Bet com t mudo

Minha foto
BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

domingo, 23 de fevereiro de 2020

RADICALIZAR A DEMOCRACIA



Como adjetivamos uma pessoa?

Rotulamos em geral com prejulgamentos, estereótipos, manipulação... para o bem e para o mal. Convivemos diariamente com este tipo de discurso, alicerçado tanto pelo entorno ideológico, pela mídia insana, como pelo que assumimos individualmente. Ignorantes ou alienados, acomodados no senso comum, acredito que uma boa dose de reflexão pode ajudar, se tivermos em conta que tudo é relativo e que é preciso pesquisar, procurar no conhecimento algo mais que o mero impressionismo ou a falsa interpretação.

Então, como adjetivar Zé Dirceu??? Ele que esteve aqui em Petrolina dia 19, falou e lançou seu livro Zé Dirceu:  Memórias (São Paulo: Geração Editorial, 2018, v. 1) é a referência. Uma de minhas filhas comentou “...sempre achei Dirceu uma figura obscura.” Essa opinião acendeu o mote para minhas conjeturas. Não há dúvidas de que, neste momento de barbárie em que vivemos, Zé Dirceu tenta clarear seu percurso histórico. Não faltam expectativas no ar...

Pela visita do homem agora com 73 anos – nascemos no mesmo ano – também ativei minhas memórias dos tempos de estudante na USP, quando participei das lutas estudantis contra a ditadura militar instalada em nosso belo país de tantas desigualdades. E que perduram...

Nas assembleias, Zé Dirceu era um dos líderes sem dúvidas. Havia muitos deles, muita desconfiança, mas o objetivo comum nos unia. O livro de Zé me fez recordar de sua atuação e de outros companheiros, dos embates dos partidos comunistas, das greves, das passeatas, das perseguições, do medo das torturas e da esperança de mudar a história.  Acompanhar essa narrativa é uma maneira de compreender aquilo que ficou conhecido como “anos de chumbo”. E que alguns ainda têm a ousadia de contestar.

Evidente que o livro vai além destes inícios da juventude, detalhando fatos e atuação política no decorrer dos anos 70 até hoje. Não vou querer justificar atitudes, erros e acertos. É o hoje que me mobiliza, no discurso e na prática.

Já na orelha do livro de Zé Dirceu, seu editor, abaixo da chamada “72 anos de som e fúria”, o adjetiva: “personagem épico e controvertido”, “Tanto se escreveu sobre José Dirceu que ele se tornou uma espécie de lenda. Para muitos, um herói; para militantes do PT e de grupos de esquerda, o “comandante”; para o procurador da República que, sem provas, apenas com “convicções”, pediu sua condenação, um “chefe de quadrilha”; para os juízes que o condenaram em primeira e segunda instância, culpado por crimes que nem sequer conseguiram definir com clareza.”

No livro A VERDADE VENCERÁ O povo sabe por que me condenam/Luiz Inácio Lula da Silva [et al]; organização Ivana Jinkings – 1. Ed. – São Paulo:  Boitempo, 2018, o ex-presidente assim se refere a Zé Dirceu, quando questionado sobre a trama do Mensalão. “Eu acho que o José Dirceu é um guerreiro. Acho que, às vezes, ele não cuida da própria imagem. Mas é um homem de muita dignidade e é um companheiro que soube enfrentar de cabeça erguida todo esse processo que está sofrendo.” (página 80).

O recado dele, que ficou muito claro para mim, neste momento, ao final de sua fala no Café Filosófico, foi “radicalizar a democracia”. Não foi isso o que ele sempre fez? Parece contraditório ao protótipo conceitual de democracia, mas há uma farsa em andamento, sob os auspícios de um presidente eleito. Não dá para desenvolver opiniões sobre este fato, tantas são, mas no ponto em que chegamos, de militarização crescente e o protagonismo evangélico de cunho fanático, sim, precisamos radicalizar a democracia.


Foto de Chico Egídio. Zé Dirceu e eu, no Café de Bule em Petrolina.

Não temos receitas fáceis, nem Dirceu as deu. Mobilização em todas as frentes, indispensável e urgente. Entendo que estratégias e procedimentos serão construídos cotidianamente. Sem esmorecer, sem apatia. Gostei, por exemplo, quando ele deu uma referência que eu, feminista histórica nestas margens, passo a cogitar. Assim como as “avós” argentinas da Praça de Maio lutaram contra ditadura, temos as “mães” do Bolsa Família... Sim, no desmonte atual deste programa exemplar, mais que um protesto, uma conscientização dessas mães certamente faria diferença no contexto de exclusão social e da pobreza “em vertigem”.

Como se organizar então para o embate político de novas eleições neste ano de 2020?

Responde pela regra geral o Zé Dirceu: “(com)...novas formas de luta e de organização ... é preciso ir ao povo trabalhador e organizar sua luta social e política. Responder à radicalização da direita com luta política e social e um programa, como eles fazem, que vá à raiz da questão nacional, democrática e social.” E essa “retomada da luta política e social e do fracasso político e eleitoral da direita, que, para vencer, tem que banir Lula e o PT da vida política e social, o que não conseguiram e não conseguirão.” (página 466)

Não existe somente o PT como partido político de esquerda, mas o que ele representou para a história do Brasil e o que realizou econômica e socialmente, não pode ser desmontado como está sendo feito por este governo de extrema direita, de cunho militarista, atrelado aos interesses norte-americanos e ao neoliberalismo nitidamente fascista.

Questionamentos feitos, compartilho compromissos de quem sabe – ou saberá – se posicionar.  Como adjetivamos a nós mesmos???




Petrolina, 23 de fevereiro de 2020










terça-feira, 7 de janeiro de 2020

Reis e bruxa em visita ao menino Deus


"Adoração dos magos” do pintor Perugino  (1450-1523)

6 de janeiro: no Brasil temos o dia de Reis, o Reisado de tantas tradições populares, ainda presente nos rincões de nosso país, ou na Ilha do Massangano de Petrolina, com especial significado.

“Oh de casa, nobre gente, escutai o que eu direis, na partida do Oriente, a chegada dos três reis...”

 “O Reisado mede os janeiros”, afirma Dona Amélia, já que a comemoração se estende na visita às casas da ilha, no samba de roda e toda sua inesquecível e brincante alegoria.

Final do ciclo dos festejos natalinos, a visita dos três reis magos trazendo presentes ao menino Jesus, que nascera exilado, é comemorada em múltiplas variações, da magia à fé em energias e bênçãos. De acordo com o calendário litúrgico da Igreja Católica, a epifania está diretamente relacionada a uma manifestação divina.

Folia de Reis (alegoria em arte bordada do Brasil)


Etimologicamente, este termo se originou a partir do grego epiphanéia, podendo ser traduzido literalmente como “manifestação” ou “aparição”.

A palavra “mago” era empregada para “sábio”, especialmente aos sacerdotes da Caldeia que foram os primeiros a estudar a astronomia no mundo. Como não perceber esta relação ou ocultar o aspecto mágico do nascimento de Jesus, da estrela guia?

Na Itália, onde me encontro neste janeiro, toca-me a comemoração deste feriado em grande estilo. No Brasil dizemos que o ano só começa após o carnaval; aqui há um equivalente:  L’Epifania tutte le feste porta via (A Epifania leva embora todas as festas).

Assim, a epifania é também a festa da Befana, uma bruxa boa, que visita as casas onde têm crianças, com sua vassoura mágica, para colocar doces nas meias dos bons meninos e carvão nas meias dos maus... Haja comportamento!!! E cada vez mais esta festa, alicerçada pela mídia, vai sendo substituída pelos presentes natalinos. 


Percebe-se que o nome Befana é também ele uma corruptela de Epifania, agora uma mágica aparição, uma mulher, uma bruxa, e não mais um rei do Oriente.

Como quase todas as festas populares de origem religiosa, as origens da lenda da Epifania são pagãs. Nos tempos antigos, os romanos acreditavam que no prazo de 12 dias após o solstício de inverno seria celebrado a morte e renascimento da Mãe Natureza. Assim, doze figuras femininas lideradas por Diana, a deusa da lua e da vegetação, voariam sobre os campos para torná-los férteis.

Obviamente, a Igreja condenou essas crenças como influências diabólicas e do mal. E através de misturas das religiões ao longo dos séculos na Idade Média, chegou-se à Befana de hoje, uma velhinha mais próxima à imagem de uma bruxa boa. Este aspecto da idosa pode também sugerir uma representação do “ano passado” e das boas novas anunciadas pelo nascimento de uma criança.

Pesquisando, achei também outras versões da lenda da Befana: argumenta-se que nasceu de um festival romano ligado à troca de presentes. Outros acreditam que está relacionado com as deusas mitológicas germânicas da natureza invernal.

Na versão “católica”, a lenda nasce com a história dos Reis Magos que durante a sua viagem a Belém para conhecer o menino Jesus e doar os presentes, eles se perdem na estrada e encontram uma senhora idosa que os ajuda, porém não quer acompanhá-los. Depois, essa senhora sentiu remorsos e decide também levar um presente a Jesus. Não encontrando os Magos e nem a manjedoura, decidiu parar em todas as casas para dar doces a todas as crianças. 

Aqui em Roma, dando uma volta na Piazza Navona, no formigueiro humano em que se transformou o turismo de massa (ainda mais que no inverno, todo mundo está coberto da cabeça aos pés, predominando o tom escuro), observei um parquinho de diversões limitado a alguns estandes de tiro ao alvo, pescarias, com muitas bruxas bonecas, maçãs do amor, doces vários e um belíssimo carrossel. O show de marionetes seria mais tarde e achei melhor ir embora...


Comprei esta simpática Befana como lembrança deste dia. Também no mercadinho, perto de casa, havia vários expositores com “meias” recheadas de doces de diferentes marcas para se comprar e substituir a befana em seus presentes. Doce ou carvão...


Mas o melhor ficou para a noite. Meu simpático genro alugou um carro e, após um grande congestionamento nesta Roma capital, fomos ver um concerto de canções populares italianas e gregas no Auditorium Santa Cecília. “Come in cielo così in strada” Assim no céu como na terra...

Cantos de Natal na tradição popular de várias regiões italianas, também da Grécia, onde o sentido da epifania foi ressaltado, da magia iluminada da visita ao menino Jesus. Sanfonas insólitas, dança grega, muitos cantos... Solistas e coral... O que mais me encantou foi o Pater Noster em bizantino.

Enfim, aprendi uma grande lição... o respeito à epifania cristã, uma fé ultimamente bastante abalada. Como este momento ainda pode gerar belas manifestações e tocar nossos sentimentos.
Há muitas outras maneiras de se celebrar o 6 de janeiro, seja no sentido religioso ou profano, ou nesta mescla admirável da cultura que nos mostra a nossa humanidade em evolução e aprendizado.

Perceber sobretudo como tradições se cruzam em espaços e momentos, através dos tempos, oceanos e ares... uma dinâmica em constante movimento e significados.
“Assim na terra, como no céu.”

(Uma pequena amostra do concerto)


Roma, Itália, 7 de janeiro de 2020



sábado, 28 de dezembro de 2019

ONDE?


“Somos todos viajantes de uma jornada cósmica - poeira de estrelas, girando e dançando nos torvelinhos e redemoinhos do infinito. A vida é eterna. Mas suas expressões são efêmeras, momentâneas, transitórias”.
Deepak Chopra 

Entre lugares, sítios, cidades, construí pontes, desvelei enigmas e alegorias, me reconheci. Dar lugar ao amor é um mote humano e sensível. Epifania em deslumbramentos onde o olhar amoroso se encontra disponível se bem o vermos.

Abrir os olhos e o coração para as possibilidades do tempo e do espaço. Assim fiz e faço em minhas viagens. Aquelas onde tenho um transporte para mover e aquelas em que viajo dentro de mim, um constante ir e vir, assentando a expansão do conhecimento e das leituras que faço desse aprendizado.

Assim se deu, assim se fez, assim relato. Neste aqui, o trânsito se tornou perene e fixo na memória.


Saravá!

Décadas depois, relembro as emoções de conhecer, na mítica cidade de Salvador, Bahia brasileira, suas praias distantes, um terreiro de candomblé, a moqueca na lagoa do Abaeté, a capoeira de Mestre Pastinha... tantas lembranças e... um amor que até hoje me embalança.

Ali fui levada num sonho de mulher jovem e aventureira, desejosa de sol e de ver gente morena e bonita. Estudante paulista tem no imaginário a Bahia como referência para férias idealizadas, um projeto de vida em expectativa.

Primeiro foi uma viagem de quase três dias, em ônibus de linha comum, recurso para uma estudante sem dinheiro bastante. Desconfortável, fui aprendendo, em outros olhares, uma vista do interior brasileiro numa geografia de planos rápidos. Ao meu lado estava sentado um homem magro, muito simples e sério. Fiquei receosa, mas ele foi de uma postura elegante e correta. Sequer puxava conversa.

Aliás, foi só quando adentramos no estado da Bahia, numa parada na cidade de Vitória da Conquista que ele me ofereceu os frutos da época, doces e azedos umbus. Estava feliz, via nos seus olhos, e então soube que ele voltava para sua terra. O burburinho das pessoas oferecendo frutos e artesanato do lado de fora para os passageiros em suas janelas era vivo e forte. Tão distante do barulho da cidade grande, a poluição era de gente que respirava outros ares e anunciava lances para meu entendimento de um mundo a ser descoberto. E amado.

Tantos episódios. Minha ingenuidade e desconhecimento geográfico já se deu quando, ao anunciar que chegávamos à cidade de Salvador, eu achei que era um equívoco. Porque não via as serras, não havia curvas, como nas estradas de São Paulo ao litoral Paulista. Bem, a Serra do Mar acabara quilômetros antes... Essa possibilidade de comparação geográfica e humana é uma aprendizagem fundamental para o viajante de primeira ou última viagem.

Outro episódio, cômico, foi que, apertada para ir ao sanitário, entrei correndo no banheiro e fui barrada por uma funcionária que me disse, não, esse banheiro é masculino. Quando eu falei, ela então reconheceu em mim uma moça que, após três dias na estrada, nem parecia gente, quanto mais mulher. Ademais estava vestida como um menino, camisa e calças jeans, cabelos curtos. Um tempo de contestação também no visual.

Tinha o endereço do Hotel Colonial, na Ladeira da Barra. Havia sido indicação de uma amiga que, por sinal, também me indicara um primo que morava em Salvador, para algum contato, se preciso. Como minha amiga não fora na viagem que havíamos combinado, lá estava eu sozinha num grande quarto. Casarão branco antigo, altas portas e janelas azuis, o sonho estava se realizando.

Precisava comer. Sabia do restaurante universitário não muito longe dali. Fiz sucesso ali. Conheci o encarregado e conheci uma atração predestinada. Ele não liberou a comida de graça, como eu achava que minha carteira de estudante pudesse fazer, mas consegui o mesmo preço pago pelos estudantes locais.

Bem, o fato é que ele se desdobrou para me mostrar Salvador, para ficar a meu lado. Quando entrávamos no restaurante, os estudantes batiam os talheres no bandejão, saudando e fazendo comentários sobre o baiano que “ganhara” a paulista. Inda mais que ele era do interior do estado, lá das margens do rio São Francisco, um barranqueiro...

O Brasil vivia momentos políticos de repressão. Ditadura militar em curso. Havia uma vida paralela que não mostrávamos claramente, estudantes em lides ideológicas, procurando sobreviver em constantes conflitos. Não falávamos sobre isso, mas eu sabia – sempre soube – de que lado estava. Assim, “descartei” logo o apoio do primo da amiga, um burguês cheio de preconceitos. E ficava feliz com muitos pretendentes nesta Bahia de tantas cores. Minha juventude e graça tiveram seu momento de glória...

Mas eu escolhi sem titubear. Um fato. Um amor em sincronia.

No Pelourinho, um sítio dos mais atraentes da Salvador colonial, passeava com o barranqueiro, conhecendo e estabelecendo empatias nos mesmos gostos.  De repente, ele começou a assobiar, bem afinado, uma bela canção do folclore russo. Não acreditei, o espanto foi mútuo. Como, você conhece esta canção?

Conhecíamos.

Entramos na Igreja de Nossa Senhora dos Pretos e ele, emocionado, fez uma jura de amor, simbolizado neste encontro de conexões e emoções.


Fechando 2019, após 50 anos deste encontro, questiono e admiro o destino que me estava reservado neste lugar. Ou desde sempre predestinado?!



Ladeira do Pelourinho - Salvador, Bahia

domingo, 24 de novembro de 2019

Um saci no meu jardim



Não sei como ele foi parar lá...

Ele estava vivinho, pulando em sua perna cotó. Deve ter vindo das matas vizinhas como os anuns, pombinhas asa branca, passarinhos variados expulsos de suas árvores e espaços abertos. A vida nas cidades iluminadas também atrai os seres dos cafundós da memória.

Da janela da sala, quase meia-noite, depois de assistir a um filme na tv paga - filme que nem lembro qual foi - vi uma luz vermelha que acendia e apagava. Como baforada. Era baforada. Mas disso eu não esqueci.

Saci fumando cachimbo, baforadas de fumante inveterado, olhava no meio das moitas das sempre floridas e vermelhas icsórias, mexia no canteiro central, até pulou nos galhos mais baixos do meu pé de salgueiro chorão... Acho que estava com sede, como os passarinhos, borboletas e formigas que habitam meu jardim e lhe dão vida em movimento.

Pensei, vou falar com ele. Será que ele falaria comigo? Pensei de novo: vou dormir e ver se ele retorna amanhã. Mas vou deixar uma caneca de água em cima do banco. Se tiver sede, ele bebe.

E assim fiz... e ele bebeu, e veio mais vezes. Sem ter como comprar fumo de rolo, comprei um maço de cigarro comum. Deixei lá. Ele, sabidinho, rasgou o papel e colocou o fumo industrializado no cachimbo. Acho que gostou, pois foram várias vezes que lhe ofereci este presente, aguardando que ele se acostumasse com essa pessoa atrás da janela. Assim, fumei um cigarro que acendia um enviesado risco vermelho no reflexo do vidro.

O saci também estava curioso. Uma noite chegou mais perto do vidro da janela e nos encaramos. Eu o saudei abanando ligeiramente a mão. Ele deu um pulo para trás e se escondeu na moita de icsórias. Mas podia ver o cachimbo encandeando nas baforadas.

Ele estava morando lá, no meu jardim. Como ficava escondido durante o dia, eu não sei, mas vou contar depois, se me lembrar.

Virou um jogo de aproximação. Deixei um pirulito vermelho, de morango. Ele gostou pelo jeito. Porque depois deixei um pirulito verde, sabor menta. Ele odiou. Encontrei o doce jogado no chão, dia seguinte. Voltei para o sabor morango.

Após alguns dias, resolvi que era hora de conversar com ele.

Abri a porta com cuidado. A luz do poste vizinho iluminava algumas sombras. Pude vê-lo ligeiramente quando o cachimbo era aceso. E ele me viu também.

Eu lembrava do saci de Monteiro Lobato, das lendas que povoaram nossa imaginação infantil. Tão brasileirinho, esse moleque cor de carvão fez parte da história dos velhos e de tias contadoras de histórias que não tinham heróis americanos de desenhos animados nas tvs. Porque eles viam o saci e acompanhavam suas traquinagens.

Assim nos chegamos. Não precisamos de apresentações. Já nos conhecíamos. 

No banco do meu jardim podíamos conversar. Estávamos meio desconfiados nesse primeiro encontro. Falei do tempo, do calor, se estava gostando de morar no meu jardim, dos presentinhos que lhe dera. Ele mais ouvia que falava. Murmurava, como o vento nas folhagens.

Mas seus grandes olhos falaram mais. O garoto que havia neles me encantou. Esse encanto continuou por vários dias. Falava sobre tudo, meu confidente especial. De todo modo, eu sentia sono e me despedia sem muita demora.

Sabe, saci, minha mãe dizia que você aprontava dentro de casa, escondendo a tesourinha de unha, a agulha de costura, azedava o leite, todas essas coisas que dão errado e a gente fica com raiva.

Ele só fazia rir e... lá vai baforada.

Você ri, mas tenho certeza que hoje em dia esconde o celular das pessoas. Ou as chaves. É ou não é?

Nem sim nem não... baforada ao vento.

Então lhe pedi um favor. 

Proteja-me saci, proteja minha casa dos olhares invejosos, dessa gente que acha lindo meu jardim e, não demora muito, a planta, antes viçosa, começa a definhar. 

Ou do meu gato que ficou doente e não há meio de ficar bom de novo. 

Ou do retorno de meu marido que saiu de casa há três anos...

Aí ele me encarou apertando o cenho. Me assustei. Colocou seu dedo indicador em minha testa, me empurrando e me fazendo encará-lo. Então eu vi, pude ver. Nos seus olhos iluminados havia raiva, brabeza de saci sem mais nem pra quê...

Afinal, pude entender. Sem explicação, revi eu mesma perdida na vida, ainda que meus cabelos brancos mostrassem os anos por onde passara.

Saci, você pode me achar em mim mesma?

Ainda procuro a luz do seu cachimbo nas noites do meu jardim.







domingo, 6 de outubro de 2019

UM POEMA OFICINEIRO


Maria Teodorina Evangelista dos Anjos

Maria viu a uva.

Aprendeu a ler.

Aprendeu que a uva do Ivo dava até no sertão.

Então Maria foi colher uva e não varrer o chão.

Maria Teodorina aprendeu que Deus dá o frio conforme o cobertor.

Por isso colheu crença nos evangelhos.

Acreditou na prosperidade e na mudança.

Maria Teodorina Evangelista se firmou.

Comprou celular e colocou sorrisos em selfies.

Foi feliz no pancadão dançando de shortinho.

Teve filhos aqui e ali, companheiros vão e vêm.



Conseguiu ser periferia e só...



Só não entendia por que os Anjos não a deixavam voar mais alto.

Então cortou as asas, os pulsos, e voltou a ser

Só

Maria.






Vida Maria 
(2007 ‧ Curta-metragem/Animação ‧ 9 min - Márcio Ramos) 

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

O interagir numa história de 30 anos: TPA – Teatro Popular de Arte


Na história de Petrolina, um grupo teatral: TPA – Teatro Popular de Arte, 1989-2019, em homenagem. Parabéns preliminares aos envolvidos diretamente e ao SESC local que, no seu Aldeia de todos os agostos, se refere ao Velho Chico para aplaudir a arte de suas margens.

Mas vem o pensar, o querer desvendar. Por que Teatro Popular de Arte?

Há uma postura estética e ideológica significativa na colocação da palavra Popular.
Usada como adjetivo da palavra teatro, nos remete a uma visão da arte cênica voltada para o povo, em contraponto com o teatro erudito, das elites, restrito a uma classe de maior poder aquisitivo e cultural. Sabemos o quanto isto é discutível, mas, no senso comum, esse é seu significado básico. Então teria sido esta a proposta inicial e motivadora do grupo?

Explícito está na divulgação dos princípios básicos fundamentais do TPA, o de “possibilitar o acesso de todas as camadas sociais aos seus espetáculos” e “produzir espetáculos de arte”.

Em 1989, no contexto nacional e político, foram realizadas as primeiras eleições presidenciais diretas desde 1960, após a repressão militar que marcou pessoas e mentes. Não esquecer também a mobilização popular que resultou na Constituição Cidadã de 1988. Assim, é perfeitamente justificável este adjetivo pela pretendida democratização no acesso ao teatro.

E se tivessem definido como TAP – Teatro de Arte Popular?

A proposta seria diferenciada. Entendo que há uma delimitação dirigida ao papel da arte acompanhada com a palavra popular. Exemplo: uma manifestação legítima da cultura popular, “folclórica”, como um reisado, tem outra conotação neste conceito de “teatro de arte popular” para um grupo urbano, criado especialmente para fazer teatro, utilizando peças consagradas.

O significado do nome assumido, TPA, é, pois, indicativo da escolha dos espetáculos, ou de seu repertório, com um histórico de sucesso admirável. Nesses 30 anos o grupo consolidou-se, garantindo plateia, aplausos, risos e emoções.

Melhor entendo também a continuidade do TPA. Todos os participantes se engajam na proposta. E isso faz(fez) toda a diferença. Sabemos que o teatro, arte efêmera, evento único, só se realiza, inteira e completa no momento presente. Assim, como um coletivo, todas as plurifunções de um espetáculo se entrelaçam no desempenho responsável de todos.

O TPA, nesta Petrolina provinciana, foi inteligente para perceber a capacidade comunicativa e desmistificadora do teatro, de amealhar o público local para uma linguagem onde ele se reconhece. Ainda que não tenham criado espetáculos de sua autoria, souberam escolher as peças e autores.

Ariano Suassuna e sua representação do Nordeste é o autor mais encenado pelo grupo. O riso é a catarse em que se desnudam as máscaras sociais, o Brasil autoritário e preconceituoso.

Consolidada esta visão, outras peças e autores foram sendo apreciadas e encenadas. Então vieram ao palco Gianfrancesco Guarnieri, Dias Gomes, Nelson Rodrigues. Mais ainda: teatro infantil, Maria Clara Machado, Pedro Veiga, até mesmo o musical Os Saltimbancos, de Chico Buarque.

O século XXI, numa cidade onde muitos grupos teatrais e de dança se lançaram com uma diversidade nunca vista, e, sobretudo, onde a presença do SESC e seu teatro foi fundamental como espaço cênico, trouxe para o TPA desafios corajosos e mais dramáticos. Domingos Soares, seu principal encenador, é a referência nesta compreensão.

É significativo citar diretamente que, em 2014, montou o espetáculo Patética, de João Ribeiro Chaves Neto, em alusão aos 50 anos do golpe militar de 1964 e, em 2018, o TPA montou o seu 13º trabalho: A Cantora Careca, de Eugene Ionesco, com direção do ator Paulo Reis de Mello.

Essas peças, ao lado das encenações costumeiras e homenagens ao mestre Ariano, consagram definitivamente o TPA na memória do teatro local. Ainda que críticas possam ser feitas – aliás, não temos um crítico teatral com coragem e bagagem para isso – vamos repensar as dificuldades de se fazer teatro amador na cidade e na região.

Estamos seguros de que esses 30 anos do TPA servem de referência e avaliação para todos nós, de sua importância e de sua capacidade de existir e atuar nesse exemplo de país e de uma cidade que se desmorona sem políticas públicas participativas e educação para a arte e a cultura.

Tantas vozes, tantos entrelugares, produzindo sentidos... Continuemos nossa história, saudemos a memória possível. Viva o TPA!

 - 

Obs.: Este texto também foi publicado no Jornal A Ponte - Informativo do XV Festival de Artes do Vale do São Francisco - Ano XII - 2a. edição - Petrolina, l de agosto de 2019



sábado, 3 de agosto de 2019

MURILO MENDES: A MEMÓRIA ALÉM DOS LIMITES DA PROSA


Retomando ensaios e estudos. Esclarecendo: este trabalho foi originalmente adaptado de trechos de minha dissertação de mestrado, sob orientação de meu amigo e  professor Boris Schnaiderman, em Teoria Literária e Literatura Comparada, defendida na Universidade de São Paulo, em 1981. Reescrevi este estudo em 1990 para ser apresentado no 2º Congresso da ABRALIC na UFMG, em Belo Horizonte, em 1990. Leio, releio, há sempre algo a ser tirado ou acrescentado. O que também me impressiona, neste século onde vivo e rememoro, o quanto certos estudos são esquecidos ou ficam restritos ao momento em que foram criados e aos poucos leitores de então... O que espero então em mais este registro? Ampliar seguidores, repensar e estimular leituras e críticas.

Resumo acadêmico: o trabalho objetiva mostrar como a prosa memorialista de Murilo Mendes em seu livro A IDADE DO SERROTE (1968) se caracteriza na representação de uma linguagem que oscila permanentemente entre prosa e poesia. Memórias além do meramente referencial, já que o discurso fragmentário utilizado pelo autor recupera não só o tempo passado mas,  voltando-se para si mesmo, perfaz o caminho literário, em que ficção e realidade se complementam.

Adendo: No final deste trabalho, apresento uma cópia da carta de Murilo Mendes endereçada a Boris Schnaiderman, de 1975, pouco antes do falecimento do poeta, sobre a pesquisa que então eu começava sobre sua obra.



A IDADE DO SERROTE de Murilo Mendes (1901-1975) foi escrito em Roma durante os anos de 65 e 66 e publicado originalmente pela Editora Sabiá do Rio de Janeiro, em 1968 (as citações aqui são indicadas por esta edição). Esse livro tem na capa, fazendo parte do trabalho gráfico de apresentação, um cartão onde se lê memórias. E o são de fato, embora cheguem somente até um certo momento da vida do autor: infância e adolescência, situadas na cidade mineira de Juiz de Fora, terra natal do escritor Murilo Mendes.
            Apesar de ter sido reeditado em Obras Completas (Rio, Nova Aguilar, 1994) e de ter tido outra edição do livro em referência, o próprio Murilo Mendes se queixava de um certo “descaso” para com sua obra[1]. A IDADE DO SERROTE, como muitos outros textos de sua obra vasta e variada, é muito pouco usado ou estimulado, principalmente em livros didáticos ou antologias, já que me parece exemplar para tal. São 42 capítulos curtos, cada um constituindo um texto completo. Quase todos giram em torno de retratos de pessoas invulgares ou bizarras, de palavras evocativas ou fatos, enfim lembranças que marcaram de um modo ou de outro a formação do poeta.
            É como se abríssemos um palco para a entrada dos personagens, máscaras e tipos que irão desfilar muito mais suas excentricidades do que uma conduta linear, desmitificando quase sempre uma ambiência provinciana em sua dialética conservadora e revolucionária ao mesmo tempo para, talvez, justificar a formação do poeta, também ele um tipo considerado excêntrico pelos seus contemporâneos. E aí Murilo se desnuda como nunca, desnudando-se na forma de sua linguagem tão específica, tão peculiar. E é aí, nesse ponto, que temos seu testemunho realmente biográfico e referencial, como o artista sobrevive: através de sua obra. São fragmentos de memória em que Murilo Mendes apresentados como rememoração e representação de uma realidade que vive enquanto discurso, enquanto linguagem literária.
          A análise dos livros de poesia de Murilo deixa entrever facilmente a observância de um processo regular de rememoração – muito mais acentuado em suas últimas obras. Esta invariante memorialista, em alguém tão inquieto criativa e criticamente como foi Murilo Mendes, converge em A IDADE DO SERROTE para outro tipo de linguagem, que é sua prosa. Uma prosa riquíssima, muito mais linguagem poética do que “prosaica” em sentido restrito.
            A oscilação poesia/prosa quase que permanente nesse livro é que nos levou a uma série de conjeturas sobre o problema dos limites entre prosa e poesia. Boris Schnaiderman[1], crítico literário, já nos alertara sobre isso em texto de 1976. No caso específico de Murilo, o que temos como procedimento constante é o desfiguramento metalingüístico do discurso, uma escritura que, indo e vindo também pelos limites do tempo, articula um significado poético, chamando a atenção sobre si mesmo.
            A “deformação” é anda mais sentida porque está hiperbolizada na forma de memórias. Uma sondagem pelos labirintos do passado autobiográfico seria o que de mais referencial poderíamos denotar dentro do discurso prosaico e,  no entanto, temos uma linguagem poética em seu alcance mais denso e que não deixa de ser prosa.
            No capítulo “Belmiro Braga”, a evocação do poeta mineiro inicia-se com dois decassílabos perfeitos e acentuação na 2a. 6a. e 10a. sílabas. Poderia até ser o início de um soneto.

“Lá vem o volantim Belmiro Braga
sorrindo no seu terno de xadrez.”

Ou este trecho do 1o. capítulo:

“...Superadas pianolas, minhas avós de carne e osso, ó vós, ovas sem ovações, mulheres-avós que eu nunca vi, desovadas em ricos dioscuros da obscura, difícil Minas de pedra, que me fazia doer o peito por falta de mar: vindas de vulvas montanhosas e de falos insapientes da importância da futura inflação humana e financeira do Brasil; bisavós remotas casadas com gigantones cabezudos; deixando cair as fazendas em usocapião, abolindo os domínios Paraopeba e Congonhas.” (página 9 da edição referida no primeiro parágrafo).

            A linguagem se auto-referencializa pela constante reiteração dos sons /v/ e sibilantes, uma linguagem que pode ser até caracterizada como antropofágica em suas metáforas, numa oscilação dos limites entre ficção e realidade.
            Estes e outros recursos não tiram, porém, ao livro o caráter de prosa ritmada, mas bem prosa narrativa: discursiva, até derramada nas palavras de Boris Schnaiderman. Há realmente algo de malícia neste emprego de recursos fáceis. A facilidade aqui, parece, se torna ironia e crítica do próprio discurso. Uma ironia e um humor descendentes diretos do Modernismo de 1922, e muito mineiro. Não só nas imagens, mas até na oralidade registrada como “guais maginando”.
            Segundo um ensaio de Iúri Tinianov[2] é o “umbral semântico” o fenômeno que estabeleceria o limite essencial entre prosa e poesia.
            Prosa e poesia se distinguem entre si não pela sonoridade imanente, não porque a poesia se orienta de modo coerente e sistemático para o som e a prosa para os significados, mas, substancialmente, pelo modo como esses elementos influem um sobre o outro; pelo modo como o aspecto sonoro da prosa é deformado pelo seu aspecto semântico (pela orientação da atenção para os significados) e o significado da palavra é “deformado” pelo verso.
            Não é só neste livro que a prosa de Murilo Mendes parece ser antes o jogo dos princípios constitutivos de prosa e poesia: a função do significado deformado pelo som na prosa e a função sonora igualmente deformada pelo significado. Essa deformação constitui-se num fator de dinamização verdadeiramente artístico tanto em uma como em outra, contribuindo para o enriquecimento de ambas.
            O tempo também não é o tempo de uma visão realista, nos moldes cronológicos e biográficos. Vai-se e volta-se constantemente pelos limites do tempo rememorativo: não só o passado subsiste como narrativa poética na maioria das vezes, chega-se a um outro tempo – o da escrita – presente da ação e futuro em oposição ao passado. E ao tempo da leitura, leitor em sua recepção e presença.
            O primeiro capítulo, intitulado “Origem, Memória, Contato, Iniciação”, foi objeto de uma análise textual admirável, feita pelo professor e crítico Antônio Cândido, na USP, num curso de 1975, do qual participei e passo a sintetizar anotações feitas na época.
            O professor mostrou como Murilo Mendes manipula a palavra em dois sentidos: num primeiro, o de reforçar a semelhança da palavra com o mundo e, em outro sentido, o de desmanchar tal semelhança. Este duplo movimento é que vai garantir e perturbar ao mesmo tempo o nexo com o mundo. Justamente é esta tensão de ambiguidade que permite a formação da mensagem literária especificamente. Na imagem, na metáfora, o poeta possui e não possui o mundo.
            A palavra, atuando sobre o mundo, vai desfigurando-o e trazendo-o para dentro do discurso. A palavra realça o discurso, devorando os objetos nos campos sonoro e semântico, do significante e do significado. Sabemos que, nos limites, o discurso poético faz esquecer o mundo e se torna um novo mundo. Se no nível sonoro constitui-se um sistema específico de sentido, sabemos, como Jakobson[3] demonstrou várias vezes, que o discurso poético chama a atenção sobre si mesmo. Temos, portanto, no caso de Murilo Mendes, efeitos de cunho sonoro e depois os de cunho analógico.
            Com esta colocação do discurso de Murilo Mendes é que podemos dizer que temos memórias ao nível de poesia. Ele nos apresenta o mundo desmanchado (ou “deformado”, segundo Tinianov); propõe o mundo mas propõe a si mesmo, utilizando-se de uma lógica sobretudo anafórica e paronomástica. Temos um discurso não como correspondência entre texto e sociedade, mas como esta se transforma em elemento estruturador do discurso.
            O processo de concorrência do mundo do discurso pode ir mais longe, ter sentido quase que só nele próprio. É o caso deste seqüência do primeiro capítulo, por exemplo:

“As têmporas de Antonieta. As têmporas da begônia.
As têmporas da romã, as têmporas da maçã, as têmporas da hortelã.
As pitangas temporãs. O tempo temporão. O tempo-será. As têmporas do tempo. O tempo da onça. As têmporas da onça. O tampão do tempo. O temporal do tempo. Os tambores do tempo. As mulheres temporãs. O tempo atual, superado por um tempo de outra dimensão, e que não é aquele tempo. Temporizemos.”

            Esta é uma seqüência mágica. O que interessa mais é o discurso, sensação poética extraordinária, fragmentos rememorativos e/ou associativos num contexto poético. Jogo sonoro: de tempo – ra – rã (têmporas). Jogo de significados: observa-se em compressão o tempo que passa, seja nas “têmporas de Antonieta”, seja nos avisos – tambores – seja nas outras associações. Há encanto e pavor por este mesmo tempo. É o tempo da infância, não o atual, mas o das memórias,  representadas pela escrita. A resultante é, pois, um avançado estágio de desfiguramento do mundo, um discurso literário, não referencial e, sim, poético.
            No primeiro capítulo está também justificado o título do livro: “As primeiras letras. As primeiras lutas. Perto do colégio – uma serraria.”  Para Murilo Mendes são instrumentos hostis o serrote, o martelo, a torquês, símbolos “torcionários”. E essa “idade do serrote” é justamente aquela em que o mundo agiu “torcendo” não o pequeno rebelde, mas o “voyeur” na infância e na adolescência. Aliás, esta espécie de reflexão e inserção do discurso em outro plano, de diálogo consigo mesmo e com o leitor se dá sincronicamente, após a evocação, quase sempre no final dos capítulos. Vozes e consciências que se alternam sem ingenuidade.
            Só em A IDADE DO SERROTE, o poeta parece livre, nesta linguagem rememorativa e poética, para rememorar também sua própria linguagem do início de seus poemas, a linguagem algo debochada e desmitificadora de HISTÓRIA DO BRASIL e que Murilo Mendes renegou a certa altura. Parece-me que a explicação do termo “memórias” justifica inconscientemente esta re-aceitação de um discurso “renegado”.
            O fato de escrever memórias lhe garante esta volta às origens, já que, no plano mitológico, reside aí a função da memória: não reconstrói o tempo e nem o anula. “Ao fazer cair a barreira que separa o presente do passado, lança uma ponte entre o mundo dos vivos e o do além ao qual retorna tudo o que deixou a luz do sol. (...) O privilégio que Mnemosyne confere ao aedo é aquele de um contacto com o outro mundo, a possibilidade de aí entrar e de voltar dele livremente. O passado aparece aí como uma dimensão do além.”[4]
            Murilo Mendes “assume” o tempo todo o seu texto como memórias, consciente desta atitude de representação. Citando:

“Movido por um instinto profundo, sempre procurei sacralizar o cotidiano, desbanalizar a vida real, criar ou recriar a dimensão do feérico.” (p. 62)
ou
“Juntando estes e outros atos que guardo nas prateleiras da memória.” (p. 50)

            A consciência de estar trabalhando com a palavra aparece nesta identificação metalingüística: “as pessoas são frases” (p. 70) e a presença do leitor, receptor em outra realidade, está até num machadiano “confesso ao leitor nada poderoso que me sinto feliz com...” (p. 70). Afinal, “Quem ousaria negar que – ao menos para uma memória fértil – o passado situa-se a posteriori?” (p. 154).
            Interessante que Murilo, circunscrevendo suas memórias ao tempo da infância e da adolescência, também elas estão circunscritas num espaço preciso e delimitado: Juiz de Fora até o Morro do Imperador, constantemente citado. A justificativa parece coerente: as descrições singulares e observações demasiadamente precoces têm uma lógica “espacial”, se assim podemos chamar: “Escapando-nos o mar, oprimindo-nos a montanha relativa, a gente se vinga com um desafio maior do cotidiano; a cidade pequena, ao mesmo tempo que nos circunscreve, propõe-nos um treino mais intenso dos sentidos e da imaginação. Evadimos da realidade transfigurando-a.” (p. 95/96)
            No capítulo “Florinda e Florentina” (p. 95), a imaginação do poeta deixa em suspense o que poderia ser o final de um conto não trabalhado. O casamento das gêmeas, a reivindicação de uma delas alegando (ficção ou não?) uma permuta de corpos dá um toque todo especial a esta parte.  Aliás, o livro funciona como partes principalmente. Sem a seqüência cronológica, sem um fio condutor, linear, pode-se ler cada capítulo isoladamente, como fragmentos de escritura, cuja origem foram fragmentos de memória.
            E que é a memória se não fragmentos de uma realidade já “transfigurada”? Daí eu poder dizer que Murilo Mendes trabalha não só com memórias em linguagem poética, mas também com suas características hiperbolizadas, poli-memorizadas, metalinguagem em suas idas e vindas dos mais diversos pólos.
            A divisão da realidade cotidiana, o vulgar e o insólito estão presentes a todo momento, no fio da navalha, como a linguagem: prosa e poesia. E Murilo, amplamente possuidor deste processo de colocação dicotômica das coisas prosaicas da vida, esclarece, mesmo que a respeito de sua relação com o cinema: “... soube então que a realidade é inumerável. Desgraçados dos que admitem só algumas parcelas da realidade.” (p. 105)
            Num mundo sempre em crise, Murilo justifica-se (e ao seu discurso) como um ser insólito e precocemente sensível. Essa agudez de percepção do universal ele soube captar em um pequeno mundo circunscrito em um espaço geográfico delimitado e provinciano. Talvez que o excêntrico Murilo concorresse para cultivar seu próprio mito... Inclusive há muito de ironia, de riso e até de emoção fácil em alguns momentos, como a vida,  aliás.
            Suas memórias fazem-no, como em Proust, “senhor da própria experiência”, não desencadeada pelo sabor de um biscoitinho e, sim, me parece, por uma vontade que deve ser colocada no plano ideológico da escolha da atitude, isto é, de justificar, através do passado, um presente em todas as idas e vindas pelo tempo. Daí também a característica crítica, imanente em toda a sua obra.
            Boris me alertava que se pode procurar as raízes deste tipo de memórias aqui mesmo, na Literatura Brasileira. Marques Rebelo e outros já colocavam o fragmento, o retrato e outras características afins em suas memórias. Mas a referência da prosa memorialista de Murilo Mendes, ao lado das memórias de Pedro Nava (por coincidência de Juiz de Fora e, curioso, nem um nem outro se citam, embora fossem contemporâneos), constituem algo realmente invulgar na Literatura Brasileira. 

E, infelizmente, uma prosa pouco conhecida e estudada.




[1]  Os Relâmpagos de Murilo Mendes, in Língua e Literatura no. 5, São Paulo,  Revista da USP, 1976, páginas 433-441, resenha escrita em colaboração com Elisabet G. Moreira, sobre o livro Retratos Relâmpago de Murilo Mendes.
[2] “Sobre la composición Del “Eugeni Onegin” in Formalismo Y Vanguardia,  Madri, Alberto Corazón Editor, 1973, 2ª. Ed.
[3] JAKOBSON, Roman. Questions de poétique. Paris, Seuil, 1973.
[4] VERNANT, Jean-Pierre. Mito e Pensamento entre os Gregos. S. Paulo, Difusão Européia do Livro/USP, 1973, p. 78). 

(Transcrição da carta de Murilo Mendes a Boris Schnaiderman)

                                                                                   Roma, 27 maio 1975.

Querido Boris Schnaiderman,

            Muito lhe agradeço o envio da interessante página plano de pesquisa, feito por V. e pela sua orientanda Elisabet G. Moreira.
            Achei ótima a idéia, e tudo leva a crer que a realização também o será. Como é natural alegrei-me ao ver uma pessoa da sua categoria tão interessada na minha obra, tão pouco conhecida e sobre a qual se tem escrito tantas tolices. Certos críticos escreveram tão mal sobre ela, que estou certo de que a conhecem muito pela rama. O interesse dos críticos mais moços me consola.
            Sou suspeito no caso, querendo ser juiz em causa própria, mas creio que você e sua orientanda disseram coisas exatas. De resto, é possível que só agora, com o recuo do tempo, se possa começar a ver mais claro nos meus textos.
            Na bibliografia falta o livro “Retratos-Relâmpago”- 1a. série, publicado pelo Conselho Estadual de Cultura de S. Paulo com data 1973, mas na realidade saído em 1974. O Haroldo, quando esteve aqui, uns 3 meses atrás, disse-me que desconhecia a existência desse livro. De qualquer maneira, creio que o Prof. Santa Cruz, da “Livraria Duas Cidades”, poderá lhe arranjar um exemplar. Gostaria que V. e a senhora Elisabet o lessem e mandassem me dizer algo sobre.
            Também poderá constar da bibliografia o artigo de Lélia Coelho Frota, “Retratos, o Microcosmo de Murilo Mendes”, no “Jornal do Brasil” de 7.5.75.
            De novo, mil agradecimentos.
            Na esperança de o rever em Roma, Saudade e eu abraçamo-lo afetuosamente.
                                                                                               Murilo.

Queira transmitir nossas saudações a D. Elisabet.
                                                                       M.

           
Notas:
  1. Murilo Mendes faleceu três meses depois de ter escrito esta carta, em Roma, onde era professor de Literatura Brasileira e crítico de arte, bastante respeitado.
  2. Boris Schnaiderman e eu fizemos uma resenha sobre o livro Retratos-Relâmpago.  “Os Relâmpagos de Murilo Mendes”, publicada em Língua e Literatura no. 5, São Paulo,  Revista da USP, 1976, páginas 433-441. Minha dissertação de mestrado, sob a orientação de Boris Schnaiderman, com o título “Murilo Mendes: uma representação operacionalizada”, em Teoria Literária e Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo, foi defendida e aprovada com distinção em 1981, tendo como arguidores os professores Alfredo Bosi e João Alexandre Barbosa.
  3. Maria da Saudade Cortesão era sua esposa, citada no final da carta.
  4. Trabalhos meus sobre Murilo Mendes, alguns em colaboração com Boris Schnaiderman, constam da indicação bibliográfica no final do livro Murilo Mendes – Obras Completas, Rio, Nova Aguilar, 1994.
Elisabet Gonçalves Moreira