Conquanto não seja tarefa das mais simples, a "leitura" das
relações intersígnicas dos ferros de marcar o gado levou-me a um dos possíveis
sentidos do processo aí utilizado.
No
decorrer desse trabalho, apresentado aos poucos nesse blog, vimos observando um processo dinâmico e geracional na
leitura dos ferros de marcar/marcas de ferrar, signos em transição.
Tomando como base uma das definições de Charles Sanders
Peirce:
"Um
signo, ou representamen, é aquilo que, sob certo aspecto ou modo,
representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria na mente dessa
pessoa um signo equivalente ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao signo
assim criado, denomino interpretante do primeiro signo." (PEIRCE, 1977)
A
semiose se dá numa relação triádica, indo além das "duas faces de uma
folha de papel" na proposição semiológica de forma e conteúdo de Saussure.
Segundo Peirce, a natureza do interpretante depende do modo de representação do
objeto no signo. Assim, o signo vai concentrar dimensões de um mesmo objeto e
desenvolver seus interpretantes que são por ele determinados e, ao mesmo tempo,
autodeterminantes por serem, igualmente, signos.
Desse
modo, o objeto imediato está contido no próprio modo de sua apresentação no
signo, e entra em correlação dinâmica para agir como força propulsora na mente
que interpreta e gera os três tipos de interpretantes do signo:
1 - Interpretante em nível
de primeiridade (interpretante imediato): provoca na mente interpretadora
apenas a captação sensível de sua qualidade, que é um signo;
2 - Interpretante em nível
de secundidade (interpretante dinâmico): provoca uma reação ativa da mente
interpretadora;
3 - Interpretante em nível
de terceiridade (interpretante final): provoca na mente interpretadora o
reconhecimento das normas estabelecidas pelo uso comum e desenvolvidas sob a
forma de leis que caracterizam convenções e hábitos.
Portanto, a descrição dos sistemas sígnicos, se dá, em síntese, também de acordo com três
pontos de vista:
"(a) do ponto de
vista das relações intersígnicas,ou seja, do ponto de vista das relações
que um signo qualquer mantém para com os demais signos pertencentes ao mesmo
enunciado. Seria o estudo da função sintática.
(b) do ponto de vista
das relações de um signo para com o seu objeto, ou melhor, relação do signo
enquanto veículo de informação para com o seu denotatum. Seria o
estudo da função semântica;
(c) do ponto de vista
das relacões do signo para com os seus usuários, quer dizer, relação do
signo com o remetente e o destinatário. Seria o estudo da função pragmática."
(Lopes, 1976)
Embora controvertida, até mesmo nos adeptos das teorias de Peirce e Morris, essa tripartição é que tem orientado, de modo geral, os estudos nesse campo. Evidentemente que estudos mais atualizados complementam o que aqui se coloca como ponto de partida. Não é intenção, nem poderia, esgotar assunto tão complexo.
Parece-me que autores interpretadores dessa teoria se esquecem, muitas vezes, da dinâmica desse processo e das relações entre esses pontos de vista. Num triângulo, afinal, temos também uma linha em geração contínua a partir de determinado ponto, no caso o próprio signo. Daí o perigo da estratificação ou hierarquização desses mesmos ângulos. Procedimentos mentais também dificilmente se esquematizam com rigidez.
Peirce
e Morris deixaram uma classificação dos signos que nos ajuda a entender a
complexidade da representação sígnica. Índices ou sinais não convencionais são
chamados signos naturais porque o relacionamento no processo de comunicação não
se dá entre pessoas, mas entre um índice da Natureza e o receptor-interpretador
desse sinal. Um exemplo corriqueiro é dado quando o céu fica carregado de
nuvens escuras e interpretamos como chuva iminente.
Entre
os signos culturais ou artificiais, temos o símbolo, parcialmente motivado, como
é o caso da cruz, símbolo do Cristianismo porque está associado ao martírio de
Cristo numa cruz. Outros signos artificiais são as tabuletas, apitos, fórmulas
e, é claro, os signos linguísticos ou verbais, cuja arbitrariedade é talvez o
fator que melhor os caracteriza. A palavra cão (canis, cane, chien, dog...)
não é o cão, mas é o nome comum dado ao animal, ou seja, o signo linguístico.
Finalmente
o ícone ou imagem, tido como um sinal não-sígnico por incluir uma relação
necessária entre a parte que expressa formalmente o conteúdo, o significante, e
o conteúdo expressado ou significado. Uma fotografia é um ícone. No sistema da língua
as onomatopeias são consideradas elementos icônicos.
É
verdade que isso demanda muito mais abrangência e particularização, porém a
intenção desse trabalho é outra.
Voltemos, portanto, a nosso ferro de marcar boi, animal e gente. Em fevereiro desse ano, como o título "Marcas de Ferrar (Parte I)" iniciei a publicação dessa pesquisa, nesse blog, ilustrando-a com esse ferro de marcar da primeira metade do século passado, índice motivador desse estudo. Um estudo que, esclareça-se mais uma vez, foi iniciado ainda na década de 80.
(Foto de Sílvia Nonata)
https://betcomtmudo.blogspot.com/2023/02/
Mesmo com base numa tradição secular, o ferro de marcar não deixa
de ser um signo utilitário. Utiliza um
material que, embora num sistema de produção artesanal, requer seu operário:
ferro e ferreiro, mas com uma ética especial, de valores e normas que não se
enquadram no mero consumismo de nossos dias. E uma complexidade não menos
fascinante.
Sem classificar ainda nosso signo, vejamos o
funcionamento do processo, segundo a teoria vista:
·
Signo: o visual, o
desenho, a forma "ferrada" no animal;
· Objeto: a fazenda ou a
propriedade a que pertence o ferro, iniciais do dono, marca do dono;
· Interpretante: efeito que
gera o significado do objeto, mais reações a esse processo.
Em nível de primeiridade, o receptor configura as formas desse signo: letras em simetria ou um desenho especialmente criado.
Em nível de secundidade, a relação semântica, "símbolo" da posse: identifico o dono do animal marcado com esse ferro.
Em nível
de terceiridade: segundo minha cultura e interesses, posso ver apenas iniciais,
um desenho rústico ou um belo exemplo de artesanato ou a marca simbólica da violência,
da posse num sistema de posses, misto de misticismo, superstição, respeito.
Evidentemente que, em nível de primeiridade, da comparação de formas, do pensamento analógico, icônico por similaridade, temos sincronia e, em nível de terceiridade, de pensamento relacional, simbólico, temos diacronia. Embora sejam conceitos distintos, sincronia tem o objetivo, na linguística, de estudar a língua num momento específico e a diacronia o estudo da língua através do tempo. Ambas em inter-relação na dinâmica mesmo da cultura, pois se conjugam intimamente.
Utilizando
as palavras de Décio Pignatari, posso concluir:
"É
por esta razão que um ícone, repetido e organizado, se transforma em signagem,
em sistema de signos; é por esta razão que uma signagem ou um elemento dela,
isolada do sistema, reverte ao ícone, a uma possibilidade." (PIGNATARI,
1981)
0
ferro de marcar, que normalmente teria como função apenas identificar a rês ou animal
de patrão em outrora campos abertos, não cercados, cerca-se, no entanto, de uma
rede de interpretações sígnicas, muito maior que sua intenção primitiva.
Lembrando da canção Disparada, de Geraldo Vandré, de 1966, no auge dos protestos políticos contra a violência da ditadura militar no refrão:
“Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente”
Na
dinâmica da língua encontramos a expressão “Tá ferrado”, isto é, marcado,
frito, fudido, lascado, expressão da gíria que remete subliminarmente a
essa prática, principalmente quando aplicada ao ser humano. Inclusive, temos
exemplos nos BO policiais de extrema violência, quando maridos ou companheiros
“ferram” mulheres como “castigo” por suposta desobediência, deixando sua marca
pessoal para sempre, de macho dominante.
Metalinguagem,
o interpretante continua gerando significações. Afinal, a própria significação
tem como recurso a língua natural que lhe serve de fundo. 0 ferreiro, executor
e muitas vezes artista-criador, interage com o dono do ferro, criador usuário.
0 receptor, o vaqueiro, o ladrão de gado, os vizinhos, ou o pesquisador, ou
você, recebemos dessa marca agora invertida mais que uma leitura metonímica: uma
rede de inter-relações e de expectativas.
Na
memória coletiva e cultural temos um sistema de signos que modeliza o mundo
sertanejo sob a perspectiva de sua dinâmica social e fundiária: um sistema,
sobretudo, de posse e de não posse. Um símbolo de Poder, “a ferro e fogo” como
se enfatizou, mas que se desdobra em outras possibilidades e linguagens.
Pierre
Bourdieu, na seção “As produções simbólicas como instrumentos de dominação” em
seu livro O Poder Simbólico, sintetiza:
“A
cultura dominante contribui para a integração real da classe dominante (assegurando
uma comunicação imediata entre todos os seus membros e distinguindo-os das
outras classes); para a integração fictícia da sociedade no seu conjunto,
portanto, à desmobilização (falsa consciência) das classes dominadas; para a
legitimação da ordem estabelecida por meio do estabelecimento das distinções
(hierarquias) e para a legitimação dessas distinções.”[1]
Os
símbolos são parte desse modo de representação da realidade e,
consequentemente, do mundo de que faz parte, pelo qual a cultura e seus valores
se expressam e se reafirmam através dos sistemas simbólicos.
Com
certa surpresa, pude constatar que a prática da ferra persiste, inclusive nas
imediações da represa de Sobradinho, entre Bahia e Pernambuco. Na segunda
década do século XXI, um vaqueiro ainda pode ser contratado para achar o boi
que vaga solto nas roças de sequeiro, gente de pouco criatório ou sem uma roça
própria, de um extrato social diferente dos grandes proprietários.
O
próprio gado, quando criado solto, revela seu estado animal, em que os bichos
certamente se reconhecem em cruzamentos livres. Aliás, há uma referência
preconceituosa a esse gado chamado de “pé duro”, sem raça definida. Um “pé
duro”, isto é, de cascos fortes, resistente ao maltrato do meio ambiente na
caatinga, das secas periódicas, no chamado regime de fundo de pasto pelos
sertanejos, mas ainda com valor no mercado periférico, doméstico, e dos que pouco
têm ou podem adquirir.[2]
Na
verdade, milhares de povos adotaram as orientações e mentalidade do poder
romano espalhado pelo Ocidente e, sobretudo das tradições ibéricas, durante o
período colonial após a tomada das Américas. Não há como conter a história de
uma violenta conquista construída e validada socialmente por suas instituições.
A marca do proprietário sempre simbolizou a insígnia do poder, da propriedade
privada, do respeito exigido e esperado, do sucesso pessoal e, adrede, suas
benesses sociais e políticas.
Petrolina, 2023 (refeito a partir do original de 1982)
Elisabet Gonçalves Moreira
Observação: Para finalizar esse estudo, vou publicar a Bibliografia utilizada, assim como as referências. Agradeço observações e comentários.
[1]
BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004,
p. 10.
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