Bet com t mudo

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BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

quarta-feira, 19 de abril de 2023

MARCAS DE FERRAR - (PARTE IV) MARCAS NA LITERATURA: FERRANDO GENTE E GADO

 Continuando... ainda na literatura, José de Alencar idealiza um vaqueiro, ou melhor, um sertanejo que faz um ferro para sua amada e marca corajosamente um boi selvagem na paisagem inóspita de um Brasil colonial... diferente do Fabiano, vaqueiro humilhado de  Graciliano Ramos, mais de um século depois. Lembrando ainda os vaqueiros e bois mitificados nas cantigas sertanejas, outro olhar participante.

(...)

Relendo o romance O Sertanejo, de José de Alencar (1829-1877), ali encontrei a narração de um fato que também ilustra este trabalho sobre ferros de marcar o gado. Sem entrar em detalhes da estrutura narrativa ou da ideologia do autor, nesse romance “colonial” de Alencar, o Romantismo traz subcódigos que exacerbam o “bom selvagem”, até mesmo o realismo de certas práticas e descrições, como já se observou.

Arnaldo, o herói do romance, salvador de donzelas cobiçadas, é o protótipo do vaqueiro. Na voz do narrador: “Essa corrida cega pelo mato fechado é das façanhas do sertanejo a mais admirável. Nem a destreza dos árabes e dos citas, os mais famosos cavaleiros do velho mundo; nem a ligeireza dos guaicurus e dos gaúchos, seus discípulos, são para comparar-se com a prodigiosa agilidade do vaqueiro cearense.” [1]


Exagero ou não, na trama, ficamos sabendo do Dourado, um touro selvagem, e que Flor, a donzela, filha do capitão-mor, amada por Arnaldo, diz com arrogância explícita: “O Dourado há de ter o meu ferro! Exclamou com um arzinho de princesa que lhe assentava às maravilhas.” (ALENCAR, p. 161)


Pouco depois, acompanhamos a perseguição ao touro, como se fora uma caçada da nobreza europeia. Claro que é Arnaldo quem encontra o touro nas brenhas do sertão e matas virgens e o domina.

 

“Apeou-se e tirou um ferro de marcar, da maleta de couro que trazia à garupa, e a que no sertão se dá o nome de maca.

Todo o bom vaqueiro tem seu tanto de ferreiro quanto basta para fazer um aguilhão, para arranjar as letras com que marca as reses de sua obrigação e as de sua sorte, para dar têmpera à faca de ponta, e até mesmo para consertar a espingarda.

Arnaldo, havia anos, fabricara na forja da Oiticica um ferro que representava uma pequena flor de quatro pétalas atravessada por um F. O feitio era mais apurado e de menores dimensões do que os ferros geralmente usados no sertão.” [...] Por toda parte, nas rochas, como nos troncos seculares, ele tinha esculpido este símbolo de sua adoração. Como os descobridores de novas terras erigiam um padrão, ou fincavam um marco para tomar posse dessas paragens em nome de seu rei, ele, Arnaldo, na sua ingênua dedicação, pensava que, daquela sorte, avassalava o deserto a D. Flor, e afirmava o seu império sobre toda a criação.”  (ALENCAR, p. 179)


Seria assim?

O que se destaca, na descrição do ferro, é o fato de ser uma flor de quatro pétalas atravessada por um F, já que Flor é o nome da donzela. Uma alegoria do desejo e do ato sexual na posse masculina sobre uma flor mais delicada, pois “a atravessa”. Essa sombra erótica é subliminar, até mesmo na delicadeza de ter o “feitio mais apurado e de menores dimensões do que os ferros geralmente usados no sertão”. A observação não me parece muito acertada, pois, no livro de registro de ferros do qual farei referência, podemos ver como esses ferros podiam ser bem “apurados”. No caso, penso que o autor quis mesmo destacar o romantismo implícito no amor do vassalo por sua nobre donzela.

            É preciso associar também, no imaginário sertanejo, histórias de animais famosos pela valentia. Isso ficou nas canções, no “folclore”, como a encenação e narrativas do “bumba-meu-boi”. Uma aura fantástica cerca a figura de animais glorificados em epopeias versificadas. Bem menos laudatória, temos a lenda do “Vaqueiro Misterioso”, com algumas variantes locais. Trata-se de um homem, vestido com gibão de couro surrado, e um chapéu de vaqueiro sempre à cabeça, que lhe encobre o olhar. Não se sabe de onde veio nem o que faz.

                Aparece nas ocasiões em que há vaquejadas, ferração ou encontros similares. Devido à sua aparência humilde, torna-se alvo de zombaria dos demais vaqueiros. Contudo, é o mais ágil deles, um herói que vence a todos. É aclamado, desejado pelas mulheres, convidado de honra do fazendeiro. Ele, porém, recusa todas as honrarias e desaparece da mesma forma como surge. Para Luís da Câmara Cascudo, o vaqueiro misterioso "é um símbolo da velha profissão heroica, sem registros e sem prêmios, contando-se as vitórias anônimas superiores às derrotas assistidas pelas serras, grotões e várzeas, testemunhas que nunca prestarão depoimento para esclarecer o fim terrível daqueles que vivem correndo atrás da morte.”[2]

            E é interessante notar que sobejam loas à personificação do animal, que, por sua vez, na contramão da cantoria, nela subentende-se a valentia necessária para subjugar a fera. Mitifica-se assim o herói anônimo em sua peleja com a fera bruta, um respeito épico.

Cito o belíssimo “Romance do Boi da Mão de Pau”, de Fabião das Queimadas (1848-1928), impresso no livro Vaqueiros e Cantadores, de Câmara Cascudo, citado na nota 10. No romance O sertanejo, de Alencar, ferrado o touro, afirma-se também o romantismo utópico do autor, pois, num gesto “afetuoso” com o animal, ele o solta.


Esse orgulhoso e heroico vaqueiro não é assim representado em Vidas Secas de Graciliano Ramos (1892-1953). Sem dúvidas, é preciso considerar outro contexto, outra linguagem. No capítulo “Fabiano”, ele é apenas um trabalhador sem teto e sem gado em seu destino de retirante da seca, mostrada como um flagelo da natureza e das condições sociais dos que ali vivem.

 

            “Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passara uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucunã. Viera a trovoada. E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fizera-se desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando, coçando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.

            Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado.” [3]

 

            O aceite desse acordo “trabalhista” está na entrega das “marcas de ferro” pelo fazendeiro, dono do lugar. E a lida do vaqueiro fica implícita. Há mais violência aí do que propriamente no ato de ferrar o animal. Fabiano é o personagem-símbolo das relações de poder num mundo que desconstrói o mito do herói improvável, por sua eterna carência econômica e social, submisso e alienado. Sem perder a grandeza da literatura de Graciliano Ramos, essa visão do nordestino oprimido acabou estereotipada e absorvida pelo imaginário como incontestável.

          



[1] ALENCAR, José de. O Sertanejo. São Paulo: Edigraf, 1961.

[2] CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e Cantadores. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo, Ed. Da Universidade de São Paulo, 1984. Páginas 119-124

[3] RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 120ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 9.

 




sábado, 1 de abril de 2023

MARCAS DE FERRAR - (PARTE III)

 MARCAS NA LITERATURA: FERRANDO GENTE E GADO 

Em continuação, por acaso, encontrei exatamente essa figura, descrita na coleção Homem, Mito e Magia[1], acrescida de outros detalhes simbólicos, tal como foi retirada de um livro do século XVI, "O Verdadeiro Dragão Vermelho". Sabe-se que Guimarães Rosa era um estudioso de magia, mitos, superstições e também como isso faz parte de suas obras, contos e romances, dialogando com temas universais da própria existência humana.

Vale lembrar inclusive a “marca da besta”, citada no mais emblemático livro bíblico, o Apocalipse em 13, 16-17.

16 Também obrigou todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, a receberem certa marca na mão direita ou na testa,

17 para que ninguém pudesse comprar nem vender, a não ser quem tivesse a marca, que é o nome da besta ou o número do seu nome.

            Texto polêmico, extremamente simbólico, o Apocalipse abrange diversas interpretações em seu conjunto, desde a historicista, no período da dominação romana e o judaísmo, até a personificação dessa besta, entre o poder religioso e o poder político. Inclusive, já se ressaltou que a estrutura narrativa desse capítulo apresenta algumas semelhanças com a narrativa de certos mitos cananeus. Narrativas dentro de narrativas, assim construímos referências e mensagens subliminares.

            Não era difícil encontrar pessoas com marcas ou tatuagens na antiguidade. As marcas podiam ser feitas por várias razões. Sinais de devoção por uma cura alcançada, de agradecimento, de trabalho, de escravos fugidos, esses geralmente marcados na testa como penalidade. Marcas também podiam ser impressas no corpo, uma exigência para se ter acesso a um tribunal ou para se negociar no mercado durante a ocupação romana, tidas como prova do culto – e fidelidade - ao imperador. Para alguns autores, em Apocalipse 13, temos um retrato gráfico da operação ideológica do Estado. Sobretudo, a marca da Besta acabou representando, no imaginário popular, um compromisso com o Diabo e o Anticristo. (2)

Interessante observar mais uma correlação intertextual. No livro 0 Vale do Terror, de Conan Doyle (1859-1930), o detetive Sherlock Holmes enfrenta a astúcia de seu célebre inimigo o Prof. Moriarty e, coincidência, o primeiro morto da história também tem o antebraço ferrado com o mesmo e idêntico sinal usado por Rosa. E lá, como cá, embora com as devidas diferenças, a marca era o símbolo de uma associação de criminosos - espécie de Máfia - que no início só fazia o bem, mas se degenerou. Elementar a relação?



 “O médico apanhara a lanterna e estava examinando cuidadosamente o cadáver.

- Que marca é esta? Indagou. Pode ter alguma ligação com o crime?

O braço direito do morto apresentava-se, até a altura do cotovelo, um desenho de cor castanha, um triângulo dentro de um círculo, que se salientava vivamente na pele clara.

- Não é tatuagem, afirmou o médico, olhando com atenção através dos óculos. Nunca vi coisa igual. O homem foi marcado, há algum tempo, a fogo, como se usa fazer com o gado. Qual será o significado disto?”  (3)


Particularizando mais pistas neste desafio, vemos que no romance de Ariano Suassuna, A Pedra do Reino, há várias referências a brasões de uma “heráldica sertaneja”, imaginada e representada pelo escritor. Inclusive, também como poeta e ilustrador, suas “iluminogravuras” reforçam esse diálogo com suas origens entre signos verbais e não verbais. Pode-se observar, a seguir, até mesmo o ferro da família Suassuna na anca do cavalo e da cabra e outros signos/alegorias recorrentes neste exemplo de uma iluminogravura [4].



O próprio Suassuna escreveu sobre isso, além de sua obra literária, lembrando dos signos ligados à Astrologia, ao Zodíaco e à Alquimia, de antigos livros, almanaques e saberes que circularam – e circulam – por este “Brasil profundo”, mitologias ancestrais e atávicas.

Na fazenda da família de Ariano Suassuna, em Taperoá, na Paraíba, em 1982, onde o criador de gado Manelito Vilar, falecido, se destacou no estado, observei o ferro da família, marcado também no couro do encosto das cadeiras da sala de jantar, agora como efeito de decoração, mas que não deixa de ser significativo. E que foi bem justificado nesta citação (item 4 de nota de rodapé).

"A partir de um registro de vários ferros familiares feitos por seu antepassado Paulino Villar, fazendeiro do século XIX, Ariano Suassuna estudou a fundo as formas que encontrou e as relacionou com a simbologia antiga. Segundo ele, o traço vertical, chamado tronco, representa o céu; o horizontal, ou puxete, significa terra. Os dois juntos podem formar o galho, a união imperfeita entre o divino e o ser humano. Ou ainda a cruz, a união perfeita entre ambos. Há signos para o macho, a fêmea e para a fusão sexual. O escritor viu semelhanças entre 'as formas meio hieroglíficas dos ferros sertanejos mais abstratos' com alguns dos signos ligados à astrologia, ao zodíaco e à alquimia, e acha que alguns dos primeiros fazendeiros podem ter escolhido para seus ferros os símbolos astrológicos de seus signos e planetas pessoais. Os desenhos dos ferros familiares vão se alterando no decorrer das gerações. Cada filho que começa a criar gado vai acrescentando sobre a base imutável do ferro familiar, chamada mesa, as suas diferenças, chamadas divisas, que podem ser um risco para um dos lados, uma meia lua, um pé de galinha etc. Em geral, o filho mais novo fica com a marca igual à do pai quando este morre. O pai de Ariano, último filho, tinha o mesmo ferro de seu avô e de seu bisavô. O escritor guarda como 'objetos sagrados' os ferros com os quais seu pai marcava pessoalmente seu gado nas fazendas Acauhan e Malhada da Onça.”

Quantas histórias como essas podem ser contadas? Famílias, lugares, costumes, afeto, tradição. Afinal, a própria História se apresenta como um espaço semiótico, cujos signos se articulam em razão de correspondências específicas. O processo histórico aqui se insere significativamente, como manifestação semiótica de uma cultura, o que, por fim, também queremos demonstrar. E essas marcas pessoais indeléveis, ferradas a fogo nos animais, passam a representar também uma figura semântica, strictu sensu, mais sinédoque que metonímia, simbolicamente a parte pelo todo.

Nesse contexto, o gado marcado é uma extensão da identidade própria do indivíduo, dela fazendo parte mais do que o número de um RG ou do CPF, formas de se controlar a vida e as posses neste nosso país e correspondentes alhures.


(continua... )


[4] Apud A estética armorial dos ferros-de-marcar na obra de Ariano Suassuna e Manuel Dantas, de Daniella Carneiro Libânio de Almada in https://www.pluralpluriel.org/index.php/revue/article/view/131   nº 17 – 2017 - Acesso em 21/07/2022  


[3] DOYLE, Conan, O Vale do Terror. São Paulo: Melhoramentos, 1982, p. 38.


[1] A Magia dos Símbolos, O Círculo, in Homem Mito & Magia. São Paulo: Ed. Três, 1974, vol. I, p. 140/141.

terça-feira, 21 de março de 2023

MARCAS DE FERRAR (PARTE II)

Para esta Parte II de minha pesquisa Marcas de Ferrar apresento estas análises tendo como referência   Ariano Suassuna e Guimarães Rosa... como um folhetim, continuarei a apresentar outras considerações em outros textos e autores... talvez seja mais proveitosa esta leitura aos poucos.

MARCAS NA LITERATURA: FERRANDO GENTE E GADO

 

Ariano Suassuna (1927-2014), em seu romance A Pedra do Reino, utiliza-se de alguns desenhos, típicos de ferros, e faz alusões à sua simbologia. Com a devida licença:

 

"...é que, na espádua esquerda de Dom Pedro Sebastião, tinham ferrado, a fogo, um ferro desconhecido e que não é nenhum dos ferros familiares de ferrar boi do Sertão da Paraíba! Eu sei, porque no nosso "Instituto Genealógico e Histórico do Sertão do Cariri" temos um arquivo e registro desses ferros, arquivo que eu organizei por sugestão do Doutor Pedro Gouveia!

- Você ainda se lembra como era o ferro?

- Me lembro como se fosse hoje, Excelência! Era uma espécie de lua, ou melhor, para ser mais fiel à nobre Arte da Heráldica, um crescente, com as pontas viradas para cima e encimado por uma cruz.

- A marca do ferro na espádua de seu Padrinho era recente?

- A queimadura era recentíssima! Quando a gente entrou na torre, sentia-se ainda a catinga meio fumaçada e polvorenta de carne de bicho ferrada!

- E não havia nenhum sinal do fogo onde esquentaram o ferro?

- Nenhum, Excelência! Eu não já expliquei que no aposento elevado da torre da capela não havia nada, a não ser o sino?" [1]


A partir dessa descrição “uma espécie de lua, ou melhor (...) um crescente, com as pontas viradas para cima e encimado por uma cruz”, visualizamos o ferro descrito. Justaposição de um símbolo muçulmano (o crescente) e um símbolo cristão (a cruz). Uma leitura subliminar dessa imagem indica, pela posição (encimado), que a cruz parece dominar ou subjugar o crescente. Assim, como na História da cristandade que nos foi contada, através das Cruzadas pela libertação de Jerusalém nas mãos dos “infiéis” muçulmanos.

Se “no aposento elevado da torre da capela não havia nada, a não ser o sino?" essa pista, esse sino, também não representa/simboliza o signo/adivinha que invocara Pedro Quaderna um pouco antes: "Para o meu enigma, portanto, só um Decifrador brasileiro e de gênio!"  (p.293)

Decifrar pistas, indícios, faz parte da natureza humana desde os tempos do homem primitivo, à caça de animais ou de inimigos. Essa capacidade foi sendo aperfeiçoada no decorrer das múltiplas necessidades históricas e sociais, incluindo diagnósticos mitológicos e medicinais. Gênese da Semiologia e Semiótica, respeitando diferenças contemporâneas em suas respectivas definições.

            Suassuna, ou Quaderna, nos desafia, pois, para esse “crime indecifrável” em um “sertão” imaginário, entre cavalhadas e emblemas, de lutas entre mouros e cristãos, de narrativas lendárias da Pedra do Reino em seu romanceiro epopeia. 

            Para decifrar o crime em si, suspense na trama da narrativa, é a Semiótica que vai nos dar as pistas nesse horizonte simbólico. Vista como a teoria geral das representações, que leva em conta os signos em todas suas formas e manifestações que assumem - linguísticas ou não – a Semiótica enfatiza o significado que lhes atribuímos. Por aqui caminhamos. E vamos procurar chegar ao cerne dessas leituras, decodificações em processo.

Também Guimarães Rosa (1908-1967) em A Hora e a Vez de Augusto Matraga "ferra" o seu personagem-título: 

"E, aí, quando tudo esteve a ponto, abrasaram o ferro com a marca do gado do Major - que soía ser um triângulo inscrito numa circunferência -, e imprimiram-na, com chiado, chamusco e fumaça, na polpa glútea direita de Nhô Augusto. Mas recuaram todos, num susto, porque Nhô Augusto viveu-se, com um berro e um salto, medonhos." [2]


A imagem descrita é facilmente visualizada: “um triângulo inscrito numa circunferência”.



 

0 triângulo, na concepção católica, representa três pessoas divinas numa só. E quem "cura" Matraga são três: o casal de pretos pobres e o padre. A circunferência, o círculo, não é menos simbólico e mágico: sem princípio nem fim, tem uma energia poderosa. Protege de espíritos maus além de envolver e prender a energia mágica que, descrita e enfatizada em rituais antigos, é necessária para a concentração.


Realmente, é nesse instante da narrativa, um corte fundamental, que se inicia também uma nova fase da vida do pecador Matraga. Mesmo que tenha caído numa alegoria do abismo, é, paradoxalmente, o instante em que o personagem "viveu", para purgar seu passado até sua redenção, quando chega sua “hora e vez”.


É evidente que a função literária, artística, perseguida por ambos os escritores citados, vai além de uma possível simplificação da simbologia nos ferros, fazendo parte intrínseca do entendimento da narrativa.


Em A Hora e a Vez de Augusto Matraga, o ferro é a própria marca do pecado, é a violência não só física, mas o estigma do mal. Ou do bem? A marca de Deus ou do Diabo? O Major representaria o quê, ao lançar Nhô Augusto na desgraça ou na salvação? Poderíamos separar com nitidez esses limites? Dá para decifrar o significado destes indicadores sígnicos? A leitura não se fecha numa única exegese. Ao contrário, desafia gerando uma cadeia de significações e possibilidades.


Outro índice simbólico está no lugar da marcação. Enquanto Nhô Augusto é marcado na “polpa glútea”, isto é, no traseiro, humilhação ainda maior, em Suassuna, Dom Pedro Sebastião é marcado na “espádua esquerda”, ou seja, no ombro, com esse vocábulo talvez mais nobre: “espádua”. Aliás, “polpa glútea” também é mais honroso e erudito – afinal Guimarães era médico - do que seu correspondente vulgar: o traseiro ou outro jargão escatológico. Tem ares de um literatura cavalheiresca, se assim podemos caracterizar o estilo desses grandes nomes de nosso cânone literário. Um respeitoso leitor também deve segui-los...



[1] SUASSUNA, Ariano, Romance D'A PEDRA DO REINO e Príncipe do Sangue do Vai-E-Volta. Rio: José 0lympio,1976, p.294

(2) ROSA, J. Guimarães, A Hora e a Vez de Augusto Matraga in Sagarana. Rio: José 0lympio, 1976, p.335



terça-feira, 28 de fevereiro de 2023

MARCAS DE FERRAR (Parte I)

 Como um folhetim... vou publicar por aqui uma sequência de minha pesquisa sobre MARCAS DE FERRAR, seja gado ou gente, signos do sertão ou de outras geografias, abrangendo muitos desafios e histórias. Espero atingir interesse do público... além da academia, olhares em diversos focos, uma escrita em divulgação... 

Esta Parte I é uma apresentação. Na parte II, MARCAS NA LITERATURA: FERRANDO GENTE E GADO, vou mostrar como Ariano Suassuna, Guimarães Rosa e José de Alencar trouxeram estas marcas em algumas de suas obras e como elas funcionam simbolicamente no contexto da narrativa. Aguardem para breve...

 

 Em memória do Professor Roberto Benjamim (1943-2013)


"Pastar nos grandes prados do visível."              

Murilo Mendes

                                                                                                       (in Poliedro, Rio: José 0lympio,1972, p.140)

 

                                                                                                       (Foto de Sílvia Nonata)

Ferro de marcar gado

Proprietário: Januário José Moreira (1899-1985)

Medidas: Comprimento total: 26,5 cm.  Altura da frente: 9 cm.  Diâmetro da roda: 3,2 cm

Visualmente, na frente, que é a marca, temos uma estrutura básica centrada num círculo; simetricamente uma ponta para o alto, achatada como um prego e outra ponta para baixo, abrindo-se em duas pequenas pontas laterais. O círculo é um símbolo protetor de grande força mística. As pontas laterais, além de, esteticamente, apoiar a peça, lembram as possibilidades de olhar de um lado para o outro.

Ferro usado na primeira metade do século XX. Um vaqueiro tomava conta de vários animais de vários donos. De cada 4 bezerros que nasciam, um era do vaqueiro.

Localização: Pacus, vilarejo às margens do rio São Francisco e que hoje está submerso, após construção da Barragem de Sobradinho. O local pertencia a Santana do Sobrado que, por sua vez, era distrito do município de Casa Nova, Bahia.


Paulista, aportada em Petrolina, nas margens do rio São Francisco, nos idos dos anos 70, me vi envolvida – e desafiada – por um ambiente prenhe de aspectos culturais inteiramente novos para mim. Meu interesse por esses aspectos me motivou a refletir sobre eles e a buscar compreender, na verdade dos costumes e usos, um pouco da sabedoria sertaneja e de sua arte, reflexo de uma época e de um modo de viver.

Num primeiro momento nada mais vi que um ferro de marcar boi, como me foi dito e apresentado. Estranhei. Por que ele não mostrava as iniciais do dono, semelhança visual que é a referência lógica, costumeira, como eu conhecia?

Mas, nem sempre. Pouco a pouco, vim a saber, uma gama de respostas e um mundo de significados.


Na sequência, um causo me foi narrado. Nada tão instigante como esta narrativa preciosa e simbólica: um novo amigo e vizinho, dono de algumas propriedades rurais, tinha uma delas com o nome, já herdado, de “Lagoa do Meio”. Entretanto, aconteceu lá um acidente com seu filho menor, que quase ia morrendo afogado no açude. Por causa disso, ele mudou o nome da roça para "Ressurreição" e a marca do ferro para um pequeno sol, pois esse, esclareceu, significa a vida, a luz. 

 

Além dessa explicação, a leitura de Iúri Lotman me alargou os caminhos:

 

             "A compreensão da cultura como informação determina alguns métodos de pesquisa. Ela permite examinar tanto etapas isoladas da cultura como todo o conjunto de fatos histórico-culturais na qualidade de uma espécie de texto aberto, e aplicar em seu estudo métodos gerais da Semiótica e da Linguística Estrutural."  [1]

 

O paradigma indiciário ou semiótico é, pois, a referência fundamental para análises, observações e comparações históricas e culturais.


Assim, este trabalho não pretende ficar como um simples registro das marcas de gado do Sertão nordestino, espaço a que me limitei em princípio, pois essas marcas são de muitos espaços, daqui e d´além-mar, e de muitas histórias. Minha pretensão não implica também nenhuma resposta definitiva, já que inclui, na abertura intersemiótica, um feixe de possibilidades.


Primeiramente as pesquisas in loco: vaqueiros, proprietários de algum gado ou de roças, ferreiros, gente honesta e boa a dar informações. E ferros, muitos ferros, a maioria já sem uso, todos ganhados de presente. Diziam: já não servem para nada.... Comecei então uma pequena coleção. Detalhando esse olhar inicial, iniciei um projeto de pesquisa que vem se desenrolando há décadas.


Tendo retrabalhado esse projeto desde 2022, ele ficou extenso para ser colocado aqui de vez, por isso, estou optando por apresentá-lo em partes, facilitando, espero, a leitura e os caminhos que possam ser abertos, aprovados ou questionados. O veículo blog me pareceu uma alternativa. Estou à disposição... por aqui ou por este contato:

                       elisabetmoreira2014@gmail.com



[1] LOTMAN, Iúri M., "Sobre o Problema da Tipologia da Cultura" in Semiótica Russa, São Paulo: Perspectiva, 79, p.32



 

terça-feira, 31 de janeiro de 2023

RE-VISITANDO A OFICINA DO ARTESÃO DE PETROLINA

 

A Oficina do Artesão Mestre Quincas em Petrolina, neste janeiro de 23, me surpreendeu positivamente.  Fiquei sabendo que a Oficina passou por uma reforma, em 2022, feita pela Prefeitura de Petrolina. Realmente, pude constatar mais espaço, seja para os artistas e artesãos, seja para os visitantes. Dentre as obras realizadas, foram requalificados cinco ateliês temáticos, madeira, pedra, barro, esculturas e tecidos, com grande variedade de produtos. Já se ressaltou que não há lugar em Pernambuco que concentre tantos artesãos em atividade e tantos estilos diferentes.

Além do espaço para exposição e vendas, é muito interessante observar artesãos trabalhando, principalmente com a madeira, esculpindo quase sempre carrancas, um ícone simbólico da região, e o produto mais vendável.  Notei que até o espaço no “quintal” da oficina estava organizado, visto que serve de entrada da madeira bruta para o trabalho dos artesãos escultores.

A Oficina tem o nome de Mestre Quincas. Somente pesquisando, no portal que se abre via web, fico sabendo que Mestre Quincas foi o apelido de Joaquim Correia Lima, considerado o primeiro artesão de Petrolina. Nasceu em 1895 na cidade vizinha de Juazeiro da Bahia e morreu aos quarenta anos afogado no Rio São Francisco. Frequentou a Escola de Belas Artes de Salvador e destacou-se em Petrolina quando foi chefe de pintura da Leste Brasileira e executou trabalhos importantes na Estação Ferroviária de Petrolina e em outros locais da cidade.

Teria algum registro de seus trabalhos? Nada encontrei, mas seria promissor para a história da cidade e da própria oficina pesquisar. De todo modo fico a imaginar de quem partiu a ideia para homenagear este Mestre que, numa oficina de artesãos dominantemente de gente que “aprendeu fazendo”, autodidatas, ele frequentou Escola de Belas Artes, tinha um emprego oficial e foi “chefe de pintura”. Portanto, uma pessoa com formação escolar e artística diferenciada.

Faço essa observação, porque conheço somente dois artesãos (inclusive a única mulher) que frequentam a Oficina e dela fazem parte que cursaram, ou cursam, Artes Visuais na Univasf – Universidade Federal do Vale do São Francisco – curso relativamente novo na região. E também faço alguns questionamentos.

Qual a diferença entre o artesão e o artista? Quando alguém é considerado Mestre? Há um significado especial nesta palavra. O Mestre não é apenas um professor, mas, na hierarquia do saber conseguido, um grau elevado em seu mister. Mister de mistério, de segredos do ofício... Categorias que remontam à época medieval, ressignificadas e discutidas ainda nos dias de hoje. Sobretudo na forma de um trabalho artesanal que teve continuidade na tradição popular.

Para quem se interessa por este assunto, recomendo o livro de Antonio Santoni Rugiu “Nostalgia do Mestre Artesão” (Campinas, SP: Editora Autores Associados, 1998). O artesanato que, historicamente, acabou por sucumbir sob o domínio da manufatura e da produção industrial generalizada, ainda sobrevive e exerce seu fascínio na simbologia de que se impregnam suas formas exteriores, memo despidas de seu conteúdo originário.

De certa forma abordei esse tema num trabalho meu “Carrancas do sertão: signos de ontem e de hoje” (Petrolina: SESC, 2006), focado no artesanato das carrancas, originariamente nas proas das barcas do rio São Francisco e sua evolução até o modelo das “carrancas vampiro”, esculpidas em série, completamente diferentes das que lhe deram origem e justificativa.

Por outro lado, cito uma publicação “Carina, isso não é coisa de mulher”, catálogo da exposição individual de esculturas de Carina Lacerda com curadoria de Flora Assumpção. (Flora Assumpção, Carina Lacerda: organização: Flora Romanelli Assumpção – Juazeiro/Ba: Univasf 2021.) A exposição foi realizada no SESC Petrolina, na Galeria de Artes Ana das Carrancas. Ressalte-se que Ana das Carrancas (1923-2008), a dama do barro, como ficou conhecida, era uma artesã que começou como “loiceira”, vendendo nas feiras livres de Petrolina, até que, premida pela necessidade de sobrevivência, teve uma espécie de iluminação e passou a modelar carrancas em barro, com um estilo próprio, marcadas pelos olhos vazados em homenagem ao marido cego. Seu trabalho foi aos poucos sendo reconhecido como arte e ela recebeu várias homenagens na cidade, no estado e no país. Mas Dona Ana nunca trabalhou na Oficina do Artesão, somente em sua casa, até ganhar moradia e local de trabalho com o nome, esse sim, de Centro de Artes Ana das Carrancas, hoje sob a responsabilidade de suas filhas.

No Catálogo, o depoimento de Carina Lacerda, datado de maio de 2020: “Em 2005 decidi me dedicar profissionalmente à arte de fazer esculturas em madeira. Como não havia escolas de arte na região, decidi procurar um espaço da cidade conhecido por Centro de Artes Mestre Quincas, localizado na Vila Eduardo, em Petrolina-PE.” Hoje, Carina tem um trabalho reconhecido, especialmente marcado por suas carrancas de peito, uma afirmação de gênero, tanto na escultura, como em sua vida militante.

Mas o que também me chama a atenção é o fato de ela ter colocado “Centro de Artes Mestre Quincas” e não Oficina do Artesão. Centro de artes carrega um significado completamente diferente de uma oficina de Artesanato. Acredito que haja a possibilidade de um diálogo entre essa nomenclatura e os objetivos daquele espaço. Quem são artistas? Quem são artesãos? Quem são mestres? Aprendizes de artes e ofícios? Como caracterizar diferenças e semelhanças?

Este artigo não tem a intenção de fazer um levantamento dos artesãos, dos produtos ali comercializados ou dar respostas a tantos questionamentos. Acredito que, além da curiosidade e do insólito desta Oficina, há muita possibilidade de trabalho – não só para os artistas – mas também para os estudantes e pesquisadores da região, em diversos níveis e cursos; fica o desafio.

 

As fotos a seguir são de autoria de Lucas do Val, tiradas em 6 de janeiro de 2023. Sem identificar e sem legendas, apenas oferecer uma amostragem da Oficina neste janeiro.

 Visite a Oficina você também, vale seu olhar...















Referência:

https://depetrolinaparaomundo.com.br/conhecendo-a-oficina-do-mestre-quincas-em-petrolina/

da turismóloga Tais Farias

http://www.portalturismobrasil.com.br/atracao/6470/Oficina-do-Artesao-Mestre-Quincas

 

sábado, 31 de dezembro de 2022

POR QUE NÃO VI PELÉ JOGAR...

 

Pelé nasceu em 1940, eu, essa que vos escreve, em 1946... A glória do futebol começou aos 17 anos para ele, na primeira copa de vindouros anos, na longínqua Suécia, no título e na marca inesquecível, do 5 a 2... Desde meus 12 anos jamais esqueci a referência e a origem dessa glória. Eu, sim senhor, que nunca me liguei muito em futebol...

Meu pai começou a torcer pelo Santos Futebol Clube, certamente por causa de Pelé, como muitos outros brasileiros. Vitória após vitória em décadas e a consagração de seu talento. Moramos algum tempo no Largo das Perdizes, em São Paulo, relativamente próximo ao Estádio do Morumbi. Então, ele não perdia um jogo do Santos e vibrava com as jogadas, dribles e gols de Pelé. E ainda assistia pela TV reprises de jogos ou reportagens sobre o ídolo.

Éramos amigos, meu pai e eu, e ele gostava de minha companhia, penso. Desde mocinha, no interior, me levava ao cinema, geralmente às quartas-feiras, quando passava películas estrangeiras ou filmes antigos, diferente dos bang-bangs e sucessos hollydianos dos finais de semana. Ele me convidava também para ir ao estádio, mas eu, a essa altura, moça feita, com um namorado “firme”, não aceitava. Irritada e enciumada, pois ambos iam juntos,  preferia ficar em casa.

Não foi esnobismo portanto, mas, por um bom tempo me arrependi de ter perdido a oportunidade de ver o grande Pelé em campo, lugar onde, realmente, nessa mania nostálgica de realeza, foi majestade... Mais tarde tentei me justificar, pois o homem Edson Arantes teve atitudes bem diferentes da nobreza idealizada, quando renegou sua filha fora do casamento, ou, quando soube de outras ações bastante questionáveis, celebridade que se tornou. Inclusive porque havia uma bifurcação de identidade, pois ele mesmo se referia a Pelé em terceira pessoa e eu estranhava isso, mas criticamente não o absolvia... Hoje, sou mais condescendente, entendendo melhor a ambiguidade da natureza humana.

Oriundo de família pobre, negro, sem maiores estudos, Pelé encarnou o mito do jogador excepcional, bajulado pela imprensa e pela mídia que só lhe salientavam qualidades, assegurando seu papel de destaque e sua ascensão vitoriosa por décadas, celebridade no mundo de celebridades. Inclusive, em algumas reportagens especiais, salienta-se também o papel do filantropo humanitário, além de sua naturalidade e trato cordial com pessoas das mais diversas camadas sociais. Um ídolo, um ícone, um rei... diversos epítetos e exaltação de um ser humano invulgar.

Como já analisou o ensaísta Edgar Morin, sai de cena o herói trágico dos mitos antigos e entra em seu lugar o herói amado, aquele que faz parte da realidade com elementos de um ideal imaginário, estimulado pela identificação do público em diversas instâncias, os modernos heróis “olimpianos”. Modelos de vida, representam os mitos da autorrealização. Sim, neste sentido, Pelé encarna este modelo. Reconhecidamente um talentoso jogador de futebol, foi um campeão memorável neste clima competitivo dos espetáculos midiáticos de jogos e campeonatos em série e da sustentabilidade da imagem de um ídolo contemporâneo.

Porém, como mulher, aproveito destas digitadas linhas para acrescentar que meus olhos se ar(regalavam) com aquele espetáculo - ainda que televisivo - da masculinidade exalada no conjunto dos times de futebol... com as pernas de fora, em tempos de shorts e não aqueles horrorosos calções de hoje. Acho que, por isso, os jogadores atuais querem se projetar nos cortes de cabelo, sobrancelhas e tatuagens...

Santos x Fluminense (1961)

(https://www.vavel.com/br/futebol/2017/05/12/fluminense/787109-flu-x-santos-criacao-da-expressao-gol-de-placa.html)

Tenho também outra lembrança de Pelé, uma foto admirável, mas que não encontrei nesta enciclopédica galeria google, nem lembro o autor ou o veículo em que foi divulgada. Talvez alguns se recordem desta foto, Pelé no vestiário, aquele corpo negro (sim, uma perfeição) coberto por uma contrastante espuma branca. Talvez vejam alguma semelhança nesta foto... o jovem atleta flagrado em seu banho. Vendo o ídolo pelo seu lado humano, como todos nós.


(https://twitter.com/pele/status/1160255893465903105)

Para finalizar, algumas considerações sobre o Pelé mitificado. Neste século XXI, a banalização do papel do mito em nossa cultura, hoje midiática e consumista de ídolos descartáveis, me faz pensar no que Pelé significa, a durabilidade de sua projeção, neste momento simbólico de sua partida, no jogo inadiável da finitude humana.

Portanto, neste rol de homenagens e elegias para Pelé, o atleta, vamos acompanhando o significado de um herói brasileiro que transmite orgulho para seu público e que, sem dúvidas, marca a história futebolística mundial.

Elisabet Gonçalves Moreira

Petrolina, 30/12/2022