Bet com t mudo

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BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

domingo, 14 de janeiro de 2024

“Na lasca do mundo, no oco do nada e do nunca” Virgílio Siqueira

 

Virgílio Siqueira - “Poeta; e mais do que isso não quero ser” - foi homenageado em uma mesa acadêmica na UPE, Universidade de Pernambuco, na 3ª. Semana de Letras de Petrolina, em novembro de 2023, com o título “Uma poética ao sol e à chuva”. Convidada que fui, entre outros, apresentei esse trabalho.

 

Assumidamente poeta, Virgílio Siqueira é cioso do seu fazer, dessa lida com as palavras.

Sem dúvidas há muito a se dizer sobre a poesia de Virgílio, natural de Ouricuri, onde nasceu em 1956, e que fez de Petrolina seu lugar mais assente. Um bom poeta pernambucano, como o caracterizou Lourival Batista, o Louro do Pajeú, não confundido com seu xará, o Virgílio italiano.

 

Sabemos que a poesia brasileira contemporânea, de modo geral, está num plano de diálogo e de busca que incluem o sujeito e a maneira como ele se coloca diante do mundo, já que “aos atentos se revela inteira”, como ele diz em um de seus poemas. Ao mesmo tempo está inserida na busca pela criação e pela experiência estética, aliada à tradição e à linguagem.

 

Seu volumoso “Vaga-lumear”, uma reunião de mais de 500 poemas, entre outras obras, editado por ele mesmo, mostra o cuidado com a seleção, a montagem e o visual gráfico. Aliás, ele se “explica” nas três dezenas de páginas introdutórias, se justifica, se afirma... Dilemas existenciais sim, mas, sobretudo, coerência e ética em seu mister de poesia.

 

Observem essa foto das páginas 56 e 57, como exemplo preliminar desse cuidado gráfico e assim destacar a visualidade no branco da página, um índice de leitura.

 

“Vertigens e vestígios” (página 56), simbolicamente metáforas do sertão em “chamas” e em “chuva”. “Vale-tudo” (página 57) um libelo de xingamentos contra o poeta “fedido”, crítico feroz desses que arrotam poesia como se poetas fossem... Não sei se esse “desabafo” foi contra alguém específico, mas ele “perde a paciência” ... entendemos!




 Já este “Pão-de-Açúcar” está óbvio no formato...



Aqui destaco dois versos porque neles reconhecemos o olhar do poeta “Leveza bruta de paisagem que aos atentos se revela inteira/sem que se revelem aos não eleitos, os seus claros encantos...” E assim possamos acompanhar seu discurso poético.

Entretanto, Virgílio faz um alerta nesses versos, que até me fizeram repensar a participação em mesa acadêmica, aceita porque validada pelo apreço ao poeta local.

 

“O livro de minha vida pode ser aberto

  Lido e relido; revolvido e reavaliado

  É dentro dele que eu estou guardado

  E, dentro dele, secretamente liberto

 

  Levo e lavro a minha vida assim

   E devo ter vivido, naturalmente

    Meus momentos controversos

 

Mas, se quiserem mesmo saber de mim

   Dissequem meus versos”


                                   (in “Vida, minha vida”, página 479, do livro Vaga-lumear)

 

Que anatomia teriam os versos onde o poeta pede para dissecá-los? Provocações metalinguísticas perpassam seus poemas. Fica o desafio... sua extensa produção, num poeta vivo e atuante, tão próximo de nós, precisa ser mais divulgada, trabalhada, fruída.

 

Então, em minha especialidade, vou tentar “dissecar” um poema de Virgílio, escolha difícil, mas que me tocou como poesia em primeiro plano. Nos vários sonetos em que se expõe, este me segurou e prendeu...

 

Sem fuga

 

Da faca não foge o fio

Nem foge o rio do leito

O amor não foge do peito

Nem a vergonha do brio

 

A tristeza do sombrio

A inveja do despeito

A frieza do suspeito

Nem a vileza do ardil

 

O eco não foge do grito

Nem a aflição do aflito

Nem o martírio da cruz

 

Crápula não foge do escuso

Nem equívoco de confuso

E nem o lume da luz

 

    (página 232 de Vaga-Lumear)

 

 

E tem música, como me avisou Virgílio, em tempo... https://www.youtube.com/watch?v=YCezR0Td8ZM


Um soneto bem construído, 2 quartetos e 2 tercetos, redondilha maior, ou seja, versos de 7 sílabas poéticas, rimas no esquema abba nos quartetos; ccd eed nos tercetos, com efeitos sonoros de aliterações que intensificam o ritmo poético da versificação.

 

A negação, explicitada e repetida pelo advérbio não, afirma o que nega, um paradoxo que estranha o discurso poético e nos prende a ele. Isso é poesia, isso é literatura. Se “Da faca não foge o fio”, significa, óbvio, que o fio faz parte da faca... Ah, e nesse caso, a gente lembra de João Cabral de Melo Neto, quando diz “uma faca só lâmina” ...

As aliterações reforçam o ritmo nesses sons de fe (faca foge fio). Essa não fuga que foi alardeada desde o título, também negativa, sem fuga.

Já no segundo verso aparece outra palavra que aumenta o significado da negação: nem, que se repete sete vezes no poema. Nesse caso, analisando morfologicamente, a palavra nem funciona no contexto como uma conjunção aditiva se observarmos sua correlação de sentido com o não explicitado. “Da faca não foge o fio/nem foge o rio do leito”.  E no último verso, temos explicitamente a conjunção aditiva e acompanhando nem “E nem o lume da luz”.

Interessante notar que o verbo fugir, na sua forma do presente do indicativo foge, está implícita logo após o nem. Reiterado nos três primeiros versos, ele se “oculta” nos outros, com exceção do nono e do 13º. Há certa ambiguidade morfológica e sintática que evidenciam procedimentos e desafios para o leitor atento.

Além disso, o poeta trabalha símbolos e imagens em uma sequência de constatações da nossa realidade, de causas e consequências que nos constituem humanamente, incluindo aí nossas vilezas. Sem a possibilidade de fuga, o poeta encerra com “Crápula não foge do escuso/Nem equívoco de confuso/e nem o lume da luz.”

Aqui aparecem duas palavras que chamam a atenção, pela pronúncia e pela colocação: “crápula” e “equívoco”. Nas relações feitas durante o poema há um tom filosófico de condenação nessas atitudes antiéticas, uma postura ideológica do caráter de um indivíduo do qual não há fuga. Mas o último verso se ilumina. Sempre haverá um discernimento luminoso. Talvez a esperança que não se apagará.

Virgílio Siqueira, finalizando: o sertão é seu lugar definido, mas o mundo o atrai em paisagens e pessoas... um Dom Quixote metafórico no que lhe toca de injustiça e de impotência social. Sem falar de sua sensualidade desmedida, cinco sentidos visíveis, musicalizados, intertextos e referências em labirintos e vozes que ressoam...

 

“Na lasca do mundo, no oco do nada e do nunca” (destacado na página 513) tomei como título desse trabalho. A escolha das palavras pelo poeta se faz na caracterização quase niilista do seu fazer e do seu lugar, mas que se combinam nessa referência de um espaço muito maior da sua poesia.

Para sempre, obrigada Virgílio.

Elisabet Gonçalves Moreira

Petrolina, novembro de 2023.

https://www.instagram.com/virgiliobsiqueira/


 


quinta-feira, 9 de novembro de 2023

MARCAS DE FERRAR - FINALIZAÇÃO

 Depois de quase um ano apresentando partes de meu trabalho de pesquisa sobre ferros de marcar/signos do sertão e de outras geografias, finalizo com a bibliografia geral utilizada, referências via web e uma amostragem de outros ferros de marcar boi, de minha coleção particular. Fotos de Sílvia Nonata.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALENCAR, José de. O Sertanejo. São Paulo: Edigraf, 1961.

A Magia dos Simbolos, O Círculo, in Homem Mito & Magia. São Paulo: Ed. Três, 1974, vol. I, p. 140/141.

 BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004, p. 10.

BARROSO, Gustavo. Terra de Sol – Natureza e Costumes do Norte. Fortaleza: Edições Demócrito Rocha, 2003. 

BOGGIANI, Guido. Os Caduveos. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975, p.229.

CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e Cantadores. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1984, p. 106.

 

Diccionario dos Synonymos  Poetico e de Epithetos da Lingua Portuguesa por J.I. Roquete e José da Fonseca - Librarias Aillaud e Bertrand, Paris-Lisboa, Paris, 30 de janeiro de 1848.

 

DOYLE, Conan, O Vale do Terror. São Paulo: Melhoramentos, 1982.

 

GINZBURG, Carlo. Mitos, Emblemas, Sinais. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

 

GOMES, Laurentino. Escravidão – volume I – Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019.

 

JULIO, Silvio. Terra e Povo do Ceará. 2ª ed. Rio de Janeiro, Revista Continente Editorial Ltda, 1978.

 

KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Vol. 1. 12ª ed. Rio-São Paulo-Fortaleza: ABC Editora, 2003.

 

LOPES, Edward, Fundamentos da Linguística Contemporânea. São Paulo: Cultrix, 1976, p. 17.

 

LOPES, Esmeraldo. Caatingueiros e Caatinga: a agonia de uma cultura. Maceió: Gráfica Grafiptel, 2012. 534p.il.

 

LOTMAN, Iúri M., "Sobre o Problema da Tipologia da Cultura" in Semiótica Russa, São Paulo: Perspectiva, 79, p.32

 

PEIRCE, C.Sanders, Semiótica. S. Paulo: Perspectiva, 1977, p. 46.

 

PIGNATARI, Décio, Semiótica da Arte e da Arquitetura. São Paulo: Cultrix, 1981, p.90.

 

RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 120ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 9.

 

ROSA, J. Guimarães, A Hora e a Vez de Augusto Matraga in Sagarana. Rio: José 0lympio, 1976, p.335.

 

SUASSUNA, Ariano, Romance D'A PEDRA DO REINO e Príncipe do Sangue do Vai-E-Volta. Rio: José 0lympio,76, p.294.

 

Manuscrito:

Livro de Registro de "ferros, marcas e signaes" da Villa de Petrolina, dos anos de 1872 e 1873. Obs.: Encontrei esse livro na Biblioteca Municipal da agora cidade de Petrolina no início dos anos 80. Foi levado de lá e não devolvido. Uma cópia xerográfica ainda pode ser consultada no Museu do Sertão de Petrolina, PE.

 

DOCUMENTOS DE ACESSO ELETRÔNICO (via Internet)

 

https://teologiabrasileira.com.br/o-numero-da-besta-um-estudo-introdutorio-em-apocalipse-13-16-18 - (Acesso em 26/01/23)

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nebamun_Supervising_Estate_Activities,_Tomb_of_Nebamun_MET_DT11772_detail-7.jpg . Nota: Detentor dos direitos autorais da ilustração: https://creativecommons.org/publicdomain/zero/1.0/   (Acesso em agosto 2022) 

https://www2.camara.leg.br/legin/fed/declei/1940-1949/decreto-lei-4854-21-outubro-1942-414867-publicacaooriginal-1-pe.html (Acesso em 25/01/23)

https://victorgurjao.jusbrasil.com.br/artigos/207694906/posse-conceito-teorias-fundamentais-e-classificacao (Acesso em 25/01/23)

https://mundoeducacao.uol.com.br/historiadobrasil/camaras-municipais-1.htm (Acesso em agosto 2022)

https://medium.com/@Gil.Dicelli/sertao-a-ferro-e-fogo-  

Também disponível em: http://especiais.opovo.com.br/sertaoaferroefogo.  (Acesso em setembro 2022)

https://www.hypeness.com.br/2021/11/documentos-comprovam-que-suastica-nazista-era-usada-para-marcar-gado-no-para/ (Acesso em 16/06/22)

https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Cattle_brands_in_MItchell_County,_TX_IMG_4547.JPG (Acesso em agosto 2022)

 http://www2.agricultura.rs.gov.br/uploads/1274814225MARCA_DE_REBANHO.pdf -  (Acesso em 19/01/23)

https://medium.com/@Gil.Dicelli/sertao-a-ferro-e-fogo-fa306342c22e. (Acesso em 20/01/23)

 

https://www.mfrural.com.br/detalhe/1122/marcadores-de-gado-em-aco-inoxidavel (Acesso em janeiro 2023)

https://slowfoodbrasil.org.br/arca_do_gosto/gado-curraleiro-pe-duro/ (Acesso em 24/1/23)

A estética armorial dos ferros-de-marcar na obra de Ariano Suassuna e Manuel Dantas, de Daniella Carneiro Libânio de Almada in https://www.pluralpluriel.org/index.php/revue/article/view/131   nº 17 – 2017 - Acesso em 21/07/2022 

Sob os signos das boiadas: as marcas de ferrar gado que povoam o sertão paraibano - Dissertação da autoria de Daniella Lira Nogueira Paes –  http://portal.iphan.gov.br – Acesso em 30/5/22

 Vídeos:

·         https://www.youtube.com/watch?v=khm0c70-RFU - Marcadores personalizados em aço inox - Marca para Gado e Cavalo personalizadas em aço inox Ferrador   (Acesso em janeiro 2023)


ANEXO

Ferros de marcar boi – Região do vale do São Francisco

Parte da coleção de Elisabet G. Moreira  -   Fotos de Sílvia Nonata

 















Observação: ferros de pequenos proprietários, já sem uso. Sem identificação do proprietário.  Usados no final do século XIX e primeira metade do século XX.

 








A
  

 


domingo, 22 de outubro de 2023

SIGNOS EM TRANSIÇÃO

Conquanto não seja tarefa das mais simples, a "leitura" das relações intersígnicas dos ferros de marcar o gado levou-me a um dos possíveis sentidos do processo aí utilizado.

No decorrer desse trabalho, apresentado aos poucos nesse blog, vimos observando um processo dinâmico e geracional na leitura dos ferros de marcar/marcas de ferrar, signos em transição. Tomando como base uma das definições de Charles Sanders Peirce:

 

"Um signo, ou representamen, é aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria na mente dessa pessoa um signo equivalente ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao signo assim criado, denomino interpretante do primeiro signo."  (PEIRCE, 1977)

 

A semiose se dá numa relação triádica, indo além das "duas faces de uma folha de papel" na proposição semiológica de forma e conteúdo de Saussure. Segundo Peirce, a natureza do interpretante depende do modo de representação do objeto no signo. Assim, o signo vai concentrar dimensões de um mesmo objeto e desenvolver seus interpretantes que são por ele determinados e, ao mesmo tempo, autodeterminantes por serem, igualmente, signos.

Desse modo, o objeto imediato está contido no próprio modo de sua apresentação no signo, e entra em correlação dinâmica para agir como força propulsora na mente que interpreta e gera os três tipos de interpretantes do signo:

1 - Interpretante em nível de primeiridade (interpretante imediato): provoca na mente interpretadora apenas a captação sensível de sua qualidade, que é um signo;

2 - Interpretante em nível de secundidade (interpretante dinâmico): provoca uma reação ativa da mente interpretadora;

3 - Interpretante em nível de terceiridade (interpretante final): provoca na mente interpretadora o reconhecimento das normas estabelecidas pelo uso comum e desenvolvidas sob a forma de leis que caracterizam convenções e hábitos.

Portanto, a descrição dos sistemas sígnicos, se dá, em síntese, também de acordo com três pontos de vista:

"(a) do ponto de vista das relações intersígnicas,ou seja, do ponto de vista das relações que um signo qualquer mantém para com os demais signos pertencentes ao mesmo enunciado. Seria o estudo da função sintática.

(b) do ponto de vista das relações de um signo para com o seu objeto, ou melhor, relação do signo enquanto veículo de informação para com o seu denotatum. Seria o estudo da função semântica;

(c) do ponto de vista das relacões do signo para com os seus usuários, quer dizer, relação do signo com o remetente e o destinatário. Seria o estudo da função pragmática." (Lopes, 1976)

Embora controvertida, até mesmo nos adeptos das teorias de Peirce e Morris, essa tripartição é que tem orientado, de modo geral, os estudos nesse campo. Evidentemente que estudos mais atualizados complementam o que aqui se coloca como ponto de partida. Não é intenção, nem poderia, esgotar assunto tão complexo.

Parece-me que autores interpretadores dessa teoria se esquecem, muitas vezes, da dinâmica desse processo e das relações entre esses pontos de vista. Num triângulo, afinal, temos também uma linha em geração contínua a partir de determinado ponto, no caso o próprio signo. Daí o perigo da estratificação ou hierarquização desses mesmos ângulos. Procedimentos mentais também dificilmente se esquematizam com rigidez.

Peirce e Morris deixaram uma classificação dos signos que nos ajuda a entender a complexidade da representação sígnica. Índices ou sinais não convencionais são chamados signos naturais porque o relacionamento no processo de comunicação não se dá entre pessoas, mas entre um índice da Natureza e o receptor-interpretador desse sinal. Um exemplo corriqueiro é dado quando o céu fica carregado de nuvens escuras e interpretamos como chuva iminente.

Entre os signos culturais ou artificiais, temos o símbolo, parcialmente motivado, como é o caso da cruz, símbolo do Cristianismo porque está associado ao martírio de Cristo numa cruz. Outros signos artificiais são as tabuletas, apitos, fórmulas e, é claro, os signos linguísticos ou verbais, cuja arbitrariedade é talvez o fator que melhor os caracteriza. A palavra cão (canis, cane, chien, dog...) não é o cão, mas é o nome comum dado ao animal, ou seja, o signo linguístico.

Finalmente o ícone ou imagem, tido como um sinal não-sígnico por incluir uma relação necessária entre a parte que expressa formalmente o conteúdo, o significante, e o conteúdo expressado ou significado. Uma fotografia é um ícone. No sistema da língua as onomatopeias são consideradas elementos icônicos.

É verdade que isso demanda muito mais abrangência e particularização, porém a intenção desse trabalho é outra.

Voltemos, portanto, a nosso ferro de marcar boi, animal e gente. Em fevereiro desse ano, como o título "Marcas de Ferrar (Parte I)" iniciei a publicação dessa pesquisa, nesse blog, ilustrando-a com esse ferro de marcar da primeira metade do século passado, índice motivador desse estudo. Um estudo que, esclareça-se mais uma vez, foi iniciado ainda na década de 80.

                                                                                     (Foto de Sílvia Nonata)

                                                                                         https://betcomtmudo.blogspot.com/2023/02/

Mesmo com base numa tradição secular, o ferro de marcar não deixa de ser um signo utilitário. Utiliza um material que, embora num sistema de produção artesanal, requer seu operário: ferro e ferreiro, mas com uma ética especial, de valores e normas que não se enquadram no mero consumismo de nossos dias. E uma complexidade não menos fascinante.

Sem classificar ainda nosso signo, vejamos o funcionamento do processo, segundo a teoria vista:

·         Signo: o visual, o desenho, a forma "ferrada" no animal;

·        Objeto: a fazenda ou a propriedade a que pertence o ferro, iniciais do dono, marca do dono;

·      Interpretante: efeito que gera o significado do objeto, mais reações a esse processo.

Em nível de primeiridade, o receptor configura as formas desse signo: letras em simetria ou um desenho especialmente criado. 

Em nível de secundidade, a relação semântica, "símbolo" da posse: identifico o dono do animal marcado com esse ferro.

Em nível de terceiridade: segundo minha cultura e interesses, posso ver apenas iniciais, um desenho rústico ou um belo exemplo de artesanato ou a marca simbólica da violência, da posse num sistema de posses, misto de misticismo, superstição, respeito.

Evidentemente que, em nível de primeiridade, da comparação de formas, do pensamento analógico, icônico por similaridade, temos sincronia e, em nível de terceiridade, de pensamento relacional, simbólico, temos diacronia. Embora sejam conceitos distintos, sincronia tem o objetivo, na linguística, de estudar a língua num momento específico e a diacronia o estudo da língua através do tempo. Ambas em inter-relação na dinâmica mesmo da cultura, pois se conjugam intimamente. 

Utilizando as palavras de Décio Pignatari, posso concluir:

 

"É por esta razão que um ícone, repetido e organizado, se transforma em signagem, em sistema de signos; é por esta razão que uma signagem ou um elemento dela, isolada do sistema, reverte ao ícone, a uma possibilidade."  (PIGNATARI, 1981)

 

0 ferro de marcar, que normalmente teria como função apenas identificar a rês ou animal de patrão em outrora campos abertos, não cercados, cerca-se, no entanto, de uma rede de interpretações sígnicas, muito maior que sua intenção primitiva.


Lembrando da canção Disparada, de Geraldo Vandré, de 1966, no auge dos protestos políticos contra a violência da ditadura militar no refrão:

“Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente”

Na dinâmica da língua encontramos a expressão “Tá ferrado”, isto é, marcado, frito, fudido, lascado, expressão da gíria que remete subliminarmente a essa prática, principalmente quando aplicada ao ser humano. Inclusive, temos exemplos nos BO policiais de extrema violência, quando maridos ou companheiros “ferram” mulheres como “castigo” por suposta desobediência, deixando sua marca pessoal para sempre, de macho dominante.


Metalinguagem, o interpretante continua gerando significações. Afinal, a própria significação tem como recurso a língua natural que lhe serve de fundo. 0 ferreiro, executor e muitas vezes artista-criador, interage com o dono do ferro, criador usuário. 0 receptor, o vaqueiro, o ladrão de gado, os vizinhos, ou o pesquisador, ou você, recebemos dessa marca agora invertida mais que uma leitura metonímica: uma rede de inter-relações e de expectativas.

Na memória coletiva e cultural temos um sistema de signos que modeliza o mundo sertanejo sob a perspectiva de sua dinâmica social e fundiária: um sistema, sobretudo, de posse e de não posse. Um símbolo de Poder, “a ferro e fogo” como se enfatizou, mas que se desdobra em outras possibilidades e linguagens.


Pierre Bourdieu, na seção “As produções simbólicas como instrumentos de dominação” em seu livro O Poder Simbólico, sintetiza:

 

“A cultura dominante contribui para a integração real da classe dominante (assegurando uma comunicação imediata entre todos os seus membros e distinguindo-os das outras classes); para a integração fictícia da sociedade no seu conjunto, portanto, à desmobilização (falsa consciência) das classes dominadas; para a legitimação da ordem estabelecida por meio do estabelecimento das distinções (hierarquias) e para a legitimação dessas distinções.”[1]

 

Os símbolos são parte desse modo de representação da realidade e, consequentemente, do mundo de que faz parte, pelo qual a cultura e seus valores se expressam e se reafirmam através dos sistemas simbólicos.


Com certa surpresa, pude constatar que a prática da ferra persiste, inclusive nas imediações da represa de Sobradinho, entre Bahia e Pernambuco. Na segunda década do século XXI, um vaqueiro ainda pode ser contratado para achar o boi que vaga solto nas roças de sequeiro, gente de pouco criatório ou sem uma roça própria, de um extrato social diferente dos grandes proprietários.

O próprio gado, quando criado solto, revela seu estado animal, em que os bichos certamente se reconhecem em cruzamentos livres. Aliás, há uma referência preconceituosa a esse gado chamado de “pé duro”, sem raça definida. Um “pé duro”, isto é, de cascos fortes, resistente ao maltrato do meio ambiente na caatinga, das secas periódicas, no chamado regime de fundo de pasto pelos sertanejos, mas ainda com valor no mercado periférico, doméstico, e dos que pouco têm ou podem adquirir.[2]


Na verdade, milhares de povos adotaram as orientações e mentalidade do poder romano espalhado pelo Ocidente e, sobretudo das tradições ibéricas, durante o período colonial após a tomada das Américas. Não há como conter a história de uma violenta conquista construída e validada socialmente por suas instituições. A marca do proprietário sempre simbolizou a insígnia do poder, da propriedade privada, do respeito exigido e esperado, do sucesso pessoal e, adrede, suas benesses sociais e políticas.

 

 

 

          Petrolina, 2023 (refeito a partir do original de 1982)

Elisabet Gonçalves Moreira



Observação: Para finalizar esse estudo, vou publicar a Bibliografia utilizada, assim como as referências. Agradeço observações e comentários.



[1] BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004, p. 10.



    

quinta-feira, 28 de setembro de 2023

MARCAS DE FERRAR: FERRAÇÃO EM ATOS E REGISTROS


Destaco algumas referências bibliográficas, geralmente regionais, que tratam deste assunto. Indico em especial o trabalho primoroso sobre a região do Vale do São Francisco de Esmeraldo Lopes e o livro “Caatingueiros e Caatinga A agonia de uma cultura” (Maceió, Gráfica Grafipel, 2012. 543p.il.).

A descrição da ferração dos animais, feita por Esmeraldo Lopes, é particularmente exemplar, pelo estilo e pelos detalhes, marcando também a memória visual e olfativa. Ademais, isso era uma prática comum e aceita no cotidiano do sistema econômico e social, sem julgamentos ou posturas do mundo “civilizado” de agora. Sempre se destaca a honradez e respeito às marcas das famílias, tornando o furto de animais uma vergonha para o ladrão, quando desmascarado.

 

“A ferração dos jumentos, dos cavalares, providenciada quando os bichos já em corpo feito; ferração de gado ao entrar na fase de garrote. No dia de ferração os bichos a serem ferrados no curral. Uma fogueira pequena acesa, os ferros com a marca da família, do proprietário dentro da família, postos nela, sufocados por bandejas de bosta seca de gado, para esquentamento ligeiro. Os garrotes, marrãos de jumento, os poltros crescidos caindo no laço, sendo derrubados para a imobilização. E lá vindo o ferrador, com o ferro em brasa na mão, fazendo mira. O bicho estrebuchando, o ferro fazendo chiiii, e a fumaça subindo, cheirando a cabelo a carne queimada, ao som de um berro afogado. Colocar estrume fresco de vaca em cima do ferimento da queimadura: a prevenção contra bicheira. Com as ovelhas, assim também, na obra de carimbação.” (LOPES, 2012, p. 135/6).

 

Nos animais há, inclusive, um cuidado para não estragar o couro, que, após o abate, será aproveitado em diversos usos, desde a indumentária do vaqueiro, até a forração de móveis e utensílios. Portanto, as leis e normas oficializadas mais tarde só referendaram uma prática usual de interesse do mercado e do comércio.


Câmara Cascudo descreve no geral:

 

“Nenhuma festa tinha as finalidades práticas das “apartações” do Nordeste. Criado em comum nos campos indivisos, o gado, em junho, sendo o inverno cedo, era tocado para grandes currais, escolhendo-se a fazenda maior e de mais espaçoso pátio de toda ribeira. Dezenas e dezenas de vaqueiros passavam semanas reunindo a gadaria esparsa pelas serras e tabuleiros, com episódios empolgantes de correrias vertiginosas. Era também a hora dos negócios. Comprava-se, vendia-se, trocava-se. Guardadas as reses, separava-se um certo número para a “vaquejada”. Puxar gado, correr ao boi, eram sinônimos. A “apartação” consistia na identificação do gado de cada patrão dos vaqueiros presentes. Marcados pelo “ferro” na anca, o “sinal” recortado na orelha, a “letra” da ribeira, o animal era reconhecido e entregue ao vaqueiro.” (CASCUDO, 1984, p. 106)

 

Ribeira é o nome que se dá às terras baixas das margens de um rio. No texto de Cascudo, assim como no contexto deste trabalho, designa o espaço rural que abrange algumas fazendas de criação de gado, dependentes de um curso de água comum. Inclusive, a história do povoamento do interior dos sertões está diretamente relacionada com a expansão extensiva da criação de gado.

 

  Não há bibliografia sobre o assunto que não use ou apenas cite o livro Terra de Sol – Natureza e costumes do Norte de Gustavo Barroso (1888-1959), publicado em 1912. Um livro cuja linguagem e subjetividade do autor não resistem ao incômodo do escancarado racismo e preconceitos vários, ainda que possa ter influenciado outros autores, inclusive Ariano Suassuna, pelo fato de ter descrito o sertão cearense, incluindo aí os ferros de marcar o gado. Escolhi duas observações que concernem à minha análise em decurso:

            “Os matutos têm um conhecimento profundo dessas marcas de gado. São elas o assunto predileto de suas palestras; e, enquanto conversam, desenham-nas no chão com um graveto ou com a ponta fina da “parnaíba” afiada. Distinguem-nas ao longe. Jamais se enganam. Conhecem os ferros da ribeira toda de cor e salteado. E quando aparece um animal de marca desconhecida, logo a riscam na porta da casa ou nos troncos insulados das várzeas para roteiro dos que procuram gados sumidos de fazendas distantes.” (BARROSO, p. 210)

            Portanto, os ferros assinalam outras finalidades, um código de reconhecimento e um trabalho especializado para ser feito.

            “O ferro é de grande utilidade para saberem notícias dos animais tresmalhados; e o primeiro trabalho de um vaqueiro ao “pedir um campo” em fazenda estranha, isto é, pedir auxílio ou licença para procurar a rês sumida, é apear-se e riscar no chão o respectivo ferro, dizendo a letra da freguesia e sinal da fazenda.” (p. 213)

            O que inferir desse ato primeiro de uma escrita sígnica? De um singular paradigma indiciário, na análise de desenhos, rastros, pistas, é que se geram as ações de um processo aguardado – e autorizado - pelo sistema vigente. Portanto, o sinal dado pelo ferro de marcar está inserido numa rede de informações como veículo intercomunicativo, projetando-se na orientação do próprio fazer, do tipo de trabalho a que se dedicam os vaqueiros – ou se sujeitam - nesse modo de vida.

            Diferente do registro manuscrito do Livro de Ferros da Vila de Petrolina, de 1872/73, temos aqui a foto do registro nº 1, de 1942, feito no município de Limoeiro, no estado do Ceará. Formal e burocrático, pela ficha, vemos que o registro fez parte de um processo, iniciado com o pedido em 1939, publicado no D.O. (Diário Oficial) em 1940 e só registrado dois anos depois. Quanto ao desenho da marca, achei incipiente, lembrando um graveto (duas retas). Sabe-se, no entanto, que há registros das marcas de gado, em municípios de outros estados, 

Foto Cláudio Ribeiro – Diário do Povo – 2014 [1]

            Para comparação, encontrei esta foto de outro registro na cidade de Campos, no estado do Rio de Janeiro, mais elaborado na escrita, no preenchimento do registro e no desenho. Datado de setembro de 1932, há conotações instigantes nas referências nominais como “indústria pastoril” e “systema “Ordem e Progresso”. O ano de 32, marcado pela ditadura de Vargas e o “Estado Novo”, também ficou marcado pela Revolução Constitucionalista e ano da fundação oficial da Ação Integralista Brasileira, de cunho ideológico eminentemente fascista, por Plínio Salgado. Entre o Sudeste e o Nordeste, há diferenças significativas nesse momento histórico... mesmo uma década depois. A leitura deste documento, num país conservador de origem agrária, referenda a dominação até pelo emblema Ordem e Progresso, como na bandeira brasileira.[2]


            O ferro ali desenhado, simétrico, pode lembrar o esboço de uma cabeça humana ou, mais de acordo com a proposta do “systema”, de cunho nacionalista, a ordem e o progresso.

            Fico então sabendo que o Ceará tem o decreto nº 523, de 29 de março de 1939, que regula o registro de marcas de gado no Estado. O então interventor federal, Francisco de Menezes Pimentel, ordenou, no artigo 1º: “A propriedade sobre o gado bovino, equino, asinino e muar é comprovada, no território do Estado do Ceará, por meio de marca a fogo” (grifos meus).

            Embora o método de marcar tenha evoluído, ainda é necessário o registro. Segundo o depoimento de Geraldinha Barroso dos Santos, do Setor de Registro de Marcas de Ferrar Gado, da Secretaria do Desenvolvimento Agrário daquele estado, desde o início da legislação, foram criadas 34.696 marcas, lembrando que a reportagem de onde tirei as informações é de 2014. Por mês, chegam a apresentar de 30 a 40 novas marcas, e há uma taxa de serviço a ser paga.

            Uma reportagem especial com o sugestivo título de “Sertão a ferro e fogo – Marcas de gado e gente”, de Gil Dicelli, no Diário do Povo, de Fortaleza, CE, traz várias abordagens sobre o assunto, com diversas autorias. Também fala das vaquejadas, hoje um tipo de “esporte”, num lugar especial, com prêmios e shows, em que os atuais vaqueiros em nada se parecem com a ancestralidade da pega do boi na caatinga. Em Petrolina, há um parque de vaquejadas bem estruturado, com um calendário de eventos. Dimitri Túlio, um dos articulistas da reportagem citada, sintetiza:

            “Semelhante a tempos bem longe, os aldeões se reúnem num canto para assistir aos clãs mais abastados, ostentantes de cavalos potentes e marcas de ferrar como assinatura, disputarem qual família tem a melhor cepa de vaqueiros contemporâneos”.

Se você tiver interesse em ferrar seu rebanho, assista ao pequeno filme disponível no Youtube; mais didático impossível:

    

            https://www.youtube.com/watch?v=khm0c70-RFU


A natureza e o entorno dos tempos mudaram a dinâmica do poder e de suas posses, seja nas profundezas de um Brasil pouco conhecido, seja na periferia de espetáculos, da própria arte em suas variadas linguagens e adaptações mercantis

 

 



[1]Diário do Povo – 2014 – Gil Dicelli - Sertão - A Ferro e Fogo | O POVO - Reportagem especial do O POVO sobre a marca de ferrar boi, uma herança avoenga - especiais.opovo.com.br  (Acesso em 20/01/23) 

Créditos (complementando a nota 1: O especial “Sertão a Ferro e fogo – Marcas de Gado e Gente” foi ganhador do Prêmio BNB de Jornalismo, na categoria de Fotografia Nacional (2015) e na categoria Reportagem Nacional, com textos de Ana Mary C. Cavalcante, Cláudio Ribeiro, Demitir Túlio, Émerson Maranhão e edição de Fátima Sudário. Além disso, ganhou o Prêmio ESSO de Jornalismo na categoria “Criação Gráfica”, com projeto assinado por Gil Dicelli.