempo. Nesse sentido é estar sempre atento ao presente, às novas situações de produção. Tomar lições do passado e construir talvez um método próprio, mas adequado ao momento em que se vive.

 INDICAÇÕES BIBLIOGRÁFICAS GERAIS

(checar reedições/pdf)

 

Nota de admiração: Fui aluna de Cândido e estava em sala de aula quando ele analisou o poema "Rondó dos Cavalinhos" de Manuel Bandeira, que consta do livro acima.

CANDIDO, Antônio. Na sala de aula, Caderno de análise literária.  São Paulo: Ática.

 EAGLETON, TerryTeoria da Literatura – uma introdução. São Paulo: Martins Fontes; 4ª edição

EIKHENBAUN e outros. Teoria da Literatura - formalistas russos.

LOTMAN, Iuri. A estrutura do texto artístico.

 PESSOA DE BARROS, Diana Luz. Teoria semiótica do texto.

 STAM, Robert. Bahhtin. Da teoria literária à cultura de massa.

 TODOROV, Tzvetan. As estruturas narrativas.

 ZILBERMAN, Regina. Estética da Recepção e História da Literatura.

 

 Elisabet Gonçalves Moreira é mestre em Teoria Literária e Literatura Comparada pela USP. Aposentada como professora na UPE – Universidade de Pernambuco e IF Sertão.

 


quinta-feira, 18 de novembro de 2021

ANNA KARIÊNINA: ATRAÇÃO E INTENÇÕES


I. Que mulher é esta?


Agnieszka Wrzosek - An illustration for K Mag magazine #51, march 2013 (https://cargocollective.com/agiewu/Anna-Karenina)

Entre centenas de ilustrações que pesquisei, destaco esta da artista polonesa contemporânea, Agnieska Wrzosek, para uma revista essencialmente feminina, K Mag magazine, com foco em filmes, música, design de arte e moda.

Figurativa, com certo ar fashionista, notam-se vários índices da leitura sobre a personagem Anna Kariênina, do livro de mesmo nome, de Liev Tolstói. O desenho aparece no início da revista, ao lado do sumário, ilustrando o teor jornalístico e informativo do periódico. O que faz Anna K. neste espaço?

Solitária, sem a aparência condescendente de certo padrão de beleza da mulher russa, a vemos recostada em uma chaise longue sobre um piso xadrez, com um leque de abano em uma das mãos, um chapeuzinho do final do século XIX, um vestido que a cobre inteiramente, deixando o colo livre, adornado com um colar de várias voltas. A estamparia do vestido lembra girassóis espelhados, como os brilhos e o glamour das grandes estrelas do cinema em seus vestidos de gala. Há uma simbiose entre a estampa do vestido e a chaise longue. Posicionada de lado, há certa ambiguidade na simbologia de um quadril largo, ancas poderosas no imaginário coletivo.

Releitura de Madame Récamier, pose típica da mulher chique, rica e ociosa. Para o público da revista, pode-se incluir um ar de sensualidade, embora eu veja também certa arrogância ou enfado. 

Qual teria sido o modelo de Anna K. para a ilustração de Agniezka W.? Revisitando estereótipos, a artista parece ter complementado a descrição (écfrase) da personagem, como está no livro de Tolstói, a partir do olhar de Kitty.

“Alguma coisa sobrenatural atraía os olhos de Kitty na direção do rosto de Anna. Ela estava encantadora com seu simples vestido preto, eram encantadores seus fornidos braços com braceletes, era encantador o seu pescoço firme com o cordão de pérolas, encantadores os cabelos encaracolados com o penteado em desalinho, encantadores os movimentos leves e graciosos dos pequeninos pés e mãos, encantador o belo rosto com sua vivacidade; mas havia algo de horrível e de cruel no seu encanto.” (TOLSTÓI, 2017, p. 93)

Esse olhar inaugural atravessa o romance desde o cenário do baile em que Anna dança com Vrónski e Kitty nota o enlevo dos dois. E é isso que fazemos até hoje. Todo signo interpretativo existe no tempo. Na cadeia semiótica, que é a cadeia do tempo, evolutiva, nenhum signo dará conta da incompletude subjetiva. Qual o encantamento possível hoje?

O uso do discurso indireto livre, em certa medida, isentou o autor de uma descrição e avaliação de Anna para que isso seja feito pelos olhares da subjetividade de cada um que atravessar seu caminho ou sua vista. Uma mulher que não deixa de ser irresistível, nesta aura de encantos que a envolve, ao lado de um suspense pré-concebido na imprevisibilidade de um mal anunciado.

Não vejo no desenho do rosto de Anna, na ilustração de Agniezka, nenhuma meiguice, muito longe do carinho e ternura demonstrados com o filho ou os sobrinhos. Aliás, ela rejeita a menina que teve com Vrónski, com poucos momentos de atenção, oscilando entre o estereótipo da mãe amorosa e de um egoísmo doentio no relacionamento com o amante. Várias faces de Anna se apresentam no decorrer da história, sem um destaque específico, mostrando-a complexa e incoerente.

Destaco, nesta mesma página, o corte abrupto da narrativa na frase final desse Capítulo XXIII, primeira parte. No silêncio desse corte, somos levados a inferir que Anna está irremediavelmente envolvida com Vrónski, ao desistir de voltar para sua casa, em S. Petersburgo, como havia dito que o faria. O signo da negativa reitera uma disposição inevitável para a continuidade da história de Anna e, subjetivamente, para o sim de seu infausto relacionamento amoroso.

“Anna Arcádievna não ficou para o jantar e não viajou.”

Mas Tolstói, num lance formidável, nos leva, a seguir, no Capítulo XXIV, para outra narrativa paralela que se opõe a essa vida falsa e luxuosa da alta sociedade. Liévin, como protagonista, tem compromissos mais naturais e afetivos, mais ligados ao campo, fazendo um contraponto crítico na arquitetura do próprio romance. A relação entre fábula e trama é construída nesses paradoxos, trazendo o leitor para o caráter folhetinesco em que foi construído e apresentado o romance Anna Kariênina, na Rússia do final dos anos 1800.

Entretanto, para este trabalho de análise, foco na análise das representações imagéticas de Anna K. A propósito, intencional ou não, a ilustração de Agniezka Wrzosek colocando-a sobre um tapete xadrez é o desafio alegórico em qualquer leitura que se faça sobre Anna K.

II. Lance para um xeque-mate?

Tradução da legenda: “Existe outra mulher em mim. Estou morrendo de medo dela. Foi ela que se apaixonou por aquele homem. Eu queria te odiar e não pude. Eu sou real agora, estou completa.”

 Esta citação se refere a um dos mais marcantes episódios da narrativa, uma fala de Anna K. para o marido, Kariênin, no delírio da febre puerperal, após um parto difícil, assim traduzida por Rubens Figueiredo na Parte IV – Capítulo XVI - página 417, na edição que uso para este trabalho.

“Não se surpreenda comigo. Ainda sou a mesma... Mas em mim há uma outra mulher, tenho medo dela: ela se apaixonou por aquele homem e eu queria odiar você e não conseguia esquecer a mulher que havia antes. Eu não sou ela. Agora sou a verdadeira, sou eu toda.”

Doug McLean provavelmente deve ser o autor da ilustração, como pude verificar na parte inferior da página, não no desenho. Acompanha uma entrevista da escritora americana Mary Gaitskill para o periódico The Atlantic, de 3 de novembro de 2015, em uma seção específica By Heart, série assinada por Joe Fassler em que autores compartilham e discutem suas passagens favoritas na literatura.

Assim, Mary Gaitskill destaca esta passagem, mostrando como, em um único momento, Anna Karenina revela o eu oculto de sua personagem. “Anna está falando sobre as decisões que tomou na terceira pessoa, como se a pessoa que traiu Kariênin fosse uma estranha. E ela parece estar transformada, como se tivesse se tornado uma pessoa diferente. Fiquei tão surpresa com isso. Eu penso nisso como uma visão muito moderna, a ideia de Tolstói de que pode haver duas ou mais pessoas diferentes dentro de nós.”

Esse “como se” é uma reiteração subjetiva, reveladora de um discurso interpretativo para uma leitura que considero adequada da passagem em referência e do desenho, também ele interpretativo, por outro olhar. A típica boneca russa, matrióska, é utilizada metaforicamente para representar o caráter essencial da pluralidade da personagem, apontado pela escritora, uma boneca dentro da outra. O desenho feito pelo ilustrador mostra uma dessas bonecas caída e a outra boneca inserida na base inicial da matrióska. Essa queda é mesmo simbólica do caráter em julgamento subliminar de Anna. Em qual boneca encontraremos a verdadeira Anna? O cruzamento de linguagens interpretativas se dá também numa geração de significados possíveis.

No romance de Tolstói, este é um momento de grande efeito dramático (a própria Anna acreditava que iria morrer), sendo assistida pelo amante e pelo marido, também destacado por Mary Gaitskill. A metáfora é contagiante, Kariênin também se transforma, Vrónski chora e depois tenta se matar e nós, leitores, também ficamos perplexos e transtornados... Momento único na narrativa, pois isso não irá mais ocorrer. Nem a própria Anna irá se lembrar de que esse foi seu instante epifânico, em que se revelou múltipla e verdadeira.

Associar com o conceito de polifonia de Mikhail Bakhtin é inevitável em sua abrangência. Cito Cristovão Tezza que, em sua tese sobre Bakhtin, sistematiza e reitera o ideário bakhtiniano, pois a linguagem, considerada em sua dimensão de uso concreto, é dialógica em todos os seus estratos. “No plano estritamente individual, a palavra nasce já sob a sombra de múltiplas relações; ela é, antes de tudo, uma resposta a uma palavra anterior; e ela se dirige a alguém, a um centro de valor, diante do qual ela se posiciona.” (TEZZA, 2003 p. 237)

No jogo intenso da literatura, não dá para encurralar o grande Tolstói em seu tabuleiro criativo, apenas um lance paliativo e modesto na compreensão fragmentária de sua grandeza.

III. Em que nível ideológico contrastam e confluem estas duas ilustrações?

Ambas são traduções/leituras sígnicas da personagem Anna Kariênina para revistas (magazines), mídias diferentes em seus objetivos e receptores. Sem dúvidas, esta persona se tornou um ícone da literatura mundial, adquirindo vida e significado além do romance de Tolstói.

Duas ilustrações em desenhos figurativos, o primeiro, um retrato artístico de Anna K. e o segundo uma interpretação de uma fala da personagem, através da boneca matrióska; pelo senso comum, um signo imediatamente associado à Rússia. São obras bem distintas entre si e do original. Recepção e criação se dão dinamicamente, tanto na linguagem escolhida, como no tempo e no espaço.

A consciência da relação dialógica entre o signo e o leitor, entre diferentes sistemas de signos, evidencia leituras ideológicas fundamentais como caminhos e vias da interpretação. Nas interfaces, muito além da oposição verbal x não verbal (não só o suporte ou o rótulo do meio, desenhos, nesta análise), articulam-se percepções e pontos de vista.

No desenho de Agniezka há uma clara intenção de mostrar Anna Kariênina como uma referência icônica para uma revista feminina atual, no mito de uma personagem que atravessa a história, se pensarmos em suas escolhas e desafios numa época de opressão e de aparências sociais conservadoras. Já na ilustração da revista americana The Atlantic, a matrióska só se completa na referência direta à obra de Tolstói, a uma passagem específica e de grande intensidade dramática. Anna vista como uma boneca, e não como gente, é também um lance misógino estereotipado.

A bonequinha caída – ou derrubada - é sugestiva, dialogando com a fala de Anna K., uma legenda que legitima o significante. Realmente a escolha de uma escritora, Mary Gaytskill, justificada na entrevista como sua passagem favorita na literatura, é “quebrada” pela ilustração, no julgamento subliminar de uma condenação moral de Anna K. O significado extrapola, portanto, leituras em conflito.

Criações ficcionais, plenamente realizadas em sua grandeza artística, é que são capazes de nos transportar para o mundo real onde o ser humano dialoga com suas verdades e suas representações.

Como não amar Anna Kariênina e a própria literatura?


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Nota: O julgamento moral de Anna K. parece ser uma invariante em leituras menos acadêmicas do romance de Tolstói. Por esta razão explícita e pela baixa qualidade do mangá, de origem japonesa, que adquiri, na versão em espanhol, com a intenção de também incluir neste estudo, desisto de fazê-lo. Produzido em 2012, editado em 2017, em Barcelona, Espanha, transmitem-se apenas os fatos relevantes, ainda que uma análise da intermidialidade seja interessante como estudo desta versão contemporânea.

Pelo índice, ao abrirmos a revista, temos a visão do direcionamento ideológico nestes quadrinhos, assim disposto em 8 partes: A explosão do amor - Paixão - Um amor depravado - A reputação da alta sociedade - Felicidade incompleta - Amor rasgado - O colapso da fé – Epílogo.    (www.laotrah.com)


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Referências bibliográficas

PLAZA, Julio. Tradução intersemiótica. São Paulo: Perspectiva, 2013.

TEZZA, C. Entre a prosa e a poesia: Bakhtin e o formalismo russo. Rio de Janeiro: Rocco, 2003.

TOLSTÓI, Liev. Anna Kariênina. Tradução de Rubens Figueiredo. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Referências apanhadas eletronicamente, via internet

Agnieszka Wrzosek - An illustration for K Mag magazine #51, march 2013 https://cargocollective.com/agiewu/Anna-Karenina -  agosto de 2021

https://www.theatlantic.com/entertainment/archive/2015/11/by-heart-mary-gaitskill-tolstoy-anna-karenina/413740/ - agosto de 2021

 

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RESUMO: 

Análise de duas ilustrações contemporâneas sobre a personagem Anna Kariênina para revistas (magazines), mídias diferentes em seus objetivos e receptores. No final, faz-se referência a um mangá adaptando a obra de Tolstói. Figurativas, a primeira ilustração é traduzida num retrato artístico de Anna K. e a segunda remete a uma fala da personagem na obra de Tolstói, ilustrada através da boneca matrióska; pelo senso comum, um signo imediatamente associado à Rússia. São obras bem distintas entre si e do original. Recepção e criação se dão dinamicamente, tanto na linguagem escolhida, como no tempo e no espaço.

Nas interfaces, muito além da oposição verbal x não verbal articulam-se percepções e pontos de vista. A consciência da relação dialógica entre o signo e o leitor, entre diferentes sistemas de signos, evidencia leituras ideológicas fundamentais como caminhos e vias da interpretação

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Nota de esclarecimento:

Este trabalho foi escrito para seminário e avaliação final (mesmo que eu tivesse sido dispensada!) do curso “ANNA KARIÊNINA”: POÉTICA, DIALOGISMO E TRADUÇÕES INTERSEMIÓTICAS" que fiz como aluna especial no Departamento de Letras Modernas da Universidade de São Paulo, no segundo semestre de 2021 (aulas virtuais) com a professora Elena Vássina e o professor Biagio D´Angelo.


Petrolina, 8 de agosto de 2021.

elisabetmoreira2014@gmail.com


sexta-feira, 29 de outubro de 2021

POR QUE LEMOS PAULO FREIRE?

 

Tendo rememorado momentos com Paulo Freire, volto a ter Paulo Freire em minhas reflexões. O centenário de seu nascimento ensejou homenagens e reconhecimento; no entanto essa pergunta leva diretamente ao questionamento do que nos compete como leitores e educadores. O que assumimos?

Parece que o nome de Paulo Freire adquiriu mais o estatuto de um significante, um referencial, uma forma de indicar uma experiência educativa do passado do que um nome evocativo de seu papel pedagógico, libertador e transformador. Retomar Paulo Freire é retomar a esperança de um futuro possível, de abraçar suas ideias dialogando com nosso mundo contemporâneo, outra ordem dos dias.

Um amigo me indicou a referência de um livro recém editado: Paulo Freire. La pedagogía rebelde de Gustavo Ruggiero (Ediciones UNGS. Colección Pensadores y pensadoras de América Latina. Los Polvorines, 2021). Talvez seja o caso de acessar diretamente a publicação, mas aqui fica o que se põe, se dispõe e se propõe.

Gustavo Ruggiero, soube, é especialista em filosofia da educação, professor na Universidade Nacional de General Sarmiento, na Argentina. Na leitura síntese em que se apresenta a obra (acesse o link *), reitera-se que o processo de alfabetização consiste, em última instância, "adquirir a linguagem para sustentar a luta política". Existe uma ligação inevitável entre ler o mundo, ler a palavra e lutar por um mundo melhor.

Ressaltou-se, no artigo, que o autor se questiona, destacando perguntas geradoras desse desafio: 

“Lemos Freire para entender nossas práticas ou o lemos para 'aplicá-lo'? Explicar Freire ou pensar com ele? "

Responderia afirmativamente a esta sequência. Sim, entendo os caminhos da minha prática como educadora e cidadã neste mundo a par do que ele me incentivou e me fez compreender. Sim, posso explicar Paulo Freire em sua essência. Sim, admito que penso como ele, construindo pontes e diálogos. Como esse aqui, nos limites desse texto, evocando um exemplo pessoal de uma tentativa direta de alfabetização. Por que narrar isso? Talvez possa ser útil, um testemunho nos descaminhos da memória e uma reflexão sobre teoria e prática, agora aos 75 anos, neste pandêmico ano de 2021.

Havia uma valeta no meio do caminho...

Após uma semana com Paulo Freire, na Diocese de Juazeiro, em 1986, discutindo educação popular, pauta de uma Igreja progressista, me dispus a aplicar o que estava bem fresco em minha mente. Em um lance ousado de minha parte, me ofereci para alfabetizar voluntária e independentemente um grupo de mulheres lavadeiras na periferia de Petrolina. De todo modo, já vinha construindo uma história no movimento de mulheres da cidade, trabalhando com sua consciência política, além dos problemas de gênero.

No galpão comunitário onde estávamos reunidas, no bairro Pedro Raimundo, em Petrolina, Pernambuco, final dos anos 80, eu e mulheres trabalhadoras como lavadeiras, com alguns de seus irrequietos meninos, aguardávamos irmã Virgínia, freira indiana, que iria me apresentar para o grupo.

Miúda e com um hábito curto, simples e claro, sua presença impunha certa ordem no alvoroço. Era final de tarde, começo da noite, único horário em que essas mulheres poderiam se reunir, depois de um dia de trabalho doméstico ou lavando roupa para fora.

Fui apresentada rapidamente. Todas eram leitoras do mundo onde habitavam sim, e isso ficou claro em nosso interagir, mas ainda não alfabetizadas na leitura dos códigos linguísticos que ditam regras e saberes de um mundo onde o desequilíbrio e a injustiça social se replicam cotidianamente.

Consciente disso, fui inserida num diálogo essencialmente pedagógico. Para mim, isto era um desafio em minha vida de professora e de militante no movimento de mulheres. Se havia algum resquício de idealismo, a realidade mostrou logo o que eu haveria de aprender e talvez ensinar nessa troca básica entre mim e o outro. Nos diálogos iniciais, eis que surge a palavra VALETA, signo linguístico interligando apresentações e histórias de vida.

Nem eu mesma sabia direito o significado de valeta, mas, nesse significante vocábulo - aqui pronunciado com um é ligeiramente aberto – confluía a historicidade da situação destas mulheres, de seu trabalho, de sua vida periférica.

Basicamente a valeta é uma vala ou buraco pequeno às margens das ruas e estradas, para facilitar o escoamento das águas. Certo, mas aqui esse significado se expandia. Ficou claro que valeta seria a palavra geradora na proposta de alfabetização.

Água, vida, sim, sabemos, mas também trabalho. Mulheres lavadeiras, por quê? Naqueles idos era a ocupação que lhes dava uma renda possível, trabalhando em casa ou na casa das patroas, outras mulheres em situações menos adversas. Uma realidade tradicional na cidade, desde as lavadeiras que iam lavar as roupas nas águas do rio São Francisco há muitas décadas, agora, nas periferias de uma cidade que atraía migrantes, desde a construção da represa de Sobradinho e muitos empreendimentos, sobretudo para áreas irrigáveis, “explodindo” também o crescimento urbano.

Tanto me lembro, como mulher de classe média, que a vinda das máquinas de lavar roupa seria causar o desaparecimento das lavadeiras e da possibilidade de um pequeno rendimento. O bairro Pedro Raimundo era recente, com problemas de infraestrutura e muita pobreza. A Igreja Católica teve uma atuação importante, daí a presença de Irmã Virgínia e outras freiras, em seu apostolado, procurando organizar atividades e dar assistência além da religiosa.

Voltemos à valeta. Digo, aos encontros nas rodas de conversa no galpão comunitário.

A população do bairro se organizava para pedir água para o bairro, sua maior necessidade, com a Compesa, companhia estadual responsável por esse serviço público, com os políticos, com a prefeitura. Como sempre havia aquele “jogo de empurra” de um órgão para o outro. Ou alegações várias, por exemplo, que não havia encanamentos; mesmo se houvesse, não havia... valetas.

Então, a população cavou valetas.

Na continuidade dos encontros, desmontou-se a palavra valeta, va – le – ta, silabação básica. Tem alfabetizadores que desejam uma receita de metodologia, uma cartilha pronta... não é assim que funciona, pude compreender e interagir no processo.

Para que ser alfabetizado então? No plano coletivo e individual, o desejo ficou expresso. Para ser respeitado, desde fazer denúncias, solicitar melhorias para o bairro, abaixo-assinados, fazer cartazes ou escrever cartas, ler bulas de remédios... Sem humilhações com medo de políticos e doutores. Ser sujeito da história e não coadjuvante no exercício cotidiano do viver.

A conscientização era possível, na compreensão crítica da realidade e de si mesmos. Sujeitos da ação, é como o alfabetizar se torna um ato político concreto. A palavra é a mediação entre sujeitos, entre mundos e necessidades humanas e sociais. Isso é educação, em seu sentido mais amplo. Não há neutralidade possível.

Perdi minhas anotações destes primeiros encontros, mas me lembro de algumas palavras que puderam ser derivadas, principalmente nos nomes próprios e nas primeiras frases. Valdelice, Valentina, valente, leva, lava... Lavo roupa sou lavadeira. A valeta é vala. A valeta é nossa.

Sim, a valeta era da comunidade, do comum, de uma injustiça a ser urgentemente reparada. E que escoava, ecoava pelas valas da desigualdade...

Mas, outra história se avizinhava... talvez não seja prudente eu falar disso, já que é meu ponto de vista, mas fui percebendo muitas dificuldades para continuar o trabalho. Não só com as mulheres que faltavam muito, o que era bem compreensível na dureza de suas vidas, com as crianças perturbando, com a falta de materiais como lápis e cadernos e, às vezes, realmente, eu ficava meio atrapalhada.  Também me desafiavam problemas pessoais, dificuldades de locomoção, tinha filhas pequenas e era professora na rede de ensino oficial, com muito trabalho.

Começou com dificuldades para marcar as reuniões no galpão. Tal dia não seria possível pois tinha outra reunião, uma desculpa ou outra; sobretudo havia interferência nas minhas falas com as mulheres, como se desconfiassem de meu discurso, o que muito me perturbou. Afinal era uma voluntária, independente.

E assim fui me afastando... A água chegou ao bairro, mas tropecei nas valetas da desinformação.

Entretanto, o que aprendi nesta experiência levei vida afora, adiante, diante do que se me depara. Mesmo em outros níveis de aprendizagem (escolas e universidades) sempre dialoguei e ouvi, atenta aos meus limites, mas sem medo dos desafios. Internalizei as lições básicas de Paulo Freire, de diálogos marcantes, de coragem e constância no aprendizado.

Nesse sentido, ainda me comovem os versos que Zita Alves da Silva fez e a mim dedicou.

“À amiga Elisabet Gonçalves Moreira pela sua perseverança de dialogar com as pessoas.”


                       O MEU JEITO E O TEU JEITO

                                                              Zita Alves da Silva

 

Eu admiro o teu jeito                              Mesmo sem jeito, do jeito

esse teu jeito popular,                             de você dialogar,

teu jeito tem um defeito                          acabo encontrando jeito

que se chama bem está.                         p´ra o teu jeito acostumar.

 

Com o jeito, desse teu jeito;                  Do jeito, que é o meu jeito

bem de jeito vou ficar,                           do teu jeito vou ficar

e o defeito, do meu jeito;                       sem ter jeito, com teu jeito

com o tempo vai se acabar.                   mas, meu jeito vai mudar.

 .



(Foto de Euvaldo Macêdo Filho)


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

MOMENTOS COM PAULO FREIRE

 Tantas homenagens neste centenário do educador Paulo Freire (1921-1997)... estou comovida e triste. Essas comemorações por centenários ou décadas nem sempre traduzem sinceridade. Mas, neste momento de escuridão bolsonarista, sim, é muito bom recordar quem foi Paulo Freire e sua importância. Muito além de frases de efeito, pensar na proposta educacional, afirmativa, concreta, da atuação dialógica no aprender/apreender/ver/ler o mundo. Essa troca fundamental em que se baseia nossa humanidade.

Paulo Freire visitou Juazeiro da Bahia em três momentos, a convite de Dom José Rodrigues, bispo católico, identificado com uma igreja progressista e atuante sobre as injustiças da realidade socioeconômica de nosso país. Em 1983, realizou um curso de formação de educação popular com 25 monitores. Nesse ano ele autografou para mim seu livro “Pedagogia do Oprimido”, que me nutria ideologicamente, seja como professora, seja como militante em movimentos sociais e políticos.

         
Paulo Freire e Dom José Rodrigues.          Roda de conversa com Paulo Freire  
                                          Acervo da Diocese de Juazeiro, BA

Em 1984, um trabalho de formação com 11 ciclos de cultura, que funcionavam em três bairros da periferia da cidade e oito em cidades do território “Sertão São Francisco”, onde a Diocese atuava. Em 1986, o educador retornou à cidade juazeirense para continuar o trabalho de formação.

Foi nesse momento que pude participar dessa formação, ainda que morasse em Petrolina, Pernambuco, do outro lado do rio São Francisco e não fizesse parte da Diocese ou de movimentos católicos. O movimento das Diretas Já, que sacudiu o Brasil desde 1983, consolidara o fim da ditadura militar (1965-1985). Desde os tempos de estudante na USP, nos anos bravos da repressão, agora em Petrolina para onde me mudara em 1976, nunca deixei de atuar politicamente. Essa é outra história, mas alguns fatos dela ainda quero narrar, pois fui até perseguida pelos acólitos do poder local, já que atuava como crítica dos desmandos políticos em jornais da cidade.

Amigas me falaram da possibilidade de participar desse encontro com Paulo Freire e não hesitei. Foi uma semana intensiva, todos alojados em Carnaíba do Sertão, distrito de Juazeiro, onde havia um Centro Diocesano de treinamento. Elza Freire, esposa de Paulo, estava também presente. Infelizmente ela viria a falecer ainda neste ano, em outubro de 1986. Era, como Paulo, uma pessoa amável e firme em suas convicções. Havia uma divisão de tarefas, lembro bem. Enquanto Paulo falava teoricamente sobre Educação e seu posicionamento pedagógico, Elza se dedicou a uma parte mais prática, mostrando exemplos de como alfabetizar a partir da conscientização, tirando dúvidas em geral.

O mais legal dessa semana eram os papos descontraídos, nas varandas do alojamento, à noitinha, após o jantar. Foi ali que o homem Paulo Freire se me apresentou em várias facetas. Um ser amoroso que transbordava fé e empatia. Conto aqui alguns detalhes... Muito me surpreendeu ele se declarar devoto fervoroso de Santa Teresinha do Menino Jesus, como é conhecida Teresa de Lisieux, nascida em França. Não confundir com outra Teresa, Santa Teresa de Ávila (1515-1582), nascida na Espanha, embora haja alguns pontos em comum na história destas duas santas, freiras carmelitas. Não sendo católica praticante, eu conhecia superficialmente alguns detalhes. Teresa de Ávila é conhecida por seus êxtases, um misticismo exacerbado e o fato de ser considerada uma das grandes escritoras da literatura espanhola.

Teresa de Lisieux (1873-1897) teve problemas de saúde desde a infância, tornou-se freira e pautou sua vida pela busca da santidade, acreditando que não era necessário realizar atos heroicos e nem "grandes feitos" para atingir a santidade e nem para expressar o amor de Deus, “A única forma de provar meu amor é espalhando flores e estas flores são todos os pequenos sacrifícios, cada olhar, cada palavra e cada pequeno ato de amor.” Como não entender o olhar e a devoção de Paulo Freire inspirados pelo amor ao próximo?

Aliás, Frei Betto, lhe colocou um epíteto síntese: “Paulo Freire, o educamor”, numa crônica de 2001, quando da comemoração de seus 80 anos. Décadas e memórias se avolumam e se desdobram...   

Outro diálogo essencial com Paulo Freire se deu ao conversarmos sobre nossa situação pequeno burguesa. Sendo professora, trabalhando em até três períodos muitas vezes, com condição financeira relativamente satisfatória, sempre tive empregada doméstica. E, mesmo antes das leis de regulamentação do trabalho doméstico, eu já pagava o salário mínimo e respeitava os horários da jornada. Bom, isto pode não vir ao caso agora, mas Paulo me ajudou a entender – se não justificar – o processo em que se inserem estas relações dentro de nossas casas. Se pagamos o serviço, sempre seremos os empregadores, os patrões, com toda a carga semântica que envolve essas designações no universo do trabalho e suas diferenças sociais.

Portanto, se se luta por justiça social, o serviço que as empregadas domésticas executam devem ter esse lado justo, profissional sim, pago com todo o merecimento e respeito. E foi assim que Paulo Freire, um dos fundadores do PT, Partido dos Trabalhadores, também disse que, já com certa idade, sem saber dirigir, mas com condições financeiras, comprou um carro e contratou um motorista.

Foi quando ele deixou claro: sim, classes sociais diferentes, mas, para qualquer posicionamento, “eu sei de que lado estou”, de uma luta de classes em que os menos favorecidos têm que ter voz e direitos. Igualdade e justiça social como parâmetro de nossas vidas, na luta pelo bem comum.

Paulo Freire gostava de citar este caso e ele aparece no livro/entrevista “Essa escola chamada vida”, depoimentos ao repórter Ricardo Kotscho, de Paulo Freire e Frei Betto (Ed. Ática). Nessa prática, nessa escola chamada vida, um camponês no Maranhão questionou um voluntário: “Meu amigo, se você pensa que vem aqui ensinar nós a derrubar o pau, não precisa, porque nóis já sabe. O que nóis quer saber é se você vai tá com nóis na hora do tombo do pau”. (página 62)

Sim, “a confiança do grupo popular no intelectual que se coloca a serviço dele nasce da experiência de estar na hora do tombo”, um aparte conclusivo de Frei Betto (página 63). Por isso que sempre postulo, nas horas de desafios, de consciência das desigualdades, “sei de que lado estou”.

Nos vários livros que tenho de Paulo Freire ou sobre ele, encontrei, depois de 35 anos, anotações feitas em um bloquinho sobre a essência política e pedagógica de seus conceitos sobre Educação. Minhas anotações estão datadas: 19/4/86. E ali também encontro, com sua letra, o endereço e o telefone de sua casa, no Sumarezinho, em São Paulo.

Assim que viajei a São Paulo, acredito que em 1987, não tenho certeza, telefonei para ele e recebi um convite para almoçar em sua casa. Uma linda casa e um almoço delicioso, tipicamente pernambucano, com baião de dois e carne de sol. Lá estavam presentes também Frei Betto e um convidado especial, o escritor americano Ira Shor. Ambos escreveram livros sobre Paulo Freire.

Só lembrando que o livro de Ira Shor, “Medo e Ousadia”, publicado no Brasil pela editora Paz e Terra, é tido como um referencial qualificado para os tempos atuais, pelo avanço do fascismo e da extrema direita tanto nos Estados Unidos como aqui no Brasil. Temos cada vez mais dificuldades históricas para desenvolver o espírito crítico, uma educação emancipadora, numa sociedade que retroage pedagogicamente.

Descontraídos, conversamos assuntos vários. Ainda me enterneço quando lembro do seu carinho e atenção. Ira Shor se ofereceu para tirar a foto, a seguir.

Elisabet G. Moreira e Paulo Freire, em sua casa, em São Paulo, idos dos anos 80.

Ainda outra lembrança me veio. Paulo Freire esteve rapidamente em minha casa, ainda no ano de 86. Na conversa, falei de meus estudos de língua e literatura russa, na USP, e, já naqueles idos, falamos na relação dialógica do discurso, estudada por Mikhail Bakhtin. Paulo tinha conhecimento da importância dos estudos linguísticos a par do aspecto político e filosófico da linguagem.

De repente, surgiu um nome e um livro até hoje maldito: “Os condenados da Terra” de Frantz Fanon (Civilização Brasileira). Uma das leituras fundamentais de meu marido e que fez a ponte para Paulo Freire se manifestar, dizendo também que, para ele, este livro lhe foi a grande referência. Assim como a “História da riqueza do homem”, de Leo Huberman (Zahar Editores), livro que me abriu os olhos para consciência da exploração capitalista, desde os tempos de estudante.

Só para situar ligeiramente: Frantz Fanon (1925-1961) nasceu na Martinica, mas dividiu a sua vida entre a militância pela independência anticolonialista, sobretudo na Argélia, e a teoria crítica, desenvolvendo uma tese pioneira que chamou de psicopatologia da colonização. Em síntese, os colonos, representando a civilização, nunca viram os nativos como membros de sua espécie, daí que o processo de descolonização sempre foi violento e violentador. Sejam condenados da terra ou oprimidos em seu desafio no ato de libertação, Paulo Freire soube refletir e atuar no contexto pedagógico dessas relações.

Paulo Freire também foi um grande intelectual, sem dúvidas. Mas não se colocava como um provedor infalível de conceitos. Deixava claro que não há ninguém mais culto do que o outro. O que há são culturas paralelas, socialmente complementares. Lições que se desdobram dialeticamente em vários textos, livros e ações. Pensar e repensar a prática é prover a si mesmo e a vida.

Talvez eu ainda escreva na continuação de registros, de momentos... geração de fatos e significados, no reforço de um aprendizado. Tive uma experiência marcante com um grupo de mulheres trabalhadoras, lavadeiras, na periferia de Petrolina, em 87, como voluntária. Depois de décadas, avaliar o que não consegui atingir nos finalmente pode ser exemplar nas ambiguidades dos contextos, da relação teoria e prática.

Pouco sabemos e saberemos de Paulo Freire se não o revisitarmos continuamente. Momentos que se superpõem e nos instigam como educadores e como cidadãos. Entender a pedagogia do oprimido pelo vocábulo grego Paideia significando ao mesmo tempo educar e civilizar, o outro e eu, uma educação libertadora, de conscientização do sujeito e da História onde atuamos e vivemos.

Petrolina, 28/09/21

terça-feira, 24 de agosto de 2021

DA ARTE DE CHUPAR MANGAS

 Hoje, a gente não chupa mangas, a gente come mangas.

Compram-se belas mangas, enormes, nos supermercados e feiras. Coisas da pós-modernidade; sabendo escolher, todas com nomes em inglês, mesmo que sejam de origem indiana, você se sai bem. Com uma faca afiada, corta-se a fruta em pequenos pedaços. Come-se até na salada, com rúcula por exemplo, outra exótica figura a nosso alcance. Até aprendi a fazer chutney de manga, indiana receita gourmet. Enfim, hábitos alimentares renovados fora do quintal doméstico ou da nostalgia de nossa infância, quando recitar Casimiro de Abreu fazia sentido.

 Mas será que ainda se chupa manga??? Quem já teve uma mangueira no quintal sabe disso...  deliciosa manga espada, a mais comum, a pobrezinha das mangas, fiapenta como quê, mas doce e disputada. Então, você, sem descascar, batia a fruta na parede, fazia um buraco na parte de cima e... chupava a manga.  Delícia!

Como não estabelecer, à maneira freyriana, a relação física dessa delícia com uma sexualidade latente... Quem não se lambuzava comendo manga? E o cheiro? Não adiantava esconder, a roupa ficava toda com respingos amarelos, assim como a cara. O cheiro durava horas... menino, você não pode comer manga com leite que faz mal. Advertência boba. De propósito eu fazia isso para, menina malcriada, provocar um tio velho rabugento... Ou, pensando bem, para mostrar minha rebeldia insipiente.

Em meu quintal da infância, havia um pé de manga bastante exótico, manga bico. Conhece? Também conhecida como manga peito de moça. Precisa dizer mais? Até uma auréola amarronzada circundava o bico... um convite para mamar delícias e outras imaginações.

Por incrível que pareça, não encontrei, no professor Google, uma imagem adequada, apenas um vídeo onde se pode ter uma ideia dessa manga tão especial em minha memória e, pelo jeito, esquecida na concorrência de mangas enxertadas e exóticas no mercado de frutas. Aliás, na fruticultura irrigada das margens do rio São Francisco, são comercializadas as mangas do rejeito, isto é, que não passaram no controle de qualidade e parâmetros da exportação, tanto no mercado interno quanto no externo.

https://www.youtube.com/watch?v=w6E9_UcAQQ0

Apesar dos elogios do apresentador, percebe-se certo acanhamento em dizer o nome vulgar da manga “peito de moça”. Soube que parentes paulistas tiveram cuidado em fazer mudas e ela está preservada em alguns sítios e chácaras. Hoje, morando tão longe, nunca mais tive esse sabor rememorado.

Mas foi num filme que aprendi a maneira chic de chupar, digo, de comer manga in natura, sem lambuzar... Caterine Deneuve, a bela, no filme Indochina, aparece em uma cena, comendo e oferecendo a manga com a elegância que lhe é característica. Fiquei até envergonhada, ao lembrar da lambança que faço ainda hoje, chupando mangas.

Sim, aqui o Google me forneceu uma foto da cena do filme. Fiquei alegre... não vou falar do filme, evidentemente, apenas uma referência pois essa manga atua como metáfora das relações colonialistas da França sobre a Indochina, hoje Vietnã.

Na cena, Elaine, a personagem de Catherine, uma rica proprietária francesa na Indochina, oferece pedaços de manga, com uma colher, à sua filha adotiva, Camille, uma garota vietnamita.

Pesquisando – ah, essa mania de procurar significâncias – há uma mensagem subliminar da subserviência do colonizado ao dominador e, ao mesmo tempo, revela-se o lado maternal de Elaine, pois Camille questiona a mãe sobre sua aparência e Elaine afirma que “a diferença entre as pessoas não é a cor da pele, é o sabor, a fruta”, enquanto leva um pedaço de manga à boca da filha.

No desenrolar da trama, é que o “sabor” da fruta se dará, sobretudo no relacionamento amoroso de Camille com o amante da mãe e o rompimento entre as duas mulheres, de diferentes origens e histórias de vida.

E fico aqui a pensar, se a manga fosse a “manga bico”, a analogia ainda estaria mais adequada...


Assim, com a parte mais polpuda, nestes cortes sem ferir a casca, você toma de um garfo ou um palito e vai retirando os pedacinhos para comer... tentei fazer isso e encontro dificuldades, pois o mais doce e saboroso está na ponta do fruto, junto ao caroço. Ou, na prática, desvirar o pedaço cortado para que os pedaços da manga caiam sobre a salada ou um prato.

Tem gente que gosta dela verde, comendo com sal. Gosto é isso, mas a manga madura, em vários formatos, com esses belos contrastes do amarelo da polpa com os tons da casca, verde, vermelho, rosa... é uma festa para os olhos e o paladar. Inconvenientes pode haver, até no fato de que você vai precisar de um palito ou fio dental para essas mangas sem pedigree...E nem vou falar das mangueiras, das árvores...

Aqui no Nordeste há uma expressão que corre solta: “o cão chupando manga”. Imagine só, o cão, o capeta, o satanás chupando manga e fazendo careta... feiúra inimaginável ou é? Mas pode também ter outro significado, por exemplo, quando o cara sabe tudo de alguma coisa, alguém desenrolado ou quando não está para brincadeiras... Tô fora!

Chupa essa manga...

Cantou o romântico Gonçalves Dias:

“Já viste coisa mais bela
Do que uma bela mangueira,
E a doce fruta amarela,
Sorrindo entre as folhas dela,
E a leve copa altaneira?
Já viste coisa mais bela
Do que uma bela mangueira?”

Petrolina, 24 de agosto de 2021

Elisabet Gonçalves Moreira


quarta-feira, 30 de junho de 2021

MARIA ALICE AMORIM: ENTRE ERRES, O PULSAR DA POESIA

29 de junho do pandêmico 2021, dia de São Pedro, fechando o ciclo junino, aniversário de Gícia Amorim, mãe de Maria Alice Amorim, poeta que (re)lança seu livro de poesia, dedicado à mãe, anamnese no desencadear de mulheres e deusas míticas transfiguradas em palavras e evocações. Memória deflagrada pela história da tataravó Aurora, cigana raptada pelo português Pedro, nas beiradas da fazenda Ouricuri da Bahia, município sertanejo de Casa Nova, tempos idos dos finais do século XIX, distribuindo-se e arraigando em outros acampamentos e sítios nômades de avós e tias artistas de outras histórias.

Ao nosso alcance um poema, uma narrativa subliminar em versos, um livro primorosamente editado. Salve Funcultura PE, lei Aldir Blanc, Zanzar editora e uma equipe antenada.



ERRE AURORÆ ERRE (capa do livro)

Vejo uma sombra rosa de letras em minúscula grafia sobreposta no título: a ou e? Ou ambas amalgamadas? O que dizer destas folhas desenhadas e coloridas sobre o fundo verde? Assim como nuvens ou ondas separando partes do livro?  Questionamentos gerando inferências, interpretantes indiciais para uma possível e múltipla decodificação.

ERRA AURORÆ ERRA

Uma constatação ou uma ordem emanada para um verbo imperativo? É para Aurora errar? Ou apenas um fonema destacado, um substantivo, o nome da letra erre/errae?  Que Aurora é esta? Nome próprio ou comum no significado de manhã, de um convite para o alvorecer?

 

A ambiguidade se instaura... é a voz da poesia que detém o poder de resposta ou uma leitora atenta neste processo de decodificação. Imagens, cores, palavras, tudo se mescla e instiga.

 

À procura de resposta divago em minhas próprias lembranças. Estudei latim no antigo ginásio do século passado e entendo este Æ. A desinência característica do nominativo singular é -a e a do genitivo singular é -ae, identificando a primeira declinação. A pronúncia é outra história, ae ou é. Lembram do curriculum vitae, ou seja, currículo de vida (em português, essa relação é normalmente expressa pela preposição de). Ora, nesta cadeia de associações, esclarecedor é saber que a palavra “genitivo” vem do verbo “ginere”, que significa gerar, originar. Logo, genitivo é o caso que traz a origem, a raiz. Não é isso que a nossa poeta procura?

 

Já começamos a nos inquietar. Essa gênese hereditária que se associa também, no caso genitivo, a uma relação de posse, entre o nome e outro nome. Seria o erro de Aurora? O que Maria Alice quer nos dizer – ou nos jogar - nestes cruzamentos e fronteiras de signos e linguagens?

 

Ela nos provoca para mais falas: “quem virá dizer-nos palavras aladas, aurora” (p. 43). Reiteração do mote na narrativa da própria Alice, dessas avós ciganas, de questões tão femininas que ressoam em nossas vozes e consciências... só se faz poesia com vida.

 

Essa Amorim, Maria, que mora na rua da Aurora. Erres rolando, variações fonéticas de nosso português brasileiro, sem a dureza gutural de outras falas. Dali, nesta parte de um antigo Recife, avista-se o rio Capibaribe, limite para outra margem. Alice se situa numa história de migrante, de caminhos vários. Construiu pontes por lá, desde que saiu de Petrolina, margem esquerda do rio São Francisco, onde nasceu e cresceu. Como o rio nordestino que desagua no Atlântico mar.

 

De uma rua que virou prosopopeia, ganhando vida, além da simbologia do nascimento dos dias, todas as manhãs que se estendem ao longo de erros e acertos.

 

“o universo é incrivelmente simples, aurora  

dizem os astros”

 

Na dedicatória que fez no meu exemplar, Alice alegou simbolicamente “Desejo que AurorA e_rre feliz sob a brisa do Velho Chico.” Entendi e estendi a caligrafia diferenciada para o título, replicando a chamada da atenção para o significado, metáfora de capa. Essa errância de voos e leituras adivinhatórias, desafios de entendimentos, seriam mesmo tão simples assim?

 

Na contracapa, sem ainda abrir o livro, podemos ler de uma proposta trilíngue:

 

“escrito em português,

logo veio o desejo de que

o poema fosse lido, dito e

ouvido em mais duas línguas:

o espanhol e o francês.”

 

Por que especificamente estas duas línguas, proximidade de origem, latinidade atávica? Arregalamos olhos. Aguçamos ouvidos.  Mas, justamente, nessa tradução, em parceria trilíngue, é que o livro nos desafia para outras leituras e outros leitores. Não é mais só um livro, são três leituras distintas, com cargas semânticas diferenciadas. Também a possibilidade acessível de ouvir o livro traz esta inovação contemporânea pelo QR Code, tecnologia avançando na recepção da obra.

 

Como todos os livros de Maria Alice, esse também é um livro lindo, com uma diagramação especial, objeto para ficar à mostra. Sua dona entende de semiótica e isso pauta a produção. Signos visuais compartilham diálogos e experiências. Não há nada figurativo, antes a subjetividade implícita das escolhas e da voz poética.

 

Seu talento como pesquisadora de cultura popular abre-se numa produção exclusiva de poesia, prima vez, e, na abertura, Alice reproduz um verso de Safo, voz feminina de priscas eras e que nos conclama “Encontra, tu mesma, tua própria voz”. Tanto fez que encontrou.

 

“em que cascalhos trotam os teus cavalos, aurora

onde se escondem suas rédeas

sumiu o prumo da caravana”   (p. 39)

 

“en cuál grava trotan tus caballos, aurora

donde se esconden sus rendas

desapareció la plomada de la caravana”          (p. 89)

 

“dans quel sable trottent tes chevaux, aurore

où se cachent tes brides

le cap de la caravane s´échappe”           (p. 139)

 

Transcrições literais, mas cujo ritmo os diferencia estrategicamente. Novos poemas se apresentam. Precisaríamos de muito mais leituras, comparações, escolhas. Por este momento apenas uma breve indicação. Os caminhos da caravana, das vozes, dos apelos às musas várias vezes reiterados, deusas e ninfas das errâncias existenciais.

 

“erre aurora erre”

 

Não dá para decifrar tudo. Mistérios que fascinam e continuam...

 

E repensar – sempre - os caminhos da poesia e das vozes femininas que ousam. A lembrança de Gícia, que se perde em delírios dos esquecimentos senis, percorre versos sem erros, memória que se atualiza, afetos acumulados e que rescalda Maria Alice para seu primeiro livro de explícita poesia. Irmano contigo.

 

Sim, te entendo. Oui, je te comprends. Por supuesto que sí.

 

Elisabet Gonçalves Moreira

 

Petrolina, 29 de junho de 2021


(Para solicitar o livro, escrever diretamente para a autora por e-mail, linguadepoeta@yahoo.com.br   ou  procurar no instagram 

@zanzarcoletivo)