Bet com t mudo

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BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

terça-feira, 24 de agosto de 2021

DA ARTE DE CHUPAR MANGAS

 Hoje, a gente não chupa mangas, a gente come mangas.

Compram-se belas mangas, enormes, nos supermercados e feiras. Coisas da pós-modernidade; sabendo escolher, todas com nomes em inglês, mesmo que sejam de origem indiana, você se sai bem. Com uma faca afiada, corta-se a fruta em pequenos pedaços. Come-se até na salada, com rúcula por exemplo, outra exótica figura a nosso alcance. Até aprendi a fazer chutney de manga, indiana receita gourmet. Enfim, hábitos alimentares renovados fora do quintal doméstico ou da nostalgia de nossa infância, quando recitar Casimiro de Abreu fazia sentido.

 Mas será que ainda se chupa manga??? Quem já teve uma mangueira no quintal sabe disso...  deliciosa manga espada, a mais comum, a pobrezinha das mangas, fiapenta como quê, mas doce e disputada. Então, você, sem descascar, batia a fruta na parede, fazia um buraco na parte de cima e... chupava a manga.  Delícia!

Como não estabelecer, à maneira freyriana, a relação física dessa delícia com uma sexualidade latente... Quem não se lambuzava comendo manga? E o cheiro? Não adiantava esconder, a roupa ficava toda com respingos amarelos, assim como a cara. O cheiro durava horas... menino, você não pode comer manga com leite que faz mal. Advertência boba. De propósito eu fazia isso para, menina malcriada, provocar um tio velho rabugento... Ou, pensando bem, para mostrar minha rebeldia insipiente.

Em meu quintal da infância, havia um pé de manga bastante exótico, manga bico. Conhece? Também conhecida como manga peito de moça. Precisa dizer mais? Até uma auréola amarronzada circundava o bico... um convite para mamar delícias e outras imaginações.

Por incrível que pareça, não encontrei, no professor Google, uma imagem adequada, apenas um vídeo onde se pode ter uma ideia dessa manga tão especial em minha memória e, pelo jeito, esquecida na concorrência de mangas enxertadas e exóticas no mercado de frutas. Aliás, na fruticultura irrigada das margens do rio São Francisco, são comercializadas as mangas do rejeito, isto é, que não passaram no controle de qualidade e parâmetros da exportação, tanto no mercado interno quanto no externo.

https://www.youtube.com/watch?v=w6E9_UcAQQ0

Apesar dos elogios do apresentador, percebe-se certo acanhamento em dizer o nome vulgar da manga “peito de moça”. Soube que parentes paulistas tiveram cuidado em fazer mudas e ela está preservada em alguns sítios e chácaras. Hoje, morando tão longe, nunca mais tive esse sabor rememorado.

Mas foi num filme que aprendi a maneira chic de chupar, digo, de comer manga in natura, sem lambuzar... Caterine Deneuve, a bela, no filme Indochina, aparece em uma cena, comendo e oferecendo a manga com a elegância que lhe é característica. Fiquei até envergonhada, ao lembrar da lambança que faço ainda hoje, chupando mangas.

Sim, aqui o Google me forneceu uma foto da cena do filme. Fiquei alegre... não vou falar do filme, evidentemente, apenas uma referência pois essa manga atua como metáfora das relações colonialistas da França sobre a Indochina, hoje Vietnã.

Na cena, Elaine, a personagem de Catherine, uma rica proprietária francesa na Indochina, oferece pedaços de manga, com uma colher, à sua filha adotiva, Camille, uma garota vietnamita.

Pesquisando – ah, essa mania de procurar significâncias – há uma mensagem subliminar da subserviência do colonizado ao dominador e, ao mesmo tempo, revela-se o lado maternal de Elaine, pois Camille questiona a mãe sobre sua aparência e Elaine afirma que “a diferença entre as pessoas não é a cor da pele, é o sabor, a fruta”, enquanto leva um pedaço de manga à boca da filha.

No desenrolar da trama, é que o “sabor” da fruta se dará, sobretudo no relacionamento amoroso de Camille com o amante da mãe e o rompimento entre as duas mulheres, de diferentes origens e histórias de vida.

E fico aqui a pensar, se a manga fosse a “manga bico”, a analogia ainda estaria mais adequada...


Assim, com a parte mais polpuda, nestes cortes sem ferir a casca, você toma de um garfo ou um palito e vai retirando os pedacinhos para comer... tentei fazer isso e encontro dificuldades, pois o mais doce e saboroso está na ponta do fruto, junto ao caroço. Ou, na prática, desvirar o pedaço cortado para que os pedaços da manga caiam sobre a salada ou um prato.

Tem gente que gosta dela verde, comendo com sal. Gosto é isso, mas a manga madura, em vários formatos, com esses belos contrastes do amarelo da polpa com os tons da casca, verde, vermelho, rosa... é uma festa para os olhos e o paladar. Inconvenientes pode haver, até no fato de que você vai precisar de um palito ou fio dental para essas mangas sem pedigree...E nem vou falar das mangueiras, das árvores...

Aqui no Nordeste há uma expressão que corre solta: “o cão chupando manga”. Imagine só, o cão, o capeta, o satanás chupando manga e fazendo careta... feiúra inimaginável ou é? Mas pode também ter outro significado, por exemplo, quando o cara sabe tudo de alguma coisa, alguém desenrolado ou quando não está para brincadeiras... Tô fora!

Chupa essa manga...

Cantou o romântico Gonçalves Dias:

“Já viste coisa mais bela
Do que uma bela mangueira,
E a doce fruta amarela,
Sorrindo entre as folhas dela,
E a leve copa altaneira?
Já viste coisa mais bela
Do que uma bela mangueira?”

Petrolina, 24 de agosto de 2021

Elisabet Gonçalves Moreira


quarta-feira, 30 de junho de 2021

MARIA ALICE AMORIM: ENTRE ERRES, O PULSAR DA POESIA

29 de junho do pandêmico 2021, dia de São Pedro, fechando o ciclo junino, aniversário de Gícia Amorim, mãe de Maria Alice Amorim, poeta que (re)lança seu livro de poesia, dedicado à mãe, anamnese no desencadear de mulheres e deusas míticas transfiguradas em palavras e evocações. Memória deflagrada pela história da tataravó Aurora, cigana raptada pelo português Pedro, nas beiradas da fazenda Ouricuri da Bahia, município sertanejo de Casa Nova, tempos idos dos finais do século XIX, distribuindo-se e arraigando em outros acampamentos e sítios nômades de avós e tias artistas de outras histórias.

Ao nosso alcance um poema, uma narrativa subliminar em versos, um livro primorosamente editado. Salve Funcultura PE, lei Aldir Blanc, Zanzar editora e uma equipe antenada.



ERRE AURORÆ ERRE (capa do livro)

Vejo uma sombra rosa de letras em minúscula grafia sobreposta no título: a ou e? Ou ambas amalgamadas? O que dizer destas folhas desenhadas e coloridas sobre o fundo verde? Assim como nuvens ou ondas separando partes do livro?  Questionamentos gerando inferências, interpretantes indiciais para uma possível e múltipla decodificação.

ERRA AURORÆ ERRA

Uma constatação ou uma ordem emanada para um verbo imperativo? É para Aurora errar? Ou apenas um fonema destacado, um substantivo, o nome da letra erre/errae?  Que Aurora é esta? Nome próprio ou comum no significado de manhã, de um convite para o alvorecer?

 

A ambiguidade se instaura... é a voz da poesia que detém o poder de resposta ou uma leitora atenta neste processo de decodificação. Imagens, cores, palavras, tudo se mescla e instiga.

 

À procura de resposta divago em minhas próprias lembranças. Estudei latim no antigo ginásio do século passado e entendo este Æ. A desinência característica do nominativo singular é -a e a do genitivo singular é -ae, identificando a primeira declinação. A pronúncia é outra história, ae ou é. Lembram do curriculum vitae, ou seja, currículo de vida (em português, essa relação é normalmente expressa pela preposição de). Ora, nesta cadeia de associações, esclarecedor é saber que a palavra “genitivo” vem do verbo “ginere”, que significa gerar, originar. Logo, genitivo é o caso que traz a origem, a raiz. Não é isso que a nossa poeta procura?

 

Já começamos a nos inquietar. Essa gênese hereditária que se associa também, no caso genitivo, a uma relação de posse, entre o nome e outro nome. Seria o erro de Aurora? O que Maria Alice quer nos dizer – ou nos jogar - nestes cruzamentos e fronteiras de signos e linguagens?

 

Ela nos provoca para mais falas: “quem virá dizer-nos palavras aladas, aurora” (p. 43). Reiteração do mote na narrativa da própria Alice, dessas avós ciganas, de questões tão femininas que ressoam em nossas vozes e consciências... só se faz poesia com vida.

 

Essa Amorim, Maria, que mora na rua da Aurora. Erres rolando, variações fonéticas de nosso português brasileiro, sem a dureza gutural de outras falas. Dali, nesta parte de um antigo Recife, avista-se o rio Capibaribe, limite para outra margem. Alice se situa numa história de migrante, de caminhos vários. Construiu pontes por lá, desde que saiu de Petrolina, margem esquerda do rio São Francisco, onde nasceu e cresceu. Como o rio nordestino que desagua no Atlântico mar.

 

De uma rua que virou prosopopeia, ganhando vida, além da simbologia do nascimento dos dias, todas as manhãs que se estendem ao longo de erros e acertos.

 

“o universo é incrivelmente simples, aurora  

dizem os astros”

 

Na dedicatória que fez no meu exemplar, Alice alegou simbolicamente “Desejo que AurorA e_rre feliz sob a brisa do Velho Chico.” Entendi e estendi a caligrafia diferenciada para o título, replicando a chamada da atenção para o significado, metáfora de capa. Essa errância de voos e leituras adivinhatórias, desafios de entendimentos, seriam mesmo tão simples assim?

 

Na contracapa, sem ainda abrir o livro, podemos ler de uma proposta trilíngue:

 

“escrito em português,

logo veio o desejo de que

o poema fosse lido, dito e

ouvido em mais duas línguas:

o espanhol e o francês.”

 

Por que especificamente estas duas línguas, proximidade de origem, latinidade atávica? Arregalamos olhos. Aguçamos ouvidos.  Mas, justamente, nessa tradução, em parceria trilíngue, é que o livro nos desafia para outras leituras e outros leitores. Não é mais só um livro, são três leituras distintas, com cargas semânticas diferenciadas. Também a possibilidade acessível de ouvir o livro traz esta inovação contemporânea pelo QR Code, tecnologia avançando na recepção da obra.

 

Como todos os livros de Maria Alice, esse também é um livro lindo, com uma diagramação especial, objeto para ficar à mostra. Sua dona entende de semiótica e isso pauta a produção. Signos visuais compartilham diálogos e experiências. Não há nada figurativo, antes a subjetividade implícita das escolhas e da voz poética.

 

Seu talento como pesquisadora de cultura popular abre-se numa produção exclusiva de poesia, prima vez, e, na abertura, Alice reproduz um verso de Safo, voz feminina de priscas eras e que nos conclama “Encontra, tu mesma, tua própria voz”. Tanto fez que encontrou.

 

“em que cascalhos trotam os teus cavalos, aurora

onde se escondem suas rédeas

sumiu o prumo da caravana”   (p. 39)

 

“en cuál grava trotan tus caballos, aurora

donde se esconden sus rendas

desapareció la plomada de la caravana”          (p. 89)

 

“dans quel sable trottent tes chevaux, aurore

où se cachent tes brides

le cap de la caravane s´échappe”           (p. 139)

 

Transcrições literais, mas cujo ritmo os diferencia estrategicamente. Novos poemas se apresentam. Precisaríamos de muito mais leituras, comparações, escolhas. Por este momento apenas uma breve indicação. Os caminhos da caravana, das vozes, dos apelos às musas várias vezes reiterados, deusas e ninfas das errâncias existenciais.

 

“erre aurora erre”

 

Não dá para decifrar tudo. Mistérios que fascinam e continuam...

 

E repensar – sempre - os caminhos da poesia e das vozes femininas que ousam. A lembrança de Gícia, que se perde em delírios dos esquecimentos senis, percorre versos sem erros, memória que se atualiza, afetos acumulados e que rescalda Maria Alice para seu primeiro livro de explícita poesia. Irmano contigo.

 

Sim, te entendo. Oui, je te comprends. Por supuesto que sí.

 

Elisabet Gonçalves Moreira

 

Petrolina, 29 de junho de 2021


(Para solicitar o livro, escrever diretamente para a autora por e-mail, linguadepoeta@yahoo.com.br   ou  procurar no instagram 

@zanzarcoletivo)

quarta-feira, 19 de maio de 2021

NACIONALIDADE TCHUVACHE: UM POETA E SEU(S) TRADUTOR(ES) (Parte II)

 

Boris Schnaiderman foi admirador e amigo pessoal do poeta Guenádi Aigui, divulgando sua poesia no Brasil. Para mim e para alguns leitores deste blog a descoberta de um grande poeta, desafios de leituras, reflexões e o prazer desse alcance. Seguimos.

Em abril de 2011 foi lançado o livro Guenádi Aigui – Silêncio e Clamor, traduzido por Boris Schnaiderman, agora com a parceria de Jerusa Pires Ferreira, publicado pela editora Perspectiva, de São Paulo.


Poeta tchuvache: Guenádi Aigui (1934-2006)

(Ah, pelas referências na Parte I, dedico a Anélia Pietrani)


Assim publicado na Poesia Russa Moderna Nova Antologia (São Paulo: Brasiliense, 1985)

Talvez agora ler, em voz alta, um poema de Guenádi Aigui. E depois, seu “autorretrato”, um depoimento tocante sobre o fazer poético e a vida, indissociáveis. O que conhecemos da literatura e seus artistas?

Silêncio 
1

no clarão
da angústia desfeita em pó
conheço o desnecessário como os pobres conhecem a
roupa última
e os velhos trastes
e sei que este desnecessário
é o que o país precisa de mim
confiável como um acordo secreto
o calar-se como vida
e para toda a minha vida

2

no entanto, o calar-se é doação, e para mim mesmo: o
silêncio

3

acostumar-me a tal silêncio
que seja como o coração que não se ouve bater
como a vida
que pareça um de seus lugares
e nisso eu sou – como a Poesia é
e eu sei
que meu trabalho é árduo e existe para si mesmo
como no cemitério da cidade
a insônia do vigia

1954–1956

(Tradução: Boris Schnaiderman)


Fragmentos  do autorretrato de Guenádi Aigui. Memórias da vida em desafios e conflitos, sobretudo na então União Soviética, mas o poeta crê em seu ofício e nele se consagra. Um caso exemplar para refletirmos no agora e em nossas circunstâncias.

Sobre mim mesmo
sucintamente

Nasci na Tchuváchia, num povoado com florestas sem fim, ao redor. Parte da minha infância (1939-1941) decorreu na Carélia, de onde a nossa família, durante a guerra, foi enviada de retorno à pátria. As impressões da Carélia encontraram expressão, bem recentemente, no ciclo dos meus versos sobre a infância.

Aigui é o sobrenome de nossa gente, conservado desde os tempos do paganismo, em tradução ele quer dizer "aquele mesmo".
Em meus primeiros versos escrevi muito sobre meu pai, o culto infantil e juvenil do pai se expressou também no meu primeiro livro de versos.

Dezenas de lembranças vivas estão ligadas a meu pai. A par dos relatos de minha mãe, elas testemunharam ter sido ele um homem extremamente sociável e expansivo, amigo das improvisações e das mistificações inocentes. Ele concluiu uma faculdade operária tchuvache e ensinava língua russa e literatura numa escola. Sua sociabilidade não entrava em conflito com seu nomadismo: não conseguia trabalhar no mesmo povoado mais de dois ou três anos; deste modo, a minha primeira infância decorreu em diferentes povoados tchuvaches, tártaros e morduínos. Somente depois da morte de meu pai eu soube que, na juventude, ele se empolgara com a criação poética. Vários de seus poemas entraram em coletâneas tchuvaches.

 (...)
lembrava-me de como meu pai cantarolava com frequência aqueles versos de Púschkin: "A tempestade cobre o céu de treva [ ... ]" lembro-me também de que, ficando em casa sozinho, eu tinha medo do retrato de Gógol, pendurado acima do armário de livros.
(...)

Meu pai foi morto em combate em 1943, nas proximidades de Smolénsk.

(...)
Voltando da Carélia, residimos em nosso povoado, no sul da Tchuváchia. Havia ali duzentas casas, deixaram de voltar da guerra para lá perto de trezentos homens. Falando daqueles anos, eu não posso deixar de me referir ao trabalho penoso dos habitantes, à fome de 1946 e aos meus colegas de classe, muitos dos quais não conseguiram concluir o curso secundário.

No povoado havia poucos livros, logo eles estavam todos lidos. Lembro-me de um caso: pedi à direção do kolkhoz brochuras quando estivessem sobrando. Ficou- me na memória uma delas: instruções para o combate ao gorgulho nos depósitos. Era difícil também conseguir livros na sede do distrito, onde eu depois cursei a escola normal. Até o outono de 1958, eu não tinha lido nenhum poeta russo do século xx além de Maiakóvski.

Esses anos e os seguintes ligam-se em minha memória, viva e dramaticamente, até à dor, com a imagem de minha mãe. Sua morte prematura coincidiu com o período em que fui vítima de ataques violentos na imprensa e em manifestações verbais. Minha mãe era meu único amigo, que compreendia plenamente as razões pelas quais eu defendia tenazmente minha concepção do dever de criação.

O seu comportamento no cotidiano lembrava o aperfeiçoamento moral de um artista. A seriedade e o que havia de profundo em seu íntimo, a relação inquieta com tudo o que havia de vulgar e superficial destacavam-na dos demais, que me cercavam desde a infância.

O meu avô materno foi o último sacerdote pagão de nosso povoado, esta atribuição era transmitida por herança. Minha mãe conhecia bem os ritos pagãos, que eram recusados, mas não proibidos pela Igreja. Ela e sua irmã conheciam muitas orações e esconjuras pagãos, minha mãe os lia frequentemente a meu pedido.

(...)

Vou falar sucintamente sobre o período ulterior de minha vida, já mais próximo de nós. Ingressei em 1958 no instituto literário de Moscou.  (...) E, pensando no início de uma autoconsciência séria, eu sempre lembro em primeiro lugar de Mon coeur mis a nu (Meu Coração Desnudado) de Baudelaire e O Nascimento da Tragédia de Nietzsche.

Em 1956, eu conheci B. L. Pasternak, a relação amistosa comigo foi mantida pelo poeta até sua morte. Ao contrário de opiniões expressas frequentemente, tenho certeza de que a poética de Pasternak não exerceu influência sobre mim. E sobre a influência de sua personalidade, extraordinariamente forte e inesquecível, eu só poderia falar depois de me preparar como criador. A estrutura dos meus versos da juventude está ligada com a produção da mocidade de Maiakóvski.

Para caracterizar meus versos desse período, vou transcrever um trecho do prefácio que escrevi para eles mais tarde:

"Nos últimos anos, pensando na criação poética em termos de desenvolvimento dos recursos poéticos, adivinhando a diferença entre os que constroem e os que refletem, eu não procurei voltar aos meus primeiros versos. Refletiram-se neles aqueles traços de juventude que, numa idade mais madura, começam a parecer perniciosos para a arte. Acrescentou-se algo pessoal ao romantismo inerente aos versos juvenis: o trabalho com o verso aparecia para mim, antes de tudo, como a obtenção de material poético. O olhar de fora sobre a língua russa, que me ajudou nos primeiros tempos, tinha que desaparecer.
Eu escrevo em russo desde 1960. O primeiro leitor que aprovou os meus textos foi Nazim Hikmet, que já me havia aconselhado, assim como Pasternak, a escrever nessa língua".

(Escrito em russo para a revista tcheca Svet Sovetu)

O Povo como Templo

e as almas que nem velas se acendem uma a outra

Aldeia de Romáchkovo
6 de janeiro de 2002, véspera de Natal

ah, vai mais um,
porque fiquei de fato arrebatado:

Jardim-Tristeza

é
(talvez)
o vento
que inclina – tão leve
(para a morte)
o coração

1994

(Tradução: Jerusa Pires Ferreira

...ooo0ooo...

segunda-feira, 17 de maio de 2021

NACIONALIDADE TCHUVACHE: UM POETA E SEU TRADUTOR EM HOMENAGEM (Parte I)

 

Tchuvache: nacionalidade de um povo pouco numeroso da região do Volga, República da Chuváchia, região sudoeste da Rússia,

Poeta tchuvache: Guenádi Aigui (1934-2006)

Tradutor: Boris Schnaiderman (1917-2016)

Isso não é um blog de curiosidades, amplia-se em relações de informação e significados pessoais. Principalmente porque hoje, 17 de maio de 2021, seria o aniversário do Boris, meu mestre e amigo, do qual muito “herdei” da intelectual que, afinal, sou.

Queria algo especial para publicar sobre ele, na página do grupo Boris Schnaiderman, que criei no Facebook, desde dezembro de 2010, hoje com 343 membros. Fico feliz com a participação, gente que, sinto, também se conecta na admiração pelo professor e pela pessoa de Boris. E espero que os leitores deste blog também possam conhecer mais sobre ele e seu legado. A gente vai pincelando aqui e ali referências e encontros.

Entre as numerosas publicações de Boris, encontrei o que procurava. Um poema a ele dedicado por Guenádi Aigui, o poeta de nacionalidade tchuvache, ambos silenciados, assim como, vejo, também o Haroldo de Campos, o amigo poeta, parceiro na tradução.


Leio, releio, penso nesta “rosa do silêncio”... O que teria motivado o poeta para esta imagem? O que eu, leitora, reflito destas imagens, além do momento e do lugar da escrita, uma leitura de hoje, no século XXI, num país tomado por uma doença que avança, arrefecida na espera,  uma poesia que nos dilacera “qual impotência de pássaro”?

...ooo0ooo...

Guenádi Aigui nasceu em 1934, de nacionalidade tchuvache, República da Chuváchia, região sudoeste da Rússia. Começou a escrever poesia em 1958 originalmente em tchuvache, traduzindo pessoalmente seus poemas para o russo, língua na qual igualmente escrevia seus poemas.

Devido às diretrizes da política soviética para a literatura, sua poesia acabou sendo ignorada durante muito tempo em seu próprio país, porém circulava em traduções húngaras, polonesas, sérvias, tchecas e brasileira, graças ao esforço de Boris Schnaiderman, em parceria com Haroldo e Augusto de Campos. Somente após a abertura da União Soviética promovida por Mikhail Gorbachev, a Glasnost, passou a ser reconhecido e lido por seus compatriotas.

É possível ler alguns de seus poemas na imprescindível Antologia Poesia Russa Moderna. E lembrar do Boris escrevendo esta dedicatória que muito justifica minhas memórias e as dele.


  
 

sexta-feira, 30 de abril de 2021

ANTÔNIO TORRES – UM AMIGO EM SUPERLATIVO

Recebi um convite para dar um depoimento em vídeo sobre Antônio Torres, escritor, que será entrevistado ao vivo em programa do professor Marcelo Batalha, dia 10 de maio de 21. O que mais me motivou a aceitar é que foi o próprio Antônio Torres quem me indicou para dar o depoimento, segundo o produtor do programa, que entrevista e divulga escritores.


Antes de gravar o vídeo, junto detalhes, leituras, fotos e escrevo. Objetivo ampliado: publicar no meu blog; ativá-lo no último dia do mês de abril e não falhar na postagem mensal.



Antônio Torres

Antônio Torres, esse baiano nascido em 1940 no Junco, hoje cidade com o nome de Sátiro Dias, perto de Alagoinhas e não muito longe de Feira de Santana, assim escreveu para mim e se descreveu nas dedicatórias de seus livros:

“...com admiração e afeto, do velho escriba...”

“Com o carinho deste seu mais novo velho aluno...”

“...que maravilha conhecer você. Beijos afetuosos...”

“Minha mais nova velha amiga, com a consideração e o apreço deste escrevinhador.”

 

Essa gentileza, a meiguice, a simplicidade de Antônio Torres me cativaram. Até hoje me chama de caríssima ou ilustríssima... coisa recente, mas desde que fazia o “Poesia aos domingos”, enviando um poema (por 10 anos o fiz), somos amigos em trocas de mensagens, antenados no desfrutar desta paixão pela literatura, pela arte.

 

Antônio Torres confessa que queria ser Castro Alves quando criança, mas foi aos 20 anos que chega em São Paulo, onde foi chefe de reportagem de esportes do jornal “Última Hora”, depois redator de publicidade, tendo trabalhado em algumas das principais agências do país, tanto em São Paulo, como no Rio de Janeiro. Estreou na literatura em 1972, com o romance Um cão uivando para a Lua, considerado pela crítica a revelação daquele ano. Quase 20 livros publicados em editoras como a Record, a Ática, a Companhia das Letras, em décadas de afirmação. Geralmente a crítica destaca a trilogia formada por Essa terra (1976), O cachorro e o lobo (1997) e Pelo fundo da agulha (2006).

 

Detalhes biográficos complementam a trajetória de sucesso do escrevinhador.  Em 1998, foi condecorado pelo governo francês como Chevalier des Arts et des Lettres por seus livros traduzidos na França. Dois anos depois, teve o reconhecimento nacional ao receber o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.

 

Antônio Torres foi também um dos ganhadores do Prêmio Jabuti de 2007, com o romance Pelo fundo da agulha. Seus livros têm tido várias edições no Brasil e traduções em muitos países (Argentina, Cuba, Estados Unidos, França, Espanha, Alemanha, Itália, Holanda, Inglaterra e Israel). O romance Essa terra está em vias de tradução – ou já foi traduzido - na Bulgária, Albânia e Vietnã.

 

De 1999 a 2005, foi Escritor Visitante da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – quando ministrava oficinas literárias, realizava aulas inaugurais e proferia palestras no campus do Maracanã, da Faculdade de Formação de Professores – UERJ de São Gonçalo – e da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense – UERJ de Duque de Caxias. Pertence também à Academia de Letras da Bahia, na qual ocupa a Cadeira 9, sucedendo a João Ubaldo Ribeiro. É também membro da Academia Petropolitana de Letras, e sócio-correspondente lusófono da Academia de Ciências de Lisboa.

 

Mas, sem dúvidas, sua consagração definitiva se deve ao fato de ter sido eleito, em 7 de novembro de 2013, para Academia Brasileira de Letras, cadeira 23, cujo patrono é José de Alencar. Merecido prêmio, reconhecido pelo seu talento artístico.

 

Antônio Torres é, sobretudo, lembrado pelo romance Essa Terra, uma alegoria do sertão contemporâneo, uma obra muito além de possíveis clichês ou estereótipos. O nômade Totonhim, como o autor também foi chamado, vai e volta em um sertão que se constrói como referência ficcional, pois nele interagem pessoas, cantos e recantos. De vida e de afetos. Linguagem que se refaz, como metáfora do mundo.


Pessoalmente, Antônio Torres e eu, só nos conhecemos no Clisertão - Congresso do Livro, Leitura e Literatura no Sertão - em Petrolina, PE, 2012, quando fomos homenageados. E fato significativo aconteceu quando fui mediadora na mesa entre Antônio Torres e Raimundo Carrero, então se recuperando de um AVC. O debate sobre o sertão mítico e contemporâneo foi revelador. Na plateia, Ariano Suassuna deu também um depoimento bastante emotivo, um episódio memorável para todos os presentes.


https://www.youtube.com/watch?v=bQqudr8youw

4 minutos inolvidáveis... vale a pena assistir e comprovar.


Mas, entre sua obra numerosa, quero citar uma delas com um diferencial marcante: Carta ao Bispo, cuja primeira edição foi de 1979. A ideia do livro partiu de um fato singular, um mistério e um suspense do qual Antônio Torres conseguiu montar uma ficção intrigante, sem recursos fáceis ou uma lógica catalizadora para uma “explicação possível”. O fato: uma carta deixada para o bispo de Juazeiro de um suicida, que se matou no interior da diocese. Fato real, chocante, porque estava de casamento marcado e o teor da carta jamais foi revelado.

Escreve Antônio, no início do livro:

“Agora ele está só, tão desgraçadamente só quanto no dia em que nasceu. Mas agora ele dispensa a parteira e já não precisa mais berrar ao mundo que está só.

É como se você finalmente pudesse reunir todos os seus pedaços deixados pelas estradas, para recompor-se com as suas próprias mãos: mesmo que sua carne já tenha sido servida aos abutres, ainda assim você irá agarrar-se à sua ossada, irá defendê-la junta por junta, até lá, debaixo da terra, por debaixo do chão.

Este é o instante: mais só do que nunca, Gil nunca esteve tão completo. E no entanto ele está se preparando para morrer, o que é bastante diferente de estar se despedindo da vida. Pura e simplesmente isto: Gil quer morrer. E vai para a morte como se fosse para o altar, levando em seus braços a rainha da boca da noite.”

 

Seria preciso ler o livro todo para se dar conta do estilo e dos procedimentos narrativos usados por Antônio Torres.  Mais do que um exemplo de “discurso indireto livre”, o escritor trabalha com vozes e consciências diversas, deixando para o leitor sua inquietude e a do próprio personagem. O posfácio da 3ª edição de Carta ao Bispo, pela Editora Record, publica a apreciação de Caio Fernando Abreu, da qual destaco: “Perdedor da vida, resta a Gil a vitória, ou pelo menos a escolha, da própria morte. Ao autor, por outro lado, segundo a epígrafe de Nietsche, resta apenas arte, para “não morrer de verdade”. Essa arte, em Antônio Torres, é frequentemente atingida, em cheio, através da palavra escrita.”

 

Questionado sobre a relação entre a obra e a vida pessoal, Antônio deixa claro que a linguagem literária é representação, quando esclarece esse fazer: “Um ponto de partida: um caso real que me contam, uma lembrança de um rosto, de uma voz, de uma situação que me marcou. Mas o começo depende da primeira frase. Ela é que vai dar o tom do texto, e puxar a fabulação.”

 

Antônio Torres disse uma vez que temos autores de mais e leitores de menos... O leitor contemporâneo sempre será incompleto, mas a motivação para nossas opções de leituras são também rescaldo de uma oferta que faz sentido para nossas vidas. Por isso lemos, por isso escolho autores como Antônio Torres.

 

Elisabet Gonçalves Moreira

 

Petrolina 30 de abril de 2021.



sábado, 27 de março de 2021

SOLO PARA VIALEJO: o que nele vejo

 

'Solo para vialejo', de Cida Pedrosa, é eleito livro do ano no Prêmio Jabuti — Foto: Divulgação/ Prêmio Jabuti

Pois é, a alegria de minha amiga Cida Pedrosa nesta bela foto, junto à motivadora capa de seu livro "Solo para Vialejo", editado pela CEPE, Companhia Editora de Pernambuco, Recife, 2019, também nos trouxe muito júbilo. Fiz esta crônica em janeiro de 2021 que divulguei no FB, mas, neste blog, creio que duplico e replico o registro. 

 Solo para Vialejo: o que nele vejo

 Vejo uma banda de um interior do nordeste que ainda subsiste, resiste.

A jazz band da capa do livro de Cida Pedrosa, em silêncio, nos faz viajar pelos caminhos da memória dela e de nossos encontros na juventude de uma era... Era uma vez...

Ninguém dizia “jéz”, nessa aculturação linguística que nos traiu no que poderia ter sido uma aproximação autêntica de origens simbólicas. Jazz nesse a que ressoa, jaz o canto...

Bodocó, essa terra de vogal forte a que Drummond chamou a atenção, nestas vastidões de um sertão mal conhecido, entre Orocó, Cabrobó e índios cariris tapuias, negros, pardos, brancos mal assimilados, é uma referência de poesia. Luiz Gonzaga cantou e ressoa...

 “Quando eu vim do sertão
Seu moço, do meu Bodocó
A malota era um saco
E o cadeado era um nó”

Cida relembra sua cidade como ela mesma, cores e canções. Nos cafundó ou sob outros olhares na festa de casamento da filha do coronel Antônio Bento, João do Valle também lembrou que “Neste dia, Bodocó faltou pouco pra virar”... Sei que Maurício Ferreira relembra Ouricuri em suas crônicas de “meu tipo inesquecível” mas é um amálgama que produz em mim, paulista do interior, agora nestas margens do rio São Francisco, olhares que me reconduzem a origens de um século que também se foi...

Cida Pedrosa, amiga que tanto aprecia um estandarte de São João do carneirinho, que fiz há alguns anos (conseguiu reaver?!) me levou por caminhos que ela percorreu, recordou, poetizou... E os dela me levaram a perceber que temos em comum memórias, não de vialejos, mas de fatos e canções em que o rádio era o veículo de mídia possível num tempo sem precipitações em atropelos...

“o coreto

o fox dance

o salão

o palco

a banda e a moça na janela

a banda ensaiava no sobrado da praça

a praça da independência frevia

a praça rodava

a moça rodopiava e ardia”       (página 74)

 

Há textos tão poéticos, numa linguagem mista de prosa, narrativas que associamos também aos bêbados, mendigos que frequentavam nosso jardim, entrando pela garagem, ou nos cantos daquelas vendinhas encardidas e mal vistas na saída da cidade... quem não viu nem ouviu apagou da mente histórias como esta...

 

“sem dentes e de beiços murchos como sonny

Boy williamson ii ensaiava a gaita em noites de

lua cheia para espantar os maus espíritos e a

maliconia deixou o campo e foi perambular nos

becos da cidade onde entoava benditos e de vez

em quando aboiava com olhos perdidos perdeu a

mulher a roupa passada a ferro e o instrumento

entregou-se ao álcool e recebeu a alcunha de

belezinha ao morrer nem se lembrava mais que

um dia cantou para a moça da estrada boa noite

meu amor de waldick soriano.”                                          (página 85)

 

Cida nos faz lembrar, mulheres em formação, 

“sapato alto de verniz azul

 vestido longo rosa choque com guipir na pala

 perfume avon”

que continua nesta iniciação “primeira festa sem primeiro amor”...

 

Eu é que me lembro que dançar coladinho me fazia sentir uma pressa para ir ao banheiro, umidade inquietante em depois olhar para os rapazes e um desejo de beijos ardentes, como nos filmes em cinemascope...

 

Ah, Cida, quantas memórias tecidas ao longo de nossas vidas, nestes primeiros acordes em que acordamos para uma identidade possível, ser mulher.

 

“me encontro e te encontro me encontro e te

encontro me encontro e te encontro no som para

encontrar com deus na esquina e o diabo na

encruzilhada”

                                                               (página 116)

 

Um sertão “ser tão assim”... e só (um solo)

 

Muito mais haveria a se dizer sobre “Solo para Vialejo”, de Cida Pedrosa, prêmio Jabuti 2020, em que críticos paulistas viram o sertão e a solidão humanas nas memórias desta irrequieta falante declamadora poeta feminista repentista vereadora comunista batida pelas ondas do atlântico oceano no recife de um hoje em que estamos ou somos o retrato de nossa migração, de nossas mestiçagens.

 

Fica aqui meu restrito olhar sobre nós mulheres e o sertão de Cida que moldou seu cenário de poeta e sensibilidades. A banda que resiste e subsiste pela poesia.

 

Vivendo tempos pandêmicos de isolamento presencial, de focinheiras limitando nossa respiração, mas abrindo o peito para demonstrações de carinho. Obrigada por sempre ter me prestigiado, amada amiga, abraços destas margens do rio São Francisco.

 

Elisabet Gonçalves Moreira, Petrolina, 4 de janeiro de 2021

(O livro "Solo para Vialejo", de Cida Pedrosa, está à venda no site da CEPE e na Amazon.com)

sexta-feira, 12 de março de 2021

Sincronicidade: encontros com uma amiga russa (Parte I)

 

Sincronicidade vista além do clichê de que nada é por acaso... coincidências que nos acompanham; momentos, revelações, epifanias...

“Sincronicidade é um conceito desenvolvido por Carl Gustav Jung para definir acontecimentos que se relacionam não por relação causal e sim por relação de significado. Desta forma, é necessário que consideremos os eventos sincronísticos não relacionados com o princípio da causalidade, mas por terem um significado igual ou semelhante. A sincronicidade é também referida por Jung de "coincidência significativa". (Wikipédia)

Então, é por aí que sigo...

Há muito venho rememorando exemplos e procurando me informar. Não sou psicóloga e nem vou entrar em discussão pró ou contra Jung. Foram os encontros com minha amiga russa, Klara Gourianova, recentemente falecida, que me incentivaram também para essa escrita, uma homenagem pelos significados que essa amizade representou. Assim, espero que sua família compreenda...

Conto e registro.

Situando: em 1972 saí de um apartamento quitinete na Bela Vista, praticamente centro de São Paulo, e mudei, com o marido e o filho de um ano, para o bairro de Veleiros, zona sul de São Paulo, depois de Santo Amaro. Uma tranquilidade de final de linha de ônibus, de pequenas casas residenciais com muro e jardim.

Fazia o curso de Letras/Russo na USP. Acho que foi no mercadinho do bairro que me encontrei com Klara Gourianova em vez primeira. Não me lembro de detalhes, talvez estivesse com o livro de russo ou alguma frase foi proferida; sei que deveríamos nos encontrar ali para eu treinar o incipiente aprendizado.

Ela me convidou para ir a sua casa e lá estive várias vezes, em rua não muito distante. E conheci seu marido, o pintor Octávio Araújo, em seu ateliê. Sempre gostei de desenhar, mas poder apreciar o trabalho de um verdadeiro artista foi um acontecimento especial. A própria Klara me convidou para observar Otávio pintando quando eu quisesse, mas “perdi” a oportunidade, pois tinha filho pequeno, trabalhava como professora primária e ainda fazia universidade. Poucas vezes pude observar.

Mas alguma coisa aprendi, pois o próprio Octávio era um intelectual notável. Falou de sua paixão por Rilke na literatura e Ingres na pintura, pesquisando sempre e recriando composições fascinantes para suas telas e gravuras. E a modelo quem era? Sua esposa Klara.

Eles eram um casal até insólito, dado que Octávio era negro, paulista do interior, e Klara, clara como seu nome, russa. Haviam se conhecido em Moscou, quando Octávio ganhara uma bolsa de estudos para a União Soviética em 1960, onde ficou por 8 anos.  Curiosa, fiz algumas perguntas e soube que Klara trabalhava com arte e tinha contatos com artistas estrangeiros. Klara me contou alguns detalhes de sua vida de casada, das dificuldades e até mesmo perseguição porque o regime soviético via com maus olhos casamentos com estrangeiros, pois isso implicava numa saída futura do país e uma propaganda negativa.

Minhas ilusões e idealismo sobre o comunismo na URSS foram então apresentadas de um ponto de vista bem diferente para a jovem universitária na época. A própria vinda do casal para o Brasil não foi nada fácil, inclusive porque já tinham dois filhos, Kiril e Arinka.

Ganhei uma cópia desta belíssima e instigadora gravura. Disseram-me que nela havia um defeito... nunca vi. Ainda hoje ocupa um lugar de destaque em minha casa, algo valioso e especial, do qual muito me orgulho possuir.

“Cântico onírico em louvor de Nefertite”

Na parte inferior, podemos ler, manuscrito à lápis: P.A. V/V Litograv. “Cântico onírico em louvor de Nefertite” Octávio/74.

Pena que, ao fotografar, minha imagem fica refletida no vidro. Ainda tateio nos caminhos do digital e da tecnologia... Mas o título da obra, sugestivo e poético, diz muito do caminho artístico de Octávio. A simbologia e a perfeição dos desenhos e detalhes me instigam até hoje. Octávio Araújo (1926-2015) um grande pintor. Conheceu Portinari, pertenceu à geração de 47, era amigo de Marcelo Grasman, gravador de renome nas artes brasileiras. Pude ver, ainda em processo, alguns dos mais belos quadros de Octávio. Geralmente de grandes proporções, encomendas de milionários ou empresas paulistas.

E eu me divertia muito com isso, brincando com Klara, pois ela, às vezes, ficava impaciente com a demora de Octávio para finalizar suas obras, já que tinha as contas a pagar em sua realidade burguesa... Mas, eu pressenti, olha Klara, um dia você ainda vai morar no Morumbi, o bairro dos ricos paulistas. Não sei se isso realmente aconteceu, mas ela se mudou de Veleiros mais tarde.

Klara também fazia tapeçaria de tear. Trabalho muito lindo que nunca me atrevi a fazer. Pelo meu interesse com bordados e outros trabalhos manuais ela me deu uma coleção maravilhosa de motivos. Inspiração de outras terras...


Em 1976, me mudei para Petrolina, em Pernambuco. Mantivemos uma correspondência, mas, lamento, perdi suas longas cartas. Acredito que foi nessa época que ela trouxe para o Brasil sua irmã, Elena, juntamente com o filho pequeno. Da correspondência, restaram duas fotos e algo que muito me marcou. Elena trouxe um casal de belos galgos russos pois pretendia vender seus filhotes e garantir uma renda.


Casal de galgos russos no Brasil


Arinka e seu primo com um dos cães. Arinka agora me lembrou: “essa da foto é a fêmea, Lanka. Ela teve uma vida muito curta, faleceu de osteosarcoma antes de completar 1 anos de idade. Foi uma comoção geral, era muito linda... O casal de galgos veio do canil real, os dois eram descendentes diretos dos cães imperiais.” O garoto é Vadim Nikitin, hoje ator, tradutor e encenador.

Pausa.

O distanciamento e uma grande mudança em minha vida, agora com duas filhas, terminando de escrever a monografia do Mestrado, dando aulas na Faculdade de Petrolina, me afastaram de muitas amizades, de colegas uspianos e de vizinhos.

Certo dia, assistindo ao noticiário na TV, quem eu vejo acompanhando uma comitiva russa em visita ao Brasil? Sim, Klara Gourianova, reconheci imediatamente, atuando como intérprete. Foi muita emoção e é disso que guarda minha memória, olvidando outros detalhes. Sim, Klara atuou como intérprete em várias ocasiões, trabalhando para o Itamaraty.

Pausa.

Vez em quando viajava para São Paulo, pois minha mãe morava na cidade, assim como alguns de meus irmãos ou, por outros motivos, passava por lá. E uma visita fundamental era ir à casa de Boris Schnaiderman, meu mestre e meu amigo de muitas décadas. 

Boris havia se casado com Jerusa e me convidou para tomar um chá em seu apartamento, avisando que haveria também outra pessoa convidada.  Nossa, quem estava lá? Klara Gourianova! Foi uma alegria enorme. Comemos do bolo de casamento, ou o bolo da noiva, como brincava a sorridente Jerusa. Isso foi em 1986.

Boris Schnaiderman, Clara Gourianova, Elisabet e Jerusa Pires Ferreira. 1986, São Paulo.

Acho que foi até indelicadeza nossa, mas Clara e eu conversamos muito, sobre nossas vidas, filhos, trabalho. Bom, nem tudo deve ser colocado aqui, mas há detalhes que guardo como referências até mesmo de um modo de encarar o mundo, mais crítico e mais aberto. Só ficamos nesta conversa e neste inesperado encontro. Outros rumos tomamos, sem encruzilhadas possíveis.

Pausa.

Século XXI, outubro de 2017, Referências indiretas me levam a mais descobertas e encontros(des)... Pela TV, no Canal Brasil, zapeando sem qualquer indicação (sincronia?), assisto ao filme Anna K. do artista plástico José Roberto Aguilar, de 2015. Levei um susto quando se destaca o nome de Boris Schnaiderman, como ator. Na verdade, Boris é apenas citado em uma das falas e há uma gravação em off dele lendo um poema de Púskin, logo no início do filme. No geral, depois, ficamos sabendo que Boris foi a grande referência para a realização desse filme, dado seu comprometimento e divulgação da literatura russa no Brasil.

O filme gira em torno de Joana, mulher que sofre de dupla personalidade e pensa ser Anna Karênina, personagem do romance de Leão Tolstói. A personagem quer aprender russo e adorei lembrar de minhas aulas, ainda no final dos anos 60. O professor-personagem, soube depois, é Vadim Nikitin e aparece Elena Nikitina, mãe de Vadim na vida real, também como professora de russo.

Isso me intrigou... pesquisei sobre o filme, sobre o lançamento e encontrei no FaceBook o perfil de Elena Nikitina e resolvi escrever  para ela. "Gostei muito do filme, da produção. Mas, por favor, sua mãe ou seu pai é parente de Clara Gourianova? Fui vizinha de Clara há muitos anos em São Paulo e perdi o contato. Agradeço sua resposta.   9 de dezembro de 2020”.

Sim, a partir de então, via o nome de Klara, grafado como Klara. E uma resposta constrangedora: “Elisabet Moreira, boa tarde! Sou Elena Nikitina, irmã da Klara Gurianova. Ela está no hospital agora. Fraturou o fêmur. Vai ser operada na sexta feira colocando prótese. Ela tem 88 anos e no momento está muito debilitada. Vamos esperar como corre a operação e a recuperação dela.”


Klara Gournianova faleceu em 7 de janeiro de 2021.



Pausa


Sincronicidade: encontros com uma amiga russa (Parte II)

 

No perfil de Arinka Araújo, encontro uma doce caracterização de Clara Gourianova.

“Russa guerreira, lutadora, passou fome na guerra, tirou do próprio prato para dar de comer aos filhos, já no Brasil, recomeçando a vida! Aqui vai minha singela homenagem à menina que virou "mãe" aos 8 anos, para cuidar da irmã recém-nascida enquanto meu avô lutava na 2ª guerra e minha avó tinha que trabalhar.
Mãezinha querida, Deus me abençoou quando me deu a oportunidade de ser sua filha! (...) Te amo eternamente!”

Arinka Araújo (página FB) em 11 de maio de 2014

Klara Gourianova (1932-2021) Foto que ela usou no seu perfil do FaceBook

Klara, mulher, retratada em belas alegorias nas obras de seu marido, Octávio Araújo.

Pitonisa, óleo sobre tela de Octávio Araújo. 1975

Neste pandêmico ano de 2021 é que venho a saber mais da obra de Klara Gourianova como tradutora de obras da literatura russa. Já havia lido alguns contos traduzidos por ela, mas não me atinara para esse lado profissional que assumira há alguns anos.

Li uma opinião bem arguta de Klara, no jornal Folha de Londrina, de agosto de 2003, justificando o interesse pela literatura russa dos leitores brasileiros. Segundo ela as razões para esse interesse não são novas, “vêm do tempo em que o mundo comunista era fechado e “um enigma”, tanto para os que defendiam a sua ideologia quanto pelos que a atacavam – mas teriam se fortalecido com o aumento do intercâmbio entre os países a partir da Perestroika, no fim dos anos 1980.” “Além disso, há muitas semelhanças entre os dois países: geográficas, demográficas e econômicas. Rússia e Brasil são ricos e pobres, ao mesmo tempo.”

Outra entrevista, em 2010, publicada no jornal Folha de São Paulo, perguntada sobre quantas obras traduzira, ela respondeu: “Umas 25. Só traduzo diretamente do russo, que é minha língua materna.”

De Dostoiévski, Klara traduziu "Humilhados e Ofendidos" e "A Aldeia de Stepântchikov e Seus Habitantes", além de obras de Púchkin, Tolstói, Tchekov, Gógol, Gorki, Turguêniev, M. Aguêiev, “e outros  (autores) que não estão no domínio público, mas traduzo para mim, porque gosto.” Interessante relacionar que, na entrevista citada anteriormente, ela disse ter vontade de traduzir Clarice Lispector e Zélia Gattai para o russo.

“Não vou dizer que traduzir é fácil, ao contrário, sempre surgem dificuldades, e é claro que recorro a dicionários e todo tipo de consultas que achar necessário.” Ela respeitava, sobretudo, o estilo de cada autor, como uma obrigação do tradutor.  Em último caso, colocava uma nota explicativa. Não é difícil encontrar obras traduzidas por Klara nos catálogos de muitas editoras. 

Intelectual comprometida com seu ofício, soube caracterizar a literatura russa clássica e a contemporânea.  “A clássica é mais universal em todos os sentidos, já a contemporânea, principalmente do período soviético, é mais voltada para a vida e os problemas do país que três vezes mudou bruscamente de regime, sofreu duas revoluções e duas guerras --uma civil e outra contra os alemães, ambas sangrentas, o terror stalinista, os campos de concentração... Falo da literatura, não do "realismo socialista" que não considero como tal. Além disso, as novas ondas e tendências que ocorreram na literatura, nas artes e na música no mundo inteiro, não deixaram de atingir a literatura russa contemporânea.”

Pausa final.

Não posso mais ter a presença de Clara (Klara) Gourianova e trocar informações, livros, saberes, mas, acredito, nestes textos, a memória de minha amiga pôde ser revivida. Parti em busca de Clara e a encontrei...

 


Petrolina, primeiro dia do mês de março de 2021.

https://www1.folha.uol.com.br/folha/livrariadafolha/776099-dostoievski-nao-e-um-classico-e-sim-um-maldito-diz-vadim-nikitin-tradutor-do-autor.shtml

https://www.folhadelondrina.com.br/folha-2/literatura---invasao-russa-nas-prateleiras-457873.html