Bet com t mudo

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BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

terça-feira, 24 de agosto de 2021

DA ARTE DE CHUPAR MANGAS

 Hoje, a gente não chupa mangas, a gente come mangas.

Compram-se belas mangas, enormes, nos supermercados e feiras. Coisas da pós-modernidade; sabendo escolher, todas com nomes em inglês, mesmo que sejam de origem indiana, você se sai bem. Com uma faca afiada, corta-se a fruta em pequenos pedaços. Come-se até na salada, com rúcula por exemplo, outra exótica figura a nosso alcance. Até aprendi a fazer chutney de manga, indiana receita gourmet. Enfim, hábitos alimentares renovados fora do quintal doméstico ou da nostalgia de nossa infância, quando recitar Casimiro de Abreu fazia sentido.

 Mas será que ainda se chupa manga??? Quem já teve uma mangueira no quintal sabe disso...  deliciosa manga espada, a mais comum, a pobrezinha das mangas, fiapenta como quê, mas doce e disputada. Então, você, sem descascar, batia a fruta na parede, fazia um buraco na parte de cima e... chupava a manga.  Delícia!

Como não estabelecer, à maneira freyriana, a relação física dessa delícia com uma sexualidade latente... Quem não se lambuzava comendo manga? E o cheiro? Não adiantava esconder, a roupa ficava toda com respingos amarelos, assim como a cara. O cheiro durava horas... menino, você não pode comer manga com leite que faz mal. Advertência boba. De propósito eu fazia isso para, menina malcriada, provocar um tio velho rabugento... Ou, pensando bem, para mostrar minha rebeldia insipiente.

Em meu quintal da infância, havia um pé de manga bastante exótico, manga bico. Conhece? Também conhecida como manga peito de moça. Precisa dizer mais? Até uma auréola amarronzada circundava o bico... um convite para mamar delícias e outras imaginações.

Por incrível que pareça, não encontrei, no professor Google, uma imagem adequada, apenas um vídeo onde se pode ter uma ideia dessa manga tão especial em minha memória e, pelo jeito, esquecida na concorrência de mangas enxertadas e exóticas no mercado de frutas. Aliás, na fruticultura irrigada das margens do rio São Francisco, são comercializadas as mangas do rejeito, isto é, que não passaram no controle de qualidade e parâmetros da exportação, tanto no mercado interno quanto no externo.

https://www.youtube.com/watch?v=w6E9_UcAQQ0

Apesar dos elogios do apresentador, percebe-se certo acanhamento em dizer o nome vulgar da manga “peito de moça”. Soube que parentes paulistas tiveram cuidado em fazer mudas e ela está preservada em alguns sítios e chácaras. Hoje, morando tão longe, nunca mais tive esse sabor rememorado.

Mas foi num filme que aprendi a maneira chic de chupar, digo, de comer manga in natura, sem lambuzar... Caterine Deneuve, a bela, no filme Indochina, aparece em uma cena, comendo e oferecendo a manga com a elegância que lhe é característica. Fiquei até envergonhada, ao lembrar da lambança que faço ainda hoje, chupando mangas.

Sim, aqui o Google me forneceu uma foto da cena do filme. Fiquei alegre... não vou falar do filme, evidentemente, apenas uma referência pois essa manga atua como metáfora das relações colonialistas da França sobre a Indochina, hoje Vietnã.

Na cena, Elaine, a personagem de Catherine, uma rica proprietária francesa na Indochina, oferece pedaços de manga, com uma colher, à sua filha adotiva, Camille, uma garota vietnamita.

Pesquisando – ah, essa mania de procurar significâncias – há uma mensagem subliminar da subserviência do colonizado ao dominador e, ao mesmo tempo, revela-se o lado maternal de Elaine, pois Camille questiona a mãe sobre sua aparência e Elaine afirma que “a diferença entre as pessoas não é a cor da pele, é o sabor, a fruta”, enquanto leva um pedaço de manga à boca da filha.

No desenrolar da trama, é que o “sabor” da fruta se dará, sobretudo no relacionamento amoroso de Camille com o amante da mãe e o rompimento entre as duas mulheres, de diferentes origens e histórias de vida.

E fico aqui a pensar, se a manga fosse a “manga bico”, a analogia ainda estaria mais adequada...


Assim, com a parte mais polpuda, nestes cortes sem ferir a casca, você toma de um garfo ou um palito e vai retirando os pedacinhos para comer... tentei fazer isso e encontro dificuldades, pois o mais doce e saboroso está na ponta do fruto, junto ao caroço. Ou, na prática, desvirar o pedaço cortado para que os pedaços da manga caiam sobre a salada ou um prato.

Tem gente que gosta dela verde, comendo com sal. Gosto é isso, mas a manga madura, em vários formatos, com esses belos contrastes do amarelo da polpa com os tons da casca, verde, vermelho, rosa... é uma festa para os olhos e o paladar. Inconvenientes pode haver, até no fato de que você vai precisar de um palito ou fio dental para essas mangas sem pedigree...E nem vou falar das mangueiras, das árvores...

Aqui no Nordeste há uma expressão que corre solta: “o cão chupando manga”. Imagine só, o cão, o capeta, o satanás chupando manga e fazendo careta... feiúra inimaginável ou é? Mas pode também ter outro significado, por exemplo, quando o cara sabe tudo de alguma coisa, alguém desenrolado ou quando não está para brincadeiras... Tô fora!

Chupa essa manga...

Cantou o romântico Gonçalves Dias:

“Já viste coisa mais bela
Do que uma bela mangueira,
E a doce fruta amarela,
Sorrindo entre as folhas dela,
E a leve copa altaneira?
Já viste coisa mais bela
Do que uma bela mangueira?”

Petrolina, 24 de agosto de 2021

Elisabet Gonçalves Moreira


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