Bet com t mudo

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BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

POR QUE LEMOS PAULO FREIRE?

 

Tendo rememorado momentos com Paulo Freire, volto a ter Paulo Freire em minhas reflexões. O centenário de seu nascimento ensejou homenagens e reconhecimento; no entanto essa pergunta leva diretamente ao questionamento do que nos compete como leitores e educadores. O que assumimos?

Parece que o nome de Paulo Freire adquiriu mais o estatuto de um significante, um referencial, uma forma de indicar uma experiência educativa do passado do que um nome evocativo de seu papel pedagógico, libertador e transformador. Retomar Paulo Freire é retomar a esperança de um futuro possível, de abraçar suas ideias dialogando com nosso mundo contemporâneo, outra ordem dos dias.

Um amigo me indicou a referência de um livro recém editado: Paulo Freire. La pedagogía rebelde de Gustavo Ruggiero (Ediciones UNGS. Colección Pensadores y pensadoras de América Latina. Los Polvorines, 2021). Talvez seja o caso de acessar diretamente a publicação, mas aqui fica o que se põe, se dispõe e se propõe.

Gustavo Ruggiero, soube, é especialista em filosofia da educação, professor na Universidade Nacional de General Sarmiento, na Argentina. Na leitura síntese em que se apresenta a obra (acesse o link *), reitera-se que o processo de alfabetização consiste, em última instância, "adquirir a linguagem para sustentar a luta política". Existe uma ligação inevitável entre ler o mundo, ler a palavra e lutar por um mundo melhor.

Ressaltou-se, no artigo, que o autor se questiona, destacando perguntas geradoras desse desafio: 

“Lemos Freire para entender nossas práticas ou o lemos para 'aplicá-lo'? Explicar Freire ou pensar com ele? "

Responderia afirmativamente a esta sequência. Sim, entendo os caminhos da minha prática como educadora e cidadã neste mundo a par do que ele me incentivou e me fez compreender. Sim, posso explicar Paulo Freire em sua essência. Sim, admito que penso como ele, construindo pontes e diálogos. Como esse aqui, nos limites desse texto, evocando um exemplo pessoal de uma tentativa direta de alfabetização. Por que narrar isso? Talvez possa ser útil, um testemunho nos descaminhos da memória e uma reflexão sobre teoria e prática, agora aos 75 anos, neste pandêmico ano de 2021.

Havia uma valeta no meio do caminho...

Após uma semana com Paulo Freire, na Diocese de Juazeiro, em 1986, discutindo educação popular, pauta de uma Igreja progressista, me dispus a aplicar o que estava bem fresco em minha mente. Em um lance ousado de minha parte, me ofereci para alfabetizar voluntária e independentemente um grupo de mulheres lavadeiras na periferia de Petrolina. De todo modo, já vinha construindo uma história no movimento de mulheres da cidade, trabalhando com sua consciência política, além dos problemas de gênero.

No galpão comunitário onde estávamos reunidas, no bairro Pedro Raimundo, em Petrolina, Pernambuco, final dos anos 80, eu e mulheres trabalhadoras como lavadeiras, com alguns de seus irrequietos meninos, aguardávamos irmã Virgínia, freira indiana, que iria me apresentar para o grupo.

Miúda e com um hábito curto, simples e claro, sua presença impunha certa ordem no alvoroço. Era final de tarde, começo da noite, único horário em que essas mulheres poderiam se reunir, depois de um dia de trabalho doméstico ou lavando roupa para fora.

Fui apresentada rapidamente. Todas eram leitoras do mundo onde habitavam sim, e isso ficou claro em nosso interagir, mas ainda não alfabetizadas na leitura dos códigos linguísticos que ditam regras e saberes de um mundo onde o desequilíbrio e a injustiça social se replicam cotidianamente.

Consciente disso, fui inserida num diálogo essencialmente pedagógico. Para mim, isto era um desafio em minha vida de professora e de militante no movimento de mulheres. Se havia algum resquício de idealismo, a realidade mostrou logo o que eu haveria de aprender e talvez ensinar nessa troca básica entre mim e o outro. Nos diálogos iniciais, eis que surge a palavra VALETA, signo linguístico interligando apresentações e histórias de vida.

Nem eu mesma sabia direito o significado de valeta, mas, nesse significante vocábulo - aqui pronunciado com um é ligeiramente aberto – confluía a historicidade da situação destas mulheres, de seu trabalho, de sua vida periférica.

Basicamente a valeta é uma vala ou buraco pequeno às margens das ruas e estradas, para facilitar o escoamento das águas. Certo, mas aqui esse significado se expandia. Ficou claro que valeta seria a palavra geradora na proposta de alfabetização.

Água, vida, sim, sabemos, mas também trabalho. Mulheres lavadeiras, por quê? Naqueles idos era a ocupação que lhes dava uma renda possível, trabalhando em casa ou na casa das patroas, outras mulheres em situações menos adversas. Uma realidade tradicional na cidade, desde as lavadeiras que iam lavar as roupas nas águas do rio São Francisco há muitas décadas, agora, nas periferias de uma cidade que atraía migrantes, desde a construção da represa de Sobradinho e muitos empreendimentos, sobretudo para áreas irrigáveis, “explodindo” também o crescimento urbano.

Tanto me lembro, como mulher de classe média, que a vinda das máquinas de lavar roupa seria causar o desaparecimento das lavadeiras e da possibilidade de um pequeno rendimento. O bairro Pedro Raimundo era recente, com problemas de infraestrutura e muita pobreza. A Igreja Católica teve uma atuação importante, daí a presença de Irmã Virgínia e outras freiras, em seu apostolado, procurando organizar atividades e dar assistência além da religiosa.

Voltemos à valeta. Digo, aos encontros nas rodas de conversa no galpão comunitário.

A população do bairro se organizava para pedir água para o bairro, sua maior necessidade, com a Compesa, companhia estadual responsável por esse serviço público, com os políticos, com a prefeitura. Como sempre havia aquele “jogo de empurra” de um órgão para o outro. Ou alegações várias, por exemplo, que não havia encanamentos; mesmo se houvesse, não havia... valetas.

Então, a população cavou valetas.

Na continuidade dos encontros, desmontou-se a palavra valeta, va – le – ta, silabação básica. Tem alfabetizadores que desejam uma receita de metodologia, uma cartilha pronta... não é assim que funciona, pude compreender e interagir no processo.

Para que ser alfabetizado então? No plano coletivo e individual, o desejo ficou expresso. Para ser respeitado, desde fazer denúncias, solicitar melhorias para o bairro, abaixo-assinados, fazer cartazes ou escrever cartas, ler bulas de remédios... Sem humilhações com medo de políticos e doutores. Ser sujeito da história e não coadjuvante no exercício cotidiano do viver.

A conscientização era possível, na compreensão crítica da realidade e de si mesmos. Sujeitos da ação, é como o alfabetizar se torna um ato político concreto. A palavra é a mediação entre sujeitos, entre mundos e necessidades humanas e sociais. Isso é educação, em seu sentido mais amplo. Não há neutralidade possível.

Perdi minhas anotações destes primeiros encontros, mas me lembro de algumas palavras que puderam ser derivadas, principalmente nos nomes próprios e nas primeiras frases. Valdelice, Valentina, valente, leva, lava... Lavo roupa sou lavadeira. A valeta é vala. A valeta é nossa.

Sim, a valeta era da comunidade, do comum, de uma injustiça a ser urgentemente reparada. E que escoava, ecoava pelas valas da desigualdade...

Mas, outra história se avizinhava... talvez não seja prudente eu falar disso, já que é meu ponto de vista, mas fui percebendo muitas dificuldades para continuar o trabalho. Não só com as mulheres que faltavam muito, o que era bem compreensível na dureza de suas vidas, com as crianças perturbando, com a falta de materiais como lápis e cadernos e, às vezes, realmente, eu ficava meio atrapalhada.  Também me desafiavam problemas pessoais, dificuldades de locomoção, tinha filhas pequenas e era professora na rede de ensino oficial, com muito trabalho.

Começou com dificuldades para marcar as reuniões no galpão. Tal dia não seria possível pois tinha outra reunião, uma desculpa ou outra; sobretudo havia interferência nas minhas falas com as mulheres, como se desconfiassem de meu discurso, o que muito me perturbou. Afinal era uma voluntária, independente.

E assim fui me afastando... A água chegou ao bairro, mas tropecei nas valetas da desinformação.

Entretanto, o que aprendi nesta experiência levei vida afora, adiante, diante do que se me depara. Mesmo em outros níveis de aprendizagem (escolas e universidades) sempre dialoguei e ouvi, atenta aos meus limites, mas sem medo dos desafios. Internalizei as lições básicas de Paulo Freire, de diálogos marcantes, de coragem e constância no aprendizado.

Nesse sentido, ainda me comovem os versos que Zita Alves da Silva fez e a mim dedicou.

“À amiga Elisabet Gonçalves Moreira pela sua perseverança de dialogar com as pessoas.”


                       O MEU JEITO E O TEU JEITO

                                                              Zita Alves da Silva

 

Eu admiro o teu jeito                              Mesmo sem jeito, do jeito

esse teu jeito popular,                             de você dialogar,

teu jeito tem um defeito                          acabo encontrando jeito

que se chama bem está.                         p´ra o teu jeito acostumar.

 

Com o jeito, desse teu jeito;                  Do jeito, que é o meu jeito

bem de jeito vou ficar,                           do teu jeito vou ficar

e o defeito, do meu jeito;                       sem ter jeito, com teu jeito

com o tempo vai se acabar.                   mas, meu jeito vai mudar.

 .



(Foto de Euvaldo Macêdo Filho)


quarta-feira, 29 de setembro de 2021

MOMENTOS COM PAULO FREIRE

 Tantas homenagens neste centenário do educador Paulo Freire (1921-1997)... estou comovida e triste. Essas comemorações por centenários ou décadas nem sempre traduzem sinceridade. Mas, neste momento de escuridão bolsonarista, sim, é muito bom recordar quem foi Paulo Freire e sua importância. Muito além de frases de efeito, pensar na proposta educacional, afirmativa, concreta, da atuação dialógica no aprender/apreender/ver/ler o mundo. Essa troca fundamental em que se baseia nossa humanidade.

Paulo Freire visitou Juazeiro da Bahia em três momentos, a convite de Dom José Rodrigues, bispo católico, identificado com uma igreja progressista e atuante sobre as injustiças da realidade socioeconômica de nosso país. Em 1983, realizou um curso de formação de educação popular com 25 monitores. Nesse ano ele autografou para mim seu livro “Pedagogia do Oprimido”, que me nutria ideologicamente, seja como professora, seja como militante em movimentos sociais e políticos.

         
Paulo Freire e Dom José Rodrigues.          Roda de conversa com Paulo Freire  
                                          Acervo da Diocese de Juazeiro, BA

Em 1984, um trabalho de formação com 11 ciclos de cultura, que funcionavam em três bairros da periferia da cidade e oito em cidades do território “Sertão São Francisco”, onde a Diocese atuava. Em 1986, o educador retornou à cidade juazeirense para continuar o trabalho de formação.

Foi nesse momento que pude participar dessa formação, ainda que morasse em Petrolina, Pernambuco, do outro lado do rio São Francisco e não fizesse parte da Diocese ou de movimentos católicos. O movimento das Diretas Já, que sacudiu o Brasil desde 1983, consolidara o fim da ditadura militar (1965-1985). Desde os tempos de estudante na USP, nos anos bravos da repressão, agora em Petrolina para onde me mudara em 1976, nunca deixei de atuar politicamente. Essa é outra história, mas alguns fatos dela ainda quero narrar, pois fui até perseguida pelos acólitos do poder local, já que atuava como crítica dos desmandos políticos em jornais da cidade.

Amigas me falaram da possibilidade de participar desse encontro com Paulo Freire e não hesitei. Foi uma semana intensiva, todos alojados em Carnaíba do Sertão, distrito de Juazeiro, onde havia um Centro Diocesano de treinamento. Elza Freire, esposa de Paulo, estava também presente. Infelizmente ela viria a falecer ainda neste ano, em outubro de 1986. Era, como Paulo, uma pessoa amável e firme em suas convicções. Havia uma divisão de tarefas, lembro bem. Enquanto Paulo falava teoricamente sobre Educação e seu posicionamento pedagógico, Elza se dedicou a uma parte mais prática, mostrando exemplos de como alfabetizar a partir da conscientização, tirando dúvidas em geral.

O mais legal dessa semana eram os papos descontraídos, nas varandas do alojamento, à noitinha, após o jantar. Foi ali que o homem Paulo Freire se me apresentou em várias facetas. Um ser amoroso que transbordava fé e empatia. Conto aqui alguns detalhes... Muito me surpreendeu ele se declarar devoto fervoroso de Santa Teresinha do Menino Jesus, como é conhecida Teresa de Lisieux, nascida em França. Não confundir com outra Teresa, Santa Teresa de Ávila (1515-1582), nascida na Espanha, embora haja alguns pontos em comum na história destas duas santas, freiras carmelitas. Não sendo católica praticante, eu conhecia superficialmente alguns detalhes. Teresa de Ávila é conhecida por seus êxtases, um misticismo exacerbado e o fato de ser considerada uma das grandes escritoras da literatura espanhola.

Teresa de Lisieux (1873-1897) teve problemas de saúde desde a infância, tornou-se freira e pautou sua vida pela busca da santidade, acreditando que não era necessário realizar atos heroicos e nem "grandes feitos" para atingir a santidade e nem para expressar o amor de Deus, “A única forma de provar meu amor é espalhando flores e estas flores são todos os pequenos sacrifícios, cada olhar, cada palavra e cada pequeno ato de amor.” Como não entender o olhar e a devoção de Paulo Freire inspirados pelo amor ao próximo?

Aliás, Frei Betto, lhe colocou um epíteto síntese: “Paulo Freire, o educamor”, numa crônica de 2001, quando da comemoração de seus 80 anos. Décadas e memórias se avolumam e se desdobram...   

Outro diálogo essencial com Paulo Freire se deu ao conversarmos sobre nossa situação pequeno burguesa. Sendo professora, trabalhando em até três períodos muitas vezes, com condição financeira relativamente satisfatória, sempre tive empregada doméstica. E, mesmo antes das leis de regulamentação do trabalho doméstico, eu já pagava o salário mínimo e respeitava os horários da jornada. Bom, isto pode não vir ao caso agora, mas Paulo me ajudou a entender – se não justificar – o processo em que se inserem estas relações dentro de nossas casas. Se pagamos o serviço, sempre seremos os empregadores, os patrões, com toda a carga semântica que envolve essas designações no universo do trabalho e suas diferenças sociais.

Portanto, se se luta por justiça social, o serviço que as empregadas domésticas executam devem ter esse lado justo, profissional sim, pago com todo o merecimento e respeito. E foi assim que Paulo Freire, um dos fundadores do PT, Partido dos Trabalhadores, também disse que, já com certa idade, sem saber dirigir, mas com condições financeiras, comprou um carro e contratou um motorista.

Foi quando ele deixou claro: sim, classes sociais diferentes, mas, para qualquer posicionamento, “eu sei de que lado estou”, de uma luta de classes em que os menos favorecidos têm que ter voz e direitos. Igualdade e justiça social como parâmetro de nossas vidas, na luta pelo bem comum.

Paulo Freire gostava de citar este caso e ele aparece no livro/entrevista “Essa escola chamada vida”, depoimentos ao repórter Ricardo Kotscho, de Paulo Freire e Frei Betto (Ed. Ática). Nessa prática, nessa escola chamada vida, um camponês no Maranhão questionou um voluntário: “Meu amigo, se você pensa que vem aqui ensinar nós a derrubar o pau, não precisa, porque nóis já sabe. O que nóis quer saber é se você vai tá com nóis na hora do tombo do pau”. (página 62)

Sim, “a confiança do grupo popular no intelectual que se coloca a serviço dele nasce da experiência de estar na hora do tombo”, um aparte conclusivo de Frei Betto (página 63). Por isso que sempre postulo, nas horas de desafios, de consciência das desigualdades, “sei de que lado estou”.

Nos vários livros que tenho de Paulo Freire ou sobre ele, encontrei, depois de 35 anos, anotações feitas em um bloquinho sobre a essência política e pedagógica de seus conceitos sobre Educação. Minhas anotações estão datadas: 19/4/86. E ali também encontro, com sua letra, o endereço e o telefone de sua casa, no Sumarezinho, em São Paulo.

Assim que viajei a São Paulo, acredito que em 1987, não tenho certeza, telefonei para ele e recebi um convite para almoçar em sua casa. Uma linda casa e um almoço delicioso, tipicamente pernambucano, com baião de dois e carne de sol. Lá estavam presentes também Frei Betto e um convidado especial, o escritor americano Ira Shor. Ambos escreveram livros sobre Paulo Freire.

Só lembrando que o livro de Ira Shor, “Medo e Ousadia”, publicado no Brasil pela editora Paz e Terra, é tido como um referencial qualificado para os tempos atuais, pelo avanço do fascismo e da extrema direita tanto nos Estados Unidos como aqui no Brasil. Temos cada vez mais dificuldades históricas para desenvolver o espírito crítico, uma educação emancipadora, numa sociedade que retroage pedagogicamente.

Descontraídos, conversamos assuntos vários. Ainda me enterneço quando lembro do seu carinho e atenção. Ira Shor se ofereceu para tirar a foto, a seguir.

Elisabet G. Moreira e Paulo Freire, em sua casa, em São Paulo, idos dos anos 80.

Ainda outra lembrança me veio. Paulo Freire esteve rapidamente em minha casa, ainda no ano de 86. Na conversa, falei de meus estudos de língua e literatura russa, na USP, e, já naqueles idos, falamos na relação dialógica do discurso, estudada por Mikhail Bakhtin. Paulo tinha conhecimento da importância dos estudos linguísticos a par do aspecto político e filosófico da linguagem.

De repente, surgiu um nome e um livro até hoje maldito: “Os condenados da Terra” de Frantz Fanon (Civilização Brasileira). Uma das leituras fundamentais de meu marido e que fez a ponte para Paulo Freire se manifestar, dizendo também que, para ele, este livro lhe foi a grande referência. Assim como a “História da riqueza do homem”, de Leo Huberman (Zahar Editores), livro que me abriu os olhos para consciência da exploração capitalista, desde os tempos de estudante.

Só para situar ligeiramente: Frantz Fanon (1925-1961) nasceu na Martinica, mas dividiu a sua vida entre a militância pela independência anticolonialista, sobretudo na Argélia, e a teoria crítica, desenvolvendo uma tese pioneira que chamou de psicopatologia da colonização. Em síntese, os colonos, representando a civilização, nunca viram os nativos como membros de sua espécie, daí que o processo de descolonização sempre foi violento e violentador. Sejam condenados da terra ou oprimidos em seu desafio no ato de libertação, Paulo Freire soube refletir e atuar no contexto pedagógico dessas relações.

Paulo Freire também foi um grande intelectual, sem dúvidas. Mas não se colocava como um provedor infalível de conceitos. Deixava claro que não há ninguém mais culto do que o outro. O que há são culturas paralelas, socialmente complementares. Lições que se desdobram dialeticamente em vários textos, livros e ações. Pensar e repensar a prática é prover a si mesmo e a vida.

Talvez eu ainda escreva na continuação de registros, de momentos... geração de fatos e significados, no reforço de um aprendizado. Tive uma experiência marcante com um grupo de mulheres trabalhadoras, lavadeiras, na periferia de Petrolina, em 87, como voluntária. Depois de décadas, avaliar o que não consegui atingir nos finalmente pode ser exemplar nas ambiguidades dos contextos, da relação teoria e prática.

Pouco sabemos e saberemos de Paulo Freire se não o revisitarmos continuamente. Momentos que se superpõem e nos instigam como educadores e como cidadãos. Entender a pedagogia do oprimido pelo vocábulo grego Paideia significando ao mesmo tempo educar e civilizar, o outro e eu, uma educação libertadora, de conscientização do sujeito e da História onde atuamos e vivemos.

Petrolina, 28/09/21

terça-feira, 24 de agosto de 2021

DA ARTE DE CHUPAR MANGAS

 Hoje, a gente não chupa mangas, a gente come mangas.

Compram-se belas mangas, enormes, nos supermercados e feiras. Coisas da pós-modernidade; sabendo escolher, todas com nomes em inglês, mesmo que sejam de origem indiana, você se sai bem. Com uma faca afiada, corta-se a fruta em pequenos pedaços. Come-se até na salada, com rúcula por exemplo, outra exótica figura a nosso alcance. Até aprendi a fazer chutney de manga, indiana receita gourmet. Enfim, hábitos alimentares renovados fora do quintal doméstico ou da nostalgia de nossa infância, quando recitar Casimiro de Abreu fazia sentido.

 Mas será que ainda se chupa manga??? Quem já teve uma mangueira no quintal sabe disso...  deliciosa manga espada, a mais comum, a pobrezinha das mangas, fiapenta como quê, mas doce e disputada. Então, você, sem descascar, batia a fruta na parede, fazia um buraco na parte de cima e... chupava a manga.  Delícia!

Como não estabelecer, à maneira freyriana, a relação física dessa delícia com uma sexualidade latente... Quem não se lambuzava comendo manga? E o cheiro? Não adiantava esconder, a roupa ficava toda com respingos amarelos, assim como a cara. O cheiro durava horas... menino, você não pode comer manga com leite que faz mal. Advertência boba. De propósito eu fazia isso para, menina malcriada, provocar um tio velho rabugento... Ou, pensando bem, para mostrar minha rebeldia insipiente.

Em meu quintal da infância, havia um pé de manga bastante exótico, manga bico. Conhece? Também conhecida como manga peito de moça. Precisa dizer mais? Até uma auréola amarronzada circundava o bico... um convite para mamar delícias e outras imaginações.

Por incrível que pareça, não encontrei, no professor Google, uma imagem adequada, apenas um vídeo onde se pode ter uma ideia dessa manga tão especial em minha memória e, pelo jeito, esquecida na concorrência de mangas enxertadas e exóticas no mercado de frutas. Aliás, na fruticultura irrigada das margens do rio São Francisco, são comercializadas as mangas do rejeito, isto é, que não passaram no controle de qualidade e parâmetros da exportação, tanto no mercado interno quanto no externo.

https://www.youtube.com/watch?v=w6E9_UcAQQ0

Apesar dos elogios do apresentador, percebe-se certo acanhamento em dizer o nome vulgar da manga “peito de moça”. Soube que parentes paulistas tiveram cuidado em fazer mudas e ela está preservada em alguns sítios e chácaras. Hoje, morando tão longe, nunca mais tive esse sabor rememorado.

Mas foi num filme que aprendi a maneira chic de chupar, digo, de comer manga in natura, sem lambuzar... Caterine Deneuve, a bela, no filme Indochina, aparece em uma cena, comendo e oferecendo a manga com a elegância que lhe é característica. Fiquei até envergonhada, ao lembrar da lambança que faço ainda hoje, chupando mangas.

Sim, aqui o Google me forneceu uma foto da cena do filme. Fiquei alegre... não vou falar do filme, evidentemente, apenas uma referência pois essa manga atua como metáfora das relações colonialistas da França sobre a Indochina, hoje Vietnã.

Na cena, Elaine, a personagem de Catherine, uma rica proprietária francesa na Indochina, oferece pedaços de manga, com uma colher, à sua filha adotiva, Camille, uma garota vietnamita.

Pesquisando – ah, essa mania de procurar significâncias – há uma mensagem subliminar da subserviência do colonizado ao dominador e, ao mesmo tempo, revela-se o lado maternal de Elaine, pois Camille questiona a mãe sobre sua aparência e Elaine afirma que “a diferença entre as pessoas não é a cor da pele, é o sabor, a fruta”, enquanto leva um pedaço de manga à boca da filha.

No desenrolar da trama, é que o “sabor” da fruta se dará, sobretudo no relacionamento amoroso de Camille com o amante da mãe e o rompimento entre as duas mulheres, de diferentes origens e histórias de vida.

E fico aqui a pensar, se a manga fosse a “manga bico”, a analogia ainda estaria mais adequada...


Assim, com a parte mais polpuda, nestes cortes sem ferir a casca, você toma de um garfo ou um palito e vai retirando os pedacinhos para comer... tentei fazer isso e encontro dificuldades, pois o mais doce e saboroso está na ponta do fruto, junto ao caroço. Ou, na prática, desvirar o pedaço cortado para que os pedaços da manga caiam sobre a salada ou um prato.

Tem gente que gosta dela verde, comendo com sal. Gosto é isso, mas a manga madura, em vários formatos, com esses belos contrastes do amarelo da polpa com os tons da casca, verde, vermelho, rosa... é uma festa para os olhos e o paladar. Inconvenientes pode haver, até no fato de que você vai precisar de um palito ou fio dental para essas mangas sem pedigree...E nem vou falar das mangueiras, das árvores...

Aqui no Nordeste há uma expressão que corre solta: “o cão chupando manga”. Imagine só, o cão, o capeta, o satanás chupando manga e fazendo careta... feiúra inimaginável ou é? Mas pode também ter outro significado, por exemplo, quando o cara sabe tudo de alguma coisa, alguém desenrolado ou quando não está para brincadeiras... Tô fora!

Chupa essa manga...

Cantou o romântico Gonçalves Dias:

“Já viste coisa mais bela
Do que uma bela mangueira,
E a doce fruta amarela,
Sorrindo entre as folhas dela,
E a leve copa altaneira?
Já viste coisa mais bela
Do que uma bela mangueira?”

Petrolina, 24 de agosto de 2021

Elisabet Gonçalves Moreira


quarta-feira, 30 de junho de 2021

MARIA ALICE AMORIM: ENTRE ERRES, O PULSAR DA POESIA

29 de junho do pandêmico 2021, dia de São Pedro, fechando o ciclo junino, aniversário de Gícia Amorim, mãe de Maria Alice Amorim, poeta que (re)lança seu livro de poesia, dedicado à mãe, anamnese no desencadear de mulheres e deusas míticas transfiguradas em palavras e evocações. Memória deflagrada pela história da tataravó Aurora, cigana raptada pelo português Pedro, nas beiradas da fazenda Ouricuri da Bahia, município sertanejo de Casa Nova, tempos idos dos finais do século XIX, distribuindo-se e arraigando em outros acampamentos e sítios nômades de avós e tias artistas de outras histórias.

Ao nosso alcance um poema, uma narrativa subliminar em versos, um livro primorosamente editado. Salve Funcultura PE, lei Aldir Blanc, Zanzar editora e uma equipe antenada.



ERRE AURORÆ ERRE (capa do livro)

Vejo uma sombra rosa de letras em minúscula grafia sobreposta no título: a ou e? Ou ambas amalgamadas? O que dizer destas folhas desenhadas e coloridas sobre o fundo verde? Assim como nuvens ou ondas separando partes do livro?  Questionamentos gerando inferências, interpretantes indiciais para uma possível e múltipla decodificação.

ERRA AURORÆ ERRA

Uma constatação ou uma ordem emanada para um verbo imperativo? É para Aurora errar? Ou apenas um fonema destacado, um substantivo, o nome da letra erre/errae?  Que Aurora é esta? Nome próprio ou comum no significado de manhã, de um convite para o alvorecer?

 

A ambiguidade se instaura... é a voz da poesia que detém o poder de resposta ou uma leitora atenta neste processo de decodificação. Imagens, cores, palavras, tudo se mescla e instiga.

 

À procura de resposta divago em minhas próprias lembranças. Estudei latim no antigo ginásio do século passado e entendo este Æ. A desinência característica do nominativo singular é -a e a do genitivo singular é -ae, identificando a primeira declinação. A pronúncia é outra história, ae ou é. Lembram do curriculum vitae, ou seja, currículo de vida (em português, essa relação é normalmente expressa pela preposição de). Ora, nesta cadeia de associações, esclarecedor é saber que a palavra “genitivo” vem do verbo “ginere”, que significa gerar, originar. Logo, genitivo é o caso que traz a origem, a raiz. Não é isso que a nossa poeta procura?

 

Já começamos a nos inquietar. Essa gênese hereditária que se associa também, no caso genitivo, a uma relação de posse, entre o nome e outro nome. Seria o erro de Aurora? O que Maria Alice quer nos dizer – ou nos jogar - nestes cruzamentos e fronteiras de signos e linguagens?

 

Ela nos provoca para mais falas: “quem virá dizer-nos palavras aladas, aurora” (p. 43). Reiteração do mote na narrativa da própria Alice, dessas avós ciganas, de questões tão femininas que ressoam em nossas vozes e consciências... só se faz poesia com vida.

 

Essa Amorim, Maria, que mora na rua da Aurora. Erres rolando, variações fonéticas de nosso português brasileiro, sem a dureza gutural de outras falas. Dali, nesta parte de um antigo Recife, avista-se o rio Capibaribe, limite para outra margem. Alice se situa numa história de migrante, de caminhos vários. Construiu pontes por lá, desde que saiu de Petrolina, margem esquerda do rio São Francisco, onde nasceu e cresceu. Como o rio nordestino que desagua no Atlântico mar.

 

De uma rua que virou prosopopeia, ganhando vida, além da simbologia do nascimento dos dias, todas as manhãs que se estendem ao longo de erros e acertos.

 

“o universo é incrivelmente simples, aurora  

dizem os astros”

 

Na dedicatória que fez no meu exemplar, Alice alegou simbolicamente “Desejo que AurorA e_rre feliz sob a brisa do Velho Chico.” Entendi e estendi a caligrafia diferenciada para o título, replicando a chamada da atenção para o significado, metáfora de capa. Essa errância de voos e leituras adivinhatórias, desafios de entendimentos, seriam mesmo tão simples assim?

 

Na contracapa, sem ainda abrir o livro, podemos ler de uma proposta trilíngue:

 

“escrito em português,

logo veio o desejo de que

o poema fosse lido, dito e

ouvido em mais duas línguas:

o espanhol e o francês.”

 

Por que especificamente estas duas línguas, proximidade de origem, latinidade atávica? Arregalamos olhos. Aguçamos ouvidos.  Mas, justamente, nessa tradução, em parceria trilíngue, é que o livro nos desafia para outras leituras e outros leitores. Não é mais só um livro, são três leituras distintas, com cargas semânticas diferenciadas. Também a possibilidade acessível de ouvir o livro traz esta inovação contemporânea pelo QR Code, tecnologia avançando na recepção da obra.

 

Como todos os livros de Maria Alice, esse também é um livro lindo, com uma diagramação especial, objeto para ficar à mostra. Sua dona entende de semiótica e isso pauta a produção. Signos visuais compartilham diálogos e experiências. Não há nada figurativo, antes a subjetividade implícita das escolhas e da voz poética.

 

Seu talento como pesquisadora de cultura popular abre-se numa produção exclusiva de poesia, prima vez, e, na abertura, Alice reproduz um verso de Safo, voz feminina de priscas eras e que nos conclama “Encontra, tu mesma, tua própria voz”. Tanto fez que encontrou.

 

“em que cascalhos trotam os teus cavalos, aurora

onde se escondem suas rédeas

sumiu o prumo da caravana”   (p. 39)

 

“en cuál grava trotan tus caballos, aurora

donde se esconden sus rendas

desapareció la plomada de la caravana”          (p. 89)

 

“dans quel sable trottent tes chevaux, aurore

où se cachent tes brides

le cap de la caravane s´échappe”           (p. 139)

 

Transcrições literais, mas cujo ritmo os diferencia estrategicamente. Novos poemas se apresentam. Precisaríamos de muito mais leituras, comparações, escolhas. Por este momento apenas uma breve indicação. Os caminhos da caravana, das vozes, dos apelos às musas várias vezes reiterados, deusas e ninfas das errâncias existenciais.

 

“erre aurora erre”

 

Não dá para decifrar tudo. Mistérios que fascinam e continuam...

 

E repensar – sempre - os caminhos da poesia e das vozes femininas que ousam. A lembrança de Gícia, que se perde em delírios dos esquecimentos senis, percorre versos sem erros, memória que se atualiza, afetos acumulados e que rescalda Maria Alice para seu primeiro livro de explícita poesia. Irmano contigo.

 

Sim, te entendo. Oui, je te comprends. Por supuesto que sí.

 

Elisabet Gonçalves Moreira

 

Petrolina, 29 de junho de 2021


(Para solicitar o livro, escrever diretamente para a autora por e-mail, linguadepoeta@yahoo.com.br   ou  procurar no instagram 

@zanzarcoletivo)

quarta-feira, 19 de maio de 2021

NACIONALIDADE TCHUVACHE: UM POETA E SEU(S) TRADUTOR(ES) (Parte II)

 

Boris Schnaiderman foi admirador e amigo pessoal do poeta Guenádi Aigui, divulgando sua poesia no Brasil. Para mim e para alguns leitores deste blog a descoberta de um grande poeta, desafios de leituras, reflexões e o prazer desse alcance. Seguimos.

Em abril de 2011 foi lançado o livro Guenádi Aigui – Silêncio e Clamor, traduzido por Boris Schnaiderman, agora com a parceria de Jerusa Pires Ferreira, publicado pela editora Perspectiva, de São Paulo.


Poeta tchuvache: Guenádi Aigui (1934-2006)

(Ah, pelas referências na Parte I, dedico a Anélia Pietrani)


Assim publicado na Poesia Russa Moderna Nova Antologia (São Paulo: Brasiliense, 1985)

Talvez agora ler, em voz alta, um poema de Guenádi Aigui. E depois, seu “autorretrato”, um depoimento tocante sobre o fazer poético e a vida, indissociáveis. O que conhecemos da literatura e seus artistas?

Silêncio 
1

no clarão
da angústia desfeita em pó
conheço o desnecessário como os pobres conhecem a
roupa última
e os velhos trastes
e sei que este desnecessário
é o que o país precisa de mim
confiável como um acordo secreto
o calar-se como vida
e para toda a minha vida

2

no entanto, o calar-se é doação, e para mim mesmo: o
silêncio

3

acostumar-me a tal silêncio
que seja como o coração que não se ouve bater
como a vida
que pareça um de seus lugares
e nisso eu sou – como a Poesia é
e eu sei
que meu trabalho é árduo e existe para si mesmo
como no cemitério da cidade
a insônia do vigia

1954–1956

(Tradução: Boris Schnaiderman)


Fragmentos  do autorretrato de Guenádi Aigui. Memórias da vida em desafios e conflitos, sobretudo na então União Soviética, mas o poeta crê em seu ofício e nele se consagra. Um caso exemplar para refletirmos no agora e em nossas circunstâncias.

Sobre mim mesmo
sucintamente

Nasci na Tchuváchia, num povoado com florestas sem fim, ao redor. Parte da minha infância (1939-1941) decorreu na Carélia, de onde a nossa família, durante a guerra, foi enviada de retorno à pátria. As impressões da Carélia encontraram expressão, bem recentemente, no ciclo dos meus versos sobre a infância.

Aigui é o sobrenome de nossa gente, conservado desde os tempos do paganismo, em tradução ele quer dizer "aquele mesmo".
Em meus primeiros versos escrevi muito sobre meu pai, o culto infantil e juvenil do pai se expressou também no meu primeiro livro de versos.

Dezenas de lembranças vivas estão ligadas a meu pai. A par dos relatos de minha mãe, elas testemunharam ter sido ele um homem extremamente sociável e expansivo, amigo das improvisações e das mistificações inocentes. Ele concluiu uma faculdade operária tchuvache e ensinava língua russa e literatura numa escola. Sua sociabilidade não entrava em conflito com seu nomadismo: não conseguia trabalhar no mesmo povoado mais de dois ou três anos; deste modo, a minha primeira infância decorreu em diferentes povoados tchuvaches, tártaros e morduínos. Somente depois da morte de meu pai eu soube que, na juventude, ele se empolgara com a criação poética. Vários de seus poemas entraram em coletâneas tchuvaches.

 (...)
lembrava-me de como meu pai cantarolava com frequência aqueles versos de Púschkin: "A tempestade cobre o céu de treva [ ... ]" lembro-me também de que, ficando em casa sozinho, eu tinha medo do retrato de Gógol, pendurado acima do armário de livros.
(...)

Meu pai foi morto em combate em 1943, nas proximidades de Smolénsk.

(...)
Voltando da Carélia, residimos em nosso povoado, no sul da Tchuváchia. Havia ali duzentas casas, deixaram de voltar da guerra para lá perto de trezentos homens. Falando daqueles anos, eu não posso deixar de me referir ao trabalho penoso dos habitantes, à fome de 1946 e aos meus colegas de classe, muitos dos quais não conseguiram concluir o curso secundário.

No povoado havia poucos livros, logo eles estavam todos lidos. Lembro-me de um caso: pedi à direção do kolkhoz brochuras quando estivessem sobrando. Ficou- me na memória uma delas: instruções para o combate ao gorgulho nos depósitos. Era difícil também conseguir livros na sede do distrito, onde eu depois cursei a escola normal. Até o outono de 1958, eu não tinha lido nenhum poeta russo do século xx além de Maiakóvski.

Esses anos e os seguintes ligam-se em minha memória, viva e dramaticamente, até à dor, com a imagem de minha mãe. Sua morte prematura coincidiu com o período em que fui vítima de ataques violentos na imprensa e em manifestações verbais. Minha mãe era meu único amigo, que compreendia plenamente as razões pelas quais eu defendia tenazmente minha concepção do dever de criação.

O seu comportamento no cotidiano lembrava o aperfeiçoamento moral de um artista. A seriedade e o que havia de profundo em seu íntimo, a relação inquieta com tudo o que havia de vulgar e superficial destacavam-na dos demais, que me cercavam desde a infância.

O meu avô materno foi o último sacerdote pagão de nosso povoado, esta atribuição era transmitida por herança. Minha mãe conhecia bem os ritos pagãos, que eram recusados, mas não proibidos pela Igreja. Ela e sua irmã conheciam muitas orações e esconjuras pagãos, minha mãe os lia frequentemente a meu pedido.

(...)

Vou falar sucintamente sobre o período ulterior de minha vida, já mais próximo de nós. Ingressei em 1958 no instituto literário de Moscou.  (...) E, pensando no início de uma autoconsciência séria, eu sempre lembro em primeiro lugar de Mon coeur mis a nu (Meu Coração Desnudado) de Baudelaire e O Nascimento da Tragédia de Nietzsche.

Em 1956, eu conheci B. L. Pasternak, a relação amistosa comigo foi mantida pelo poeta até sua morte. Ao contrário de opiniões expressas frequentemente, tenho certeza de que a poética de Pasternak não exerceu influência sobre mim. E sobre a influência de sua personalidade, extraordinariamente forte e inesquecível, eu só poderia falar depois de me preparar como criador. A estrutura dos meus versos da juventude está ligada com a produção da mocidade de Maiakóvski.

Para caracterizar meus versos desse período, vou transcrever um trecho do prefácio que escrevi para eles mais tarde:

"Nos últimos anos, pensando na criação poética em termos de desenvolvimento dos recursos poéticos, adivinhando a diferença entre os que constroem e os que refletem, eu não procurei voltar aos meus primeiros versos. Refletiram-se neles aqueles traços de juventude que, numa idade mais madura, começam a parecer perniciosos para a arte. Acrescentou-se algo pessoal ao romantismo inerente aos versos juvenis: o trabalho com o verso aparecia para mim, antes de tudo, como a obtenção de material poético. O olhar de fora sobre a língua russa, que me ajudou nos primeiros tempos, tinha que desaparecer.
Eu escrevo em russo desde 1960. O primeiro leitor que aprovou os meus textos foi Nazim Hikmet, que já me havia aconselhado, assim como Pasternak, a escrever nessa língua".

(Escrito em russo para a revista tcheca Svet Sovetu)

O Povo como Templo

e as almas que nem velas se acendem uma a outra

Aldeia de Romáchkovo
6 de janeiro de 2002, véspera de Natal

ah, vai mais um,
porque fiquei de fato arrebatado:

Jardim-Tristeza

é
(talvez)
o vento
que inclina – tão leve
(para a morte)
o coração

1994

(Tradução: Jerusa Pires Ferreira

...ooo0ooo...

segunda-feira, 17 de maio de 2021

NACIONALIDADE TCHUVACHE: UM POETA E SEU TRADUTOR EM HOMENAGEM (Parte I)

 

Tchuvache: nacionalidade de um povo pouco numeroso da região do Volga, República da Chuváchia, região sudoeste da Rússia,

Poeta tchuvache: Guenádi Aigui (1934-2006)

Tradutor: Boris Schnaiderman (1917-2016)

Isso não é um blog de curiosidades, amplia-se em relações de informação e significados pessoais. Principalmente porque hoje, 17 de maio de 2021, seria o aniversário do Boris, meu mestre e amigo, do qual muito “herdei” da intelectual que, afinal, sou.

Queria algo especial para publicar sobre ele, na página do grupo Boris Schnaiderman, que criei no Facebook, desde dezembro de 2010, hoje com 343 membros. Fico feliz com a participação, gente que, sinto, também se conecta na admiração pelo professor e pela pessoa de Boris. E espero que os leitores deste blog também possam conhecer mais sobre ele e seu legado. A gente vai pincelando aqui e ali referências e encontros.

Entre as numerosas publicações de Boris, encontrei o que procurava. Um poema a ele dedicado por Guenádi Aigui, o poeta de nacionalidade tchuvache, ambos silenciados, assim como, vejo, também o Haroldo de Campos, o amigo poeta, parceiro na tradução.


Leio, releio, penso nesta “rosa do silêncio”... O que teria motivado o poeta para esta imagem? O que eu, leitora, reflito destas imagens, além do momento e do lugar da escrita, uma leitura de hoje, no século XXI, num país tomado por uma doença que avança, arrefecida na espera,  uma poesia que nos dilacera “qual impotência de pássaro”?

...ooo0ooo...

Guenádi Aigui nasceu em 1934, de nacionalidade tchuvache, República da Chuváchia, região sudoeste da Rússia. Começou a escrever poesia em 1958 originalmente em tchuvache, traduzindo pessoalmente seus poemas para o russo, língua na qual igualmente escrevia seus poemas.

Devido às diretrizes da política soviética para a literatura, sua poesia acabou sendo ignorada durante muito tempo em seu próprio país, porém circulava em traduções húngaras, polonesas, sérvias, tchecas e brasileira, graças ao esforço de Boris Schnaiderman, em parceria com Haroldo e Augusto de Campos. Somente após a abertura da União Soviética promovida por Mikhail Gorbachev, a Glasnost, passou a ser reconhecido e lido por seus compatriotas.

É possível ler alguns de seus poemas na imprescindível Antologia Poesia Russa Moderna. E lembrar do Boris escrevendo esta dedicatória que muito justifica minhas memórias e as dele.


  
 

sexta-feira, 30 de abril de 2021

ANTÔNIO TORRES – UM AMIGO EM SUPERLATIVO

Recebi um convite para dar um depoimento em vídeo sobre Antônio Torres, escritor, que será entrevistado ao vivo em programa do professor Marcelo Batalha, dia 10 de maio de 21. O que mais me motivou a aceitar é que foi o próprio Antônio Torres quem me indicou para dar o depoimento, segundo o produtor do programa, que entrevista e divulga escritores.


Antes de gravar o vídeo, junto detalhes, leituras, fotos e escrevo. Objetivo ampliado: publicar no meu blog; ativá-lo no último dia do mês de abril e não falhar na postagem mensal.



Antônio Torres

Antônio Torres, esse baiano nascido em 1940 no Junco, hoje cidade com o nome de Sátiro Dias, perto de Alagoinhas e não muito longe de Feira de Santana, assim escreveu para mim e se descreveu nas dedicatórias de seus livros:

“...com admiração e afeto, do velho escriba...”

“Com o carinho deste seu mais novo velho aluno...”

“...que maravilha conhecer você. Beijos afetuosos...”

“Minha mais nova velha amiga, com a consideração e o apreço deste escrevinhador.”

 

Essa gentileza, a meiguice, a simplicidade de Antônio Torres me cativaram. Até hoje me chama de caríssima ou ilustríssima... coisa recente, mas desde que fazia o “Poesia aos domingos”, enviando um poema (por 10 anos o fiz), somos amigos em trocas de mensagens, antenados no desfrutar desta paixão pela literatura, pela arte.

 

Antônio Torres confessa que queria ser Castro Alves quando criança, mas foi aos 20 anos que chega em São Paulo, onde foi chefe de reportagem de esportes do jornal “Última Hora”, depois redator de publicidade, tendo trabalhado em algumas das principais agências do país, tanto em São Paulo, como no Rio de Janeiro. Estreou na literatura em 1972, com o romance Um cão uivando para a Lua, considerado pela crítica a revelação daquele ano. Quase 20 livros publicados em editoras como a Record, a Ática, a Companhia das Letras, em décadas de afirmação. Geralmente a crítica destaca a trilogia formada por Essa terra (1976), O cachorro e o lobo (1997) e Pelo fundo da agulha (2006).

 

Detalhes biográficos complementam a trajetória de sucesso do escrevinhador.  Em 1998, foi condecorado pelo governo francês como Chevalier des Arts et des Lettres por seus livros traduzidos na França. Dois anos depois, teve o reconhecimento nacional ao receber o Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto de sua obra.

 

Antônio Torres foi também um dos ganhadores do Prêmio Jabuti de 2007, com o romance Pelo fundo da agulha. Seus livros têm tido várias edições no Brasil e traduções em muitos países (Argentina, Cuba, Estados Unidos, França, Espanha, Alemanha, Itália, Holanda, Inglaterra e Israel). O romance Essa terra está em vias de tradução – ou já foi traduzido - na Bulgária, Albânia e Vietnã.

 

De 1999 a 2005, foi Escritor Visitante da UERJ – Universidade do Estado do Rio de Janeiro – quando ministrava oficinas literárias, realizava aulas inaugurais e proferia palestras no campus do Maracanã, da Faculdade de Formação de Professores – UERJ de São Gonçalo – e da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense – UERJ de Duque de Caxias. Pertence também à Academia de Letras da Bahia, na qual ocupa a Cadeira 9, sucedendo a João Ubaldo Ribeiro. É também membro da Academia Petropolitana de Letras, e sócio-correspondente lusófono da Academia de Ciências de Lisboa.

 

Mas, sem dúvidas, sua consagração definitiva se deve ao fato de ter sido eleito, em 7 de novembro de 2013, para Academia Brasileira de Letras, cadeira 23, cujo patrono é José de Alencar. Merecido prêmio, reconhecido pelo seu talento artístico.

 

Antônio Torres é, sobretudo, lembrado pelo romance Essa Terra, uma alegoria do sertão contemporâneo, uma obra muito além de possíveis clichês ou estereótipos. O nômade Totonhim, como o autor também foi chamado, vai e volta em um sertão que se constrói como referência ficcional, pois nele interagem pessoas, cantos e recantos. De vida e de afetos. Linguagem que se refaz, como metáfora do mundo.


Pessoalmente, Antônio Torres e eu, só nos conhecemos no Clisertão - Congresso do Livro, Leitura e Literatura no Sertão - em Petrolina, PE, 2012, quando fomos homenageados. E fato significativo aconteceu quando fui mediadora na mesa entre Antônio Torres e Raimundo Carrero, então se recuperando de um AVC. O debate sobre o sertão mítico e contemporâneo foi revelador. Na plateia, Ariano Suassuna deu também um depoimento bastante emotivo, um episódio memorável para todos os presentes.


https://www.youtube.com/watch?v=bQqudr8youw

4 minutos inolvidáveis... vale a pena assistir e comprovar.


Mas, entre sua obra numerosa, quero citar uma delas com um diferencial marcante: Carta ao Bispo, cuja primeira edição foi de 1979. A ideia do livro partiu de um fato singular, um mistério e um suspense do qual Antônio Torres conseguiu montar uma ficção intrigante, sem recursos fáceis ou uma lógica catalizadora para uma “explicação possível”. O fato: uma carta deixada para o bispo de Juazeiro de um suicida, que se matou no interior da diocese. Fato real, chocante, porque estava de casamento marcado e o teor da carta jamais foi revelado.

Escreve Antônio, no início do livro:

“Agora ele está só, tão desgraçadamente só quanto no dia em que nasceu. Mas agora ele dispensa a parteira e já não precisa mais berrar ao mundo que está só.

É como se você finalmente pudesse reunir todos os seus pedaços deixados pelas estradas, para recompor-se com as suas próprias mãos: mesmo que sua carne já tenha sido servida aos abutres, ainda assim você irá agarrar-se à sua ossada, irá defendê-la junta por junta, até lá, debaixo da terra, por debaixo do chão.

Este é o instante: mais só do que nunca, Gil nunca esteve tão completo. E no entanto ele está se preparando para morrer, o que é bastante diferente de estar se despedindo da vida. Pura e simplesmente isto: Gil quer morrer. E vai para a morte como se fosse para o altar, levando em seus braços a rainha da boca da noite.”

 

Seria preciso ler o livro todo para se dar conta do estilo e dos procedimentos narrativos usados por Antônio Torres.  Mais do que um exemplo de “discurso indireto livre”, o escritor trabalha com vozes e consciências diversas, deixando para o leitor sua inquietude e a do próprio personagem. O posfácio da 3ª edição de Carta ao Bispo, pela Editora Record, publica a apreciação de Caio Fernando Abreu, da qual destaco: “Perdedor da vida, resta a Gil a vitória, ou pelo menos a escolha, da própria morte. Ao autor, por outro lado, segundo a epígrafe de Nietsche, resta apenas arte, para “não morrer de verdade”. Essa arte, em Antônio Torres, é frequentemente atingida, em cheio, através da palavra escrita.”

 

Questionado sobre a relação entre a obra e a vida pessoal, Antônio deixa claro que a linguagem literária é representação, quando esclarece esse fazer: “Um ponto de partida: um caso real que me contam, uma lembrança de um rosto, de uma voz, de uma situação que me marcou. Mas o começo depende da primeira frase. Ela é que vai dar o tom do texto, e puxar a fabulação.”

 

Antônio Torres disse uma vez que temos autores de mais e leitores de menos... O leitor contemporâneo sempre será incompleto, mas a motivação para nossas opções de leituras são também rescaldo de uma oferta que faz sentido para nossas vidas. Por isso lemos, por isso escolho autores como Antônio Torres.

 

Elisabet Gonçalves Moreira

 

Petrolina 30 de abril de 2021.