Bet com t mudo

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BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

quinta-feira, 30 de maio de 2019

O destino da agulha

Na literatura - talvez como na vida - aprendi que a narrativa de um conto deve caminhar para o clímax e um final abrupto para lhe dar mais suspense. E fazer o leitor refletir nas possibilidades de interpretação, do que vai lhe marcar na memória dessa mesma leitura. 
A literatura policial, os modernos roteiristas de cinema e tv sabem disso. Aliás, nada de novo se lembrarmos de Poe, de Machado, de Horácio Quiroga (ah, "O almofadão de plumas") na narrativa tradicional. 
Mas ainda quero escrever um conto como Tchekhov o fazia... na quebra dessa perspectiva...
Pois bem, o conto abaixo é ficção mas baseado num fato real que ouvi há tempos e nunca me saiu da memória: a mãe e o filho acompanhando aterrorizados o momento em que uma agulha seria espetada no coração... (quebrei o suspense?!) 
Acompanhe a história.


O destino da agulha

Madalena costurava e costurava...

Grávida de um homem casado, precisava se amparar e amparar o fruto de seu ventre. 
Concebido com muito pecado, todos apontavam-lhe o dedo da culpa. 
Feia, solteirona, morando com a mãe idosa e doente, poucas alegrias tinham.

Os olhares do senhor dono da bodega atiçaram-lhe desejos nunca adormecidos. 
Deu-se com vontade numa noite de estreia. 
Não houve reprise.

O barrigão aumentava a cada dia. Inquieta com a possibilidade a chegar, comprou um berço e o colocou ao lado da máquina de costura. Servia para guardar tecidos das freguesas e até figurinos enquanto aguardava a hora. 

A hora chegou. Entregar um vestido para a madame que ia ser madrinha de casamento. Mas o bebê também quis a luz.
Desnorteada, entre alinhavos e alfinetes, colocou o vestido no berço. E no chão da pequena sala onde trabalhava desde sempre, seu bebê nasceu.  Madalena fez de tudo para não manchar o vestido, conseguiu aos trancos tirar o vestido e ali colocou a criança recém nascida.

Do resto tomou de conta. Limpou, lavou, tudo como deve ser. E voltou à máquina de costura. 

Desde sempre, seus pés, mãos, tesouras, agulhas, linhas, tecidos, faziam parte de sua rotina.

O menino que nascera era bem feinho. Mas Madalena o achava lindo. Cantava para ele, sorria, às vezes até se atrasava com as entregas das costuras, entregue ao sentimento prazeroso de sua maternidade, que lhe preenchia, agora, a solidão desde sempre.

No entanto, o menino chorava muito, muito mesmo. Ainda no berço, ela viu um pequeno furo vermelho nas costas da criança, mas achou que pudesse ser alguma picada de inseto. 

Por mais que ela tratasse bem seu filhote, sempre limpinho, dando-lhe o leite necessário, essa criança chorava sem parar, como se uma dor terrível tivesse. Seria dor de ouvido, dor de dente, dor de cólica, tudo era aventado, remédio dado, benzeção e nada resolvido.

De todo modo a criança foi crescendo. Ficou apático, um menino mirrado para a idade. Sentia dores, cada vez num lugar incerto. Chorava muito, nem gostava de brincar, pois aquela dor não passava.

Madalena sentiu sua provação, sua culpa, máxima culpa. Pediu perdão, fez promessas, andou de joelhos na igreja, mas o menino realmente tinha algo que ninguém sabia dizer.

O menino ficou moço. Aos 18 anos teve que se apresentar para o serviço militar.

E aí descobriram. Exames médicos. Radiografia do pulmão.

Bingo! Ali estava a causa: uma agulha de costura em seu peito. Impossível de ser extraída.

O terror se anunciava. Madalena se lembrou do vestido inacabado no berço da criança.

Nesses anos todos, a agulha ficara instalada no corpo do pequeno.  Alfinetando culpas e dores. Em circulação, entrou na corrente sanguínea sem pedir licença. No balanço de sístoles e diástoles, estava se aproximando do destino final de sua viagem.

Madalena e o filho puderam então acompanhar a morte anunciada.
  
Dia após dia, poderia ser o dia. 

Então chegou...




Bordado feito à mão por esta blogueira, com base em desenho Pinterest










quarta-feira, 1 de maio de 2019

UMA AMIGA SABRA

Quase toda estudante paulista, nos anos 70, tinha um sonho: conhecer a Bahia. Mais do que praia e sol, ver gente morena e bonita, um Brasil verdadeiramente tropical. Já naquela época sair da São Paulo poluída, infatigável, era também um propósito de uma vida mais “paz e amor”.

E assim foi. Quer dizer, fui. Era para ser fomos, mas minha amiga de nome estranho Zipora Rubinstein, que fazia o curso de Hebraico na USP, não pôde ir de última hora. Fora convocada para fazer o serviço militar em Israel, com urgência, pois, do contrário, ficaria apátrida. Era sabra, isto é, nascida em Israel e, como me explicou, embora morasse no Brasil há muitos anos, também não era cidadã brasileira.

Não entendia bem destes trâmites, numa cidade cosmopolita como São Paulo, onde confluem tantas nacionalidades e histórias de vida de “displaced persons”.  Zipora morava relativamente perto de minha casa e, às vezes ia visitá-la, a pé.

Esta aprendizagem de uma cidade plural foi bem interessante e me alicerçou na visão do respeito à diversidade, principalmente cultural. Eu vinha de uma pequena cidade do interior de São Paulo, descendente pelo lado materno de italianos imigrantes e do lado paterno de portugueses, índios, negros em miscigenação e, provavelmente, até de alemães, como atestava a altura e os olhos azuis de meu avô mineiro, tropeiro no início do século XX.

No pequeno apartamento de Zipora, seus pais, um tanto idosos, me falaram alguma coisa de sua origem, após o término da segunda guerra mundial. O que me lembro é do sabor, do colorido vermelho do morango quente que escorria de um pão delicioso feito para uma ocasião especial. Não me aprofundei nos costumes judaicos, mas sabia que havia uma relação com o sábado.

Zipora tinha uma irmã muito linda, de longos cabelos lisos e loiros, diferente dos de minha amiga, mais escuros e enrolados. Esta irmã adorava festas e as baladas da época. E contava coisas que eu não teria contado a ninguém, com muita naturalidade. Mas isto também me ajudou a ver o mundo menos hipócrita...

Cheguei a sair com Zipora poucas vezes, indo a algum bar com os amigos dela, uma turma de jovens, todos filhos de pais judeus. Interessante que, por causa de meus grandes olhos,  motivo de admiração, procuravam saber qual era minha ascendência. E diziam que eu, com certeza, também pelo meu nome de família, era descendente dos chamados judeus novos... É, pode ser, mas uma outra amiga, mais tarde, de ascendência árabe e italiana me dizia que, com certeza, eu era descendente de árabe, dos mouros que invadiram Portugal... É, pode ser...

Zipora me contou, muito reservadamente que, antes de ir para Israel, teria de fazer um treinamento numa fazenda, no estado do Rio, para se preparar militarmente para a vida no kibutz. Uma mulher militar, outra aprendizagem para abrir os olhos da menina ingênua que descobria possibilidades e desafios.

O fato é que eu não quis abrir mão dessa viagem a Salvador e fui, assim mesmo, sozinha, três dias de ônibus, em 1969. Essa jornada será outro relato, dado que, em minha volta, nunca mais fui a mesma; minha vida mudaria completamente.

E também nunca mais encontrei Zipora. Tinha saudades, me lembrava dela, de sua atenção. E gostaria de saber o que havia feito de sua vida. Tinha certeza que ela voltara ao Brasil, também pelos seus pais, a quem tinha muito apreço.

Eu me mudei para Petrolina, em Pernambuco, no ano de 1976, já casada, com filhos, trabalhando como professora. Fiz outras amizades, outros olhares para diferentes realidades não só geográficas como históricas neste Nordeste desigual.

Uma dessas amigas, tendo se mudado para Brasília, me envia de presente um livro.  Era dezembro de 1995. O livro: o Eclesiastes, traduzido do hebraico por Haroldo de Campos. Ou: Qohélet = O-que-sabe: Eclesiastes: poema sapiencial (São Paulo, Perspectiva, 1991). E então tive notícias de Zipora, escrito como Tzipora.  Primeiro a surpresa, aquele lance de que as coisas confluem em sua vida de maneira inesperada.

Nota Prévia do livro, escrita pelo autor, nos comunica. “Num outro plano, mais geral, quero registrar o meu débito para com a professora Tzipora Rubinstein, cuja morte prematura, em 16 de junho de 1989, tanto consternou os seus amigos.  Embora não tenha tido participação direta neste trabalho, cujo projeto e execução, em todos os seus aspectos, são de minha exclusiva responsabilidade, não poderia faltar, neste preâmbulo, uma referência ao fato de que fui seu aluno, por cerca de cinco anos, do idioma hebraico. Um aluno nada convencional, interessado em nugas filológicas e gramaticais, que recebeu de sua parte, durante esse longo período de aprendizado e convívio intelectual, provas constantes de dedicação e solicitude. Minha homenagem à sua memória.”

Meu mundo de referência desmontou. Como? O que fez ou o que foi feito de Zipora? Telefonei para Boris Schnaiderman em São Paulo que me confirmou a morte de minha amiga, após enfermidade. 

Eu, viva, continuo a catar memórias, a relacionar, a pensar nestas pontas de coincidências fortuitas...
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Algumas décadas depois, temos internet e pesquisas on line numa perspectiva jamais vista. Então, mais uma vez, me encontrei com Zipora em referências que continuaram a demonstrar a pessoa especial que ela foi. Existe uma escola pública estadual em São Paulo com o nome de Professora Zipora Rubinstein. Sua inteligência e competência foram distinguidas também por Jorge Schwartz e J. Guinsburg no seu livro Shem Tov de Carriónum elo entre três culturas (São Paulo, EdUSP, 1993). Também fico sabendo que ela fez outras traduções, inclusive do romance Hóspede por uma noite de Sch.I. Agnon (Nobel 1966), editado pela Perspectiva em 2015.

Shem Tov de Carrión é um ensaio sobre a obra do poeta medieval Shem Tov, dito de Carrión, autor cujos textos hispano-hebraicos trazem a síntese da Espanha do século XIV, marcada pelo cruzamento entre a cultura árabe, a cristã e a judaica. A Disputa entre o Cálamo e a Tesoura, de sua autoria, é considerado um poema clássico da literatura judaica. Zipora Rubinstein (1946-1989) foi professora de Língua e Literatura Hebraica na USP e Unicamp.

(resenha do livro para o Google Books)



Comprei o livro pela Estante Virtual. Principalmente a tradução do poema me encantou. E todas as referências ali fundamentadas, um trabalho primoroso de pesquisa. Nosso (des)conhecimento de obras magistrais da literatura, às vezes, dependem do acaso...

Encontrei também um artigo que diz, de forma clara e com autoridade, a importância da obra de Tzipora e do significado da abordagem feita em sua monografia de mestrado. Veja a referência.

Sleiman, M. (1994). A metalinguagem da fraternidade de Shem Tov de Carrión - O cálamo e a tesoura nas asas de Tzipor. Revista USP, (23), 166-169.

No entanto, sinto que falta ainda uma análise mesma do poema, imanência a demonstrar os artifícios da linguagem, os argumentos do debate, as metáforas universais nas escolhas, enfim a justificá-lo como poesia. Transcrevo o início da parte 5 do livro, a tradução feita por Zipora do “Debate entre a Pena e a Tesoura”.

“Resolvi em minha mente a história que acontecera, quando eu com a pena escrevera. A fim de a justificar, e às gentes e aos príncipes mostrar quem me induziu a esta forma, de recortar com o ferro fragmentos e ornamentos, estando a pena e a tinta guardadas e encostadas. A respeito disso, do meu coração saquei palavras e fiz discursos:

                    Poema

Em nome do Autor dos Grandes feitos
e Criador das Alturas e das Profundezas,
escrevo canções e letras
inigualáveis em belezas;
igual à sua beleza não há bordados
abundantes em cores e formas;
não se compara a elas a beleza das moças; são bem-feitas,
e proporcionadas,
não com tinta e cálamo
mas com a espada de dois gumes
para deixá-las para as gerações,
para ganharem glória e renome.
E aqueles que as verão dirão:
Entre todas as belas formas,
entre todos os bordados e ornamentos,
existem, iguais à escrita e às letras?”


Contracapa do livro, talvez uma disputa entre Zipora, Shem Tov e Haroldo de Campos




(Petrolina,  reescrito em abril de 2019)



quinta-feira, 4 de abril de 2019

A computação eletrônica e o domínio de seu uso


A vida em sociedade deste século XXI não consegue prescindir de dispositivos de computação eletrônica. Computadores, tablets, celulares, ficam cada vez mais atraentes, práticos e acessíveis. Sua evolução é inimaginável em possibilidades de uso e apresentação.



Desenvolvidos desde o século passado, são ferramentas essenciais para o conhecimento, a interação e a informação e nos tornaram praticamente dependentes da tecnologia digital e da necessidade de uma educação nesse sentido. Começa-se pelo domínio de um vocabulário terminológico em língua inglesa, requisito básico da universalidade de sua compreensão.

Para a comunicação entre o homem e a máquina, foram desenvolvidas interfaces, a do hardware e a do software, necessárias à interação das linguagens de programação. São emissores e receptores mediados por códigos e sistemas, um mundo vasto e complexo, dinâmico e interativo, retroalimentado e retroalimentando-se constantemente.

A interface de software é a principal responsável em proporcionar a tradução intersemiótica, ou seja, a tradução em outros sistemas de símbolos não verbais, como a linguagem de uma máquina para uma linguagem humana. É o código que diz o que a máquina deve fazer e, consequentemente, interfere no comportamento de interação do usuário.

Um exemplo: se estou na fila do autoatendimento de um banco para sacar dinheiro e, inesperadamente, aparece na tela da máquina que eu preciso me dirigir a outro terminal para sacar, significa dizer que um não humano (coisa/objeto) gerou uma ação para um humano realizar. Isso foi possível graças ao código que, rapidamente, sobrepondo interfaces, fez uma leitura de, pelo menos, parte do contexto e comunicou o que e como fazer.

Autômatos, fazemos o que a máquina manda. E aí entram os algoritmos - códigos numéricos que regem o funcionamento do sistema - que não respondem à pergunta “o que fazer?” mas, sim, a “como fazer?” Semelhante a um tutorial passo a passo, seguimos procedimentos ordenados para alcançar o que desejamos ou para abrir “links” que nos encaminham a seus derivados e interesses, numa geração quase infinita de possibilidades. Observem as propagandas que aparecem em seus dispositivos eletrônicos, como se adivinhassem nossos desejos e alcance de consumo.

Diante desse “automatismo”, precisamos, urgentemente de uma alfabetização algorítmica em todos os níveis da educação. Pierre Lévy, filósofo referência nesta área, afirma que a inteligência humana evolui graças à tecnologia e que essa é, essencialmente, linguagem. Assim, é preciso dominar essa linguagem para contribuir e potencializar a inteligência coletiva, algo que precisa ser construído e não algo que se deve apenas observar. Temos um conhecimento cumulativo, que sempre vai criar algo novo. O fundamental é, pois, aumentar a capacidade cognitiva, aumentar a reflexão e estar mais cientes da forma como nos comunicamos.

A questão, neste momento, é que o domínio dessa linguagem é exclusivo de poucos, e não podemos nos limitar a ser, apenas, seguidores autômatos. Por isto o desafio de nos tornamos também criadores. Comparemos este desafio com a invenção do alfabeto – um código - na história da humanidade. De simples usuários, o que muitos ainda são, tornamo-nos criadores de vários outros códigos, inclusive os da comunicação algorítmica. Mas a mudança de status - usuários para criadores - leva tempo e muito esforço.

A rede mundial de computadores, Internet e Web, a interface gráfica da rede, é algo tão poderoso que sequer conseguimos ter ideia do seu pleno alcance, tanto no presente, como para o futuro. Seja nas relações pessoais ou institucionais, se pensarmos nas pesquisas de uma forma mais geral, pensarmos também na política, na guerra, no desenvolvimento que desejamos, não podemos ficar à margem do bem e do mal entre o automatismo que vem se impondo e a alienação paulatina de nossa cognição.

Mais do que nunca é hora de ficarmos atentos com estas constatações, cobrar das escolas de nosso país, públicas ou particulares, não só uma educação tecnológica fundamental, mas também um olhar crítico sobre o uso dessa mesma tecnologia, de sua dinâmica e de nossa capacidade interativa e criadora.

Vivemos numa sociedade da informação e do conhecimento. Nessa realidade, constatamos também que o desenvolvimento e a Economia das nações se fundamentam muito mais no conhecimento de uma Economia de Dados, de informações substanciais até para o equilíbrio mundial, do que numa Economia basicamente de Mercado, como poderíamos achar correto até há pouco tempo.

Estamos preparados para isso?



Elisabet Gonçalves Moreira (colaboração de Cecílio Bastos) 

Petrolina,  abril de 2019

"nenhuma violação de direitos autorais pretendida".

sexta-feira, 1 de março de 2019

RELATO DE UMA EPIFANIA



Epifania significa aparição ou manifestação de algo, normalmente relacionado com o contexto espiritual e divino. Do ponto de vista filosófico, a epifania significa uma sensação profunda de realização, no sentido de compreender a essência das coisas.  Ou, no meu caso, de buscar e interagir com essa essência. Um olhar que envolve também pesquisa e aprendizado.

Assim, relato: quando estive nas ruínas de Delfos, na Grécia, como turista ocasional, meus olhos se deslumbraram. Visitando o museu arqueológico, de uma sala a outra, depois de admirar a estátua da Esfinge (se você não fizer isso, não foi a Delfos e seu museu, eis o pressuposto), o ideal da beleza grega sobretudo nos corpos adultos e nus masculinos, na riqueza dos infinitos detalhes dessa cultura milenar,  me deparei com a mais graciosa e inesperada estátua. Foi esse o momento quase mágico da epifania.

Olhando para a criança que sorria delicadamente, parei embevecida, emocionada. A expressão singela e o realismo inusitado “quebraram” a monumentalidade do que eu havia visto. Ela parecia sorrir para a foto ou para a posteridade?

Vida, senti vida, além da representação artística, atemporal.  Quanto afeto transmitido nesta criança... hoje posso conjeturar, mas, naquele momento, como mãe e como ser humano inundado de ternura para com o outro, vi nosso potencial amoroso e o que ele pode fazer como registro.  

Por que esta estátua foi feita? Por quem? O braço perdido, quebrado sem dúvidas em algum dos muitos terremotos, ou de guerras e saques havidos na região, não lhe tirou a beleza ou seu significado. Reproduzo novamente a estátua, com mais definição do que a minha fotografia.


Em Delfos estão as ruínas do templo do deus Apolo, local de seu santuário e do oráculo. Os gregos consideravam Delfos o centro do mundo e a cidade teve grande importância na Antiguidade, lugar de peregrinação por séculos. Como viviam então as crianças neste mundo?

Procurando conhecer um pouco deste universo e de seu legado para nossa cultura, soube que as crianças eram incluídas na vida adulta assim que tinham condições de viver. A vida da comunidade grega era interligada, desde o nascimento até a morte.  A infância era apenas uma idade de passagem, ameaçada por doenças, incerta quanto ao futuro e, sobre ela, se fazia um mínimo investimento afetivo. Explica-se assim porque eram representadas como adultos em miniatura. No entanto, no final do século IV a.C., na Grécia, as representações de crianças passaram a receber proporções e características infantis.

Olhe novamente para a foto. Teria quantos anos essa criança? Talvez três ou quatro. Ela se veste como um adulto, isto é certo. 
Uma túnica longa colocada no corpo, ajustada no corpo com um cordão. Percebe-se a abertura lateral, pela perna exposta, quase num gesto de alguém que caminha. Acessório complementar é o manto enrolado em torno de seu corpo e que termina solto, sobre o braço esquerdo. As dobras do tecido estão bem detalhadas, fruto de um trabalho artesanal de qualidade. Seja de mármore ou terracota (argila cozida), o material não lhe tira a importância do significado. 

Seu cabelo está primorosamente penteado. A mão, que parece um pouco grande, quase masculina no conjunto, se bem observada, destoa em certa medida da delicadeza da estátua. Soube depois que a cabeça foi aplicada separadamente no corpo e que data do início do período helenístico, no século III a.C.

Embora esta criança esteja vestida como um adulto, nem me importa se menino ou menina, o enlevo está mesmo no seu sorriso ligeiramente esboçado. Se não tem os olhos desenhados, o olhar está inserido na cavidade figurativa, realista. Há um dinamismo no conjunto que quebra o caráter fixo e imóvel das estátuas de um modo geral. Esta criança talvez esteja querendo passear conosco, brincar, pedir que lhe conte uma história...

Então, quem teria mandado fazer esta estátua? Sem dúvidas alguém com dinheiro e poder. A humanidade e a divindade eram próximas no cotidiano grego. Agradar aos deuses era uma forma de viver e assim se justificam os milhares deles e de sua fascinante mitologia, fundamento de uma visão de mundo.  

Na polis, valores cívicos também eram transmitidos pelas estátuas.
Seriam, pois, expectativas e esperanças trazidas pelas crianças para a força e o futuro da comunidade, outra justificativa coerente? Ou seria minha referência apenas um ex-voto em agradecimento ao deus Apolo pela vida de um filho, de um herdeiro ou de sua saúde?

Decoração, ex-voto, até mesmo uma oferenda fúnebre, esta estátua resiste em pleno século XXI, gerando perplexidade e indagações. Sobretudo o registro eterno de uma criança que sorri para o mundo, que me deixou mais humana nesta nossa história de ontem e de hoje. Tão somente isto...
Elisabet Gonçalves Moreira
Petrolina, fevereiro de 2019.


domingo, 20 de janeiro de 2019

DENTRO DE CASA

Minha casa é inundada de pequenos objetos, lembranças, curiosidades... todos com uma história de apego e conhecimento e não mera decoração. Tudo eu vou atrás, quero saber... já me disseram que tenho espírito de pesquisadora. Gostei disso, pois entre tantas observações que fazem sobre nossa pessoa (quanta aparência e sentidos temos?) está o valor que dou à curiosidade, às leituras mais profundas do que nos rodeia.

Talvez por isso também tenha me identificado com a Semiótica, essa leitura dos signos onde tudo é passível de leitura: “textos” em diferentes níveis de análise, encadeamento gerativo de ideias e significações.

Nestes dias de reclusão (por conta de uma convalescença) meus olhos se voltam para detalhes. Desenhando, procurando ver também nos ângulos, na luz e sombra de uma tendência “hiper-realista”, escolhi um pequeno anjo de liga metálica que fotografei, imprimi, copiei, pintei. Este anjo tem apenas 9,5 cm e uma referência “Faithfull Angels” by Ganz. Anjo dos milagres, escrito na tag. E com um pequeno texto, uma oração eu diria, que traduzi do inglês: “A fé vê o invisível, acredita no incredível, e recebe o impossível.”


Mas, nesta direção, um pequeno demônio se inseriu. Uma gárgula pensativa, cópia em resina (com um ímã nas costas) de uma gárgula da igreja Sacré  Coeur de Paris. Irônica, parece perguntar: E eu? Não faço parte de sua “instalação” doméstica?


Faz sim... quase sem perceber, também executei o mesmo procedimento. Os desenhos feitos ainda carecem de reparos. Apenas exercícios para percepção de luz e sombra, volume, e uso de diferentes materiais.

Mas a comparação do significado, deste contraste entre um anjo idealizado na figura feminina e um mítico monstrengo, fica inserida subliminar, a partir da própria escolha, consciente ou não. E na ousadia de fazer um texto sobre isto e uma pequena reflexão sobre a natureza humana.

Primeiramente uma referência sobre as gárgulas... Quem assistiu à animação da Disney “O corcunda de Notre Dame” viu como essa figura é usada. Quasímodo, o personagem criado por Victor Hugo, é similar a uma gárgula. E há várias adaptações cinematográficas, algumas antológicas.

Uma amiguinha de 8 anos me disse que viu a gárgula numa animação do Scooby Doo. Há jogos que   também usam a personagem, geralmente do mal, personificado pelo seu aspecto demoníaco. Em francês, a palavra é "gargoille", originalmente conhecida como "garganta". Daí “cuspirem” a água das chuvas, que escoa pelos telhados, fazendo parte da arquitetura gótica, nas catedrais medievais.

Existem diversos modelos de gárgulas, do grotesco ao satírico, mas é pela sua força simbólica que resistem e impregnam o imaginário ainda nos dias de hoje. Podem dar um aviso:  atenção, o demônio está sempre de olho. Ou, contemporizando, as gárgulas, lá do alto, servem para afastarem o mal, agindo como guardiãs da igreja.

Já os anjos, em toda sua inesgotável plêiade iconográfica, remetem a mais questionamentos do que as gárgulas. As representações destes seres do bem são sempre idealizadas. Tidos como seres perfeitos, carregam o conceito de beleza de nossa cultura através dos tempos. Beleza física e espiritual. Também os anjos são guardiões dos fiéis, protegendo-os do mal.

Existe uma hierarquia de anjos, categorias e funções bem definidas que o esoterismo e algumas correntes religiosas divulgam e complementam com associações de todo o tipo. De imediato eu só associo que os demônios são também anjos, expulsos do céu pelo Deus pai criador.

Assim, estas miniaturas que fazem parte do meu acervo doméstico – tenho muitas outras figuras de anjos – além de tê-las desenhado, carregam um significado especial para mim, apesar de minhas descrenças religiosas. A espiritualidade que se insinua, ancestral, fazendo parte da vida e de seus desafios. Alegorias? Sim, idiossincrática, gosto de pensar nestes desvãos sobretudo filosóficos.

Na eterna luta do Bem e do Mal, o homem sempre se viu dividido entre crenças e religiões, entre objetos, ícones e símbolos que tanto podem significar proteção como poder, medo ou fé. Escolhas que fazem parte de nossa humanidade e de suas contradições.


Gárgula original da Igreja de Sacré Coeur em Paris, pensativa e observando a cidade.



Petrolina, 20 de janeiro de 2019

Elisabet Gonçalves Moreira

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Vazante de Lys Valentim






O que procuramos na vazante?

O que achamos?

Lys Valentim está à procura... Indagações de jovem mulher, artista destas margens, entre vivências que fertilizam expressões de arte.


Literalmente pinta e borda, nomeia, instala, grafita, filtra obras em telas, tecidos crus e paredes.  Mescla linguagens em cores e pontos, materiais diversos para sua criatividade. Mas tem um foco: sua essência de mulher. Onde se revela, desvela...

Figuras femininas são a invariante em significados de leituras. 
Ela mesma nos dá a dica no título que escolheu para sua primeira exposição individual - Vazante - e nos nomes de suas obras, uma procura da poesia. Assim, o que vaza, também enche... o refluxo da vida remete a memórias, a signos diversos, símbolos de uma feminilidade que a desafia, que nos desafia.


É possível "Tarrafar na chuva"? (acrílica sobre tela)

Metáforas e sugestões de vazar dores, lágrimas, filhos, sangue, para renascer uma mulher que sabe apanhar, além das águas, o mundo que dialoga em pequenos índices reveladores. Um joão-de-barro, um barquinho de papel (ou muitos), respingos de água, pássaros, conchas, cabelos entrelaçados, coração exposto...


Lys – que também está no meu nome – mulher valente que nos irmana, a vida não nos dá respostas prontas, então, sempre à procura estamos. Melhor o caminho, o processo dessa busca, onde nos fortalecemos. Obrigada por este encontro.


"Maria casca dura coração de rapadura"  Acrílica sobre tela


"Filtrar" Instalação



"Sua dor vai virar mar" Bordado e aquarela sobre tecido

(Observação: nem todos os trabalhos da exposição são aqui mostrados)

Petrolina e Juazeiro, novembro de 2018


domingo, 11 de novembro de 2018

Textos em desafio (I)

Labirinto




Olho para mim mesma...
Me enrolo,
me enrosco...

Sigo nos descaminhos
                                      Outros traços,
         Outras cores
               Me embaraço
                                 De novo

                E SEMPRE!


CONTO UMA HISTÓRIA E RECONTO A MIM MESMA...

Havia uma menina. Um lindo vestido branco. Como uma noiva. Dia de primeira comunhão. A menina não se viu.

Viu as outras e sentiu inveja. Sempre havia um vestido mais bonito que o dela.

Caminhou para o sacrifício. Pecado contrito, uma ova.

Então, o que fez? Mastigou a hóstia e assim carregou a culpa.

Até hoje se despe – e cospe – para dentro.


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Textos em desafio foram produzidos na Oficina de Escrita de História Fantásticas com Danielle Andarde (BA), no Projeto Entre Margens, SESC Petrolina, 5 a 9 de novembro de 2018.
(I) Proposta: Após uma “meditação” coletiva, em que a orientadora narrava uma história sugerindo uma aventura fantástica em várias fases (tipo Alice no país das maravilhas) para que cada um, de olhos fechados, se imaginasse em cada situação. Havia um momento da história, quase no final, em que alguém entregava um papel com uma palavra não dita. Depois, cada participante contou a sua história, o que sentiu e disse a palavra que recebera.  Catarse... A proposta da escrita era, depois desta experiência, com essa palavra, escrever um texto. Poderia estar explícita ou não.  Eu desenhei um olho, algumas linhas, usei algumas cores nas palavras. Não escrevi a palavra minha, queria apenas sugerir. Disseram que consegui.