Bet com t mudo

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BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

terça-feira, 27 de junho de 2023

LIVRO DE REGISTRO DE "FERROS, MARCAS E SIGNAES" DA VILLA DE PETROLINA, DOS ANOS DE 1872 E 1873 (PARTE II)

         Na última postagem, eu terminava, perguntando:

Quantas narrativas estão inferidas nesses registros? Por que, justamente dois anos, apenas 1872 e 1873, houve necessidade de se fazer esse registro? 

Um esclarecimento e uma hipótese: foi em 1870, dois anos antes da abertura do Livro, em 18 de maio, a Lei 921 que oficializou como Vila de Petrolina a antiga povoação “Passagem de Juazeiro”, na margem esquerda do Rio São Francisco, pertencente a Santa Maria da Boa Vista. Portanto, vejo que a autonomia e a evolução que a localidade estava alcançando necessitava desse registro, uma forma de legitimar a posse das terras e a condição de proprietários das fazendas constantes de seu entorno através do registro dos ferros. Inclusive, há de se perguntar se todas estão ali contempladas. Ficará sempre uma dúvida.[1]

Na abertura do Livro de Registro oficial define-se seu propósito, que transcrevo, atualizando ortografia.


“Tem este livro de servir, na Secretaria da Câmara Municipal da Vila de Petrolina para nele serem registrados os ferros, marcas e sinais, com que os criadores deste Município, usam destinguir seus gados e animais, e vai todo por mim numerado e rubricado, com a rubrica de que uso, que é Chris.ano.R.C.Brao, lavrando no fim o termo de encerramento.

Vila de Petrolina na Rua da Câmara Municipal, 1º de Abril de 1872.

José Chrispiniano Rois Coelho Brandão

Pro Presidente da Câmara Municipal.”


O que me chama a atenção na Abertura do Livro são verbos e seus sujeitos nas expressões: “Tem este livro de servir” e “os criadores...usão destinguir seus gados e animaes.”

 “Servir para” representa o uso a que se destina ou em que se emprega uma cousa. O livro não só serve para o registro, neste local determinado, como o fato de que os criadores o usam ou o usarão para destinguir ou distinguir seus gados e animais. Essa variante “destinguir” era usada desde o século XV, nesse sentido:


“Distinguir, diferençar, discernir – marcar – dividir, separar – assignalar, realçar.” Transcrito do “Diccionario dos Synonymos  Poetico e de Epithetos da Lingua Portuguesa por J.I. Roquete e José da Fonseca (Librarias Aillaud e Bertrand, Paris-Lisboa, Paris, 30 de janeiro de 1848). Lidando com conceitos do século XIX, achei conveniente procurar neste antigo dicionário. Um dicionário que foi de meu pai, uma relíquia para mim e que cuido com zelo.


Encontrei não exatamente a grafia destinguir, mas distinguir, com um encadeamento de significados que certamente corroboram seu uso no texto e em sua especificidade. Sim, também marcar, dividir, assinalar. Observe na foto, no texto do registro 192: “Registro dos ferros e signaes em que D. Maria Joana de Oliveira moradora na Villa de Joaneiro, distingue seus gados e animaes da fazenda Massangano nesse Termo.” Dona Maria Joana não tem filhos ou herdeiros ali declarados, somente ela.


O registro e os ferros dos criadores, situados em suas fazendas no entorno da Villa de Petrolina, assinalam, marcam, dividem seus signos de posse e de garantias legais. Portanto, na “escrita” dessa visualidade e de sua decodificação, há substratos além do significante, uma cadeia de significados na dinâmica de um mundo rural, pré-capitalista em formação.


Vejamos mais alguns ferros em sua “anatomia” formal. Visualmente, nos ferros, a simetria é perfeita, obra do artesão consciente. E há desenhos estranhos, icônicos, simbólicos, artísticos, nas outras páginas e registros

Desenho de ferros copiados do Livro dos Ferros 

Como num espelho, as imagens se invertem e mudam de dono. Direita e Esquerda têm muita importância. Retas, curvas, essa geometria primitiva concretiza na percepção ótica o abstrato de sua representação. Cada um desses ferros e seu formato dá um singular trabalho de análise, além de um estudo para a história da região, outrora da nação Cariri, de diversas etnias das margens do grande Opará (rio mar), batizado de rio São Francisco. Histórias de gente descendo do litoral ou de bandeiras adentrando em conquistas, de lutas e de sobrevivência, de mestiçagem, da evolução dos antigos currais de gado e a vizinhança da caatinga em secas periódicas.

O indivíduo não precisava saber ler e escrever – como a maioria de vaqueiros – mas sabia decodificar uma marca de gado, seja do dono, da propriedade ou da ribeira, nos campos abertos de outrora. Esse registro na carne do boi, legitima, pois, uma marca indelével de poder e posse.

Uma “leitura” das relações intersígnicas dos ferros de marcar boi desnuda também o processo econômico, social e cultural, típico de nossa estrutura fundiária, onde a posse tem que ser assinalada e delimitada. A propósito, uma velhinha, ao ver o ferro inicial, fotografado neste trabalho, por sua simplicidade, comentou: “essa é a marca de quem tem pouco mais ô nada.” E o dono do ferro tinha somente poucas cabeças de gado...


(Continua... aguarde).



[1] Do livro Petrolina no tempo, no espaço, na vez, de Antonio de Santana Padilha (Recife, FIAM/Centro de Estudos de História Municipal, 1982). Outras informações retiradas deste livro: desde o século XVIII, entre 1750-1799, defronte da localidade Juazeiro, na Província da Bahia, já é conhecida a “Passagem de Juazeiro”, na margem esquerda do rio São Francisco. Em 1860 é terminada a primeira Igreja, pertencendo ainda a Santa Maria da Boa Vista. A Passagem torna-se povoado e recebe o nome de Petrolina. Em 7 de junho de 1862, a Lei 530, da Assembleia Provincial, torna Petrolina “Freguesia”. A Lei 921, de 18 de maio de 1870, oficializa a povoação como Vila e em 1874, a Lei 1544, de 5 de junho, traz a condição judicial de Comarca, que se instala em 1881. Em 25 de abril de 1893, constitui-se município autônomo, desligado oficialmente do município de Santa Maria da Boa Vista. Finalmente, a Lei 130 dá a Petrolina a categoria de Cidade, instalada em 21 de setembro de 1895.  (Páginas 21/23)

terça-feira, 13 de junho de 2023

LIVRO DE REGISTRO DE "FERROS, MARCAS E SIGNAES" DA VILLA DE PETROLINA, DOS ANOS DE 1872 E 1873

 

Por acaso, nos anos 80, encontrei uma raridade: o Livro de Registro de "ferros, marcas e signaes" da Villa de Petrolina, de 1872 e 1873, na Biblioteca Municipal da agora cidade de Petrolina, em Pernambuco. Hoje, infelizmente, este livro, um magnífico exemplar histórico, está em “lugar incerto e não sabido.” Alguém se apoderou dele e não o devolve, embora seja possível consultar o livro numa cópia tipo xerox, muito manchada, no Museu do Sertão da cidade. Também disponho de uma cópia que não dá a verdadeira dimensão de sua importância, do que revela e daquilo que deixa subentendido.

De todo modo, fica a questão: por que é necessário um registro? E que tipo de registro, no caso específico dos animais e propriedades? Carlo Ginzburg bem resume um projeto de “controle generalizado e sutil sobre a sociedade.” (GINZBURG, 1989, p. 173) Numa sociedade de gado solto, ainda em expansão, o registro dos ferros, devidamente identificados, foi necessário e útil. Era uma garantia legal, como há ainda hoje, mais restrita e sob outras circunstâncias e orientações, a depender do município ou do estado.


Do livro do Registro dos ferros, marcas e signaes, retirei um exemplo. O de número 31, inserido nas páginas 15/16. Tentei manter a visualização da página, fazendo uma montagem, mas a qualidade não ficou boa (cópia de cópia!). Entretanto dá para se observar o manuscrito e os desenhos dos ferros. Para maior legibilidade, fiz, a seguir, uma transcrição do texto e cópia destes ferros.


Imagem em preto e branco

Descrição gerada automaticamente
“Nº 31- Registro de ferro e signal de gados e animaes de Antonio Rodrigues de Bomfim e seus   filhos moradores na fazenda Malhadinha deste Termo,



            A consulta ao original ocorreu em 1980 e não havia recursos de computador para digitalizar e/ou escanear. Com o desaparecimento do livro, nesta reelaboração do trabalho, usou-se um programa digital para os desenhos dos ferros, aqui inseridos.

Analisando: a forma básica do pai, no desenho alegórico de um coração, mas “deitado”, com a ponta para a direita, continua nos ferros dos filhos, que varia nos detalhes segundo a ordem. Veja-se que o filho mais velho tem uma meia-fulô” exatamente do outro lado. Fica explícita a herança dos papéis patriarcal e do primogênito. A partir de Maria, única filha mulher, a ponta deste coração horizontalizado é estendida, abrindo-se em dois. Aqui, pode-se ler, sutilmente, o papel reprodutor da mulher, ainda que possa ter sido involuntário. No restante dos ferros, a variante desta ponta tem outras direções, nunca repetidas, individualizando, portanto, as marcas e os filhos.

            Não é de admirar o formato de um coração nos ferros sertanejos de marcar o gado. Afinal, o coração se traduz numa alegoria de sentimentos afetivos e religiosos. Símbolo do amor, se firmou na história ocidental. Uma leitura subjacente diz que a durabilidade do desenho do coração se deve à sua forma: o fato de duas metades formarem uma figura apenas traduz na perfeição a ideia platônica do amor e da busca pela alma gêmea. Ou, mais inconscientemente, o seu sucesso tenha a ver com um viés erótico na evocação sutil que o formato faz aos peitos e nádegas do corpo humano. De todo modo, uma intersecção de formatos e significados.

            Também pode-se usar a marca de família e os números para os filhos, pela ordem de nascimento: 1 – 2 - 3 - 4, o que é mais raro em ferros antigos, como esses do século XIX.

Sobre os “signaes”: incisões nas orelhas do “gado miúdo”, outra forma rudimentar de assinalar caprinos e ovinos, não é motivo agora, neste trabalho, de maior estudo. Na referência, o signal é o mesmo para o pai e todos os filhos, dado que o valor do gado bovino, sem dúvida, é mais alto e de longo prazo. Um “pater familia” é reiterado, como usuário e detentor da posse primitiva. Assim se constituíram muitas famílias “tradicionais”, herança cultural, desdobrando-se em outras posses, tanto no parentesco, como em arranjos familiares envolvendo escravos, agregados e situações atípicas na dinâmica da vida e do cotidiano.


Posso justificar isso, porque, nesse mesmo livro de registro dos ferros, encontrei esse formato do desenho inicial de um coração, de Antonio Rodrigues de Bonfim, em outros registros cujos sobrenomes tinham Rodrigues, com detalhes e posicionamento para cima ou para baixo, para um lado ou outro, uma profusão de marcas a partir do original. 


Também o registro abarca essencialmente o homem como proprietário da marca e seus filhos, apesar de haver algumas mulheres proprietárias, provavelmente viúvas. O registro 89 é um bom exemplo, uma mulher com oito filhos, seguindo o mesmo padrão familiar. Também o de número 177: “Registro dos ferros e signaes de Pedro Gomes da Silva e de sua agregada a menor Maria Placida da Silva.”

No modelo da família patriarcal em que o pai, o senhor, exerce seu poder sobre sua família e sobre as outras pessoas que vivem em seus domínios, há essa categoria dos agregados que, mesmo não sendo parentes, integra-se ao contexto familiar, embora com limites e com um distanciamento baseado no respeito e no reconhecimento informal desse aceite.


Uma gama de situações envolve essa possibilidade. Desde aquelas dos engenhos de açúcar, no litoral, aos interiores coloniais, outros tipos de famílias se multiplicaram, de viúvos e viúvas, de mães e filhos que viviam sem companheiros nem pais, dos filhos ilegítimos fora do casamento, de escravos, de homens forros ou livres, até mesmo de trabalhadores itinerantes. O compadrio sempre foi uma prática tradicional em que o pertencimento a uma família poderosa se transforma em troca de favores e de proteção.


Quantas narrativas estão inferidas nesses registros? Por que, justamente dois anos, apenas 1872 e 1873, houve necessidade de se fazer esse registro? Uma história de um todo e de suas particularidades significativas em continuação.




(Continua... Aguarde)




quinta-feira, 25 de maio de 2023

MARCAS DE FERRAR (Parte V)

 De abril para maio, continuação desta pesquisa no blog... observações excelentes me foram feitas no pessoal. No entanto, acredito que continuar apresentando a pesquisa, recortando-a, propicia outro olhar além do informativo: reflexões sobre essa prática, evolução e objetivos.

MARCAS NA ARTE E NA HISTÓRIA

Suassuna, Rosa e Alencar (como vistos na parte anterior, nesse blog) movimentam seus heróis do sertão num tempo e num espaço todo simbólico, embora com distintas variantes e intenções. E, por isso, não estranhei quando, entrevistando gente mais antiga, falou-se com muita seriedade do poder das palavras e das atitudes.

Como ferrar o gado somente na lua nova ou lua cheia para garantir a reprodução do rebanho. E se benzer para se livrar da peste, curar o boi no rastro, espantar o demônio e as visagens que rondam esses cafundós.


Na "planta de ferro” do dono ou do ferreiro, esclareceu-me, velhinho e doente, Pedro Brás, grande artista segundo consenso, que o saber do ferreiro é fundamental, para não "empastar" na hora da ferração, para que um desenho não seja igual a outro - detalhe imprescindível - não só para assegurar a propriedade, mas para a Arte.


Esse direcionamento para a Arte não pode passar despercebido: da diferença entre a arte utilitária - que se vê principalmente hoje, nos ferros feitos com aço inox, encomendados pela Internet - e o cuidado artesanal do ferreiro, trabalhando e modelando o ferro do cliente.


Na dissertação de mestrado de 2012 da autoria de Daniella Lira Nogueira Paes, no portal do Iphan “Sob os signos das boiadas: as marcas de ferrar gado que povoam o sertão paraibano” (1) há fotos de uma oficina de produção artesanal de ferros de marcar ainda em funcionamento naquele ano.


Aliás, observei que até mesmo um ferro de marcar, enferrujado, pode ser vendido nos leilões de antiguidades para gosto – ou negócio - de colecionadores. E, como peça de museu, no Cais do Sertão, em Recife, há alguns ferros em exposição, assim, como, certamente, os há em outras ocasiões e lugares. Valores e significados vão desde o apreço individual até a peça de museu, o que fica como memória ou referência histórica de usos e costumes.


            Desse modo, temos os objetos em dupla perspectiva de observação: nós os olhamos e os admiramos, assim como esses objetos nos olham. Narrativas e desafios nesses olhares e talvez a posse de uma referência que nos justifica como ser histórico.



       Foto: acervo Cais do Sertão, Recife, PE

No ferro, há uma ou mais pontas que se fundem num cabo. Para proteger a mão de quem ferra, do calor em brasa, insere-se no cabo um complemento de segurança que pode variar de madeira a um osso de animal. Sempre rústico, tenho um ferro cujo cabo é uma espiga de milho já seca, que deve ter sido uma alternativa bastante útil nessa hora.

            “Dono, se gosta, pode fazer bule, bota, a "moldura" que quiser”, na fala de Pedro Brás. Até me contou de um ferro, em Carnaíba, BA, na forma insólita de uma garrafa. E que seu dono é um beberrão contumaz. Nesse caso, penso que seja uma leitura intencional na marca do ferro desse vaqueiro ou uma espécie de humor, talvez ironia neste universo em que o Poder marca além do couro do boi. Uma marca alternativa, questionando o mundo dos ricos fazendeiros e do próprio artesanato.

            Entretanto, usual mesmo, é o ferro de marcar feito com base nas letras iniciais do proprietário. Em geral uma letra básica, simplificando o visual dessa identidade. Assim como o nome de batismo é uma marca que me distingue, o ferro reproduz minha conquista, minhas posses de direito no mundo em que habito. A partir do desenho básico, detalhes aparecem, determinando inclusive leituras familiares, parentesco e até os compadrios.

O certo é que o costume de ferrar os animais - e gente - indicando uma propriedade, uma posse, um símbolo de poder e dominação, está associado a fatores históricos, sociais e econômicos, remontando a priscas eras, passando por impérios e civilizações, uso espalhado em várias geografias.


Com a pesquisa facilitada nestes tempos de internet, de pdfs e similares, há alguns trabalhos que corroboram tais observações. Na ilustração a seguir, detalhe da cópia de uma pintura de parede do túmulo de um homem chamado Nebamun que viveu no Egito, cerca de 1475 a.C, observam-se trabalhadores negros da região, ocupados na marcação do gado a ferro quente. Ainda que não tenhamos conhecimento do desenho dos ferros, infere-se que a marca certamente era a garantia da identificação e propriedade do rebanho. (2)


Marcas a ferro quente também foram usadas para criminosos condenados, proporcionando um registro criminal humilhante e indelével. Na história jurídica ocidental registram-se usos e abusos desta prática.

No século XVI, após a chegada de Colombo à América, o conquistador espanhol Hernan Cortés introduziu a marcação a ferro, usando três cruzes cristãs para marcar seu gado e cavalos. À medida que a pecuária se espalhava pelos campos abertos, as marcas para mostrar propriedade se desenvolveram em uma heráldica semelhante aos brasões usados nos regimentos da cavalaria. Séculos seguintes, para evitar a duplicação de marcas e dar proteção legal aos proprietários de gado, governos aprovaram leis de marcas exigindo o registro de todas as marcas e tornando crime a alteração de marcas registradas.

No Brasil, não foi muito diferente. Com a colonização e a pastagem do gado, o uso dos ferros se disseminou de norte a sul, com algumas particularidades regionais. Bastante citada é Ana Pimentel, mulher de Martin Afonso de Souza, quem primeiro trouxe gado para o país, desembarcado em São Vicente, SP, em 1534. Ainda no século XVI, já havia marcas de gado registradas no Rio Grande do Sul. (3)


Também foi em meados desse século que os primeiros escravos africanos chegaram ao Brasil e traziam a pele marcada a ferro quente. Laurentino Gomes narra o ritual das marcações de nossa história colonial, demonstrando o horror vivido pelos negros cativos e como aquela era uma prática além do corpo, de um sistema organizado no lucrativo mercado de escravos. 

"Antes de partir, os africanos eram marcados com ferro em brasa. Em geral, recebiam sobre a pele quatro diferentes sinais. Os que vinham do interior, já chegavam com a identificação do comerciante responsável pelo seu envio ao litoral. Em seguida, o selo da coroa portuguesa era gravado sobre o peito direito, indicação de que todos os impostos e taxas haviam sido devidamente recolhidos. Uma terceira marca, em forma de cruz, indicava que o cativo já estava batizado. A quarta e última, que poderia ser feita sobre o peito ou nos braços, identificava o nome do traficante que estava despachando a carga. Ao chegar ao Brasil, poderia ainda receber uma quinta marca, do seu novo dono — o fazendeiro, minerador ou senhor de engenho para o qual trabalharia até o fim da vida. Os fugitivos contumazes teriam, ainda, um “F” maiúsculo (de “fuga” ou “fujão”) gravado a ferro quente no rosto. Em Angola, o trabalho de marcação dos escravos chamava-se carimbar (de carimbo, palavra que, em idioma quimbundo, significa marca). Era executado por um funcionário do governo conhecido como “marcador de negros” e supervisionado por outro chamado de “capitão das marcas”.

O ritual de marcação era assustador. Primeiramente, o “marcador de negros” colocava o carimbo de metal, com uma longa haste de madeira, sobre carvão em brasas até que ficasse incandescente. Em seguida, com a ajuda de vários assistentes, imobilizava o escravo. O local a ser marcado era então coberto com cera e um pedaço de papel lubrificado com óleo. Desse modo, evitava-se que a pele grudasse ao ferro quente e fosse arrancada durante a operação. A dor da queimadura era excruciante. Os cativos urravam e se debatiam ao sentir a aproximação do metal em brasas e precisavam ser fortemente contidos pelos assistentes do “marcador”, que lhes seguravam as pernas e os braços. Nos dias seguintes, enquanto as feridas cicatrizavam, as marcas de sua nova identidade iam ficando cada vez mais visíveis". (4)

        Também negros escravos, pelo menos no Nordeste, como citado pelo viajante inglês Henry Koster, em seu diário Viagens ao Nordeste do Brasil, escrito no início do século XIX e traduzido por Câmara Cascudo, podiam criar animais domésticos, como galinhas e porcos e, “ocasionalmente, um cavalo para alugar e possuir o dinheiro assim obtido.” (5)

            Entretanto, o lugar da marcação do cavalo do escravo era diferente, pois este animal era comumente marcado na coxa direita com a marca de seu dono, mas os animais de propriedade dos escravos deviam ter a marca na coxa esquerda. Embora lhe fosse proibido ter posses, o costume instituiu essa práxis diferenciada. Uma vez escravo, sempre escravo...

Na ilustração “Slave branding”, ou seja, marcação de um escravo:


Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Slavery17.jpg (imagem de domínio público)

Recentemente, soube de uma história inquietante, um fato singular que, de alguma forma, mostra o olhar violento e sádico do dominador sobre seu semelhante ali subjugado. Em 1860, em Iguatu, Ceará, a proprietária de uma grande fazenda marcou crianças escravas. Seu nome era Bernardina Maria de Oliveira; o marido era um coronel, Antônio Alves, que escravizava indígenas e negros. Como antecedente, há também uma história de violência e vingança. Um dos filhos foi assassinado e dois outros filhos vingaram a morte do irmão. Quando a polícia veio prender os assassinos, o coronel armou seus escravos e jagunços, recebendo-os à bala.

Morreram 31 escravos e os 16 policiais. Foram tantos mortos que se construiu um cemitério na estrada, que ainda existe. Depois disso, veio um destacamento da capital para prender o coronel, já com quase 80 anos, que foi mandado para a Ilha das Cobras, hoje Fernando de Noronha. A esposa ficou na fazenda e fez essa marca para o ferro, a fim de manter o patrimônio do marido. Foi quando começou também a ferrar crianças. Dizem que ela colocava as crianças em disputa numa corrida; quem perdesse era ferrada no traseiro.

    (Observação: Atualmente, este ferro é de propriedade de Manoel Airton de Lavor, residente em Iguatu, CE. Foto pessoal)

Decodificar o desenho do ferro é difícil, um exemplar com muitos detalhes. Inclusive porque, a depender do ângulo em que ele se coloca, apresentam-se mais desafios. Basicamente, sobre uma curva acentuada, há um paralelismo em duas pontas - talvez uma representação do casal – e de seus filhos no outro extremo, em pequenos “puxetes”, retas e curvas.

Entretanto, para ilustrar essa triste história, depois de oito anos da prisão do coronel, os escravos da fazenda fizeram um motim, mataram a mulher e fugiram. Aos 90 anos, o coronel recebeu um indulto do governador, retornou, e tudo tinha se acabado, restavam apenas ruínas. Entrou em depressão e acredita-se que tenha se matado.



(1) Apud A estética armorial dos ferros-de-marcar na obra de Ariano Suassuna e Manuel Dantas, de Daniella Carneiro Libânio de Almada in https://www.pluralpluriel.org/index.php/revue/article/view/131   nº 17 – 2017 - Acesso em 21/07/2022 

(2https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Nebamun_Supervising_Estate_Activities,_Tomb_of_Nebamun_MET_DT11772_detail-7.jpg . Nota: Detentor dos direitos autorais da ilustração: https://creativecommons.org/publicdomain/zero/1.0/

[3] http://www.nordesteweb.com/not09/ne_not_20010903d.htm (Acesso em 04/04/22)

 [4] GOMES, Laurentino. Escravidão – volume I – Do primeiro leilão de cativos em Portugal até a morte de Zumbi dos Palmares. Rio de Janeiro: Globo Livros, 2019. Páginas 281/282.

[5] KOSTER, Henry. Viagens ao Nordeste do Brasil. Vol. 1. 12ª ed. Rio-São Paulo-Fortaleza: ABC Editora, 2003.


(Continua...)

 











quarta-feira, 19 de abril de 2023

MARCAS DE FERRAR - (PARTE IV) MARCAS NA LITERATURA: FERRANDO GENTE E GADO

 Continuando... ainda na literatura, José de Alencar idealiza um vaqueiro, ou melhor, um sertanejo que faz um ferro para sua amada e marca corajosamente um boi selvagem na paisagem inóspita de um Brasil colonial... diferente do Fabiano, vaqueiro humilhado de  Graciliano Ramos, mais de um século depois. Lembrando ainda os vaqueiros e bois mitificados nas cantigas sertanejas, outro olhar participante.

(...)

Relendo o romance O Sertanejo, de José de Alencar (1829-1877), ali encontrei a narração de um fato que também ilustra este trabalho sobre ferros de marcar o gado. Sem entrar em detalhes da estrutura narrativa ou da ideologia do autor, nesse romance “colonial” de Alencar, o Romantismo traz subcódigos que exacerbam o “bom selvagem”, até mesmo o realismo de certas práticas e descrições, como já se observou.

Arnaldo, o herói do romance, salvador de donzelas cobiçadas, é o protótipo do vaqueiro. Na voz do narrador: “Essa corrida cega pelo mato fechado é das façanhas do sertanejo a mais admirável. Nem a destreza dos árabes e dos citas, os mais famosos cavaleiros do velho mundo; nem a ligeireza dos guaicurus e dos gaúchos, seus discípulos, são para comparar-se com a prodigiosa agilidade do vaqueiro cearense.” [1]


Exagero ou não, na trama, ficamos sabendo do Dourado, um touro selvagem, e que Flor, a donzela, filha do capitão-mor, amada por Arnaldo, diz com arrogância explícita: “O Dourado há de ter o meu ferro! Exclamou com um arzinho de princesa que lhe assentava às maravilhas.” (ALENCAR, p. 161)


Pouco depois, acompanhamos a perseguição ao touro, como se fora uma caçada da nobreza europeia. Claro que é Arnaldo quem encontra o touro nas brenhas do sertão e matas virgens e o domina.

 

“Apeou-se e tirou um ferro de marcar, da maleta de couro que trazia à garupa, e a que no sertão se dá o nome de maca.

Todo o bom vaqueiro tem seu tanto de ferreiro quanto basta para fazer um aguilhão, para arranjar as letras com que marca as reses de sua obrigação e as de sua sorte, para dar têmpera à faca de ponta, e até mesmo para consertar a espingarda.

Arnaldo, havia anos, fabricara na forja da Oiticica um ferro que representava uma pequena flor de quatro pétalas atravessada por um F. O feitio era mais apurado e de menores dimensões do que os ferros geralmente usados no sertão.” [...] Por toda parte, nas rochas, como nos troncos seculares, ele tinha esculpido este símbolo de sua adoração. Como os descobridores de novas terras erigiam um padrão, ou fincavam um marco para tomar posse dessas paragens em nome de seu rei, ele, Arnaldo, na sua ingênua dedicação, pensava que, daquela sorte, avassalava o deserto a D. Flor, e afirmava o seu império sobre toda a criação.”  (ALENCAR, p. 179)


Seria assim?

O que se destaca, na descrição do ferro, é o fato de ser uma flor de quatro pétalas atravessada por um F, já que Flor é o nome da donzela. Uma alegoria do desejo e do ato sexual na posse masculina sobre uma flor mais delicada, pois “a atravessa”. Essa sombra erótica é subliminar, até mesmo na delicadeza de ter o “feitio mais apurado e de menores dimensões do que os ferros geralmente usados no sertão”. A observação não me parece muito acertada, pois, no livro de registro de ferros do qual farei referência, podemos ver como esses ferros podiam ser bem “apurados”. No caso, penso que o autor quis mesmo destacar o romantismo implícito no amor do vassalo por sua nobre donzela.

            É preciso associar também, no imaginário sertanejo, histórias de animais famosos pela valentia. Isso ficou nas canções, no “folclore”, como a encenação e narrativas do “bumba-meu-boi”. Uma aura fantástica cerca a figura de animais glorificados em epopeias versificadas. Bem menos laudatória, temos a lenda do “Vaqueiro Misterioso”, com algumas variantes locais. Trata-se de um homem, vestido com gibão de couro surrado, e um chapéu de vaqueiro sempre à cabeça, que lhe encobre o olhar. Não se sabe de onde veio nem o que faz.

                Aparece nas ocasiões em que há vaquejadas, ferração ou encontros similares. Devido à sua aparência humilde, torna-se alvo de zombaria dos demais vaqueiros. Contudo, é o mais ágil deles, um herói que vence a todos. É aclamado, desejado pelas mulheres, convidado de honra do fazendeiro. Ele, porém, recusa todas as honrarias e desaparece da mesma forma como surge. Para Luís da Câmara Cascudo, o vaqueiro misterioso "é um símbolo da velha profissão heroica, sem registros e sem prêmios, contando-se as vitórias anônimas superiores às derrotas assistidas pelas serras, grotões e várzeas, testemunhas que nunca prestarão depoimento para esclarecer o fim terrível daqueles que vivem correndo atrás da morte.”[2]

            E é interessante notar que sobejam loas à personificação do animal, que, por sua vez, na contramão da cantoria, nela subentende-se a valentia necessária para subjugar a fera. Mitifica-se assim o herói anônimo em sua peleja com a fera bruta, um respeito épico.

Cito o belíssimo “Romance do Boi da Mão de Pau”, de Fabião das Queimadas (1848-1928), impresso no livro Vaqueiros e Cantadores, de Câmara Cascudo, citado na nota 10. No romance O sertanejo, de Alencar, ferrado o touro, afirma-se também o romantismo utópico do autor, pois, num gesto “afetuoso” com o animal, ele o solta.


Esse orgulhoso e heroico vaqueiro não é assim representado em Vidas Secas de Graciliano Ramos (1892-1953). Sem dúvidas, é preciso considerar outro contexto, outra linguagem. No capítulo “Fabiano”, ele é apenas um trabalhador sem teto e sem gado em seu destino de retirante da seca, mostrada como um flagelo da natureza e das condições sociais dos que ali vivem.

 

            “Apossara-se da casa porque não tinha onde cair morto, passara uns dias mastigando raiz de imbu e sementes de mucunã. Viera a trovoada. E, com ela, o fazendeiro, que o expulsara. Fabiano fizera-se desentendido e oferecera os seus préstimos, resmungando, coçando os cotovelos, sorrindo aflito. O jeito que tinha era ficar. E o patrão aceitara-o, entregara-lhe as marcas de ferro.

            Agora Fabiano era vaqueiro, e ninguém o tiraria dali. Aparecera como um bicho, entocara-se como um bicho, mas criara raízes, estava plantado.” [3]

 

            O aceite desse acordo “trabalhista” está na entrega das “marcas de ferro” pelo fazendeiro, dono do lugar. E a lida do vaqueiro fica implícita. Há mais violência aí do que propriamente no ato de ferrar o animal. Fabiano é o personagem-símbolo das relações de poder num mundo que desconstrói o mito do herói improvável, por sua eterna carência econômica e social, submisso e alienado. Sem perder a grandeza da literatura de Graciliano Ramos, essa visão do nordestino oprimido acabou estereotipada e absorvida pelo imaginário como incontestável.

          



[1] ALENCAR, José de. O Sertanejo. São Paulo: Edigraf, 1961.

[2] CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e Cantadores. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo, Ed. Da Universidade de São Paulo, 1984. Páginas 119-124

[3] RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 120ª ed. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 9.

 




sábado, 1 de abril de 2023

MARCAS DE FERRAR - (PARTE III)

 MARCAS NA LITERATURA: FERRANDO GENTE E GADO 

Em continuação, por acaso, encontrei exatamente essa figura, descrita na coleção Homem, Mito e Magia[1], acrescida de outros detalhes simbólicos, tal como foi retirada de um livro do século XVI, "O Verdadeiro Dragão Vermelho". Sabe-se que Guimarães Rosa era um estudioso de magia, mitos, superstições e também como isso faz parte de suas obras, contos e romances, dialogando com temas universais da própria existência humana.

Vale lembrar inclusive a “marca da besta”, citada no mais emblemático livro bíblico, o Apocalipse em 13, 16-17.

16 Também obrigou todos, pequenos e grandes, ricos e pobres, livres e escravos, a receberem certa marca na mão direita ou na testa,

17 para que ninguém pudesse comprar nem vender, a não ser quem tivesse a marca, que é o nome da besta ou o número do seu nome.

            Texto polêmico, extremamente simbólico, o Apocalipse abrange diversas interpretações em seu conjunto, desde a historicista, no período da dominação romana e o judaísmo, até a personificação dessa besta, entre o poder religioso e o poder político. Inclusive, já se ressaltou que a estrutura narrativa desse capítulo apresenta algumas semelhanças com a narrativa de certos mitos cananeus. Narrativas dentro de narrativas, assim construímos referências e mensagens subliminares.

            Não era difícil encontrar pessoas com marcas ou tatuagens na antiguidade. As marcas podiam ser feitas por várias razões. Sinais de devoção por uma cura alcançada, de agradecimento, de trabalho, de escravos fugidos, esses geralmente marcados na testa como penalidade. Marcas também podiam ser impressas no corpo, uma exigência para se ter acesso a um tribunal ou para se negociar no mercado durante a ocupação romana, tidas como prova do culto – e fidelidade - ao imperador. Para alguns autores, em Apocalipse 13, temos um retrato gráfico da operação ideológica do Estado. Sobretudo, a marca da Besta acabou representando, no imaginário popular, um compromisso com o Diabo e o Anticristo. (2)

Interessante observar mais uma correlação intertextual. No livro 0 Vale do Terror, de Conan Doyle (1859-1930), o detetive Sherlock Holmes enfrenta a astúcia de seu célebre inimigo o Prof. Moriarty e, coincidência, o primeiro morto da história também tem o antebraço ferrado com o mesmo e idêntico sinal usado por Rosa. E lá, como cá, embora com as devidas diferenças, a marca era o símbolo de uma associação de criminosos - espécie de Máfia - que no início só fazia o bem, mas se degenerou. Elementar a relação?



 “O médico apanhara a lanterna e estava examinando cuidadosamente o cadáver.

- Que marca é esta? Indagou. Pode ter alguma ligação com o crime?

O braço direito do morto apresentava-se, até a altura do cotovelo, um desenho de cor castanha, um triângulo dentro de um círculo, que se salientava vivamente na pele clara.

- Não é tatuagem, afirmou o médico, olhando com atenção através dos óculos. Nunca vi coisa igual. O homem foi marcado, há algum tempo, a fogo, como se usa fazer com o gado. Qual será o significado disto?”  (3)


Particularizando mais pistas neste desafio, vemos que no romance de Ariano Suassuna, A Pedra do Reino, há várias referências a brasões de uma “heráldica sertaneja”, imaginada e representada pelo escritor. Inclusive, também como poeta e ilustrador, suas “iluminogravuras” reforçam esse diálogo com suas origens entre signos verbais e não verbais. Pode-se observar, a seguir, até mesmo o ferro da família Suassuna na anca do cavalo e da cabra e outros signos/alegorias recorrentes neste exemplo de uma iluminogravura [4].



O próprio Suassuna escreveu sobre isso, além de sua obra literária, lembrando dos signos ligados à Astrologia, ao Zodíaco e à Alquimia, de antigos livros, almanaques e saberes que circularam – e circulam – por este “Brasil profundo”, mitologias ancestrais e atávicas.

Na fazenda da família de Ariano Suassuna, em Taperoá, na Paraíba, em 1982, onde o criador de gado Manelito Vilar, falecido, se destacou no estado, observei o ferro da família, marcado também no couro do encosto das cadeiras da sala de jantar, agora como efeito de decoração, mas que não deixa de ser significativo. E que foi bem justificado nesta citação (item 4 de nota de rodapé).

"A partir de um registro de vários ferros familiares feitos por seu antepassado Paulino Villar, fazendeiro do século XIX, Ariano Suassuna estudou a fundo as formas que encontrou e as relacionou com a simbologia antiga. Segundo ele, o traço vertical, chamado tronco, representa o céu; o horizontal, ou puxete, significa terra. Os dois juntos podem formar o galho, a união imperfeita entre o divino e o ser humano. Ou ainda a cruz, a união perfeita entre ambos. Há signos para o macho, a fêmea e para a fusão sexual. O escritor viu semelhanças entre 'as formas meio hieroglíficas dos ferros sertanejos mais abstratos' com alguns dos signos ligados à astrologia, ao zodíaco e à alquimia, e acha que alguns dos primeiros fazendeiros podem ter escolhido para seus ferros os símbolos astrológicos de seus signos e planetas pessoais. Os desenhos dos ferros familiares vão se alterando no decorrer das gerações. Cada filho que começa a criar gado vai acrescentando sobre a base imutável do ferro familiar, chamada mesa, as suas diferenças, chamadas divisas, que podem ser um risco para um dos lados, uma meia lua, um pé de galinha etc. Em geral, o filho mais novo fica com a marca igual à do pai quando este morre. O pai de Ariano, último filho, tinha o mesmo ferro de seu avô e de seu bisavô. O escritor guarda como 'objetos sagrados' os ferros com os quais seu pai marcava pessoalmente seu gado nas fazendas Acauhan e Malhada da Onça.”

Quantas histórias como essas podem ser contadas? Famílias, lugares, costumes, afeto, tradição. Afinal, a própria História se apresenta como um espaço semiótico, cujos signos se articulam em razão de correspondências específicas. O processo histórico aqui se insere significativamente, como manifestação semiótica de uma cultura, o que, por fim, também queremos demonstrar. E essas marcas pessoais indeléveis, ferradas a fogo nos animais, passam a representar também uma figura semântica, strictu sensu, mais sinédoque que metonímia, simbolicamente a parte pelo todo.

Nesse contexto, o gado marcado é uma extensão da identidade própria do indivíduo, dela fazendo parte mais do que o número de um RG ou do CPF, formas de se controlar a vida e as posses neste nosso país e correspondentes alhures.


(continua... )


[4] Apud A estética armorial dos ferros-de-marcar na obra de Ariano Suassuna e Manuel Dantas, de Daniella Carneiro Libânio de Almada in https://www.pluralpluriel.org/index.php/revue/article/view/131   nº 17 – 2017 - Acesso em 21/07/2022  


[3] DOYLE, Conan, O Vale do Terror. São Paulo: Melhoramentos, 1982, p. 38.


[1] A Magia dos Símbolos, O Círculo, in Homem Mito & Magia. São Paulo: Ed. Três, 1974, vol. I, p. 140/141.

terça-feira, 21 de março de 2023

MARCAS DE FERRAR (PARTE II)

Para esta Parte II de minha pesquisa Marcas de Ferrar apresento estas análises tendo como referência   Ariano Suassuna e Guimarães Rosa... como um folhetim, continuarei a apresentar outras considerações em outros textos e autores... talvez seja mais proveitosa esta leitura aos poucos.

MARCAS NA LITERATURA: FERRANDO GENTE E GADO

 

Ariano Suassuna (1927-2014), em seu romance A Pedra do Reino, utiliza-se de alguns desenhos, típicos de ferros, e faz alusões à sua simbologia. Com a devida licença:

 

"...é que, na espádua esquerda de Dom Pedro Sebastião, tinham ferrado, a fogo, um ferro desconhecido e que não é nenhum dos ferros familiares de ferrar boi do Sertão da Paraíba! Eu sei, porque no nosso "Instituto Genealógico e Histórico do Sertão do Cariri" temos um arquivo e registro desses ferros, arquivo que eu organizei por sugestão do Doutor Pedro Gouveia!

- Você ainda se lembra como era o ferro?

- Me lembro como se fosse hoje, Excelência! Era uma espécie de lua, ou melhor, para ser mais fiel à nobre Arte da Heráldica, um crescente, com as pontas viradas para cima e encimado por uma cruz.

- A marca do ferro na espádua de seu Padrinho era recente?

- A queimadura era recentíssima! Quando a gente entrou na torre, sentia-se ainda a catinga meio fumaçada e polvorenta de carne de bicho ferrada!

- E não havia nenhum sinal do fogo onde esquentaram o ferro?

- Nenhum, Excelência! Eu não já expliquei que no aposento elevado da torre da capela não havia nada, a não ser o sino?" [1]


A partir dessa descrição “uma espécie de lua, ou melhor (...) um crescente, com as pontas viradas para cima e encimado por uma cruz”, visualizamos o ferro descrito. Justaposição de um símbolo muçulmano (o crescente) e um símbolo cristão (a cruz). Uma leitura subliminar dessa imagem indica, pela posição (encimado), que a cruz parece dominar ou subjugar o crescente. Assim, como na História da cristandade que nos foi contada, através das Cruzadas pela libertação de Jerusalém nas mãos dos “infiéis” muçulmanos.

Se “no aposento elevado da torre da capela não havia nada, a não ser o sino?" essa pista, esse sino, também não representa/simboliza o signo/adivinha que invocara Pedro Quaderna um pouco antes: "Para o meu enigma, portanto, só um Decifrador brasileiro e de gênio!"  (p.293)

Decifrar pistas, indícios, faz parte da natureza humana desde os tempos do homem primitivo, à caça de animais ou de inimigos. Essa capacidade foi sendo aperfeiçoada no decorrer das múltiplas necessidades históricas e sociais, incluindo diagnósticos mitológicos e medicinais. Gênese da Semiologia e Semiótica, respeitando diferenças contemporâneas em suas respectivas definições.

            Suassuna, ou Quaderna, nos desafia, pois, para esse “crime indecifrável” em um “sertão” imaginário, entre cavalhadas e emblemas, de lutas entre mouros e cristãos, de narrativas lendárias da Pedra do Reino em seu romanceiro epopeia. 

            Para decifrar o crime em si, suspense na trama da narrativa, é a Semiótica que vai nos dar as pistas nesse horizonte simbólico. Vista como a teoria geral das representações, que leva em conta os signos em todas suas formas e manifestações que assumem - linguísticas ou não – a Semiótica enfatiza o significado que lhes atribuímos. Por aqui caminhamos. E vamos procurar chegar ao cerne dessas leituras, decodificações em processo.

Também Guimarães Rosa (1908-1967) em A Hora e a Vez de Augusto Matraga "ferra" o seu personagem-título: 

"E, aí, quando tudo esteve a ponto, abrasaram o ferro com a marca do gado do Major - que soía ser um triângulo inscrito numa circunferência -, e imprimiram-na, com chiado, chamusco e fumaça, na polpa glútea direita de Nhô Augusto. Mas recuaram todos, num susto, porque Nhô Augusto viveu-se, com um berro e um salto, medonhos." [2]


A imagem descrita é facilmente visualizada: “um triângulo inscrito numa circunferência”.



 

0 triângulo, na concepção católica, representa três pessoas divinas numa só. E quem "cura" Matraga são três: o casal de pretos pobres e o padre. A circunferência, o círculo, não é menos simbólico e mágico: sem princípio nem fim, tem uma energia poderosa. Protege de espíritos maus além de envolver e prender a energia mágica que, descrita e enfatizada em rituais antigos, é necessária para a concentração.


Realmente, é nesse instante da narrativa, um corte fundamental, que se inicia também uma nova fase da vida do pecador Matraga. Mesmo que tenha caído numa alegoria do abismo, é, paradoxalmente, o instante em que o personagem "viveu", para purgar seu passado até sua redenção, quando chega sua “hora e vez”.


É evidente que a função literária, artística, perseguida por ambos os escritores citados, vai além de uma possível simplificação da simbologia nos ferros, fazendo parte intrínseca do entendimento da narrativa.


Em A Hora e a Vez de Augusto Matraga, o ferro é a própria marca do pecado, é a violência não só física, mas o estigma do mal. Ou do bem? A marca de Deus ou do Diabo? O Major representaria o quê, ao lançar Nhô Augusto na desgraça ou na salvação? Poderíamos separar com nitidez esses limites? Dá para decifrar o significado destes indicadores sígnicos? A leitura não se fecha numa única exegese. Ao contrário, desafia gerando uma cadeia de significações e possibilidades.


Outro índice simbólico está no lugar da marcação. Enquanto Nhô Augusto é marcado na “polpa glútea”, isto é, no traseiro, humilhação ainda maior, em Suassuna, Dom Pedro Sebastião é marcado na “espádua esquerda”, ou seja, no ombro, com esse vocábulo talvez mais nobre: “espádua”. Aliás, “polpa glútea” também é mais honroso e erudito – afinal Guimarães era médico - do que seu correspondente vulgar: o traseiro ou outro jargão escatológico. Tem ares de um literatura cavalheiresca, se assim podemos caracterizar o estilo desses grandes nomes de nosso cânone literário. Um respeitoso leitor também deve segui-los...



[1] SUASSUNA, Ariano, Romance D'A PEDRA DO REINO e Príncipe do Sangue do Vai-E-Volta. Rio: José 0lympio,1976, p.294

(2) ROSA, J. Guimarães, A Hora e a Vez de Augusto Matraga in Sagarana. Rio: José 0lympio, 1976, p.335