Bet com t mudo

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BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

sábado, 2 de setembro de 2023

MARCAS DE FERRAR - SISTEMAS DE SIGNOS EM LEITURAS (II)

 

Antes de iniciar mais um "capítulo" de minha pesquisa, vou dar uma dica (astuce, como dizem os franceses) "descoberta" ao acaso, nesses trabalhos de clicar teclados e páginas específicas. No caso, este meu blog, ativo desde novembro de 2015 (portanto, neste setembro de 23, 8 anos ! num total de 88 postagens !!) descobri que posso ver a listagem dessas publicações acessando "Tecnologia do Blogger" que fica no final da página do celular ou do computador. Daí é mais fácil localizar postagens específicas e abri-las. Não sei se você sabe disso ou se tem outra "astuce" para o procedimento...

     Na última postagem falei dos ferros de marcar com o símbolo da cruz suástica, usados aqui no Brasil, e anunciava a continuação desse estudo, registrando que até mesmo algumas etnias indígenas delas fizeram uso, como é o caso dos Guaicurus, indígenas cavaleiros do Mato Grosso do Sul e de seus remanescentes, os Kadiwéus, estudados por idôneos antropólogos. Desde o italiano Guido Boggiani (1861-1902), francês/belga Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e o brasileiro Darcy Ribeiro (1922-1997).Todos eles destacaram a estética de suas marcas, bem como seu uso em animais e objetos, como uma maneira de reconhecer uma propriedade individual.

    Vou retomar algumas informações das postagens Aventuras na Selva (Partes I e II), datadas de 26 de julho de 2022 e 29 de agosto de 2022, revendo olhares.

     O que me encanta nos desenhos desses insólitos ferros de marcar  é uma alusão figurativista impressionante aliada a uma geometria impecável. O próprio Boggiani reconheceu esta possível semelhança.[1]

  Para comparação, algumas marcas de ferrar dos Kadiwéu, redesenhadas por Boggiani, tendo observado ele que, sobre alguns objetos estão reunidas em quantidade, como se fossem caracteres de uma escrita.


     Analisando, em nota de rodapé, página 228 do livro citado em referência 1, Boggiani diz que a “marca do Capitãozinho é a primeira à esquerda, no alto; aquela que se segue é a da sua mulher.” Sem dúvidas, esse indivíduo era uma referência importante na aldeia, não só pelo nomeado título, mesmo no diminutivo, mas porque levantou diante de sua casa um “altíssimo mastro sobre o qual se hasteou uma bela bandeira branca com as insígnias do Capitãozinho. Esta insígnia não é mais que a marca que, a fogo, estampa nos animais de sua propriedade todo proprietário caduveo. É uma espécie de sigla de reconhecimento”.

   Destaco o casal, simbolizado nessas marcas, insígnias, siglas. Lembrando uma figura humana, a marca do homem tem detalhes simétricos e um x central, enquanto a marca da mulher se curva na haste principal, num desenho mais simples e apresentando hastes que lembram pernas e braços quase um movimento. Há um equilíbrio estético admirável nas proporções e na visualidade do formato.

Pelo inusitado, também transcrevo aqui a forma que os Caduveos (assim grafado por Boggiani) marcam seus animais.

“Os Caduveos não têm, para marcar os seus animais, marcas de ferro como são usadas em toda a América do Sul pelos Estancieiros; mas usam simples barras de ferro de cinco ou seis milímetros de espessura, ligeiramente encurvadas numa das extremidades, e com elas esquentadas ao fogo vão desenhando a mão livre as suas insígnias sobre o couro dos animais. É uma operação longa e difícil e especialmente fastidiosa para os pobres animais submetidos àquela tortura. Vi hoje mesmo o Capitãozinho marcar um potro de sua mulher por esse sistema. 

Primeiro usavam fazer as marcas muito grandes; agora, porém, aprenderam a não estragar o couro dos animais e reduziram os sinais a justas proporções.” (p. 228/229)

No estado do Texas, nos Estados Unidos, também pude observar o uso de ferros de marcar o gado na tradição dos cowboys. Hoje, como aqui, os novos ferros são de inox. O método tradicional de esquentar o ferro na brasa foi substituído por usos mais modernos, como o aquecimento a gás, aquecido por eletricidade ou, ainda, um ferro resfriado por gelo seco, outro tipo de marcação, por congelamento. Gado, cavalos, são comumente marcados hoje pela mesma razão que eram nos tempos antigos, para provar a propriedade.


Marcas de gado usadas no condado de Mitchell, no oeste do Texas, são exibidas em mural público.[2]   

O ritual da marcação do gado ou ferra aparece também em publicações, romances, HQs, filmes de faroeste, fazendo parte de um cenário bastante popular, como algo típico e singular, demonstrando a bravura dos cowboys, similaridade com nossos vaqueiros.

No Brasil, há até mesmo a cidade de nome "Pau-dos-ferros" no Rio Grande do Norte, desde o século XIX. O topônimo é referência às árvores que circundavam o rio Apodi, principalmente a oiticica que, pela sua grande dimensão, oferecia sombra e consequentemente um local para repouso dos vaqueiros que por ali passavam. Eles marcavam também seu ferro no tronco dessas árvores, a fim de permitir a identificação dos animais extraviados, dando origem inclusive ao povoamento da região, com pontos de comércio e venda de gado.

Na dinâmica das transformações históricas, o mundo moderno também foi adaptando os ferros de marcar a outros usos. Mas a finalidade sempre foi, em essência, uma marca indicando autoria ou procedência, espécie de carimbo para identificar também a origem de produtos variados, como arreios de couro, de extração de madeira e afins.

E associar o artista que se interessa em partir dessas referências visuais e desdobrar sentidos em criações contemporâneas. O Movimento Armorial, na esteira das criações de Ariano Suassuna, sem dúvidas, é a referência mais conhecida. As artes gráficas têm no design dos ferros, em seu formato e simbologia um parâmetro criativo. Já observei sanduíches e até sobremesas “ferrados” com o logotipo do estabelecimento, um aspecto mais particularizado com o produto.

Quando adquiri meu primeiro “fusquinha”, nos anos 70, o vendedor esclareceu o significado da marca. Com apenas duas letras – um V por cima de um W – rodeadas por um círculo, um logotipo inconfundível.

Em alemão “volks” (povo) e “wagen” (vagão, veículo), que significa carro do povo ou popular. E assim por diante, sabemos o quão importante para o mundo moderno são esses logotipos que caracterizam empresas, negócios e objetos de consumo em geral. Há um lado emocional agregado muitas vezes para caracterizar a fidelidade do cliente.

Nesse caso, até o apelido “fusquinha”, o v em f, transformou-se numa referência afetiva para o carro popular inconfundível, objeto de desejo da maioria dos brasileiros, numa época de instalação e desenvolvimento da indústria automotiva nacional.

Agora, um ferro de marcar contemporâneo, em aço inoxidável, que você pode encomendar e comprar pela internet. Sem dúvidas bem-acabado, prático.[3]

                                                   

 Dizem que a queimadura com este tipo de ferro é menos dolorosa para o animal. As iniciais no centro estão circundadas por uma alegoria emblemática, o Ouroboros, ainda que estilizada. Há vários significados para essa representação da serpente que engole o próprio rabo, presente em diferentes culturas e tendo interpretações distintas. A base do significado do Ouroboros consiste na ideia da criação eterna e contínua. Talvez seja essa a função do que nos respalda humanamente.



[1] BOGGIANI, Guido. Os Caduveos. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975,   p.229.


🔉Na próxima postagem, continuo a colocar mais aspectos pertinentes a essa pesquisa. Falarei especificamente do ritual da Ferração do gado em nosso país e seus registros oficiais, referências que alargam a visão sobre esse assunto... Acompanhando... Obrigada.


segunda-feira, 7 de agosto de 2023

MARCAS DE FERRAR - SISTEMAS DE SIGNOS EM LEITURAS (I)


Ler os sistemas de signos configura-se, hodiernamente, em representações que podem preencher também os descaminhos dessa dinâmica, no esforço de compreensão da signicidade dos objetos culturais. A semiose, bem o sabemos, está na raiz do conceito de modelização implícito nessa leitura, dado que um signo só pode ser compreendido à luz de outro signo.

Assim, nesta pesquisa, encontrei um estudo instigante. Documentos que comprovam o insólito uso da suástica nazista para marcar o gado na região de Santarém, no Pará, foram apresentados por Joanderson Mesquita, da Universidade Federal do Pará,  para um trabalho de conclusão do curso de História. “Datados de janeiro de 1938, os documentos são autos criminais, registrando o furto de cabeças de animais pertencentes à firma Liebold & Cia., de propriedade do brasileiro Pedro da Silva Motta, e do alemão Artur Johannes Liebold.”[1]


    

Observe o desenho da suástica, logo após a palavra ferro, na segunda e na penúltima frase da foto do documento. Outra história se avizinha nos confins deste Brasil, outros meandros a serem, senão considerados, objeto de reflexões. Tantos caminhos se dão abertos para serem trilhados com cuidado nestes desafios do conhecimento e na dinâmica de sua interpretação. Eu, que comecei este trabalho, intrigada com o desenho de um ferro em desuso, caminhei entre variáveis cujos códigos se interpenetram e nos instigam continuamente.

Por exemplo, o que nos conta esse boi de cor araçá, roubado e ferrado com uma suástica?  A simbologia da cruz suástica, na época e no espaço dessas marcas aí encontradas, na união entre propriedade - uma “firma” - de um brasileiro com um alemão, entre a primeira e a segunda guerra mundial, mostra indicialmente uma expansão ideológica do nazismo em rastros e selvas. Teria a boiada levado avante, na história da própria Amazônia, o significado estrutural desse signo? Apenas um ponto geracional de possibilidades.

Como não lembrar o desafio de Ariano Suassuna, invocando “um Decifrador brasileiro e de gênio!"  Enigmas que se justapõem para os limites desse trabalho.

        No documentário “Menino 23, infâncias perdidas no Brasil”, de 2016, direção de Belisario Franca, a partir das pesquisas do professor historiador Sydney Aguilar Filho, temos esta imagem que não deixa dúvidas do uso da suástica e da ideologia amplamente discutida nos anos 30.

A foto foi tirada diretamente da tela do computador. Veja o vídeo em: https://www.youtube.com/watch?v=M_Bjo7YE9fg (Acesso em 17/10/22)

            O documentário traz evidências e reflexões sobre aspectos pouco divulgados na história de nosso país e de como o nazismo foi tratado com naturalidade, partindo de instâncias do governo e de suas elites conservadoras e poderosas. A suástica marcada no gado representa, no contexto, também a marca violenta da infância perdida de 50 meninos pretos, escravizados e sem futuro, durante os anos 1930, numa fazenda no interior do estado de São Paulo.


            De origem muito antiga, sabe-se que a suástica faz parte de várias culturas ao redor do mundo, com significados diferentes. Seu poder sugestivo é grande porque integra dois símbolos muito efetivos: a cruz de braços iguais e os quatro eixos numa mesma direção rotatória. No Budismo é, inclusive, um símbolo de boa sorte.


            A escolha do símbolo para o Partido Nazista, em 1920, foi justificada por Hitler em seu livro “Minha Luta”. De acordo com o líder nazista, a suástica teria a capacidade de representar a luta em prol do triunfo do homem ariano e o desenvolvimento da nação alemã por meio da campanha antissemita. Em seguida à derrota da Alemanha nazista em 1945, os governos dos países aliados legislaram tornando ilegais as organizações nazistas.  Seus símbolos e sua propaganda foram removidos e sua disseminação foi criminalizada. 


            Assim, o desenho/símbolo da suástica (cruz gamada), na atualidade, tem uma associação imediata e generalizada com o nazismo de Hitler. Mas também é visto como uma preocupante incitação ao ódio, sobretudo porque vem sendo usado com certa regularidade por grupos extremistas de direita. 


                Não há mais ingenuidade possível sobre o caráter ideológico do nazismo e suas facetas. Inclusive, é lei: "torna crime fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propagandas que utilizem a cruz suástica ou quaisquer outras referências ao nazismo ou ao fascismo."   (https://www.jusbrasil.com.br/artigos/exibir-ou-publicar-uma-suastica-e-crime/862157642)

,,,oooOooo...

(Aguarde continuação:  Neste estudo de marcas de ferrar gado, registramos que até mesmo algumas etnias indígenas delas fizeram uso, como é o caso dos Guaicurus, indígenas cavaleiros do Mato Grosso do Sul e de seus remanescentes, os Kadiwéus, estudados pelo antropólogo italiano Guido Boggiani (1861-1902), Claude Lévi-Strauss (1908-2009) e o brasileiro Darcy Ribeiro (1922-1997).Todos eles destacaram a estética de suas marcas, bem como seu uso em animais e objetos, como uma maneira de reconhecer uma propriedade individual.)


quinta-feira, 20 de julho de 2023

MARCAS DE FERRAR - LEITURAS EM CONTINUIDADE

Henry Koster (1793-1820), inglês, autor do livro Viagens ao Nordeste do Brasil, ao qual já me referi, editado em português em dois volumes, traduzido por Câmara Cascudo (Rio-São Paulo-Fortaleza: ABC Editora, 2003) traz testemunhos e observações valiosas sobre a memória da vida brasileira do início do século XIX, principalmente sobre os escravos, seus amos e o cotidiano. Pois bem, um dos casos fala de um cavalo extenuado que o autor deixara a alguma distância de onde estava hospedado.

 “O guia, como instrução, desenhou a marca que o animal tinha na anca. Tenho admirado a habilidade desse povo em reconhecer a marca que uma vez viram, e a exatidão com que a traçam depois de ter somente lançado um rápido e casual olhar e, às vezes, com semanas passadas depois desse encontro.”  E continua, em nota de rodapé, “Durante o ano de 1813 estava em uma tarde com os amigos quando ouvi um cavalheiro perguntar aos do grupo se entre os ingleses presentes alguém deixara um cavalo em sua propriedade. Voltei-me e reconheci o coronel de Cunhaú. O cavalo me foi enviado um mês depois.” (KOSTER, p.223) 

 O próprio Câmara Cascudo complementa a nota: “É surpreendente a memória visual dos vaqueiros para reter e desenhar os ferros que marcam o gado alheio e o próprio. Nos segredos desse armorial bárbaro existem os Reis d´Armas de infalível sentença, indicando a ribeira, procedência e minúcia do animal pelo simples exame do ferro.” 

E eu complemento: Reis de armas constitui a categoria mais elevada de oficial de armas no âmbito da Heráldica. A eles eram confiados os registros de brasões, certificados de genealogias e títulos, entre outras incumbências. Sintomático foi Luís da Câmara Cascudo fazer esta ligação, que, aliás, Suassuna vai retomar. 

Numa matéria especial do jornal Diário do Povo, de Fortaleza, CE, com o título de “Sertão a Ferro e Fogo”, de Gil Dicelli e vários colaboradores (ver referência) transcrevo esta citação de Gilmar de Carvalho (1949-2021), reconhecido estudioso cearense de cultura popular: “O que mais me chama a atenção nas marcas de ferrar é o desenvolvimento de uma grafia peculiar, nascida do improviso dos ferreiros e dos fazendeiros, com os possíveis palpites dos vaqueiros. Grafia que incorpora influências, ao agrupar letras que se fundem, se enlaçam, se distanciam e se tencionam para significar mais. Estas marcas de ferrar formam um repertório básico de um design popular, que se trama com o artesanato, no improviso, e dobra a dureza do metal”. (Grifos meus) 






Ferros de marcar gado do século XX, da região do médio rio São Francisco, Pernambuco e Bahia, de minha coleção particular, fotografados por Sílvia Nonata

Gilmar destaca também que “a cultura de ferrar o gado é marcada por uma “violência inquestionável” contra o animal sabendo que “a marca de ferrar é irremovível.” Lembro, no entanto, que essa “violência” fazia parte de um mundo em que a ferra dos animais era tida como atividade de trabalho, do cotidiano e das regras de um costume herdado em que não se questionava o sofrimento do bicho. 

O que importava era o valor que se consubstanciava nessa posse, marcada e respeitada desde sempre. O poder de quem possuía também deveria ser ostentado. Daí a “força” subjetiva que os ferros representaram, um documento significativo de uma época. Assim como há homens que gostam de dominar seus semelhantes para demonstrar seu desejo de afirmação e poder, também os animais precisam ser dominados. Embora se reconheça que a intimidade com o animal, pego ou criado junto com o vaqueiro, também tenha seu valor afetivo. Nomes carinhosos marcavam essa convivência, uma personificação muitas vezes mitificada. Afinal era ele que acompanhava a vida do bicho até o seu fim, fosse pela venda ou por seu sacrifício, e essa escolha nem sempre dependia de sua vontade, mas de contingências várias ou da ordem de seu patrão. 

_(Continua...)_

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terça-feira, 27 de junho de 2023

LIVRO DE REGISTRO DE "FERROS, MARCAS E SIGNAES" DA VILLA DE PETROLINA, DOS ANOS DE 1872 E 1873 (PARTE II)

         Na última postagem, eu terminava, perguntando:

Quantas narrativas estão inferidas nesses registros? Por que, justamente dois anos, apenas 1872 e 1873, houve necessidade de se fazer esse registro? 

Um esclarecimento e uma hipótese: foi em 1870, dois anos antes da abertura do Livro, em 18 de maio, a Lei 921 que oficializou como Vila de Petrolina a antiga povoação “Passagem de Juazeiro”, na margem esquerda do Rio São Francisco, pertencente a Santa Maria da Boa Vista. Portanto, vejo que a autonomia e a evolução que a localidade estava alcançando necessitava desse registro, uma forma de legitimar a posse das terras e a condição de proprietários das fazendas constantes de seu entorno através do registro dos ferros. Inclusive, há de se perguntar se todas estão ali contempladas. Ficará sempre uma dúvida.[1]

Na abertura do Livro de Registro oficial define-se seu propósito, que transcrevo, atualizando ortografia.


“Tem este livro de servir, na Secretaria da Câmara Municipal da Vila de Petrolina para nele serem registrados os ferros, marcas e sinais, com que os criadores deste Município, usam destinguir seus gados e animais, e vai todo por mim numerado e rubricado, com a rubrica de que uso, que é Chris.ano.R.C.Brao, lavrando no fim o termo de encerramento.

Vila de Petrolina na Rua da Câmara Municipal, 1º de Abril de 1872.

José Chrispiniano Rois Coelho Brandão

Pro Presidente da Câmara Municipal.”


O que me chama a atenção na Abertura do Livro são verbos e seus sujeitos nas expressões: “Tem este livro de servir” e “os criadores...usão destinguir seus gados e animaes.”

 “Servir para” representa o uso a que se destina ou em que se emprega uma cousa. O livro não só serve para o registro, neste local determinado, como o fato de que os criadores o usam ou o usarão para destinguir ou distinguir seus gados e animais. Essa variante “destinguir” era usada desde o século XV, nesse sentido:


“Distinguir, diferençar, discernir – marcar – dividir, separar – assignalar, realçar.” Transcrito do “Diccionario dos Synonymos  Poetico e de Epithetos da Lingua Portuguesa por J.I. Roquete e José da Fonseca (Librarias Aillaud e Bertrand, Paris-Lisboa, Paris, 30 de janeiro de 1848). Lidando com conceitos do século XIX, achei conveniente procurar neste antigo dicionário. Um dicionário que foi de meu pai, uma relíquia para mim e que cuido com zelo.


Encontrei não exatamente a grafia destinguir, mas distinguir, com um encadeamento de significados que certamente corroboram seu uso no texto e em sua especificidade. Sim, também marcar, dividir, assinalar. Observe na foto, no texto do registro 192: “Registro dos ferros e signaes em que D. Maria Joana de Oliveira moradora na Villa de Joaneiro, distingue seus gados e animaes da fazenda Massangano nesse Termo.” Dona Maria Joana não tem filhos ou herdeiros ali declarados, somente ela.


O registro e os ferros dos criadores, situados em suas fazendas no entorno da Villa de Petrolina, assinalam, marcam, dividem seus signos de posse e de garantias legais. Portanto, na “escrita” dessa visualidade e de sua decodificação, há substratos além do significante, uma cadeia de significados na dinâmica de um mundo rural, pré-capitalista em formação.


Vejamos mais alguns ferros em sua “anatomia” formal. Visualmente, nos ferros, a simetria é perfeita, obra do artesão consciente. E há desenhos estranhos, icônicos, simbólicos, artísticos, nas outras páginas e registros

Desenho de ferros copiados do Livro dos Ferros 

Como num espelho, as imagens se invertem e mudam de dono. Direita e Esquerda têm muita importância. Retas, curvas, essa geometria primitiva concretiza na percepção ótica o abstrato de sua representação. Cada um desses ferros e seu formato dá um singular trabalho de análise, além de um estudo para a história da região, outrora da nação Cariri, de diversas etnias das margens do grande Opará (rio mar), batizado de rio São Francisco. Histórias de gente descendo do litoral ou de bandeiras adentrando em conquistas, de lutas e de sobrevivência, de mestiçagem, da evolução dos antigos currais de gado e a vizinhança da caatinga em secas periódicas.

O indivíduo não precisava saber ler e escrever – como a maioria de vaqueiros – mas sabia decodificar uma marca de gado, seja do dono, da propriedade ou da ribeira, nos campos abertos de outrora. Esse registro na carne do boi, legitima, pois, uma marca indelével de poder e posse.

Uma “leitura” das relações intersígnicas dos ferros de marcar boi desnuda também o processo econômico, social e cultural, típico de nossa estrutura fundiária, onde a posse tem que ser assinalada e delimitada. A propósito, uma velhinha, ao ver o ferro inicial, fotografado neste trabalho, por sua simplicidade, comentou: “essa é a marca de quem tem pouco mais ô nada.” E o dono do ferro tinha somente poucas cabeças de gado...


(Continua... aguarde).



[1] Do livro Petrolina no tempo, no espaço, na vez, de Antonio de Santana Padilha (Recife, FIAM/Centro de Estudos de História Municipal, 1982). Outras informações retiradas deste livro: desde o século XVIII, entre 1750-1799, defronte da localidade Juazeiro, na Província da Bahia, já é conhecida a “Passagem de Juazeiro”, na margem esquerda do rio São Francisco. Em 1860 é terminada a primeira Igreja, pertencendo ainda a Santa Maria da Boa Vista. A Passagem torna-se povoado e recebe o nome de Petrolina. Em 7 de junho de 1862, a Lei 530, da Assembleia Provincial, torna Petrolina “Freguesia”. A Lei 921, de 18 de maio de 1870, oficializa a povoação como Vila e em 1874, a Lei 1544, de 5 de junho, traz a condição judicial de Comarca, que se instala em 1881. Em 25 de abril de 1893, constitui-se município autônomo, desligado oficialmente do município de Santa Maria da Boa Vista. Finalmente, a Lei 130 dá a Petrolina a categoria de Cidade, instalada em 21 de setembro de 1895.  (Páginas 21/23)

terça-feira, 13 de junho de 2023

LIVRO DE REGISTRO DE "FERROS, MARCAS E SIGNAES" DA VILLA DE PETROLINA, DOS ANOS DE 1872 E 1873

 

Por acaso, nos anos 80, encontrei uma raridade: o Livro de Registro de "ferros, marcas e signaes" da Villa de Petrolina, de 1872 e 1873, na Biblioteca Municipal da agora cidade de Petrolina, em Pernambuco. Hoje, infelizmente, este livro, um magnífico exemplar histórico, está em “lugar incerto e não sabido.” Alguém se apoderou dele e não o devolve, embora seja possível consultar o livro numa cópia tipo xerox, muito manchada, no Museu do Sertão da cidade. Também disponho de uma cópia que não dá a verdadeira dimensão de sua importância, do que revela e daquilo que deixa subentendido.

De todo modo, fica a questão: por que é necessário um registro? E que tipo de registro, no caso específico dos animais e propriedades? Carlo Ginzburg bem resume um projeto de “controle generalizado e sutil sobre a sociedade.” (GINZBURG, 1989, p. 173) Numa sociedade de gado solto, ainda em expansão, o registro dos ferros, devidamente identificados, foi necessário e útil. Era uma garantia legal, como há ainda hoje, mais restrita e sob outras circunstâncias e orientações, a depender do município ou do estado.


Do livro do Registro dos ferros, marcas e signaes, retirei um exemplo. O de número 31, inserido nas páginas 15/16. Tentei manter a visualização da página, fazendo uma montagem, mas a qualidade não ficou boa (cópia de cópia!). Entretanto dá para se observar o manuscrito e os desenhos dos ferros. Para maior legibilidade, fiz, a seguir, uma transcrição do texto e cópia destes ferros.


Imagem em preto e branco

Descrição gerada automaticamente
“Nº 31- Registro de ferro e signal de gados e animaes de Antonio Rodrigues de Bomfim e seus   filhos moradores na fazenda Malhadinha deste Termo,



            A consulta ao original ocorreu em 1980 e não havia recursos de computador para digitalizar e/ou escanear. Com o desaparecimento do livro, nesta reelaboração do trabalho, usou-se um programa digital para os desenhos dos ferros, aqui inseridos.

Analisando: a forma básica do pai, no desenho alegórico de um coração, mas “deitado”, com a ponta para a direita, continua nos ferros dos filhos, que varia nos detalhes segundo a ordem. Veja-se que o filho mais velho tem uma “meia-fulô” exatamente do outro lado. Fica explícita a herança dos papéis patriarcal e do primogênito. A partir de Maria, única filha mulher, a ponta deste coração horizontalizado é estendida, abrindo-se em dois. Aqui, pode-se ler, sutilmente, o papel reprodutor da mulher, ainda que possa ter sido involuntário. No restante dos ferros, a variante desta ponta tem outras direções, nunca repetidas, individualizando, portanto, as marcas e os filhos.

            Não é de admirar o formato de um coração nos ferros sertanejos de marcar o gado. Afinal, o coração se traduz numa alegoria de sentimentos afetivos e religiosos. Símbolo do amor, se firmou na história ocidental. Uma leitura subjacente diz que a durabilidade do desenho do coração se deve à sua forma: o fato de duas metades formarem uma figura apenas traduz na perfeição a ideia platônica do amor e da busca pela alma gêmea. Ou, mais inconscientemente, o seu sucesso tenha a ver com um viés erótico na evocação sutil que o formato faz aos peitos e nádegas do corpo humano. De todo modo, uma intersecção de formatos e significados.

            Também pode-se usar a marca de família e os números para os filhos, pela ordem de nascimento: 1 – 2 - 3 - 4, o que é mais raro em ferros antigos, como esses do século XIX.

Sobre os “signaes”: incisões nas orelhas do “gado miúdo”, outra forma rudimentar de assinalar caprinos e ovinos, não é motivo agora, neste trabalho, de maior estudo. Na referência, o signal é o mesmo para o pai e todos os filhos, dado que o valor do gado bovino, sem dúvida, é mais alto e de longo prazo. Um “pater familia” é reiterado, como usuário e detentor da posse primitiva. Assim se constituíram muitas famílias “tradicionais”, herança cultural, desdobrando-se em outras posses, tanto no parentesco, como em arranjos familiares envolvendo escravos, agregados e situações atípicas na dinâmica da vida e do cotidiano.


Posso justificar isso, porque, nesse mesmo livro de registro dos ferros, encontrei esse formato do desenho inicial de um coração, de Antonio Rodrigues de Bonfim, em outros registros cujos sobrenomes tinham Rodrigues, com detalhes e posicionamento para cima ou para baixo, para um lado ou outro, uma profusão de marcas a partir do original. 


Também o registro abarca essencialmente o homem como proprietário da marca e seus filhos, apesar de haver algumas mulheres proprietárias, provavelmente viúvas. O registro 89 é um bom exemplo, uma mulher com oito filhos, seguindo o mesmo padrão familiar. Também o de número 177: “Registro dos ferros e signaes de Pedro Gomes da Silva e de sua agregada a menor Maria Placida da Silva.”

No modelo da família patriarcal em que o pai, o senhor, exerce seu poder sobre sua família e sobre as outras pessoas que vivem em seus domínios, há essa categoria dos agregados que, mesmo não sendo parentes, integra-se ao contexto familiar, embora com limites e com um distanciamento baseado no respeito e no reconhecimento informal desse aceite.


Uma gama de situações envolve essa possibilidade. Desde aquelas dos engenhos de açúcar, no litoral, aos interiores coloniais, outros tipos de famílias se multiplicaram, de viúvos e viúvas, de mães e filhos que viviam sem companheiros nem pais, dos filhos ilegítimos fora do casamento, de escravos, de homens forros ou livres, até mesmo de trabalhadores itinerantes. O compadrio sempre foi uma prática tradicional em que o pertencimento a uma família poderosa se transforma em troca de favores e de proteção.


Quantas narrativas estão inferidas nesses registros? Por que, justamente dois anos, apenas 1872 e 1873, houve necessidade de se fazer esse registro? Uma história de um todo e de suas particularidades significativas em continuação.




(Continua... Aguarde)




quinta-feira, 25 de maio de 2023

MARCAS DE FERRAR (Parte V)

 De abril para maio, continuação desta pesquisa no blog... observações excelentes me foram feitas no pessoal. No entanto, acredito que continuar apresentando a pesquisa, recortando-a, propicia outro olhar além do informativo: reflexões sobre essa prática, evolução e objetivos.

MARCAS NA ARTE E NA HISTÓRIA

Suassuna, Rosa e Alencar (como vistos na parte anterior, nesse blog) movimentam seus heróis do sertão num tempo e num espaço todo simbólico, embora com distintas variantes e intenções. E, por isso, não estranhei quando, entrevistando gente mais antiga, falou-se com muita seriedade do poder das palavras e das atitudes.

Como ferrar o gado somente na lua nova ou lua cheia para garantir a reprodução do rebanho. E se benzer para se livrar da peste, curar o boi no rastro, espantar o demônio e as visagens que rondam esses cafundós.


Na "planta de ferro” do dono ou do ferreiro, esclareceu-me, velhinho e doente, Pedro Brás, grande artista segundo consenso, que o saber do ferreiro é fundamental, para não "empastar" na hora da ferração, para que um desenho não seja igual a outro - detalhe imprescindível - não só para assegurar a propriedade, mas para a Arte.


Esse direcionamento para a Arte não pode passar despercebido: da diferença entre a arte utilitária - que se vê principalmente hoje, nos ferros feitos com aço inox, encomendados pela Internet - e o cuidado artesanal do ferreiro, trabalhando e modelando o ferro do cliente.


Na dissertação de mestrado de 2012 da autoria de Daniella Lira Nogueira Paes, no portal do Iphan “Sob os signos das boiadas: as marcas de ferrar gado que povoam o sertão paraibano” (1) há fotos de uma oficina de produção artesanal de ferros de marcar ainda em funcionamento naquele ano.


Aliás, observei que até mesmo um ferro de marcar, enferrujado, pode ser vendido nos leilões de antiguidades para gosto – ou negócio - de colecionadores. E, como peça de museu, no Cais do Sertão, em Recife, há alguns ferros em exposição, assim, como, certamente, os há em outras ocasiões e lugares. Valores e significados vão desde o apreço individual até a peça de museu, o que fica como memória ou referência histórica de usos e costumes.


            Desse modo, temos os objetos em dupla perspectiva de observação: nós os olhamos e os admiramos, assim como esses objetos nos olham. Narrativas e desafios nesses olhares e talvez a posse de uma referência que nos justifica como ser histórico.



       Foto: acervo Cais do Sertão, Recife, PE

No ferro, há uma ou mais pontas que se fundem num cabo. Para proteger a mão de quem ferra, do calor em brasa, insere-se no cabo um complemento de segurança que pode variar de madeira a um osso de animal. Sempre rústico, tenho um ferro cujo cabo é uma espiga de milho já seca, que deve ter sido uma alternativa bastante útil nessa hora.

            “Dono, se gosta, pode fazer bule, bota, a "moldura" que quiser”, na fala de Pedro Brás. Até me contou de um ferro, em Carnaíba, BA, na forma insólita de uma garrafa. E que seu dono é um beberrão contumaz. Nesse caso, penso que seja uma leitura intencional na marca do ferro desse vaqueiro ou uma espécie de humor, talvez ironia neste universo em que o Poder marca além do couro do boi. Uma marca alternativa, questionando o mundo dos ricos fazendeiros e do próprio artesanato.

            Entretanto, usual mesmo, é o ferro de marcar feito com base nas letras iniciais do proprietário. Em geral uma letra básica, simplificando o visual dessa identidade. Assim como o nome de batismo é uma marca que me distingue, o ferro reproduz minha conquista, minhas posses de direito no mundo em que habito. A partir do desenho básico, detalhes aparecem, determinando inclusive leituras familiares, parentesco e até os compadrios.

O certo é que o costume de ferrar os animais - e gente - indicando uma propriedade, uma posse, um símbolo de poder e dominação, está associado a fatores históricos, sociais e econômicos, remontando a priscas eras, passando por impérios e civilizações, uso espalhado em várias geografias.


Com a pesquisa facilitada nestes tempos de internet, de pdfs e similares, há alguns trabalhos que corroboram tais observações. Na ilustração a seguir, detalhe da cópia de uma pintura de parede do túmulo de um homem chamado Nebamun que viveu no Egito, cerca de 1475 a.C, observam-se trabalhadores negros da região, ocupados na marcação do gado a ferro quente. Ainda que não tenhamos conhecimento do desenho dos ferros, infere-se que a marca certamente era a garantia da identificação e propriedade do rebanho. (2)


Marcas a ferro quente também foram usadas para criminosos condenados, proporcionando um registro criminal humilhante e indelével. Na história jurídica ocidental registram-se usos e abusos desta prática.

No século XVI, após a chegada de Colombo à América, o conquistador espanhol Hernan Cortés introduziu a marcação a ferro, usando três cruzes cristãs para marcar seu gado e cavalos. À medida que a pecuária se espalhava pelos campos abertos, as marcas para mostrar propriedade se desenvolveram em uma heráldica semelhante aos brasões usados nos regimentos da cavalaria. Séculos seguintes, para evitar a duplicação de marcas e dar proteção legal aos proprietários de gado, governos aprovaram leis de marcas exigindo o registro de todas as marcas e tornando crime a alteração de marcas registradas.

No Brasil, não foi muito diferente. Com a colonização e a pastagem do gado, o uso dos ferros se disseminou de norte a sul, com algumas particularidades regionais. Bastante citada é Ana Pimentel, mulher de Martin Afonso de Souza, quem primeiro trouxe gado para o país, desembarcado em São Vicente, SP, em 1534. Ainda no século XVI, já havia marcas de gado registradas no Rio Grande do Sul. (3)


Também foi em meados desse século que os primeiros escravos africanos chegaram ao Brasil e traziam a pele marcada a ferro quente. Laurentino Gomes narra o ritual das marcações de nossa história colonial, demonstrando o horror vivido pelos negros cativos e como aquela era uma prática além do corpo, de um sistema organizado no lucrativo mercado de escravos. 

"Antes de partir, os africanos eram marcados com ferro em brasa. Em geral, recebiam sobre a pele quatro diferentes sinais. Os que vinham do interior, já chegavam com a identificação do comerciante responsável pelo seu envio ao litoral. Em seguida, o selo da coroa portuguesa era gravado sobre o peito direito, indicação de que todos os impostos e taxas haviam sido devidamente recolhidos. Uma terceira marca, em forma de cruz, indicava que o cativo já estava batizado. A quarta e última, que poderia ser feita sobre o peito ou nos braços, identificava o nome do traficante que estava despachando a carga. Ao chegar ao Brasil, poderia ainda receber uma quinta marca, do seu novo dono — o fazendeiro, minerador ou senhor de engenho para o qual trabalharia até o fim da vida. Os fugitivos contumazes teriam, ainda, um “F” maiúsculo (de “fuga” ou “fujão”) gravado a ferro quente no rosto. Em Angola, o trabalho de marcação dos escravos chamava-se carimbar (de carimbo, palavra que, em idioma quimbundo, significa marca). Era executado por um funcionário do governo conhecido como “marcador de negros” e supervisionado por outro chamado de “capitão das marcas”.

O ritual de marcação era assustador. Primeiramente, o “marcador de negros” colocava o carimbo de metal, com uma longa haste de madeira, sobre carvão em brasas até que ficasse incandescente. Em seguida, com a ajuda de vários assistentes, imobilizava o escravo. O local a ser marcado era então coberto com cera e um pedaço de papel lubrificado com óleo. Desse modo, evitava-se que a pele grudasse ao ferro quente e fosse arrancada durante a operação. A dor da queimadura era excruciante. Os cativos urravam e se debatiam ao sentir a aproximação do metal em brasas e precisavam ser fortemente contidos pelos assistentes do “marcador”, que lhes seguravam as pernas e os braços. Nos dias seguintes, enquanto as feridas cicatrizavam, as marcas de sua nova identidade iam ficando cada vez mais visíveis". (4)

        Também negros escravos, pelo menos no Nordeste, como citado pelo viajante inglês Henry Koster, em seu diário Viagens ao Nordeste do Brasil, escrito no início do século XIX e traduzido por Câmara Cascudo, podiam criar animais domésticos, como galinhas e porcos e, “ocasionalmente, um cavalo para alugar e possuir o dinheiro assim obtido.” (5)

            Entretanto, o lugar da marcação do cavalo do escravo era diferente, pois este animal era comumente marcado na coxa direita com a marca de seu dono, mas os animais de propriedade dos escravos deviam ter a marca na coxa esquerda. Embora lhe fosse proibido ter posses, o costume instituiu essa práxis diferenciada. Uma vez escravo, sempre escravo...

Na ilustração “Slave branding”, ou seja, marcação de um escravo:


Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Slavery17.jpg (imagem de domínio público)

Recentemente, soube de uma história inquietante, um fato singular que, de alguma forma, mostra o olhar violento e sádico do dominador sobre seu semelhante ali subjugado. Em 1860, em Iguatu, Ceará, a proprietária de uma grande fazenda marcou crianças escravas. Seu nome era Bernardina Maria de Oliveira; o marido era um coronel, Antônio Alves, que escravizava indígenas e negros. Como antecedente, há também uma história de violência e vingança. Um dos filhos foi assassinado e dois outros filhos vingaram a morte do irmão. Quando a polícia veio prender os assassinos, o coronel armou seus escravos e jagunços, recebendo-os à bala.

Morreram 31 escravos e os 16 policiais. Foram tantos mortos que se construiu um cemitério na estrada, que ainda existe. Depois disso, veio um destacamento da capital para prender o coronel, já com quase 80 anos, que foi mandado para a Ilha das Cobras, hoje Fernando de Noronha. A esposa ficou na fazenda e fez essa marca para o ferro, a fim de manter o patrimônio do marido. Foi quando começou também a ferrar crianças. Dizem que ela colocava as crianças em disputa numa corrida; quem perdesse era ferrada no traseiro.

    (Observação: Atualmente, este ferro é de propriedade de Manoel Airton de Lavor, residente em Iguatu, CE. Foto pessoal)

Decodificar o desenho do ferro é difícil, um exemplar com muitos detalhes. Inclusive porque, a depender do ângulo em que ele se coloca, apresentam-se mais desafios. Basicamente, sobre uma curva acentuada, há um paralelismo em duas pontas - talvez uma representação do casal – e de seus filhos no outro extremo, em pequenos “puxetes”, retas e curvas.

Entretanto, para ilustrar essa triste história, depois de oito anos da prisão do coronel, os escravos da fazenda fizeram um motim, mataram a mulher e fugiram. Aos 90 anos, o coronel recebeu um indulto do governador, retornou, e tudo tinha se acabado, restavam apenas ruínas. Entrou em depressão e acredita-se que tenha se matado.



(1) Apud A estética armorial dos ferros-de-marcar na obra de Ariano Suassuna e Manuel Dantas, de Daniella Carneiro Libânio de Almada in https://www.pluralpluriel.org/index.php/revue/article/view/131   nº 17 – 2017 - Acesso em 21/07/2022 

(2) https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nebamun_Supervising_Estate_Activities,_Tomb_of_Nebamun_MET_DT11772_detail-7.jpg . Nota: Detentor dos direitos autorais da ilustração: https://creativecommons.org/publicdomain/zero/1.0/

[3] http://www.nordesteweb.com/not09/ne_not_20010903d.htm (Acesso em 04/04/22)

 [4] GOMES, Laurentino. Escravidão – volume I – Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019. Páginas 281/282.

[5] KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Vol. 1. 12ª ed. Rio-São Paulo-Fortaleza: ABC Editora, 2003.


(Continua...)