Bet com t mudo

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BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

sexta-feira, 30 de abril de 2021

ANTÔNIO TORRES – UM AMIGO EM SUPERLATIVO

Recebi um convite para dar um depoimento em vídeo sobre Antônio Torres, escritor, que será entrevistado ao vivo em programa do professor Marcelo Batalha, dia 10 de maio de 21. O que mais me motivou a aceitar é que foi o próprio Antônio Torres quem me indicou para dar o depoimento, segundo o produtor do programa, que entrevista e divulga escritores.


Antes de gravar o vídeo, junto detalhes, leituras, fotos e escrevo. Objetivo ampliado: publicar no meu blog; ativá-lo no último dia do mês de abril e não falhar na postagem mensal.



Antônio Torres

Antônio Torres, esse baiano nascido em 1940 no Junco, hoje cidade com o nome de Sátiro Dias, perto de Alagoinhas e não muito longe de Feira de Santana, assim escreveu para mim e se descreveu nas dedicatórias de seus livros:

“...com admiração e afeto, do velho escriba...”

“Com o carinho deste seu mais novo velho aluno...”

“...que maravilha conhecer você. Beijos afetuosos...”

“Minha mais nova velha amiga, com a consideração e o apreço deste escrevinhador.”

 

Essa gentileza, a meiguice, a simplicidade de Antônio Torres me cativaram. Até hoje me chama de caríssima ou ilustríssima... coisa recente, mas desde que fazia o “Poesia aos domingos”, enviando um poema (por 10 anos o fiz), somos amigos em trocas de mensagens, antenados no desfrutar desta paixão pela literatura, pela arte.

 

Antônio Torres confessa que queria ser Castro Alves quando criança, mas foi aos 20 anos que chega em São Paulo, onde foi chefe de reportagem de esportes do jornal “Última Hora”, depois redator de publicidade, tendo trabalhado em algumas das principais agências do país, tanto em São Paulo, como no Rio de Janeiro. Estreou na literatura em 1972, com o romance Um cão uivando para a Lua, considerado pela crítica a revelação daquele ano. Quase 20 livros publicados em editoras como a Record, a Ática, a Companhia das Letras, em décadas de afirmação. Geralmente a crítica destaca a trilogia formada por Essa terra (1976), O cachorro e o lobo (1997) e Pelo fundo da agulha (2006).

 

Detalhes biográficos complementam a trajetória de sucesso do escrevinhador.  Em 1998, foi condecorado pelo governo francês como Chevalier des Arts et des Lettres por seus livros traduzidos na França. Dois anos depois, teve o reconhecimento nacional ao receber o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.

 

Antônio Torres foi também um dos ganhadores do Prêmio Jabuti de 2007, com o romance Pelo fundo da agulha. Seus livros têm tido várias edições no Brasil e traduções em muitos países (Argentina, Cuba, Estados Unidos, França, Espanha, Alemanha, Itália, Holanda, Inglaterra e Israel). O romance Essa terra está em vias de tradução – ou já foi traduzido - na Bulgária, Albânia e Vietnã.

 

De 1999 a 2005, foi Escritor Visitante da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – quando ministrava oficinas literárias, realizava aulas inaugurais e proferia palestras no campus do Maracanã, da Faculdade de Formação de Professores – UERJ de São Gonçalo – e da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense – UERJ de Duque de Caxias. Pertence também à Academia de Letras da Bahia, na qual ocupa a Cadeira 9, sucedendo a João Ubaldo Ribeiro. É também membro da Academia Petropolitana de Letras, e sócio-correspondente lusófono da Academia de Ciências de Lisboa.

 

Mas, sem dúvidas, sua consagração definitiva se deve ao fato de ter sido eleito, em 7 de novembro de 2013, para Academia Brasileira de Letras, cadeira 23, cujo patrono é José de Alencar. Merecido prêmio, reconhecido pelo seu talento artístico.

 

Antônio Torres é, sobretudo, lembrado pelo romance Essa Terra, uma alegoria do sertão contemporâneo, uma obra muito além de possíveis clichês ou estereótipos. O nômade Totonhim, como o autor também foi chamado, vai e volta em um sertão que se constrói como referência ficcional, pois nele interagem pessoas, cantos e recantos. De vida e de afetos. Linguagem que se refaz, como metáfora do mundo.


Pessoalmente, Antônio Torres e eu, só nos conhecemos no Clisertão - Congresso do Livro, Leitura e Literatura no Sertão - em Petrolina, PE, 2012, quando fomos homenageados. E fato significativo aconteceu quando fui mediadora na mesa entre Antônio Torres e Raimundo Carrero, então se recuperando de um AVC. O debate sobre o sertão mítico e contemporâneo foi revelador. Na plateia, Ariano Suassuna deu também um depoimento bastante emotivo, um episódio memorável para todos os presentes.


https://www.youtube.com/watch?v=bQqudr8youw

4 minutos inolvidáveis... vale a pena assistir e comprovar.


Mas, entre sua obra numerosa, quero citar uma delas com um diferencial marcante: Carta ao Bispo, cuja primeira edição foi de 1979. A ideia do livro partiu de um fato singular, um mistério e um suspense do qual Antônio Torres conseguiu montar uma ficção intrigante, sem recursos fáceis ou uma lógica catalizadora para uma “explicação possível”. O fato: uma carta deixada para o bispo de Juazeiro de um suicida, que se matou no interior da diocese. Fato real, chocante, porque estava de casamento marcado e o teor da carta jamais foi revelado.

Escreve Antônio, no início do livro:

“Agora ele está só, tão desgraçadamente só quanto no dia em que nasceu. Mas agora ele dispensa a parteira e já não precisa mais berrar ao mundo que está só.

É como se você finalmente pudesse reunir todos os seus pedaços deixados pelas estradas, para recompor-se com as suas próprias mãos: mesmo que sua carne já tenha sido servida aos abutres, ainda assim você irá agarrar-se à sua ossada, irá defendê-la junta por junta, até lá, debaixo da terra, por debaixo do chão.

Este é o instante: mais só do que nunca, Gil nunca esteve tão completo. E no entanto ele está se preparando para morrer, o que é bastante diferente de estar se despedindo da vida. Pura e simplesmente isto: Gil quer morrer. E vai para a morte como se fosse para o altar, levando em seus braços a rainha da boca da noite.”

 

Seria preciso ler o livro todo para se dar conta do estilo e dos procedimentos narrativos usados por Antônio Torres.  Mais do que um exemplo de “discurso indireto livre”, o escritor trabalha com vozes e consciências diversas, deixando para o leitor sua inquietude e a do próprio personagem. O posfácio da 3ª edição de Carta ao Bispo, pela Editora Record, publica a apreciação de Caio Fernando Abreu, da qual destaco: “Perdedor da vida, resta a Gil a vitória, ou pelo menos a escolha, da própria morte. Ao autor, por outro lado, segundo a epígrafe de Nietsche, resta apenas arte, para “não morrer de verdade”. Essa arte, em Antônio Torres, é frequentemente atingida, em cheio, através da palavra escrita.”

 

Questionado sobre a relação entre a obra e a vida pessoal, Antônio deixa claro que a linguagem literária é representação, quando esclarece esse fazer: “Um ponto de partida: um caso real que me contam, uma lembrança de um rosto, de uma voz, de uma situação que me marcou. Mas o começo depende da primeira frase. Ela é que vai dar o tom do texto, e puxar a fabulação.”

 

Antônio Torres disse uma vez que temos autores de mais e leitores de menos... O leitor contemporâneo sempre será incompleto, mas a motivação para nossas opções de leituras são também rescaldo de uma oferta que faz sentido para nossas vidas. Por isso lemos, por isso escolho autores como Antônio Torres.

 

Elisabet Gonçalves Moreira

 

Petrolina 30 de abril de 2021.



sábado, 27 de março de 2021

SOLO PARA VIALEJO: o que nele vejo

 

'Solo para vialejo', de Cida Pedrosa, é eleito livro do ano no Prêmio Jabuti — Foto: Divulgação/ Prêmio Jabuti

Pois é, a alegria de minha amiga Cida Pedrosa nesta bela foto, junto à motivadora capa de seu livro "Solo para Vialejo", editado pela CEPE, Companhia Editora de Pernambuco, Recife, 2019, também nos trouxe muito júbilo. Fiz esta crônica em janeiro de 2021 que divulguei no FB, mas, neste blog, creio que duplico e replico o registro. 

 Solo para Vialejo: o que nele vejo

 Vejo uma banda de um interior do nordeste que ainda subsiste, resiste.

A jazz band da capa do livro de Cida Pedrosa, em silêncio, nos faz viajar pelos caminhos da memória dela e de nossos encontros na juventude de uma era... Era uma vez...

Ninguém dizia “jéz”, nessa aculturação linguística que nos traiu no que poderia ter sido uma aproximação autêntica de origens simbólicas. Jazz nesse a que ressoa, jaz o canto...

Bodocó, essa terra de vogal forte a que Drummond chamou a atenção, nestas vastidões de um sertão mal conhecido, entre Orocó, Cabrobó e índios cariris tapuias, negros, pardos, brancos mal assimilados, é uma referência de poesia. Luiz Gonzaga cantou e ressoa...

 “Quando eu vim do sertão
Seu moço, do meu Bodocó
A malota era um saco
E o cadeado era um nó”

Cida relembra sua cidade como ela mesma, cores e canções. Nos cafundó ou sob outros olhares na festa de casamento da filha do coronel Antônio Bento, João do Valle também lembrou que “Neste dia, Bodocó faltou pouco pra virar”... Sei que Maurício Ferreira relembra Ouricuri em suas crônicas de “meu tipo inesquecível” mas é um amálgama que produz em mim, paulista do interior, agora nestas margens do rio São Francisco, olhares que me reconduzem a origens de um século que também se foi...

Cida Pedrosa, amiga que tanto aprecia um estandarte de São João do carneirinho, que fiz há alguns anos (conseguiu reaver?!) me levou por caminhos que ela percorreu, recordou, poetizou... E os dela me levaram a perceber que temos em comum memórias, não de vialejos, mas de fatos e canções em que o rádio era o veículo de mídia possível num tempo sem precipitações em atropelos...

“o coreto

o fox dance

o salão

o palco

a banda e a moça na janela

a banda ensaiava no sobrado da praça

a praça da independência frevia

a praça rodava

a moça rodopiava e ardia”       (página 74)

 

Há textos tão poéticos, numa linguagem mista de prosa, narrativas que associamos também aos bêbados, mendigos que frequentavam nosso jardim, entrando pela garagem, ou nos cantos daquelas vendinhas encardidas e mal vistas na saída da cidade... quem não viu nem ouviu apagou da mente histórias como esta...

 

“sem dentes e de beiços murchos como sonny

Boy williamson ii ensaiava a gaita em noites de

lua cheia para espantar os maus espíritos e a

maliconia deixou o campo e foi perambular nos

becos da cidade onde entoava benditos e de vez

em quando aboiava com olhos perdidos perdeu a

mulher a roupa passada a ferro e o instrumento

entregou-se ao álcool e recebeu a alcunha de

belezinha ao morrer nem se lembrava mais que

um dia cantou para a moça da estrada boa noite

meu amor de waldick soriano.”                                          (página 85)

 

Cida nos faz lembrar, mulheres em formação, 

“sapato alto de verniz azul

 vestido longo rosa choque com guipir na pala

 perfume avon”

que continua nesta iniciação “primeira festa sem primeiro amor”...

 

Eu é que me lembro que dançar coladinho me fazia sentir uma pressa para ir ao banheiro, umidade inquietante em depois olhar para os rapazes e um desejo de beijos ardentes, como nos filmes em cinemascope...

 

Ah, Cida, quantas memórias tecidas ao longo de nossas vidas, nestes primeiros acordes em que acordamos para uma identidade possível, ser mulher.

 

“me encontro e te encontro me encontro e te

encontro me encontro e te encontro no som para

encontrar com deus na esquina e o diabo na

encruzilhada”

                                                               (página 116)

 

Um sertão “ser tão assim”... e só (um solo)

 

Muito mais haveria a se dizer sobre “Solo para Vialejo”, de Cida Pedrosa, prêmio Jabuti 2020, em que críticos paulistas viram o sertão e a solidão humanas nas memórias desta irrequieta falante declamadora poeta feminista repentista vereadora comunista batida pelas ondas do atlântico oceano no recife de um hoje em que estamos ou somos o retrato de nossa migração, de nossas mestiçagens.

 

Fica aqui meu restrito olhar sobre nós mulheres e o sertão de Cida que moldou seu cenário de poeta e sensibilidades. A banda que resiste e subsiste pela poesia.

 

Vivendo tempos pandêmicos de isolamento presencial, de focinheiras limitando nossa respiração, mas abrindo o peito para demonstrações de carinho. Obrigada por sempre ter me prestigiado, amada amiga, abraços destas margens do rio São Francisco.

 

Elisabet Gonçalves Moreira, Petrolina, 4 de janeiro de 2021

(O livro "Solo para Vialejo", de Cida Pedrosa, está à venda no site da CEPE e na Amazon.com)

sexta-feira, 12 de março de 2021

Sincronicidade: encontros com uma amiga russa (Parte I)

 

Sincronicidade vista além do clichê de que nada é por acaso... coincidências que nos acompanham; momentos, revelações, epifanias...

“Sincronicidade é um conceito desenvolvido por Carl Gustav Jung para definir acontecimentos que se relacionam não por relação causal e sim por relação de significado. Desta forma, é necessário que consideremos os eventos sincronísticos não relacionados com o princípio da causalidade, mas por terem um significado igual ou semelhante. A sincronicidade é também referida por Jung de "coincidência significativa". (Wikipédia)

Então, é por aí que sigo...

Há muito venho rememorando exemplos e procurando me informar. Não sou psicóloga e nem vou entrar em discussão pró ou contra Jung. Foram os encontros com minha amiga russa, Klara Gourianova, recentemente falecida, que me incentivaram também para essa escrita, uma homenagem pelos significados que essa amizade representou. Assim, espero que sua família compreenda...

Conto e registro.

Situando: em 1972 saí de um apartamento quitinete na Bela Vista, praticamente centro de São Paulo, e mudei, com o marido e o filho de um ano, para o bairro de Veleiros, zona sul de São Paulo, depois de Santo Amaro. Uma tranquilidade de final de linha de ônibus, de pequenas casas residenciais com muro e jardim.

Fazia o curso de Letras/Russo na USP. Acho que foi no mercadinho do bairro que me encontrei com Klara Gourianova em vez primeira. Não me lembro de detalhes, talvez estivesse com o livro de russo ou alguma frase foi proferida; sei que deveríamos nos encontrar ali para eu treinar o incipiente aprendizado.

Ela me convidou para ir a sua casa e lá estive várias vezes, em rua não muito distante. E conheci seu marido, o pintor Octávio Araújo, em seu ateliê. Sempre gostei de desenhar, mas poder apreciar o trabalho de um verdadeiro artista foi um acontecimento especial. A própria Klara me convidou para observar Otávio pintando quando eu quisesse, mas “perdi” a oportunidade, pois tinha filho pequeno, trabalhava como professora primária e ainda fazia universidade. Poucas vezes pude observar.

Mas alguma coisa aprendi, pois o próprio Octávio era um intelectual notável. Falou de sua paixão por Rilke na literatura e Ingres na pintura, pesquisando sempre e recriando composições fascinantes para suas telas e gravuras. E a modelo quem era? Sua esposa Klara.

Eles eram um casal até insólito, dado que Octávio era negro, paulista do interior, e Klara, clara como seu nome, russa. Haviam se conhecido em Moscou, quando Octávio ganhara uma bolsa de estudos para a União Soviética em 1960, onde ficou por 8 anos.  Curiosa, fiz algumas perguntas e soube que Klara trabalhava com arte e tinha contatos com artistas estrangeiros. Klara me contou alguns detalhes de sua vida de casada, das dificuldades e até mesmo perseguição porque o regime soviético via com maus olhos casamentos com estrangeiros, pois isso implicava numa saída futura do país e uma propaganda negativa.

Minhas ilusões e idealismo sobre o comunismo na URSS foram então apresentadas de um ponto de vista bem diferente para a jovem universitária na época. A própria vinda do casal para o Brasil não foi nada fácil, inclusive porque já tinham dois filhos, Kiril e Arinka.

Ganhei uma cópia desta belíssima e instigadora gravura. Disseram-me que nela havia um defeito... nunca vi. Ainda hoje ocupa um lugar de destaque em minha casa, algo valioso e especial, do qual muito me orgulho possuir.

“Cântico onírico em louvor de Nefertite”

Na parte inferior, podemos ler, manuscrito à lápis: P.A. V/V Litograv. “Cântico onírico em louvor de Nefertite” Octávio/74.

Pena que, ao fotografar, minha imagem fica refletida no vidro. Ainda tateio nos caminhos do digital e da tecnologia... Mas o título da obra, sugestivo e poético, diz muito do caminho artístico de Octávio. A simbologia e a perfeição dos desenhos e detalhes me instigam até hoje. Octávio Araújo (1926-2015) um grande pintor. Conheceu Portinari, pertenceu à geração de 47, era amigo de Marcelo Grasman, gravador de renome nas artes brasileiras. Pude ver, ainda em processo, alguns dos mais belos quadros de Octávio. Geralmente de grandes proporções, encomendas de milionários ou empresas paulistas.

E eu me divertia muito com isso, brincando com Klara, pois ela, às vezes, ficava impaciente com a demora de Octávio para finalizar suas obras, já que tinha as contas a pagar em sua realidade burguesa... Mas, eu pressenti, olha Klara, um dia você ainda vai morar no Morumbi, o bairro dos ricos paulistas. Não sei se isso realmente aconteceu, mas ela se mudou de Veleiros mais tarde.

Klara também fazia tapeçaria de tear. Trabalho muito lindo que nunca me atrevi a fazer. Pelo meu interesse com bordados e outros trabalhos manuais ela me deu uma coleção maravilhosa de motivos. Inspiração de outras terras...


Em 1976, me mudei para Petrolina, em Pernambuco. Mantivemos uma correspondência, mas, lamento, perdi suas longas cartas. Acredito que foi nessa época que ela trouxe para o Brasil sua irmã, Elena, juntamente com o filho pequeno. Da correspondência, restaram duas fotos e algo que muito me marcou. Elena trouxe um casal de belos galgos russos pois pretendia vender seus filhotes e garantir uma renda.


Casal de galgos russos no Brasil


Arinka e seu primo com um dos cães. Arinka agora me lembrou: “essa da foto é a fêmea, Lanka. Ela teve uma vida muito curta, faleceu de osteosarcoma antes de completar 1 anos de idade. Foi uma comoção geral, era muito linda... O casal de galgos veio do canil real, os dois eram descendentes diretos dos cães imperiais.” O garoto é Vadim Nikitin, hoje ator, tradutor e encenador.

Pausa.

O distanciamento e uma grande mudança em minha vida, agora com duas filhas, terminando de escrever a monografia do Mestrado, dando aulas na Faculdade de Petrolina, me afastaram de muitas amizades, de colegas uspianos e de vizinhos.

Certo dia, assistindo ao noticiário na TV, quem eu vejo acompanhando uma comitiva russa em visita ao Brasil? Sim, Klara Gourianova, reconheci imediatamente, atuando como intérprete. Foi muita emoção e é disso que guarda minha memória, olvidando outros detalhes. Sim, Klara atuou como intérprete em várias ocasiões, trabalhando para o Itamaraty.

Pausa.

Vez em quando viajava para São Paulo, pois minha mãe morava na cidade, assim como alguns de meus irmãos ou, por outros motivos, passava por lá. E uma visita fundamental era ir à casa de Boris Schnaiderman, meu mestre e meu amigo de muitas décadas. 

Boris havia se casado com Jerusa e me convidou para tomar um chá em seu apartamento, avisando que haveria também outra pessoa convidada.  Nossa, quem estava lá? Klara Gourianova! Foi uma alegria enorme. Comemos do bolo de casamento, ou o bolo da noiva, como brincava a sorridente Jerusa. Isso foi em 1986.

Boris Schnaiderman, Clara Gourianova, Elisabet e Jerusa Pires Ferreira. 1986, São Paulo.

Acho que foi até indelicadeza nossa, mas Clara e eu conversamos muito, sobre nossas vidas, filhos, trabalho. Bom, nem tudo deve ser colocado aqui, mas há detalhes que guardo como referências até mesmo de um modo de encarar o mundo, mais crítico e mais aberto. Só ficamos nesta conversa e neste inesperado encontro. Outros rumos tomamos, sem encruzilhadas possíveis.

Pausa.

Século XXI, outubro de 2017, Referências indiretas me levam a mais descobertas e encontros(des)... Pela TV, no Canal Brasil, zapeando sem qualquer indicação (sincronia?), assisto ao filme Anna K. do artista plástico José Roberto Aguilar, de 2015. Levei um susto quando se destaca o nome de Boris Schnaiderman, como ator. Na verdade, Boris é apenas citado em uma das falas e há uma gravação em off dele lendo um poema de Púskin, logo no início do filme. No geral, depois, ficamos sabendo que Boris foi a grande referência para a realização desse filme, dado seu comprometimento e divulgação da literatura russa no Brasil.

O filme gira em torno de Joana, mulher que sofre de dupla personalidade e pensa ser Anna Karênina, personagem do romance de Leão Tolstói. A personagem quer aprender russo e adorei lembrar de minhas aulas, ainda no final dos anos 60. O professor-personagem, soube depois, é Vadim Nikitin e aparece Elena Nikitina, mãe de Vadim na vida real, também como professora de russo.

Isso me intrigou... pesquisei sobre o filme, sobre o lançamento e encontrei no FaceBook o perfil de Elena Nikitina e resolvi escrever  para ela. "Gostei muito do filme, da produção. Mas, por favor, sua mãe ou seu pai é parente de Clara Gourianova? Fui vizinha de Clara há muitos anos em São Paulo e perdi o contato. Agradeço sua resposta.   9 de dezembro de 2020”.

Sim, a partir de então, via o nome de Klara, grafado como Klara. E uma resposta constrangedora: “Elisabet Moreira, boa tarde! Sou Elena Nikitina, irmã da Klara Gurianova. Ela está no hospital agora. Fraturou o fêmur. Vai ser operada na sexta feira colocando prótese. Ela tem 88 anos e no momento está muito debilitada. Vamos esperar como corre a operação e a recuperação dela.”


Klara Gournianova faleceu em 7 de janeiro de 2021.



Pausa


Sincronicidade: encontros com uma amiga russa (Parte II)

 

No perfil de Arinka Araújo, encontro uma doce caracterização de Clara Gourianova.

“Russa guerreira, lutadora, passou fome na guerra, tirou do próprio prato para dar de comer aos filhos, já no Brasil, recomeçando a vida! Aqui vai minha singela homenagem à menina que virou "mãe" aos 8 anos, para cuidar da irmã recém-nascida enquanto meu avô lutava na 2ª guerra e minha avó tinha que trabalhar.
Mãezinha querida, Deus me abençoou quando me deu a oportunidade de ser sua filha! (...) Te amo eternamente!”

Arinka Araújo (página FB) em 11 de maio de 2014

Klara Gourianova (1932-2021) Foto que ela usou no seu perfil do FaceBook

Klara, mulher, retratada em belas alegorias nas obras de seu marido, Octávio Araújo.

Pitonisa, óleo sobre tela de Octávio Araújo. 1975

Neste pandêmico ano de 2021 é que venho a saber mais da obra de Klara Gourianova como tradutora de obras da literatura russa. Já havia lido alguns contos traduzidos por ela, mas não me atinara para esse lado profissional que assumira há alguns anos.

Li uma opinião bem arguta de Klara, no jornal Folha de Londrina, de agosto de 2003, justificando o interesse pela literatura russa dos leitores brasileiros. Segundo ela as razões para esse interesse não são novas, “vêm do tempo em que o mundo comunista era fechado e “um enigma”, tanto para os que defendiam a sua ideologia quanto pelos que a atacavam – mas teriam se fortalecido com o aumento do intercâmbio entre os países a partir da Perestroika, no fim dos anos 1980.” “Além disso, há muitas semelhanças entre os dois países: geográficas, demográficas e econômicas. Rússia e Brasil são ricos e pobres, ao mesmo tempo.”

Outra entrevista, em 2010, publicada no jornal Folha de São Paulo, perguntada sobre quantas obras traduzira, ela respondeu: “Umas 25. Só traduzo diretamente do russo, que é minha língua materna.”

De Dostoiévski, Klara traduziu "Humilhados e Ofendidos" e "A Aldeia de Stepântchikov e Seus Habitantes", além de obras de Púchkin, Tolstói, Tchekov, Gógol, Gorki, Turguêniev, M. Aguêiev, “e outros  (autores) que não estão no domínio público, mas traduzo para mim, porque gosto.” Interessante relacionar que, na entrevista citada anteriormente, ela disse ter vontade de traduzir Clarice Lispector e Zélia Gattai para o russo.

“Não vou dizer que traduzir é fácil, ao contrário, sempre surgem dificuldades, e é claro que recorro a dicionários e todo tipo de consultas que achar necessário.” Ela respeitava, sobretudo, o estilo de cada autor, como uma obrigação do tradutor.  Em último caso, colocava uma nota explicativa. Não é difícil encontrar obras traduzidas por Klara nos catálogos de muitas editoras. 

Intelectual comprometida com seu ofício, soube caracterizar a literatura russa clássica e a contemporânea.  “A clássica é mais universal em todos os sentidos, já a contemporânea, principalmente do período soviético, é mais voltada para a vida e os problemas do país que três vezes mudou bruscamente de regime, sofreu duas revoluções e duas guerras --uma civil e outra contra os alemães, ambas sangrentas, o terror stalinista, os campos de concentração... Falo da literatura, não do "realismo socialista" que não considero como tal. Além disso, as novas ondas e tendências que ocorreram na literatura, nas artes e na música no mundo inteiro, não deixaram de atingir a literatura russa contemporânea.”

Pausa final.

Não posso mais ter a presença de Clara (Klara) Gourianova e trocar informações, livros, saberes, mas, acredito, nestes textos, a memória de minha amiga pôde ser revivida. Parti em busca de Clara e a encontrei...

 


Petrolina, primeiro dia do mês de março de 2021.

https://www1.folha.uol.com.br/folha/livrariadafolha/776099-dostoievski-nao-e-um-classico-e-sim-um-maldito-diz-vadim-nikitin-tradutor-do-autor.shtml

https://www.folhadelondrina.com.br/folha-2/literatura---invasao-russa-nas-prateleiras-457873.html

 



















terça-feira, 2 de março de 2021

ESTAR OU FICAR EM CASA


Estar ou ficar em casa.

Não estou, disso bem sei.
Sei que fico
e me afinco
no propósito desta distância.

 
Do lugar de onde saí 
nunca mais voltei.
Às voltas com horas e dias.
 
Escrever poemas
Pular o muro deste reduto.
Nesta casa mal ajambrada
Sou eu mesma
Sem sutiã
Sem maquiagem
Disso também sei.
 
Como chocolates (ou cerejas)
previu Pessoa.
 
Não há fome de escolhas
              no tempo de espera.       (20/1/21)


LAR AMARGO LAR

Moro/habito/vivo

O lar vira casa

Apenas olhar de fora

O lar adentro

Se adensa.


Cortinas nas janelas

Abro/olho

Objetos tantos em desalinho

(Há até toalhas de linho lembranças de idos tempos)


Afagos que se foram

O que construí?

O que desabou?

Não há o que estranhar

Estou lá dentro para ficar...


Signagem

Seguir ou retroceder?

O mundo não se desvela.

Sigo em descaminhos vários.

.

Estar em casa

É quedar-se em quietude.

Estancam-se desafios

Procuram-se signos (ainda).

 

No limite do alerta dado

Onde tudo resta imóvel

Me perco na linguagem deste espaço.

 

Um pouco de um doce licor

Bebido pelo gargalo

E uma reescrita no aguardo...


 LOJA DE CONVENIÊNCIA

Foi nela que me perdi... tudo deveria funcionar, o atributo estava implícito no nome.

Convenientemente vestida, num final de tarde de dezembro, conhecendo e testando o significado, por certo aprenderia o valor de uma loja adjetivada, funcional.

Assim, ali me despi.  Nua, fiquei. Perguntaram o preço. Em liquidação, acabei na fila do caixa. Só não me embrulharam. Nada conveniente.

(27/2/1017)



quinta-feira, 11 de fevereiro de 2021

É possível existir crítica literária num curso de Letras?

 


Há alguns dias assisti a um filme, Capitão Fantástico, de 2016. Em síntese, é a história de uma família, cujo pai vivia isolado com seus filhos, adolescentes e crianças, ensinando-lhes, longe da tecnologia, uma sobrevivência que ele achava essencial. Mas aconteceu uma cena e um diálogo que me chamaram a atenção e abro nossa discussão aqui. 

 O pai, ele mesmo, intelectual, indicava leituras, geralmente os clássicos, que eram discutidos em comum. A certo instante, o pai pergunta para a filha sobre o livro Lolita de Nabokov e a menina respondeu que o livro era interessante. O pai deu-lhe uma bronca. “Interessante não significa nada, diga por que é interessante...” Fiquei pensando no livro Lolita, tão criticado, pois as referências quase sempre ficam focadas na dualidade sexual do homem mais velho e uma adolescente, nos aspectos morais, sem questionar o foco narrativo e outros procedimentos literários. Interessante não? 

Essa nossa superficialidade nas respostas, acredito, é também uma forma sutil de nos eximirmos de comprometimentos, sejam pessoais, sociais e políticos. Imagine um professor em sala de aula “ensinando Literatura”. Existe realmente essa possibilidade? 

Certa vez uma de minhas filhas, cursando o segundo grau, me perguntou e mostrou o poema de Carlos Drummond de Andrade. Isso é poesia? Isso é literatura? A professora de Teoria Literária estava sendo testada dentro de casa... Ela ouviu atenta minha justificativa, mas me olhava de soslaio. 

 No meio do caminho 
No meio do caminho tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. 

Nunca me esquecerei desse acontecimento 
na vida de minhas retinas tão fatigadas. 
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra 
tinha uma pedra no meio do caminho 
no meio do caminho tinha uma pedra. 

“Alguma poesia” havia ali, as pedras que encontramos dia a dia nos levam a um posicionamento teórico, mas também de juízo, de gosto, de leituras em diálogos múltiplos. Ah, se isso fosse ensinado desde sempre, talvez houvesse mais olhares diferenciados sobre o que é a poesia. Desafios da própria educação. 

Não existe resposta fácil, nem receita pronta, bem o sabemos. A história da literatura, das teorias e formulações mostram a variada gama de aspectos e leituras possíveis. O cânone literário, as obras clássicas já respondem por si. Será mesmo? Por que não questionamos mais? 

E que dizer da literatura contemporânea, da imensa variedade de modos e linguagens, do autor local, ansioso por ser reconhecido, ou de nossos alunos produtores de textos? Vivemos num mundo essencialmente digital, onde as produções são acessadas de imediato, comentários e clics de gostei ou curti. E os pdf viraram uma praga, facilitam por um lado, como a grande enciclopédia (lembram-se da Barsa ou da Caldas Aulete?) mas levam a um entorpecimento da pesquisa e do questionamento. Assunto para outro possível debate. 

A gente recebe elogios, mas já fui muito criticada por meus posicionamentos; um ex aluno chegou a me escrever uma carta dizendo que eu tinha “acabado com sua vida” pois seu maior sonho era ser poeta. Esse aluno havia plagiado textos e eu, ainda bem, reconheci. Confesso que fiquei chateada, mas ao mesmo tempo fiquei pensando em como gostamos de aplausos, aprovação. A situação do professor, como orientador, fica ainda mais delicada. É preciso, sim, criticar, mas sem destruir. Talvez um discurso polido ajude... ou não? Vale a pena incentivar quem não tem o talento ou é apenas um principiante querendo uma opinião e podendo melhorar mais tarde? 

Isso me lembra meu mestre, Boris Schnaiderman, escritor e tradutor, que, num encontro informal, ao abrir a correspondência que lhe chegara, nela havia um livro de poesia. Rapidamente ele folheou e, enquanto lia alguns versos, abanava a cabeça e comentou. “Não, isso não é poesia. E não devemos fazer concessão à poesia”. Essa frase categórica muito me marcou e já a usei inclusive... para desgosto de muitos. 

Em visita a Boris Schnaiderman em São Paulo, 2005.

Quando cheguei a Petrolina, em 1976, fui convidada, quase de imediato, para dar aulas na FFPP, Faculdade de Formação de Professores de Petrolina, então uma faculdade isolada, sem ligação com a hoje respeitada UPE, Universidade de Pernambuco. Formada em Letras pela USP, Universidade de São Paulo, devo ter causado mesmo uma grande expectativa. Durante anos somente um professor da área de Biologia tinha pós graduação e eu finalmente obtivera o título de Mestre em Teoria da Literatura e Literatura Comparada também pela USP. Hoje, vejo tantos mestres e doutores na cidade, quanta diferença! 

Em decorrência disto, há outro fato que gosto de recordar. Antônio de Santana Padilha, um dos escritores da cidade, com a maior obra publicada, também era meu vizinho na pequena Petrolina do início dos anos 80. Ele foi até minha casa, levou suas obras, mesmo algumas inéditas, e me pediu para que eu as lesse e desse uma opinião sincera, pois até agora só ouvia elogios. Outra frase que me impactou, “aqui grassa o elogio fácil”. Por ter usado essa frase em outras situações, me “apedrejaram” metaforicamente. 

Quem conhece meu trabalho, principalmente a Antologia “Poética Ribeirinha”, sabe que reunir e comentar autores locais não é nada simples. Sim, fiz algumas concessões... Inclusive essa antologia merece uma crítica mais atualizada. Já fizeram, mas não vou entrar em detalhes neste momento. 

Então, é possível existir crítica literária num curso de graduação em Letras? 

Isso implica várias diretrizes. Acho que é possível sim, mas numa experimentação gradativa de leitura, análise, comparação e interpretação de textos. Sem leituras completas, de mergulho na obra literária, não vejo solução. 

Existe uma metodologia para facilitar a vida do professor universitário neste sentido? Não, não existe metodologia possível. O conhecimento é dinâmico e está sempre nos desafiando... Apesar de que há muita pseudo teoria para tudo; retomam-se ideias de outros, dão lhe novos nomes e ai de você se não souber ou citar o teórico do momento. Ainda que isso não funcione na sala de aula comum, acontece de roldão nos meios universitários de tantos pós, docs e pós docs... Até levei um susto quando ouvi falar, há algum tempo, de Bauman, Slavoj Žižek e outros que me esqueci. Muita coisa se liquefaz, certamente. 

Já estou delimitando um tipo de professor, universitário, que tem como aluno o futuro professor do ensino fundamental. Um futuro “amarrado” a seguir manuais, regras, parâmetros curriculares, todas essas limitações que nos deixam sem o prazer essencial de compartilharmos aquilo de que mais gostamos na literatura, o entusiasmo, o sentir, o emocionar. Tudo acaba em cumprir o programa, as ementas, uma castração sem saída muitas vezes. Mas é possível driblar isso com nosso próprio exemplo. 

E eu tenho até uma boa biblioteca, leio muito, sempre estudando. Não só na área de Letras, mas de história, de antropologia, de política. Impossível saber de tudo. Há muitos anos li uma crônica que me fez muito bem e amenizou a ansiedade. “O leitor moderno é o mais incompleto da história”. Publicada em fevereiro de 1991. 

“Pois, se bastavam ao grego antigo a “Ilíada” e a “Odisseia”, aos judeus a “Torá” e seus comentários, aos cristãos a “Bíblia” e obras devocionais, ao iluminista a “Enciclopédia” e os clássicos, ao homem culto oitocentista um conjunto restrito de obras-primas e seus complementos, o verdadeiro leitor moderno está proibido de se esquivar do interesse por tudo que já foi ou está sendo escrito. 

Além do fato trivial de que se escreve mais e mais, a cada dia um arqueólogo descobre um novo papiro antigo no deserto ou decifra os caracteres de uma língua extinta, um sinólogo traduz outro clássico para um idioma acessível, especialistas reavaliam culturas distantes ou esquecidas, bibliotecários localizam um manuscrito perdido, a KGB abre mais um arquivo, críticos literários de verdade recolocam em circulação um autor injustamente excluído dos cânones. Em outras palavras, o leitor verdadeiramente moderno está condenado a ser o mais incompleto de toda a história.” (grifo meu) (http://almanaque.folha.uol.com.br/ilustrada_09fev1991.htm) 

Nesta incompletude, nesta limitação do saber, ter consciência de nossa ignorância, não é um “defeito”, mas a base para o abandono da opinião (doxa) e a busca pelo conhecimento verdadeiro (epistéme), objetivo da filosofia, enfim, de todo o saber. Na literatura não pretendo “desconstruir” um texto, ao contrário, construir uma percepção aprofundada de sua essência artística, de subterfúgios, de silêncios. Um jogo em desafio. 

Não quero, neste pequeno artigo, buscar citações e referências... um depoimento mais que tudo. Talvez a indicação de uma práxis, se isso for viável. Mas um posicionamento fica entranhado. 

O formalismo russo, da primeira metade do século XX, que chegou a nós, nos anos 70 e 80, muito me influenciou. Fui aluna e orientanda de Boris Schnaiderman, como já disse, e discutíamos em sala de aula autores ainda nem traduzidos aqui. Por exemplo, Bakhtin e Jakobson, que li ainda em francês. Do formalismo, veio seu derivado, o estruturalismo em diversas nuances. A base de uma crítica literária está ali, reitero. Vejo muita desinformação e até mesmo preconceito em relação a estes estudos. 

Por exemplo, um aluno da Uneb, estudioso, sem dúvidas brilhante, fez uma monografia sobre o Clube Drummoniano de Poesia do qual participei e fez história na região, nos anos 80. No segundo número da revista do Clube, eu havia publicado uma análise de um texto do poeta Murilo Mendes, que fizera parte de minha dissertação de mestrado. Sinceramente, eu gosto daquela análise e das descobertas, verdadeiras iluminações, que acontecem quando o texto também nos desafia. Senti ironia do aluno ao comentar, não a análise em si, mas o “método”, certo “estruturalismo dos anos 70”. 

Aliás, no prefácio do romance Pedro e Lina, de Antônio de Santana Padilha, também fiz uma análise na mesma linha. Reconheço que pode haver excessos em qualquer estudo onde se privilegie o método – ou uma linha teórica - e não a obra em si. Há alguns livros e estudos de críticos famosos que analisaram obras reconhecidamente “menores”, mas que se adaptavam à metodologia demonstrada. A complexidade das grandes obras não é exercício para amadores ou para pontos de vista de fora para dentro. E essas obras estarão sempre a nos desafiar, inesgotáveis. 

Crítica a partir do próprio texto, portanto, uma análise imanente, detalhada em sua linguagem e não mais a crítica impressionista ou a crítica trazida de outros parâmetros, como a história ou a sociologia. Essa atitude é o princípio. Inclusive tenho me dedicado bastante à Semiótica, à leitura sígnica, explícita ou no subtexto. Já havia me envolvido com a Linguística e elas andam a par. E, lição fundamental, diálogos possíveis, tudo tem significado na representação que perfaz o texto literário, artístico. Nada mais é compartimentado, encerrado numa visão única, em certo momento. Sem ser arrogante, claro que já sabemos disso, da pluralidade significativa de um texto artístico. Aplicamos? 

A propósito, certa vez discuti com meu orientador sobre a importância da biografia do autor na literatura. Isso me parecia secundário, tão enfronhada estava na linguagem do texto, mas vemos que, mesmo partindo da essência textual, a obra sofre as influências da vida de seu autor, de seu momento histórico, de sua localização geográfica etc. etc. Como não perceber isso no aprofundamento crítico de um Machado de Assis? Hoje “reconfigurado” como negro em suas fotos, um senhor tão distinto, certamente uma releitura de seus textos terá outra aproximação. A ironia machadiana está além de sua pose... 

Ultimamente tenho lido e relido muitos autores russos. Anton Tchekhov e Dostoiévski, entre outros, têm me mostrado essa aproximação com mais propriedade. Poderia dar exemplos, mas não é o caso agora. Aliás, eu acho que os professores de literatura (e fiz isso) devem trabalhar autores da literatura universal, fazer comparações e referências que motivem a procura por outras obras. Lembro-me que, no IF Sertão, em aulas para o segundo grau, lemos Os meninos da rua Paulo, do escritor húngaro Ferenc Molnár, comparamos com o filme e foram feitos trabalhos em várias linguagens a partir dessa leitura, com o auxílio também dos outros professores da área. Foi um sucesso. Na Faculdade, levei muitos autores locais para falarem de suas obras, analisamos algumas e a alegria por esse reconhecimento também me contagiou. Enfim, ter coragem de abrir o leque de leituras, além das ementas e programas. O ganho é muito maior do que se possa imaginar. Talvez eu esteja dizendo o que todos sabem e praticam, mas este texto é também um relato de posicionamento. 

Somente mais um detalhe. Quantas vezes acontece de nos surpreendemos com a visão dos alunos, seja em sua falta de motivação, seja em suas opiniões sinceras... claro que um aluno de graduação dificilmente faria uma análise acadêmica para publicação numa revista especializada, mas é capaz, sim, de dizer coisas que muitas vezes não percebemos, cristalizados que estamos em determinados parâmetros. E essas “sacudidas” são bastante salutares para não sermos “donos da verdade”. 

Reconheço, no entanto  – e isso me incomoda - que dominam textos fracos, muitos clichês e mediocridade... seja na produção literária, seja numa pretendida crítica. Grassa ainda o elogio fácil ou a falta de coragem para o que realmente deve ser dito, então se aplainam as arestas, e, lugar comum, tudo fica bem, menos a literatura e sua verdade. 

 ...oooOooo... 

Maiakóvski tem um poema Hino ao crítico do qual transcrevo aqui a última estrofe para complementar questionamentos. Afinal, temos mesmo uma missão? Ser crítico literário é crível? Muito sarcasmo para quem não é autor, não é poeta... 

“Escritores, há muitos. Juntem um milhar. 
E ergamos em Nice um asilo para os críticos. 
Vocês pensam que é mole viver a enxaguar 
A nossa roupa branca nos artigos?” (tradução de Augusto de Campos e Boris Schnaiderman) 


 Uma indicação de última hora ocorreu-me: o livro Na sala de aula, de Antônio Cândido (S.Paulo: Ática, 1984). Fui sua aluna e assisti à aula em que ele analisou o poema O rondó dos cavalinhos de Manuel Bandeira e, no livro, a análise tem o título de Carrossel. Alguns privilégios tive que, minha memória, nestes últimos anos, tem surgido com outros significados.