Bet com t mudo

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BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

segunda-feira, 3 de outubro de 2022

O NARCISO QUE NOS HABITA


Todos queremos sair bem na foto... no automatismo dos celulares tiramos fotos e fotos, desencadeando cliques... sim, escolher a melhor foto, o melhor ângulo; esse é o atual recado mestre, seja em casa, seja na festa, seja no restaurante. E a revelação da escolha é feita na hora; apagamos sem culpas o que não é espelho. Caetano nos alertou há tempos...

Lembro de uma tia que estava sempre insatisfeita com suas fotos, achando que “saí horrível”... e era ela, tão somente ela. Aprendi a ser mais condescendente com minha imagem... sim, já saí mais bonita, mas, desse jeito, ainda sou eu. Ou fui...

Nas fotos selfies, há um deslocamento da pessoa para o aparelho. Ele é o foco, fazendo parte de um braço estendido. Momentos e fatos, até na intimidade do espelho do guarda-roupa, guarda-se também a imagem do que nos propusemos a mostrar, a compartilhar. Nada disso é novidade, apenas reitero o quanto Narciso - o mito - está presente em nosso reflexo idealizado. Ou no exibicionismo... Sim, o mundo nos cobra estarmos sempre bem, lindos e felizes.

Narciso na internet - Pawel Kuczynski

A Psicologia e sua irmã, a Psicanálise, tratam disso como possível reflexo doentio, mas se não nos amarmos, quem o fará? E lá vem auto-ajuda... A aceitação de si mesmo, nossa pluralidade, as metamorfoses por que passamos, mais do que representações: revelações.

Pintores consagrados, e outros nem tanto, também pintaram auto-retratos... Lembro dos vários auto-retratos de Van Gogh (35!)  onde cores e olhares se mesclam na intimidade deste conhecer. Tomo a lição de vida, mais do que a do mito. Ainda que pintar a si mesmo saia mais barato do que pagar a um modelo (ou a um artista), a complexidade não é facilitada. "As fotos se desvanecem muito antes de nós, enquanto os retratos pintados são algo que se sente, que fazemos com amor ou respeito pelo ser humano sendo retratado", declarou.

Mesmo quando se retratou após ter cortado sua orelha, num lance próximo ao final, Van Gogh traz essa lição para perto. "É difícil conhecer-se a si mesmo, mas também não é fácil pintar [seu próprio retrato]".


Retratos de Van Gogh (1853-1890)

 O primeiro é uma fotografia, a única que dele se conhece, ainda jovem. Os outros foram pintados e/ou desenhados por ele, já adulto e quase no final de sua vida.

O que é a realidade e o que é a representação? Fotografia é também subjetividade. Conhecemos Van Gogh não pela sua única foto, mas, sim, como ele se retratou, esse contraste do amarelo da barba ruiva e o azul em vários tons... Ele nos olha e procura nosso olhar, assim como se olhou...

Eu mesma, que gosto de desenhar e pintar retratos dos outros, com a facilidade de termos uma fotografia a nosso lado, desisti, pois, como minha tia, a maioria não gosta de como ali se vê... ou o outro a viu. Nem a técnica (ou a falta de talento) da pintura realista dá conta desta autocobrança. Mas eu tentei... nos limites do meu pouco talento. Corajosa sou neste momento em expor...

Positivo ou Negativo?    Primeira reflexão, óleo sobre tela, 42 x 54 cm, ano de 2005 

                                                                                    

Questionando – óleo sobre tela – colagem e uso de giz -40 x 50 cm - ano 2007


Tentando e testando...
Inacabada - lápis HB sobre papel - 2019 ?    Bet com chapéu – lápis de cor sobre tecido – 2016    Mini - óculos vermelhos – óleo sobre tela - 2016  Serena – lápis pastel sobre papel A4 – 2014  
    
                                              
        

Pensando se continuo... ainda não me completei.

...oooOooo...

Na busca de nós mesmas, a lição poética de Mário Quintana era tudo que eu desejaria.

 

MARIO QUINTANA – O AUTO RETRATO

No retrato que me faço
— traço a traço —
Às vezes me pinto nuvem,
Às vezes me pinto árvore…

Às vezes me pinto coisas
De que nem há mais lembrança…
Ou coisas que não existem
Mas que um dia existirão…

E, desta lida, em que busco
— pouco a pouco —
Minha eterna semelhança,

No final, que restará?
Um desenho de criança…
Corrigido por um louco!


Nota de rodapé: Editar fotos e textos neste blog não é fácil... desculpem, gostaria que ficassem melhor.

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

AVENTURAS NA SELVA (Parte II)

 

A motivação da parte I destas aventuras e histórias continua... não só neste blog, mas até numa pesquisa em andamento sobre os ferros de marcar o gado. Símbolos, mitos, leituras semióticas e afins...

E aqui reproduzo desenhos dos ferros dos Kadiwéus, nativos indígenas, povo originário, nos confins do Mato Grosso do Sul, copiados por Guido Boggiani, antropólogo entre outras atividades. E histórias, inferências e reflexões que nos arrebatam...


Desenhos e Ferros de marcar, usados como “siglas de reconhecimento” dos Kaduwéus, conforme figura 103, página 229, do livro “Os Caduveos” de Guido Boggiani (Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1975), Reprodução fac-similar da edição publicada pela Livraria Martins Editora, em 1945, como consta da Ficha Catalográfica.

Da “orelha” desse livro, uma apresentação inicial: “Sem pretensões literárias, como assevera o autor, Guido Boggiani redigiu, em 1894, a narrativa de uma viagem feita com escasso intuito de lucro e resultou num livro pitoresco, repleto das melhores observações sobre uma nação indígena entre diversas outras, mais ou menos perdida nos alagadiços entre o sul do Mato Grosso e o Paraguai.” (De Vivaldi Moreira, escritor mineiro, falecido).

Não concordo com a classificação de um livro “pitoresco”, pois vejo certo sentido depreciativo, já que o livro, embora tenha ressalvas etnográficas, principalmente no registro da língua ali falada, é uma obra fascinante. Mais do que informativa, com fotos e desenhos além de meramente ilustrações, a escrita de Boggiani, em primeira pessoa, diários de sua vida entre os Kaduvéos ou Caduveos, funciona e atrai como pequenos contos, fatos, opiniões e observações no cotidiano insólito dessa etnia, descendente dos lendários indígenas cavaleiros, os Guaicurus. Além do mais, esta edição se complementa com uma Introdução de Herbert Baldus e Prefácio de G.A. Colini, extremamente esclarecedoras sobre a vida e a obra de Boggiani, seu contexto histórico e antropológico.

Guido Boggiani

Guido Boggiani (1861-1902), italiano, faleceu com apenas 41 anos, assassinado por um indígena. As circunstâncias de sua morte, consequência de sua vida aventureira e destemida, são também elementos de uma história em que se mesclam desde o olhar de um antropólogo europeu ao mundo mágico e insólito dos indígenas em suas fronteiras, mitos e cotidiano. Foi como comerciante de couros de cervos do Pantanal, sua referência de contato com os nativos e habitantes da área, mas Boggiani era também pintor, aquarelista e retratista, carregando uma máquina fotográfica na transição entre um século e outro, escrevendo e registrando gente, paisagens, fauna e flora.

Mulher Kadiwéu do Rio Nabileque, Brasil. Foto da coleção Boggiani. Publicado em 1892/Dr. R. Lehmann-Nitsche. (https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Kadiweu_woman_1892.jpg)

Fantástica ou não, uma das hipóteses era o “medo” de que, em fotos e desenhos, se aprisionasse a alma do retratado. Tanto que Boggiani e seu acompanhante tiveram a cabeça decepada e a máquina fotográfica enterrada. Ainda que não estejam claras até hoje as motivações para sua morte, pois Guido Boggiani convivia com os nativos há tempos, o mito de que as câmeras roubavam a alma e a vontade dos retratados, foi popularizado após sua morte violenta.

Guido Boggiani ressaltou o gosto pela ornamentação desses indígenas, tanto no corpo, como nos objetos de uso pessoal, nas marcas dos animais de sua propriedade, como “siglas de reconhecimento”. E afirma “Há belíssimas e algumas delas parecem representar figuras humanas simbólicas. O caráter destas siglas é notabilíssimo e talvez um acurado estudo delas possa conduzir a interessantes descobertas.” (p. 228)

Sim, é isto mesmo, daí indica outras pistas. “Reproduzo aqui algumas das principais (...) e sobre alguns objetos estão reunidas em quantidade como se fossem caracteres de uma escrita.” O desafio é oportuno. Impossível não eleger o olhar semiótico, já caracterizado como “etnossemiótico”, em que podemos mergulhar, analisar e refletir as múltiplas camadas das condições de significação, sem o empirismo muitas vezes fortuito dessas ocorrências sígnicas.

Observar os desenhos é mesmo irresistível.  Lévi-Strauss ressaltou que, de todas as etnias indígenas brasileiras, são os índios Kadiwéu que apresentam uma das pinturas corporais mais bem elaborada, criativa e bonita. Desenhos que representam, inclusive, sua estratificação social, histórica e cultural.

Claro que já existem muitos trabalhos sobre essa etnia, além do reconhecimento por etnólogos, antropólogos como Levy Strauss e Darci Ribeiro, além do próprio Boggiani. Para mim, foi uma grande surpresa conhecer (mesmo através do acervo bibliográfico) e divulgar mais uma vez a beleza e importância estética e cultural dos Kadiwéus. Sem dúvidas, há ainda muito a ser pesquisado, tantas as possibilidades, nesse grande tecido intercultural que se nos apresenta, linhas e olhares em diálogo.



terça-feira, 26 de julho de 2022

AVENTURAS NA SELVA (Parte I)

 

“Livro destrincha obsessão humana por histórias”, texto de Helio Schwartsman, na Folha de São Paulo on line, de 24/7/22, me motivou a ler e escrever... Ou, pelo menos referendar algumas histórias que, nos últimos dias, me instigam a encontrar um receptor. Abro com esse despertar e relato depois o desdobrar possível em outras histórias.[1]

Sim, a humanidade sempre contou histórias e gostou disso. Signos verbais ou não, desde narrativas em desenhos nas paredes, lendas e mitos fazem parte do que somos, da cultura que nos pertence. O texto de Helio Schwartsman inicia com a questão, talvez tirada do livro ou de seu aporte de estilo. “Qual é a história mais antiga do mundo?” Provavelmente a façanha de perseguição a uma grande presa que termina nos céus, no mito da Caçada Cósmica.

O colunista nos informa então que essa história consta de "The Science of Storytelling" (a ciência de contar histórias), de Will Stor, na pretensão de ser um manual de composição literária, mas que, em sua opinião, é “uma obra cativante para quem apenas tenta entender o fascínio humano por mitos, histórias e até fofocas.”

Como não li o livro de Storr, fico com as inferências de H. Schwartsman, como o fato de que, ao nos envolvermos com as histórias, estas se tornam um veículo privilegiado de aprendizagem e persuasão. Enfim, um gosto pela ficção que faz parte de nossa realidade, no fato mesmo de sermos humanos.

E, agora, o meu gosto por estas leituras, viajando pelo imaginário como na figura a seguir. Acredito que você a tenha visto em algum livro de história do Brasil ou artigo didático. Ela sempre me encantou, seja pelo movimento, pelo insólito na maneira de montar e guerrear destes indígenas cavaleiros, histórias de um mundo que não vimos, urbanos que somos e estamos.

Mas, então, o desafio: que história você “monta” através dessa figura?


Ataque da cavalaria Guaicuru (Charge de cavalerie Gouaycourous) 1834 - Litogravura original de Jean Baptiste Debret (33 x 22 cm) 

Alguém me destacou até a beleza da tatuagem, mas é na narrativa subliminar conotada pelo galope dos cavalos, pela posição desses cavaleiros em que o próprio animal se torna um escudo, que a faz tão instigante e inusitada, pela inteligência e destreza de quem domina desse modo sua montaria.

A arma que carregam não é mais arco e flecha, agora uma lança com uma ponta de ferro, sem dúvida aumentando a eficácia no arremesso e no objetivo esperado. Não existe sela e, sim, uma pele de onça sobre uma espécie de tecido. Um tecido que também veste o cavaleiro, como se fora um calção. Há uma rédea na boca do animal, mas o cavaleiro o segura pela crina. Observa-se também o que parece um estribo, tipo um pedaço de pau, para apoiar o pé. A composição continua à direita, em outro plano figurativo, numa paisagem de fundo para esta perseguição de uma guerra entre serras e penhascos.

E que guerra seria essa? Ou guerras? Entre conquistas e inimigos tribais e, talvez, há quem lembre, uma guerra explícita, a Guerra do Paraguai, já que nela os Guaicurus atuaram. Como sua localização temporal, 1864-1870, está fora dos anos vivenciados por Debret, o mito da singularidade e valentia desses indígenas cavaleiros, nativos desta região “inóspita” e selvagem, já fazia parte do imaginário dos conquistadores. Muitas histórias então se espalhavam.

Jean-Baptiste Debret (1768-1848) foi um pintor, desenhista, decorador e professor francês. Integrou a Missão Artística Francesa que veio ao Brasil em 1816, em atendimento à solicitação do príncipe regente D. João. Aqui morou vários anos e seus desenhos, na linha neoclássica da época, registraram cenas, retratos e olhares de nosso país que constituem importante acervo para o conhecimento da realidade de então. Nunca esquecer, no entanto, que essa realidade era representada como a via e aprendera Debret, uma concepção pessoal e acadêmica de sua arte.

Por exemplo, esta cena dos Guaicurus cavaleiros. Claro que Debret jamais os vira em ação, mas concebeu a cena, certamente através de relatos e de uma perspectiva até mesmo ideológica. No entanto, conseguiu uma admirável expressão de dinamismo e de uma narrativa subentendida, de uma “selvageria” ambígua na caracterização desses guerreiros, uma tribo dos povos originários do Brasil colonial, de um mundo em que “civilizados” precisavam corajosamente conquistar, em sua ganância por terras e riquezas. Observei também o “olhar” tipicamente europeu no título dado à obra, no original de Debret, “charge de cavalerie”, uma reminiscência de quem também desenhou e pintou na guerra napoleônica, como consta de sua biografia.

Pesquisando, ficamos sabendo que os primeiros contatos dos antigos Mbayá-Guaikurus com cavalos aconteceram desde o século XVI. Por travarem inúmeras batalhas contra colonizadores europeus, rapidamente os indígenas se apossaram dos animais, domando-os e usando-os para garantir o seu domínio na região, incluindo outras tribos. Aliás, a organização social deste povo é também singular, já que os “cativos”, por exemplo, fazem parte de sua cultura, servindo lhes como trabalhadores e garantindo assim sua vida nômade e guerreira.

Segundo relato do padre jesuíta José Sánchez Labrador (1771-1776), que tentou evangelizá-los, "eles conhecem as enfermidades dos cavalos melhores que as suas próprias. Em seus animais, não usam selas nem estribos. Montam em pelo, e com um salto estão sobre eles".[2] Debret certamente teve que adaptar alguns adereços para o suporte da cena que idealizou. Selvagens sim – como a pele de onça – mas exímios cavaleiros.

“Acredita-se que os Mbayá-Guaikurus tiveram de 6 mil a 8 mil cavalos sob seu comando naquela época. O que se sabe, porém, é que a tropa foi bastante usada: só contra brasileiros e portugueses, os indígenas travaram intensas batalhas por mais de 70 anos, desde a década de 1720 à virada do século 19.” [3]

Mas é bom referendar uma história mais atual para quem quiser avançar, entender a situação contemporânea do povo Kadiwéu, descendente dos guaicurus. Conta-se que, no fim do século 19, foi o imperador Dom Pedro II quem lhes deu a terra onde vivem ainda hoje, na fronteira do Mato Grosso do Sul com o Paraguai. A concessão de uma gigantesca reserva seria uma recompensa pelo apoio de seus antepassados, durante a Guerra do Paraguai.

 

O fato é que estas terras nunca lhe foram concedidas e, por conta da guerra, eles quase desapareceram, os Kadiwéus foram aqueles que sobreviveram, hoje reduzidos a poucas centenas de indivíduos. Anotando: a grafia do nome Kadiwéu aparece em tantas variantes que é preciso tomar uma como referência. Imagino que a pronúncia também o seja, naquilo que é ouvido. Somente um antropólogo ou um linguista de boa cepa poderia nos indicar corretamente... e contar mais histórias.

Mas, pretendo ir além na motivação desta página. Na geração das pesquisas, nesse encadeamento bibliográfico que às vezes nos leva a outros caminhos, quis saber mais sobre os Kadiwéus, cuja história e arte é motivo de reconhecimento e estudos, por antropólogos, historiadores e artistas.

E, aí, vem a figura e outra história fascinante. Guido Boggiani e a arte dos Kadiwéus, para uma continuação...


 

terça-feira, 21 de junho de 2022

ACORDA JOÃO


Acorda João: não sei se acordei ou não, mas fiz um acordo com o santinho, esse São João menino, do carneirinho, que sempre me encantou e que se baseia na linda história – dentre as muitas histórias e lendas que se perdem na tradição dos tempos, reiventadas e ressignificadas em sua diversidade - de que o menino São João está sempre a dormir. Embora possa parecer contraditório, algumas histórias diziam que não se podia acordá-lo, senão o mundo se acabaria em fogo, mas outras dizem que, no tempo dos escravos, estes despejavam nos braseiros milho verde e raízes como cará e que os moços e moleques, pulando as fogueiras, gritavam: "Acorda, João!". Ao que muitos respondiam, cantando:

                                      "São João está dormindo,
                                        Não acorda não!
                                        Dê-lhe cravos, dê-lhe rosas
                                        E manjericão!"

Evidentemente que a cantiga "Capelinha de melão", conhecida até hoje, é uma variante destes versinhos. Pois bem, numa festa tão alegre, cheia de luzes e cores, eu quis acordar João, se não para conosco brincar, para revisitar algumas alegorias em desenhos e pinturas, como eu construí meu olhar sobre esta figura mítica, de cabelos cacheados e olhar melancólico... Desta representação que é sobretudo popular, como ela ficou no imaginário coletivo.

(São João do carneirinho – imagem de domínio público)

Recordando: em 2006, fiz minha primeira (e única) exposição individual de pintura com o nome Acorda João, no SESC de Petrolina, com o incentivo e a curadoria de Edineide Torres. Circunstâncias do entorno ajudaram nessa realização; havia o clima das festividades juninas e eu esperava mostrar meu trabalho, me dedicando bastante nesta prática. Além dos estudos e pesquisas que me motivaram e me motivam até hoje, retrabalho alguns itens, mas avisando que tenho um ensaio iniciado sobre este tema e que, espero, terminar ainda neste ano 22.

Justificando: desde criança, no século passado, morando no interior de São Paulo, pude acompanhar as festas juninas, seu aspecto religioso, as fogueiras, o levantar do mastro com os três santos: São João, Santo Antônio e São Pedro, acompanhado do espocar de muitos fogos. Esse era o momento alto da festa e eu adorava tudo isso. A figura de São João se destacava: uma linda criança, de rosto redondo e meigo, cabelos cacheados com um carneirinho no colo, bem diferente dos outros dois santos, representados como adultos. Minha memória de criança ficou marcada por esta festa e por aquele olhar do menino santo.

Morando em Petrolina, desde o ano de 1976, guardei, ao longo de muitos anos, a embalagem de uma caixa de fogos e mais dois cartazes de propaganda que tinham este São João menino, já com a intenção de, um dia, desenhá-lo e pintá-lo. Somente no final de 2004, tendo minhas primeiras aulas de pintura com Alberto Simões, pude finalmente pintar meu primeiro São João do carneirinho. Eu o fiz despretensiosamente para dar para minha cunhada, em cuja roça, chamada de Sítio São João, nome dado por seu falecido esposo também chamado João, passávamos a noite de 23 de junho para 24, com festas lindas, memoráveis, do outro lado do rio São Francisco, em Juazeiro da Bahia. Algumas amigas que viram o quadro, imediatamente também me pediram um São João do carneirinho.

Quem pinta ou desenha, sabe disso: não dá para repetir um mesmo quadro, uma mesma criação, há sempre variantes de um mesmo tema. Fiz mais dois quadros e, enquanto pintava, ia pensando nos porquês desta figura emblemática e tão querida, assim como na possibilidade de fazer uma série de quadros ou trabalhos com o São João do carneirinho.

Comecei a pesquisar, tanto na iconografia ocidental consagrada, como nos textos, quem foi São João, o Batista. E também me surgiu a ideia de escrever um livro ou um texto sobre esta pesquisa, sobre a simbologia desta representação e porque São João ficou tão marcante no imaginário popular.

São João Batista é um santo católico, mas minha exposição, assim como minha pesquisa, diretamente, nada tem a ver com religião. É sob o prisma de um olhar cultural para esta representação popular do São João menino e das inúmeras possibilidades de recriar propostas artísticas que fiz, naquela ocasião, 14 trabalhos. Inclusive, de um aprendizado específico sobre linguagens e técnicas diferentes. Vendendo ou não, foi muito prazeroso, além de ter uma motivação, um projeto que muito me realizou.

                 Quem foi São João Batista

     São João aparece na Bíblia como aquele que prepara o caminho para a chegada do Messias. Já no Antigo Testamento encontram-se passagens que se referem a João Batista. Segundo o Evangelho de Lucas, João, mais tarde chamado o Batista, nasceu numa cidade do reino de Judá, filho do sacerdote Zacarias e de Isabel, parenta próxima de Maria, mãe de Jesus. Lucas narra as circunstâncias sobrenaturais que precederam o nascimento do menino. Isabel, estéril e já idosa, viu sua vontade de ter filhos satisfeita, quando o anjo Gabriel anunciou a Zacarias que a esposa lhe daria um filho, que devia se chamar João. Depois disso, Maria foi visitar Isabel. "Ora quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre, e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: 'Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite?' " (Lc 1:41-43).

        Para complementar, observei que João Batista, às vezes, é confundido com o próprio Cristo, algo que ele sempre negou. Quando seus discípulos hesitavam, sem saber a quem seguir, ele apontava em direção a Jesus, dizendo: "Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo". (Jo 1,29). Assim, o início desta frase simbólica faz parte da representação do São João, com um cajado de pastor em forma de cruz e uma faixa onde se lê: “Ecce Agnus Dei” ou “Eis o Cordeiro de Deus”. Realço também aqui a simbologia deste “apontar”: em muitas representações João Batista aparece apontando o dedo indicador para o céu ou para o menino Jesus.

            São João Batista também costuma ser confundido com São João Evangelista, o que escreveu o Apocalipse, e que foi discípulo de Jesus, fazendo parte da última ceia. Não são o mesmo: João Batista não deixou nada escrito, assim como Jesus, seu primo.

            Outro detalhe significativo: João Batista é o único santo, além da Virgem Maria, de quem a liturgia celebra o nascimento e não a data de sua morte. E sua data de nascimento se daria em 24 de junho, dia do início do solstício de verão no hemisfério norte, repositório de antigas tradições pagãs, com cânticos e fogueiras, uma festa de renovação da vida, da fertilidade da terra iluminada pelo sol depois do inverno sombrio.

            O catolicismo associou essas comemorações ao “aniversário” de São João Batista, desde o século VI de nossa era. Os portugueses as trouxeram para o Brasil com sua colonização e, até hoje, mesmo híbrida, com elementos da cultura indígena e africana, o dia de São João é comemorado com uma fogueira e muitas festas, uma mistura religiosa e profana. Uma noite que para nós, brasileiros, é a noite mais longa – e também a mais fria do ano - ao contrário do hemisfério norte, no verão.

          Outra história que associa a fogueira do ciclo junino: diz-se que Isabel, para avisar sua prima Maria do nascimento de seu filho, acendeu uma fogueira, sinal combinado entre elas. Associado à fogueira, há também o barulho provocado pelos rojões e fogos de artifício para dar avisos. Avisos do nascimento de uma criança, de uma nova esperança, de um renascer.

        Acredito que, justamente por se comemorar o seu nascimento (assim como do menino Jesus no Natal), é que se representa o São João menino. O fato de João Batista e Jesus serem primos, leva a imaginar que brincaram quando crianças, uma afetividade que os humaniza também. Veja-se a intimidade entre os dois, relatada no Evangelho, quando suas mães ainda estavam grávidas e que “a criança estremeceu no ventre” de Isabel, mãe de João, já uma velha. Ambos os meninos foram anunciados pelo Anjo Gabriel, entre outras similaridades. 

        Todas essas circunstâncias realçam o papel relevante na relação entre João Batista e Jesus Cristo que deveriam ter, portanto, a mesma idade e que, como primos, provavelmente devem ter brincado juntos. Essa infância e este privilégio ficaram marcados no imaginário; veja-se o exemplo no meu pequeno painel (óleo sobre tela), uma “releitura” do quadro de Bartolomé Esteban de Murilo (1617-1682), pintor do barroco espanhol, nesta bela imagem de duas crianças brancas, na qual o menino Jesus é quem oferece água para João, observados por um carneirinho, símbolo do sacrifício que atingiria os dois quando adultos, numa alegoria do próprio batismo. 

         

É quase certo que a imagem mais popular de São João do carneirinho é francesa, pois havia na França grandes “impremeries”, ou sejam, gráficas, que espalhavam pela Europa representações de santos feitas por artistas populares. Há também a presença da “cardabelle”, espécie de flor típica do mediterrâneo, acompanhada de cravos vermelhos, uma imagem que não é nossa, dos trópicos.

A imagem do São João do carneirinho, como uma suave criança, é um traço típico do século XIX, do romantismo da época, no qual o mito da infância inocente se fortaleceu. Sem dúvida é uma imagem construída culturalmente, idealizada, de uma criança perfeita, perto de Deus e de seus símbolos. Um exemplo para todas as outras crianças.

            Numa releitura desta representação, substitui, no quadro abaixo (óleo sobre tela) a cardabelle europeia pela xanana (ou chanana) esta flor que viceja livre nos interstícios das calçadas de algumas cidades, como eu vejo aqui em Petrolina.


        Invariante, constata-se a presença do menino (às vezes um pré-adolescente como hoje classificamos, nesta faixa de 9 a 12 anos), com cabelos cacheados, vestido parcamente com pele de camelo ou de carneiro, um ombro nu, segurando um cajado fino de madeira que ostenta a faixa com os dizeres em latim “Ecce Agnus Dei” (Eis o Cordeiro de Deus), um cordeiro ou um carneirinho filhote no colo, geralmente numa paisagem que lembra uma noite de céu estrelado e ostentando, na parte inferior, um arranjo simétrico de flores.

            Resumindo:

  • Representação da criança, menino:  sua aparência meiga, bela, serena, está mediada por um olhar idealizado da criança, fortalecida no século XIX, com as teses do Romantismo. Observe-se que esta criança nunca está sorrindo: há uma atmosfera de melancolia, certa tristeza no semblante, caracterizando a essência da própria história de João Batista e seu martírio. Esta representação é bem diferente da sensualidade e até mesmo certa dubiedade nos meninos da pintura clássica, renascentista, que representam São João.
  • Veste de pêlo de camelo ou de carneiro: alusão ao fato de ele ter sido uma pessoa pobre, de origem humilde, que foi para o deserto se penitenciar. Lembrem-se que o camelo, assim como o carneiro, faz parte dos animais da Palestina da época, solo áspero, quase desértico. Lembra também o despojamento pregado por Cristo.
  • Cajado de madeira em forma de cruz: os pastores sempre têm à mão um cajado para orientar o rebanho ou espantar inimigos. Em forma de cruz, lembrando o símbolo maior do sacrifício do Cristo crucificado: cruz que é também o símbolo da fé cristã, que orienta os fiéis e os conduz para a fé.
  • Faixa branca com os dizeres em latim, língua oficial do catolicismo: “Ecce Agnus Dei” - Eis o Cordeiro de Deus – frase atribuída a João Batista quando apontava para Jesus. A maioria das pessoas a quem entrevistei desconhecia o significado desta frase.  Escrita em cor vermelha, ela simboliza o martírio do cordeiro, do Cristo e, também, através de tanta similaridade, do próprio João Batista que viria a ser degolado quando adulto.
  • Cordeiro: é um símbolo com vários significados. Desde a ovelha perdida que o pastor procura no deserto ou a que volta, pródiga, para o rebanho, nas parábolas de Cristo até a analogia do animal com o próprio Cristo, sacrificado para salvar a humanidade, segundo a fé cristã. Na tradição judaica, o cordeiro pascal do Velho Testamento e o sacrifício do cordeiro num ritual de adoração a Deus, é citado várias vezes. Também o cordeiro é um símbolo de humildade, associado ao povo, considerado dócil pelo poder, porque subjugado. O próprio Jesus, várias vezes, também se identifica como um pastor de ovelhas, isto é, de almas a serem redimidas.
  • Céu estrelado, com nuvens, às vezes até um arco-íris: é a representação da santidade de São João, num céu simbolizado, aquele que ascendeu, subiu para o paraíso. É uma noite clara, iluminada por pequenas estrelas e cores que fazem o fundo da imagem. Esta claridade, que circunda a cabeça do menino, a auréola (dourada) que o distingue como santificado, um ser especial que ostenta sua aura, resplandece como um sol, símbolo da vida.
  • Flores: interpreto como uma homenagem ao pequenino João, um santo querido. Sejam flores europeias ou não, elas “enfeitam” e finalizam a extremidade inferior dos quadros, lembrando a terra, onde ficamos nós, mortais. Se pensarmos em interpretações mais sutis, poderemos lembrar dos 4 elementos da natureza, base da alquimia e de outras relações: ar (nuvens no espaço), terra (flores, cordeiro), água (já que ele é o Batista, o que batiza nas águas) e fogo (sol, aura, luzes, além do “batismo de fogo” anunciado por ele).

                       Um menino especial

Xangô menino – óleo sobre tela

         Outra bela história, outra simbologia. O orixá Xangô é a divindade, no candomblé e na umbanda, que rege o fogo, o trovão, os raios, muito semelhante a Javé, Zeus, Odin e Tupã. O valor simbólico e filosófico de João Batista ultrapassa o dogma católico: João batizava os seus adeptos com água (ou seja, utilizando um símbolo material), mas afirmava, que o que viria depois dele "batizaria com fogo", isto é, o Espírito Santo. 

        Assim, associou-se o Xangô da cachoeira com São João Batista, por causa do batismo de Jesus, de lavar a cabeça na água doce para se purificar. Com o poder do fogo de Xangô é queimado, destruído tudo o que é de ruim e ocorre a transmutação, trazendo tudo o que é de bom, todo o bem possível, de acordo com o nosso merecimento. Isso é o que os adeptos da umbanda pedem nas fogueiras do mês de junho e por isso ele é tão poderoso.

O seu machado é o símbolo da imparcialidade. Xangô é uma divindade da vida, representado pelo fogo ardente e por essa razão não tem afinidade com a morte e nem com os outros orixás que se ligam à morte. Segundo minhas pesquisas, Xangô, sincretizado com São João Batista, é também o patrono da linha do oriente, na qual se manifestam espíritos mestres em ciências ocultas, astrologia, quiromancia, numerologia, cartomancia. Por este motivo, a linha dos ciganos está também relacionada com este sincretismo.

Lembrar agora de Caetano Veloso e Gilberto Gil, os doces bárbaros da década de 70, que cantaram e destacaram este Xangô menino e sua simbologia. Outros artistas também o louvaram.

“Olha pro céu, meu amor,
veja como ele está lindo
Noite tão fria de junho, Xangô,
canto tanto canto lindo

Fogo, fogo de artifício,
quero ser sempre o menino
As estrelas deste mundo Xangô,
ah, São João, Xangô Menino”
 

https://www.youtube.com/watch?v=tKomMQ1zdvI

                      Bandeiras ou estandartes de São João



            Arte mista: pintura sobre tecido, depois colagem de adereços para ornamentação.

            Bandeiras ou estandartes são alegorias muito representativas de festejos, de instituições militares ou civis e religiosas. Veja-se o exemplo no carnaval com as associações de blocos e escolas de samba. Há alguns exemplares magníficos pelo trabalho artesanal, pela riqueza dos detalhes. Eu me interessei também por esta representação, até porque existe, embora com menos evidência, toda uma tradição ligada às bandeiras de São João.

            No Recife e nas cidades vizinhas, ainda existe a procissão dançante da Bandeira de São João, a tradicional “Acorda povo”.  Inclusive com detalhes em vermelho e branco, as cores de Xangô, na decoração e nas vestimentas, marcas do sincretismo religioso. Indico um livro lindo, de Ronaldo Brito e Assis Lima, com ilustrações de Rosinha: Bandeira de São João, editado pela Bagaço, do Recife, em 1996. Acompanha também um CD, musicado por Antônio Madureira, muito precioso. Na apresentação do CD, os autores confirmam a multiplicidade do São João, de alguns arquétipos e representações: “A festa de São João adquire o valor de uma “sagração da primavera”, louvando-se com cantos, danças, casamentos e brincadeiras o santo que propicia a fertilidade. (...) Santo sagrado e pagão, solto no mundo com sua bandeira de dançarino, a serviço dos homens e de Deus.”

            Nas minhas bandeiras procurei diversificar os modelos e a simbologia colando elementos os mais variados possíveis, mas que têm uma significação “junina” como flores de grãos de milho, retalhos, fitas coloridas, cristais etc. Pintei o menino João com tinta de tecido e depois parti para a experiência de trabalho manual, criando e reciclando alguns elementos decorativos. Depois destes estandartes fiz muitos outros, porém numa perspectiva artesanal, decorativa.

       Contato com um informante francês, através da web.

 

             

"Inspirada" nesta foto e no mito cosmo-agrário de São João eu o desenhei e pintei, como se fora no deserto, misto de nossa caatinga nordestina. 

A foto é da década de 40 do século XX, em La Feuillé, na Bretagne, França. Eu "descobri" isto em minhas pesquisas pela web e, por incrível que pareça, me correspondi com o menino, M. Jacques Thepaut, claro que, agora, um senhor idoso. Eles chamam lá de "pardon", no sentido quase nosso de romaria, peregrinação, uma procissão na verdade. Inclusive com estandartes. Segundo M. Thepaut, não há mais le pardon, apenas fogueiras, "le feu de la Saint Jean". Em Mônaco, no Canadá francês (Quebec), também na Córsega, Itália, há festas de São João, nos dias 23 e 24 de junho, com crianças vestidas como se fossem São João. No Brasil, não há um cultivo regular desta representação. Aqui as crianças se “fantasiam” de caipiras ou matutos para dançar a quadrilha junina, um estereótipo que ainda persiste. 

              Caminhos e atalhos de uma pesquisa em andamento

 

            Além de muitos textos, consegui encontrar e montar uma galeria de quase 100 representações de São João Batista menino/criança ou adolescente, nunca adulto, selecionadas dessa forma, em close ou só, como destaque principal. São nomes consagrados da pintura ocidental, desde Leonardo da Vinci, Caravaggio (o que mais pintou São João menino), Murilo, Bouguereau, enfim passando por todos os séculos e fases da história da arte, até os nossos dias, até o Brasil. É incrível este passeio pelo universo artístico. Inclusive com representações até mesmo bastante sensuais do menino, sobretudo no Renascimento italiano.

            Ao lado disso, também fiz uma “galeria” de representações anônimas, a que chamei de populares, em santinhos e algumas réplicas dos pintores consagrados. Evidentemente que estas representações são mais próximas, em termos de tempo, do século XIX em diante.

            Meu objetivo é o de escrever um trabalho mais amplo sobre estas representações, comparando os elementos constitutivos e simbólicos, interpretando olhares e significados.

 

             Destaques da exposição “Acorda João”: registro de outros trabalhos

 

           Algo completamente novo para mim na época, mas de que gostei muito, foi  o São João bordado. Sempre gostei de bordar, de pequenos trabalhos manuais e me veio a ideia de também bordar um São João, como um desafio. Já havia visto os trabalhos admiráveis na ilustração de livros infantis da família Dumont, de Minas Gerais e isso me deu mais motivação. Pesquisei pontos e me lancei. Deu muito trabalho... acredito que muito mais do que as pinturas, mas o resultado ficou bem interessante. Pergunto-me: será arte? Arte-objeto, como me disseram.


                                            


Abaixo, uma aquarela e uma pintura em madeira com colagem tipo “casinha”.

                              


            Aprendi muito com esta exposição, em vários sentidos. Desde o sentido do fazer, do executar uma proposta, dos caminhos inesperados que ela pode conter, até o sentido da pesquisa e de tentar compreender os mistérios desta escolha. Mistérios da espiritualidade humana, de suas crenças, convicções e desejo de recepção, de se comunicar artisticamente. E poder “esquentar” meu coração, como nos versinhos:

            “O céu é tão lindo

            e a noite é tão boa.

            São João, São João,

            Acende a fogueira

            No meu coração.”

 

 

Petrolina, reescrito em junho de 2022

Elisabet Gonçalves Moreira

 

Um encontro especial: João Batista, Caravaggio e eu em Florença, Itália (2017). Repensando a temática e o fazer...