Recuperamos o quadro, dei de
presente para ela e redigi as “explicações” que agora apresento. Curiosamente,
ela havia criado há pouco tempo um pequeno vídeo sobre a parábola bíblica da
ovelha perdida. Uma coisa leva a outra, mas antes vamos ao cartaz, cuja
estética já chama a atenção. Ele está em
francês, com o título Passion de Bergers
(Paixão de Pastores), trazendo informações sutis: uma carta escrita à mão como
fundo, desenhos como rabiscos e a fotografia imponente de um típico pastor da
região, à direita. Aliás, esse lugar do pastor demonstra que o teor da carta é
a mensagem a que devemos dar mais atenção.
A exposição destaca o tema “Cloches et sonnailles: usages et fabrications” (Sinos e chocalhos: usos e fabricação), na parte inferior da foto.
Esta foto tirei do site: https://www.avasvalleedaoste.it/fr/esposizioni/passion-de-bergers/
Acessível também neste link: https://musees.isere.fr/expo/musee-dauphinois-passion-bergers-cloches-et-sonnailles
Com a ajuda de minha amiga francesa, Dominique Poudevigne, moradora de Saint Martin de Londres, na França, conseguimos transcrever a carta e fiz uma tradução literal.
PASSION DE BERGERS
ALPES et PROVENCE
A. GRAS (Drôme)
Feuillants par ses filles
Le 14 Juin 1946
Monsieur
Je vous serai obligé de bien
vouloir m'indiquer s'il vous serait possible de me livrer deux cloches de
troupeau chèvres dont le son une claire et l'autre grave pour et s'entendre
2500 à 2000 m à vol d'oiseau.
Il me serait agréable d'avoir
votre appréciation à ce sujet ainsi que le prix et votre mode de paiement, par
mandat, etc.
Dans l'attente veuillez agréer nos
respectueuses salutations.
AGras
Dimensions approximatives
Cloches et sonnailles: usages et fabrications
Eis a tradução literal do cartaz, o que pôde ser legível...
Paixão dos Pastores
Feuillants (pequena cidade onde mora o remetente da
carta)
ALPES e PROVENCE (regiões
da França)
A. GRAS (Subentende-se que
seja o nome de quem assina essa carta)
Drôme - refere-se ao código postal do
Departamento onde se situa Feuillands
14 de junho de 1946
(data da carta manuscrita)
Senhor,
Ficaria
gentilmente grato se fosse possível o senhor me entregar dois sinos para
rebanho de cabras, cujo som fosse um baixo e o outro grave para se ouvir, de 1.500 a 2.000 m em linha reta, um voo de pássaro.
Seria agradável para mim receber vossa apreciação
sobre este assunto, assim como o preço e o método de pagamento pela encomenda
etc.
À espera de seu contato, aceite nossas respeitosas
saudações.
A.Gras
Dimensões aproximadas (relativa ao pedido,
ao tamanho e à forma dos sinos. Observe que os desenhos, ligeiramente
rabiscados, reproduzem também os animais, cabras no caso, portando os chocalhos
no pescoço)
Sinos e chocalhos: usos e fabricação (nome
da exposição)
Há outras informações no cartaz: local, datas e horários da exposição e “carimbos” da responsabilidade oficial pelo evento.
O que se depreende desse cartaz e da exposição? Sobretudo, uma relação emotiva muito grande na chamada em destaque como “paixão” de pastores, a carta transcrita e o insólito do pedido, para dois sinos (que, no Brasil, também conhecemos como chocalhos, guizos ou cincerros) para que o som tivesse longo alcance como o voo de um pássaro. Ora, isso faz parte de um sistema de signos comunicativos e culturais bastante antigo das atividades pastoris, em vários tipos de rebanho.
Esse fator é destacado na apresentação da exposição. Veja na tradução no link dado. No link também constam algumas fotos do acervo.
Exposição itinerante.
Os sinos e os guizos
(chocalhos) estão intimamente ligados à pecuária. Acompanham a vida do rebanho,
dão ritmo a sua vida e auxiliam no pastoreio e na condução dos animais, mas
também são o orgulho do pastor, sendo os mais belos reservados para a
transumância. Ele os escolhe um a um de acordo com a "música" que
deseja extrair do rebanho. Esta exposição evoca a paixão dos pastores pelos
sinos e guizos que ressoam com seus rebanhos,
Desde sua fabricação,
passando por seus usos práticos e simbólicos, do Val d´Aran ao Vale d´Aosta,
passando pela Provença e o Vercors, a exposição convida você a descobrir esses
objetos particulares, reflexos de um mundo e de uma cultura.
Tive a oportunidade de ver essa exposição em Saint Martin
de Londres, perto de Montpellier, sul da França, em setembro de 1992. Na
ocasião, trouxe a ideia de fazer uma exposição semelhante, aqui em Petrolina,
pesquisando nossa realidade e o costume. Eu tenho pronta, e já apresentei em
várias ocasiões, uma pesquisa sobre os ferros de marcar boi e esse estudo poderia
complementar algo que está em processo.
No sistema de signos que sustenta o pastoreio, como bem observou uma amiga, todos operam como dispositivos de identificação e localização, não importa a espécie. A função do chocalho é única, ecoa pelos ares, numa orquestração em que os ruídos da natureza são distintos e decodificados em regras simbólicas de identidade, de controle e de posse. Esse saber ancestral é realmente apaixonante.
Também pude ver, nas ruas medievais e apertadas de Saint Martin, a passagem dos animais, a transumância da região. Inesquecível! Centenas de animais, na ocasião eram ovelhas, enfeitadas com pompons coloridos, pastores e seus cães conduzindo o rebanho.
https://www.lamarseillaise.fr/societe/sur-l-aigoual-la-fete-de-la-transhumance-JE11377961
Durante o verão, os
pastores levam milhares de ovelhas dos vales mais quentes da Provence para os
altos pastos alpinos, um processo fundamental para o manejo da vegetação e para a diversidade de queijos locais. Isso é a transumância, uma atividade ainda trabalhosa e difícil pois há vários
perigos, desde terrenos íngremes a rios turbulentos, mas uma rotina que se mantém há séculos na região.
https://www.tourisme-couserans-pyrenees.com/en/le-couserans-coeur-des-pyrenees/les-traditions-vivantes/les-transhumances/
Atualmente, é possível visitar pastores nos Pirineus Franceses e na Provence para vivenciar o cotidiano deles, conhecer cães pastores e experimentar os produtos locais. Existem agências especializadas para esse tipo de turismo. A questão, como bem observou Catarine, é que o turista comum quer tirar uma foto de Paris, com a torre Eiffel no fundo, e divulgar seu “cartão postal”, como se conhecesse a França... bem, esse é outro assunto!
Aguardo, se possível, informações sobre essa prática no Brasil, principalmente aqui no Nordeste. Sinos e chocalhos, apesar de estarem em desuso ultimamente, já que o rebanho agora vive confinado em sua maioria, ainda tem registros próprios a serem estudados e interpretados como signos de um pertencimento que nos caracteriza social e culturalmente. "Tengo, lengo, tengo", no canto triste do aboio de Luiz Gonzaga nos faz relembrar o som do chocalho no pastoreio das quebradas do sertão...
Elisabet Gonçalves Moreira
elisabetmoreira2014@gmail.com
Petrolina, 3 de março de 2026





