Bet com t mudo

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BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

quinta-feira, 4 de abril de 2019

A computação eletrônica e o domínio de seu uso


A vida em sociedade deste século XXI não consegue prescindir de dispositivos de computação eletrônica. Computadores, tablets, celulares, ficam cada vez mais atraentes, práticos e acessíveis. Sua evolução é inimaginável em possibilidades de uso e apresentação.



Desenvolvidos desde o século passado, são ferramentas essenciais para o conhecimento, a interação e a informação e nos tornaram praticamente dependentes da tecnologia digital e da necessidade de uma educação nesse sentido. Começa-se pelo domínio de um vocabulário terminológico em língua inglesa, requisito básico da universalidade de sua compreensão.

Para a comunicação entre o homem e a máquina, foram desenvolvidas interfaces, a do hardware e a do software, necessárias à interação das linguagens de programação. São emissores e receptores mediados por códigos e sistemas, um mundo vasto e complexo, dinâmico e interativo, retroalimentado e retroalimentando-se constantemente.

A interface de software é a principal responsável em proporcionar a tradução intersemiótica, ou seja, a tradução em outros sistemas de símbolos não verbais, como a linguagem de uma máquina para uma linguagem humana. É o código que diz o que a máquina deve fazer e, consequentemente, interfere no comportamento de interação do usuário.

Um exemplo: se estou na fila do autoatendimento de um banco para sacar dinheiro e, inesperadamente, aparece na tela da máquina que eu preciso me dirigir a outro terminal para sacar, significa dizer que um não humano (coisa/objeto) gerou uma ação para um humano realizar. Isso foi possível graças ao código que, rapidamente, sobrepondo interfaces, fez uma leitura de, pelo menos, parte do contexto e comunicou o que e como fazer.

Autômatos, fazemos o que a máquina manda. E aí entram os algoritmos - códigos numéricos que regem o funcionamento do sistema - que não respondem à pergunta “o que fazer?” mas, sim, a “como fazer?” Semelhante a um tutorial passo a passo, seguimos procedimentos ordenados para alcançar o que desejamos ou para abrir “links” que nos encaminham a seus derivados e interesses, numa geração quase infinita de possibilidades. Observem as propagandas que aparecem em seus dispositivos eletrônicos, como se adivinhassem nossos desejos e alcance de consumo.

Diante desse “automatismo”, precisamos, urgentemente de uma alfabetização algorítmica em todos os níveis da educação. Pierre Lévy, filósofo referência nesta área, afirma que a inteligência humana evolui graças à tecnologia e que essa é, essencialmente, linguagem. Assim, é preciso dominar essa linguagem para contribuir e potencializar a inteligência coletiva, algo que precisa ser construído e não algo que se deve apenas observar. Temos um conhecimento cumulativo, que sempre vai criar algo novo. O fundamental é, pois, aumentar a capacidade cognitiva, aumentar a reflexão e estar mais cientes da forma como nos comunicamos.

A questão, neste momento, é que o domínio dessa linguagem é exclusivo de poucos, e não podemos nos limitar a ser, apenas, seguidores autômatos. Por isto o desafio de nos tornamos também criadores. Comparemos este desafio com a invenção do alfabeto – um código - na história da humanidade. De simples usuários, o que muitos ainda são, tornamo-nos criadores de vários outros códigos, inclusive os da comunicação algorítmica. Mas a mudança de status - usuários para criadores - leva tempo e muito esforço.

A rede mundial de computadores, Internet e Web, a interface gráfica da rede, é algo tão poderoso que sequer conseguimos ter ideia do seu pleno alcance, tanto no presente, como para o futuro. Seja nas relações pessoais ou institucionais, se pensarmos nas pesquisas de uma forma mais geral, pensarmos também na política, na guerra, no desenvolvimento que desejamos, não podemos ficar à margem do bem e do mal entre o automatismo que vem se impondo e a alienação paulatina de nossa cognição.

Mais do que nunca é hora de ficarmos atentos com estas constatações, cobrar das escolas de nosso país, públicas ou particulares, não só uma educação tecnológica fundamental, mas também um olhar crítico sobre o uso dessa mesma tecnologia, de sua dinâmica e de nossa capacidade interativa e criadora.

Vivemos numa sociedade da informação e do conhecimento. Nessa realidade, constatamos também que o desenvolvimento e a Economia das nações se fundamentam muito mais no conhecimento de uma Economia de Dados, de informações substanciais até para o equilíbrio mundial, do que numa Economia basicamente de Mercado, como poderíamos achar correto até há pouco tempo.

Estamos preparados para isso?



Elisabet Gonçalves Moreira (colaboração de Cecílio Bastos) 

Petrolina,  abril de 2019

"nenhuma violação de direitos autorais pretendida".

sexta-feira, 1 de março de 2019

RELATO DE UMA EPIFANIA



Epifania significa aparição ou manifestação de algo, normalmente relacionado com o contexto espiritual e divino. Do ponto de vista filosófico, a epifania significa uma sensação profunda de realização, no sentido de compreender a essência das coisas.  Ou, no meu caso, de buscar e interagir com essa essência. Um olhar que envolve também pesquisa e aprendizado.

Assim, relato: quando estive nas ruínas de Delfos, na Grécia, como turista ocasional, meus olhos se deslumbraram. Visitando o museu arqueológico, de uma sala a outra, depois de admirar a estátua da Esfinge (se você não fizer isso, não foi a Delfos e seu museu, eis o pressuposto), o ideal da beleza grega sobretudo nos corpos adultos e nus masculinos, na riqueza dos infinitos detalhes dessa cultura milenar,  me deparei com a mais graciosa e inesperada estátua. Foi esse o momento quase mágico da epifania.

Olhando para a criança que sorria delicadamente, parei embevecida, emocionada. A expressão singela e o realismo inusitado “quebraram” a monumentalidade do que eu havia visto. Ela parecia sorrir para a foto ou para a posteridade?

Vida, senti vida, além da representação artística, atemporal.  Quanto afeto transmitido nesta criança... hoje posso conjeturar, mas, naquele momento, como mãe e como ser humano inundado de ternura para com o outro, vi nosso potencial amoroso e o que ele pode fazer como registro.  

Por que esta estátua foi feita? Por quem? O braço perdido, quebrado sem dúvidas em algum dos muitos terremotos, ou de guerras e saques havidos na região, não lhe tirou a beleza ou seu significado. Reproduzo novamente a estátua, com mais definição do que a minha fotografia.


Em Delfos estão as ruínas do templo do deus Apolo, local de seu santuário e do oráculo. Os gregos consideravam Delfos o centro do mundo e a cidade teve grande importância na Antiguidade, lugar de peregrinação por séculos. Como viviam então as crianças neste mundo?

Procurando conhecer um pouco deste universo e de seu legado para nossa cultura, soube que as crianças eram incluídas na vida adulta assim que tinham condições de viver. A vida da comunidade grega era interligada, desde o nascimento até a morte.  A infância era apenas uma idade de passagem, ameaçada por doenças, incerta quanto ao futuro e, sobre ela, se fazia um mínimo investimento afetivo. Explica-se assim porque eram representadas como adultos em miniatura. No entanto, no final do século IV a.C., na Grécia, as representações de crianças passaram a receber proporções e características infantis.

Olhe novamente para a foto. Teria quantos anos essa criança? Talvez três ou quatro. Ela se veste como um adulto, isto é certo. 
Uma túnica longa colocada no corpo, ajustada no corpo com um cordão. Percebe-se a abertura lateral, pela perna exposta, quase num gesto de alguém que caminha. Acessório complementar é o manto enrolado em torno de seu corpo e que termina solto, sobre o braço esquerdo. As dobras do tecido estão bem detalhadas, fruto de um trabalho artesanal de qualidade. Seja de mármore ou terracota (argila cozida), o material não lhe tira a importância do significado. 

Seu cabelo está primorosamente penteado. A mão, que parece um pouco grande, quase masculina no conjunto, se bem observada, destoa em certa medida da delicadeza da estátua. Soube depois que a cabeça foi aplicada separadamente no corpo e que data do início do período helenístico, no século III a.C.

Embora esta criança esteja vestida como um adulto, nem me importa se menino ou menina, o enlevo está mesmo no seu sorriso ligeiramente esboçado. Se não tem os olhos desenhados, o olhar está inserido na cavidade figurativa, realista. Há um dinamismo no conjunto que quebra o caráter fixo e imóvel das estátuas de um modo geral. Esta criança talvez esteja querendo passear conosco, brincar, pedir que lhe conte uma história...

Então, quem teria mandado fazer esta estátua? Sem dúvidas alguém com dinheiro e poder. A humanidade e a divindade eram próximas no cotidiano grego. Agradar aos deuses era uma forma de viver e assim se justificam os milhares deles e de sua fascinante mitologia, fundamento de uma visão de mundo.  

Na polis, valores cívicos também eram transmitidos pelas estátuas.
Seriam, pois, expectativas e esperanças trazidas pelas crianças para a força e o futuro da comunidade, outra justificativa coerente? Ou seria minha referência apenas um ex-voto em agradecimento ao deus Apolo pela vida de um filho, de um herdeiro ou de sua saúde?

Decoração, ex-voto, até mesmo uma oferenda fúnebre, esta estátua resiste em pleno século XXI, gerando perplexidade e indagações. Sobretudo o registro eterno de uma criança que sorri para o mundo, que me deixou mais humana nesta nossa história de ontem e de hoje. Tão somente isto...
Elisabet Gonçalves Moreira
Petrolina, fevereiro de 2019.


domingo, 20 de janeiro de 2019

DENTRO DE CASA

Minha casa é inundada de pequenos objetos, lembranças, curiosidades... todos com uma história de apego e conhecimento e não mera decoração. Tudo eu vou atrás, quero saber... já me disseram que tenho espírito de pesquisadora. Gostei disso, pois entre tantas observações que fazem sobre nossa pessoa (quanta aparência e sentidos temos?) está o valor que dou à curiosidade, às leituras mais profundas do que nos rodeia.

Talvez por isso também tenha me identificado com a Semiótica, essa leitura dos signos onde tudo é passível de leitura: “textos” em diferentes níveis de análise, encadeamento gerativo de ideias e significações.

Nestes dias de reclusão (por conta de uma convalescença) meus olhos se voltam para detalhes. Desenhando, procurando ver também nos ângulos, na luz e sombra de uma tendência “hiper-realista”, escolhi um pequeno anjo de liga metálica que fotografei, imprimi, copiei, pintei. Este anjo tem apenas 9,5 cm e uma referência “Faithfull Angels” by Ganz. Anjo dos milagres, escrito na tag. E com um pequeno texto, uma oração eu diria, que traduzi do inglês: “A fé vê o invisível, acredita no incredível, e recebe o impossível.”


Mas, nesta direção, um pequeno demônio se inseriu. Uma gárgula pensativa, cópia em resina (com um ímã nas costas) de uma gárgula da igreja Sacré  Coeur de Paris. Irônica, parece perguntar: E eu? Não faço parte de sua “instalação” doméstica?


Faz sim... quase sem perceber, também executei o mesmo procedimento. Os desenhos feitos ainda carecem de reparos. Apenas exercícios para percepção de luz e sombra, volume, e uso de diferentes materiais.

Mas a comparação do significado, deste contraste entre um anjo idealizado na figura feminina e um mítico monstrengo, fica inserida subliminar, a partir da própria escolha, consciente ou não. E na ousadia de fazer um texto sobre isto e uma pequena reflexão sobre a natureza humana.

Primeiramente uma referência sobre as gárgulas... Quem assistiu à animação da Disney “O corcunda de Notre Dame” viu como essa figura é usada. Quasímodo, o personagem criado por Victor Hugo, é similar a uma gárgula. E há várias adaptações cinematográficas, algumas antológicas.

Uma amiguinha de 8 anos me disse que viu a gárgula numa animação do Scooby Doo. Há jogos que   também usam a personagem, geralmente do mal, personificado pelo seu aspecto demoníaco. Em francês, a palavra é "gargoille", originalmente conhecida como "garganta". Daí “cuspirem” a água das chuvas, que escoa pelos telhados, fazendo parte da arquitetura gótica, nas catedrais medievais.

Existem diversos modelos de gárgulas, do grotesco ao satírico, mas é pela sua força simbólica que resistem e impregnam o imaginário ainda nos dias de hoje. Podem dar um aviso:  atenção, o demônio está sempre de olho. Ou, contemporizando, as gárgulas, lá do alto, servem para afastarem o mal, agindo como guardiãs da igreja.

Já os anjos, em toda sua inesgotável plêiade iconográfica, remetem a mais questionamentos do que as gárgulas. As representações destes seres do bem são sempre idealizadas. Tidos como seres perfeitos, carregam o conceito de beleza de nossa cultura através dos tempos. Beleza física e espiritual. Também os anjos são guardiões dos fiéis, protegendo-os do mal.

Existe uma hierarquia de anjos, categorias e funções bem definidas que o esoterismo e algumas correntes religiosas divulgam e complementam com associações de todo o tipo. De imediato eu só associo que os demônios são também anjos, expulsos do céu pelo Deus pai criador.

Assim, estas miniaturas que fazem parte do meu acervo doméstico – tenho muitas outras figuras de anjos – além de tê-las desenhado, carregam um significado especial para mim, apesar de minhas descrenças religiosas. A espiritualidade que se insinua, ancestral, fazendo parte da vida e de seus desafios. Alegorias? Sim, idiossincrática, gosto de pensar nestes desvãos sobretudo filosóficos.

Na eterna luta do Bem e do Mal, o homem sempre se viu dividido entre crenças e religiões, entre objetos, ícones e símbolos que tanto podem significar proteção como poder, medo ou fé. Escolhas que fazem parte de nossa humanidade e de suas contradições.


Gárgula original da Igreja de Sacré Coeur em Paris, pensativa e observando a cidade.



Petrolina, 20 de janeiro de 2019

Elisabet Gonçalves Moreira

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Vazante de Lys Valentim






O que procuramos na vazante?

O que achamos?

Lys Valentim está à procura... Indagações de jovem mulher, artista destas margens, entre vivências que fertilizam expressões de arte.


Literalmente pinta e borda, nomeia, instala, grafita, filtra obras em telas, tecidos crus e paredes.  Mescla linguagens em cores e pontos, materiais diversos para sua criatividade. Mas tem um foco: sua essência de mulher. Onde se revela, desvela...

Figuras femininas são a invariante em significados de leituras. 
Ela mesma nos dá a dica no título que escolheu para sua primeira exposição individual - Vazante - e nos nomes de suas obras, uma procura da poesia. Assim, o que vaza, também enche... o refluxo da vida remete a memórias, a signos diversos, símbolos de uma feminilidade que a desafia, que nos desafia.


É possível "Tarrafar na chuva"? (acrílica sobre tela)

Metáforas e sugestões de vazar dores, lágrimas, filhos, sangue, para renascer uma mulher que sabe apanhar, além das águas, o mundo que dialoga em pequenos índices reveladores. Um joão-de-barro, um barquinho de papel (ou muitos), respingos de água, pássaros, conchas, cabelos entrelaçados, coração exposto...


Lys – que também está no meu nome – mulher valente que nos irmana, a vida não nos dá respostas prontas, então, sempre à procura estamos. Melhor o caminho, o processo dessa busca, onde nos fortalecemos. Obrigada por este encontro.


"Maria casca dura coração de rapadura"  Acrílica sobre tela


"Filtrar" Instalação



"Sua dor vai virar mar" Bordado e aquarela sobre tecido

(Observação: nem todos os trabalhos da exposição são aqui mostrados)

Petrolina e Juazeiro, novembro de 2018


domingo, 11 de novembro de 2018

Textos em desafio (I)

Labirinto




Olho para mim mesma...
Me enrolo,
me enrosco...

Sigo nos descaminhos
                                      Outros traços,
         Outras cores
               Me embaraço
                                 De novo

                E SEMPRE!


CONTO UMA HISTÓRIA E RECONTO A MIM MESMA...

Havia uma menina. Um lindo vestido branco. Como uma noiva. Dia de primeira comunhão. A menina não se viu.

Viu as outras e sentiu inveja. Sempre havia um vestido mais bonito que o dela.

Caminhou para o sacrifício. Pecado contrito, uma ova.

Então, o que fez? Mastigou a hóstia e assim carregou a culpa.

Até hoje se despe – e cospe – para dentro.


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Textos em desafio foram produzidos na Oficina de Escrita de História Fantásticas com Danielle Andarde (BA), no Projeto Entre Margens, SESC Petrolina, 5 a 9 de novembro de 2018.
(I) Proposta: Após uma “meditação” coletiva, em que a orientadora narrava uma história sugerindo uma aventura fantástica em várias fases (tipo Alice no país das maravilhas) para que cada um, de olhos fechados, se imaginasse em cada situação. Havia um momento da história, quase no final, em que alguém entregava um papel com uma palavra não dita. Depois, cada participante contou a sua história, o que sentiu e disse a palavra que recebera.  Catarse... A proposta da escrita era, depois desta experiência, com essa palavra, escrever um texto. Poderia estar explícita ou não.  Eu desenhei um olho, algumas linhas, usei algumas cores nas palavras. Não escrevi a palavra minha, queria apenas sugerir. Disseram que consegui.


domingo, 9 de setembro de 2018

A terceira margem do olhar


Este texto/análise de textos/fotos de Euvaldo Macêdo Filho está publicado no site (Univasf) . Um site para sempre... disponível em rede. 
https://euvaldomacedo.com/
Especificamente em 
https://euvaldomacedo.com/critics

Entretanto, fiquei a matutar no alcance dessa leitura, seguidores ou não e resolvi replicar aqui, neste blog instável, mas constante... Então, o feedback pode ser mais diretamente vivido/convivido. (✱)

 A TERCEIRA MARGEM DO OLHAR

O que se pretende?
Tomar da obra de Euvaldo Macêdo Filho, o moço juazeirense que viveu apenas 30 anos, de 1952 a 1982, e apresentá-la sob um viés mais analítico, mergulhando na admiração que ela sempre me causou. Um artista antenado com a modernidade e cioso de sua produção.
Nos limites deste pequeno ensaio, escolhi especificamente quatro textos, aqui tratados como imagens para reprodução. Mas textos, assim considerados, porque abertos a múltiplas leituras. Fragmentos de olhares, instantes e palavras na dinâmica e significação da parte para o todo e de sua expressividade dialógica.
Na escolha do que considerei apropriada, minha subjetividade – e a do artista em referência – evidencia também um tempo que se faz circular: fala do passado, que se torna presente até mesmo nos futuros acessos e compartilhamentos do acervo de Euvaldo, circulando em computadores e variadas mídias. Recortes de uma herança artística das margens sanfranciscanas, legitimadas pelo olhar acadêmico do agora, de um projeto que nos comove porque finalmente se faz realidade e salvaguarda um acervo único e fundamental.
Não é só registro, memória de uma época. São instantes, instantâneos, fulgurações em lampejos únicos. E isso faz a diferença, na arte e na consciência com que seu autor sempre respeitou seu trabalho.


Texto A:
O Texto A foi escrito por Euvaldo numa das páginas de um caderno de desenho, ali desenhado como notas e lembretes de e para seu fazer artístico. Brincando com as cores de canetas hidrográficas – e já constatamos seu olhar voltado para a visualidade intrínseca de suas produções –, Euvaldo confessa e afirma enfático seu maior interesse: a foto, produto da fotografia, mas vista como poesia.
 Poesia em seu sentido mais amplo, questões que se ampliam em nossa cultura e que não são fáceis de serem definidas. A possibilidade de significação gerada pela foto é que nos dirá de sua poeticidade. Muito além do aspecto primário, indicial, esteticamente nos transporta para o simbólico.
A foto, vinda de uma máquina típica de nossa modernidade pós-industrial, tem no manuseio do fotógrafo um olhar que se transfigura poeticamente. Um recorte da realidade eternizado no tempo do clique e da fotografia analógica, numa duração que envolve vários procedimentos até chegar à revelação. Revelação que desvela a luz do momento único, um tempo irreversível daquele instantâneo.


Texto B:
O Texto B, uma foto denominada Sobre as águas, me chama a atenção pelo enquadramento horizontal. Como as águas que correm sempre adiante, a criança buchuda brincando em sua boia/barco faz de seu banho o registro significativo do que era a infância nas margens de nosso rio São Francisco em décadas do outro século. Nua, sua imagem complementa o volume arredondado da própria boia, essa enorme câmara de ar; ela é o barco de si mesma, menino do rio, cujos braços agitados movimentam seu barco de brincadeira e espirram água sobre nós, sobre o fotógrafo talvez?
É nessa horizontalidade que vemos a sequência narrativa: a criança continua a brincar, navegando à frente. Poucas brincadeiras existem hoje com esta naturalidade da pobreza vivenciada nas margens do grande rio. Assim também a luz brilha na direção do menino e dá forma e movimento na água. O olhar do fotógrafo conseguiu no detalhe captar o instante poético da infância livre e prazerosa.


Texto C:
O Texto C, uma foto “No quadro”, enquadrada na vertical, traz o fotógrafo e nosso olhar receptor para dentro desta sala, onde a janela aberta se abre para múltiplos entendimentos. A ambiguidade se faz fisicamente. A cadeira está vazia e centralizada. As cortinas amarradas e suspensas descortinam o exterior. Ficamos ali um momento, em pé, como Euvaldo.
A dinâmica da paisagem, um subúrbio de tantas alegorias, perspectiva do que se constrói e se destrói, alarga-se na luz de outro quadro dentro do quadro. Uma geometria que vai dialogar também com os textos de seus poemas. O que realmente está em foco? O que vemos?
Vemos um transeunte, um senhor cujo chapéu esconde sua cabeça e que olha por onde pisa, mas não nos vê. Afinal, o que ele estará vendo? Continuará a caminhar e passará sem dúvidas para o lado direito da foto. Mais do que descritivo, o quadro se configura dinamicamente.  Quantos mais passarão por esta janela? Ou ela já se fechou no tempo simbólico da memória?
Monocromático será? Quanta luz e quantos tons de cinza se interpenetram e transmitem informações. Espaços que se abrem em diversos tons e enquadram o quadro... Terá o fotógrafo pensado em tudo isso no apertar rápido do clique, do momento? O registro ficou presente, a análise, as metáforas e alegorias ficam para depois. Decodificar é possibilitar também um encontro com o autor, daquilo que ele nos possibilitou interpretar e sentir.


Texto D:
Assim é a arte. E assim se faz no texto poético daquele que se afirma também um “poeta porr êta” no Texto D, de seu único livro de poemas: Cauim de Curare. Um poema imagético, em que as palavras são cortadas, ressignificadas. Significados que geram mais significados, identificáveis na visualidade concreta do poema.
É preciso pois ler/ver com atenção o poema para entender o sentido de um “poeta porr êta”, na piração dos anos sessenta, das aventuras do Tropicalismo e do Cinema Novo. Porreta, tão bacana na gíria baiana, em que o eu poético se coloca “zanz ando” em silêncio nas “madrunadas”. Um nada existencial que atormentou o poeta em seus mistérios. Um cauim de curare, desnudado como seu olhar de fotógrafo nesta geografia marginal onde se situou, amou e viveu intensamente.
Através destes textos, criamos uma consciência de linguagem que nos permite distinguir aquilo que é próprio do signo, de sua materialidade visível, para sua significação cultural como representação e símbolo de um trabalho artístico. Um investimento ideológico subjaz a esta compreensão. Daquele fotógrafo autodidata que pôde ver além de projeções meramente descritivas ou registros históricos para o significado humano de um tempo que se diluía na opressão cotidiana destas margens tão simbólicas e em rápida transformação econômica e social.
Euvaldo fotógrafo, Euvaldo poeta. Em 1985, eu já falava da imortalidade de Euvaldo em colunas assinadas, nesta unidade fundamental que se funde também na pessoa, no amigo. De nossa profunda saudade, dessa ausência cedo demais. Estendendo-se no respeito e admiração de sua amada companheira Odomaria. Como disse o poeta Drummond, não adianta adjetivar os mortos, nada os substitui. Para eles não existe mais língua portuguesa ou qualquer outra. Ausência de comunicação. Silêncio. Ou o sonho?

tudo começou quando? por acaso como pinta uma foto que a gente nem espera. o segundo. tudo. muito como eu sei que é tudo. tudo é mágico como viver é muito tudo. o olho e o relâmpago: clic. o bater das pálpebras, a batida do coração. olhar e ver são duas coisas muito diferentes. olhar até ver até crer. Fé. ou um lance de olho de lince.

fotografar: sensibilidade, bom gosto, etc. etc. fotografia: magia, ato de bruxo, bruxaria de amor. como vê a natureza o olho de Deus? fotolhar, fotografar, fotogravar, mostrar o.
a câmara – para mim – é um instrumento mágico onde gravo a fuga dos instantes no tempo. fotografia: o mágico encanto. não sei se era Claudel quem dizia que, se o mundo havia de ser salvo, seria pelos poetas. o grande defeito da fotografia é que ela foi inventada muito tarde. você não gostaria de ver a cara de Napoleão depois de Waterloo?

eu considero a imagem tão importante quanto a palavra. a fotografia como linguagem de expressão. Ela, a fotografia, será a forma de arte do futuro. meu olho é meu talento: vejo e clic.
as fotos perdidas quem sente?
era só isso.
tudo é invenção.
                               a terceira margem da alegria.
ainda sonho.


Elisabet Gonçalves Moreira
Petrolina, 19 de abril de 2018

(✱) Este texto foi feito a pedido de Elson Ribeiro, professor de Artes Visuais da Universidade do Vale do São Francisco, Univasf, em Juazeiro, Bahia, e responsável pelo projeto do acervo.  Agradeço muito pela honra; confesso que fiquei sensibilizada não só por falar da obra de Euvaldo, mas também pela atenção neste pedido e confiança no meu trabalho. Esclareço também que não quis fazer um artigo dentro de moldes acadêmicos. Em sentido mais geral, me guiei por uma análise comparativa e semiótica na leitura de textos visuais e poéticos, justificados no início do texto. 

Por uma troca de livros e olhares, há poucos anos deste século, dedico este trabalho a minha amiga Sílvia Nonata.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

Prainha longe de casa




Ron ron ronrrrr... ainda sinto esse ronronar quando Prainha se deitava comigo, todas as tardes, para minha soneca. E gostava de ficar no lado direito do ombro. Às vezes pesava sobre meu seio, eu o ajeitava e ele dormia bem relaxado. Mas acordava, um bom tempo depois, e me chamava para eu lhe dar comida ou água. Ultimamente, debilitado, ficava mais nos pés ou nas pernas, perto do meu joelho, também doente. Depois não conseguia nem mais subir na cama, ficava na porta do quarto, deitado, levantava-se, ia até o tapete do banheiro, ficava um pouco lá, voltava, inquieto. Mas quieto no seu ronronar. Tudo silencia.




Tenho fotos de Prainha, sempre lindo, posudo. Mas não tenho gravações de seu ronronar, de seus miados, quase sempre discretos. Mas, como chorava, um miado alto, quando eu saía a pé, batendo o portão. Muitas vezes eu voltava, o consolava e saía novamente com o coração apertado. Sempre que chegava, ao abrir o portão, ele estava ali, ao lado, entre as plantas do jardim, me esperando. Valdir disse, inclusive, que, quando ouvia o portão abrindo, se ele estivesse no nosso quarto ou no tapete do banheiro, saía desabalado para me encontrar. Dorminhoco, mas atento em seu sentido de 
gato...





Quando saíamos de carro, ele não chorava. Parecia aceitar, pois sempre o carro voltava. Talvez tivesse medo de que, ao bater o portão, eu o abandonasse. Vi esse seu desespero, no Rio de Janeiro, quando Juliana, minha filha, sua primeira dona, saía para trabalhar e ele ficava preso todo o dia num pequeno apartamento, observando as gaivotas do 10º andar, como se quisesse alcançá-las... Ainda bem que era inteligente para perceber o impossível. Ele, que não me abandonava nunca, sempre ao meu lado, em que cômodos estivesse... Dono dos móveis e dos interstícios, arranhava ou dormia... Preferências bem sabidas. Mas no jardim, no emaranhado das icsórias, encontrava seu lugar, talvez ali por ser fresquinho, um felino selvagem ainda, em lembranças de uma selva ancestral.


Caçou um tanto... Lagartixas principalmente, que abundam no muro, entre as pedras. Alguns passarinhos, mas não devorava, apenas matava quando conseguia dar o bote. E olhava muito para o papagaio aqui em casa, na gaiola. Humm... se pudesse... Fiquei “fula” com ele por duas vezes... quando matou um dos filhotes de passarinhos que se lançava para voar. Os pais do filhote ficaram enlouquecidos... queriam atacar o Prainha, como se isso fosse possível. Ele, como todo felino, brincou com sua presa, pois o passarinho havia caído no chão, mas o estrago estava feito. Tirei o filhote dele, pus na casinha, mas o bichinho não resistiu.  De outra feita, quando o vi pegar, no ar, um filhote de beija-flor, tão delicado. No início, quando veio do Rio de Janeiro para cá, quase um filhote também, levava “presentes” para Juliana. Só ouvia os gritos das surpresas, principalmente quando levou até uma barata...



Quando ela se mudou para os Estados Unidos, eu o adotei, completamente apaixonada pelo Prainha. E foram 15 anos cuidando dele, curtindo, amando suas idiossincrasias... como não? Personalidade, ele tinha. Aliás, não havia quem não gostasse dele. Mesmo arisco, às vezes se “amostrava”... principalmente para mostrar que ele era da casa, era o meu dono e não admitia intrusos neste envolvimento doméstico... Muito lindo, enorme, peludo, um SRD de muita classe. Certa vez, num documentário na TV, vi que ele era um “gato doméstico de pelo longo”. Sim, podia ser, mas entrelaçávamos nossos pelos e afagos. Não há mais gestos.




Se lamber, coçar, tudo eu acompanhava e até me divertia... que língua!!! E dormir “arreganhado”, que paraíso de entrega! Adorava comer as pétalas das rosas... típico não? Quando sentia cheiro de peixe ou sardinha na cozinha, o sono ia embora... Colocava bichinhos e bonecas perto dele... nem tchum, mas as fotos ficavam divertidas. Tomava sol todos os dias no banco do jardim, em sua homenagem. Estranhei quando comia grama ou folhas de capim santo... depois me explicaram o porquê.  O cotidiano era preenchido. Meu modelo favorito!



Seu nome causava estranheza... Prainha, por quê? Geralmente precisava explicar. Explico. Foi achado, filhote abandonado, no Rio de Janeiro, na Prainha, praia de surfistas. Juliana, minha filha, morava e trabalhava no rio e namorava um surfista... dá para entender, não é? Quando ela teve que ser operada da coluna, passou um bom tempo em Petrolina e o trouxe. Sair de um apartamento pequeno para uma casa com quintal e jardim, deve ter sido um alumbramento. No primeiro dia subiu no telhado! Mas não conseguia descer, ficou com medo... nunca mais tentou. Tentou o guarda-roupa do meu quarto, conseguiu, até hoje não entendo o alcance daquele pulo... Depois se aquietou para galhos mais baixos... Folgado, engordou bastante uma época, seus pêlos sedosos o transformaram, segundo uma amiga em "gato almofada"...



Foi um estágio. Quando Juli definitivamente foi para os Estados Unidos, a melhor decisão foi deixá-lo aqui. Além dos custos, achamos que ele não iria suportar a viagem, a quarentena. Em casa ele teve espaço, carinho e atenção.

De dois anos para cá, começou a declinar. Nunca havia ficado doente, somente o levava ao médico para vacinar. Mas os problemas foram aparecendo, infecções urinárias, falta de apetite, até o coração estava doente.  Emagreceu 50% do seu peso normal. Tentamos vários tratamentos; para tirar o sal das rações (aliás, já não queria mais rações secas, que fora seu alimento durante anos), tentei fazer papas de frango desfiado, com legumes... até comprei um mix. Mas, para desespero meu, ele vomitava tudo... Foi internado duas vezes... por causa do cone, voltava ainda mais debilitado, cabeça baixa, caindo de fraqueza. Então resolvemos não mais internar, o próprio veterinário disse que ele poderia morrer a qualquer hora. A vida seguia difícil, a morte o aguardava...

Juliana disse que ele foi morar num céu cheio de sardinhas... É, pode ser, uma consoladora alegoria para o que não tem retorno... 

Fiz reflexões, analogias com minha velhice, com o futuro inevitável... Sensibilizada, todos que conheceram o Prainha, têm me confortado. Achei isso uma amostra de humanidade, um degrau acima da indiferença, que os torna ainda mais meus amigos. Muito obrigada.

Elisabet Gonçalves Moreira

(Um poema que me consolou...)


Elegiazinha

Gatos não morrem de verdade:
eles apenas se reintegram
no ronronar da eternidade.

Gatos jamais morrem de fato:
suas almas saem de fininho
atrás de alguma alma de rato.

Gatos não morrem: sua fictícia
morte não passa de uma forma
mais refinada de preguiça.

Gatos não morrem: rumo a um nível
mais alto é que eles, galho a galho,
sobem numa árvore invisível.

Gatos não morrem: mais preciso
— se somem — é dizer que foram
rasgar sofás no paraíso

e dormirão lá, depois do ônus
de sete bem vividas vidas,
seus sete merecidos sonos.

[i. m. nikita (gata da Inês)]

De: ASCHER, Nelson. Parte alguma. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.




(Prainha 2003-2018)

                                                                                                     Petrolina, 14 de agosto de 2018.