Bet com t mudo

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BET COM T MUDO... Quem me conhece, reconhece? Já me imagino receptora deste blog. Quem é esta mulher? Quem é esta Eli, Elisa, Betina, Betuska, Betî, resumida numa Bet com t mudo? Esta afirmação diminuta diz (ou desdiz?) uma identidade... Assim, quem sou eu? Sou (sim) uma idealizadora das pessoas, das relações, das amizades, das produções minhas e dos outros. Consequência: um sofrimento que perdura... na mulher crítica que procura saber e tomar consciência finalmente de quem é e do que ainda pode fazer (renascer?!) nesta fase da vida, um envelhecimento em caráter de antecipação do inevitável. Daí a justificativa do blog. Percorrer olhares, visualizar controvérsias, pôr e contrapor, depositar num receptor imaginário (despojá-lo do ideal, já que eu o sou!) uma escrita em que o discurso poderá trazer uma Bet com t falante... LEITURAS, ESCRITAS, SIGNATURAS...

terça-feira, 21 de junho de 2022

ACORDA JOÃO


Acorda João: não sei se acordei ou não, mas fiz um acordo com o santinho, esse São João menino, do carneirinho, que sempre me encantou e que se baseia na linda história – dentre as muitas histórias e lendas que se perdem na tradição dos tempos, reiventadas e ressignificadas em sua diversidade - de que o menino São João está sempre a dormir. Embora possa parecer contraditório, algumas histórias diziam que não se podia acordá-lo, senão o mundo se acabaria em fogo, mas outras dizem que, no tempo dos escravos, estes despejavam nos braseiros milho verde e raízes como cará e que os moços e moleques, pulando as fogueiras, gritavam: "Acorda, João!". Ao que muitos respondiam, cantando:

                                      "São João está dormindo,
                                        Não acorda não!
                                        Dê-lhe cravos, dê-lhe rosas
                                        E manjericão!"

Evidentemente que a cantiga "Capelinha de melão", conhecida até hoje, é uma variante destes versinhos. Pois bem, numa festa tão alegre, cheia de luzes e cores, eu quis acordar João, se não para conosco brincar, para revisitar algumas alegorias em desenhos e pinturas, como eu construí meu olhar sobre esta figura mítica, de cabelos cacheados e olhar melancólico... Desta representação que é sobretudo popular, como ela ficou no imaginário coletivo.

(São João do carneirinho – imagem de domínio público)

Recordando: em 2006, fiz minha primeira (e única) exposição individual de pintura com o nome Acorda João, no SESC de Petrolina, com o incentivo e a curadoria de Edineide Torres. Circunstâncias do entorno ajudaram nessa realização; havia o clima das festividades juninas e eu esperava mostrar meu trabalho, me dedicando bastante nesta prática. Além dos estudos e pesquisas que me motivaram e me motivam até hoje, retrabalho alguns itens, mas avisando que tenho um ensaio iniciado sobre este tema e que, espero, terminar ainda neste ano 22.

Justificando: desde criança, no século passado, morando no interior de São Paulo, pude acompanhar as festas juninas, seu aspecto religioso, as fogueiras, o levantar do mastro com os três santos: São João, Santo Antônio e São Pedro, acompanhado do espocar de muitos fogos. Esse era o momento alto da festa e eu adorava tudo isso. A figura de São João se destacava: uma linda criança, de rosto redondo e meigo, cabelos cacheados com um carneirinho no colo, bem diferente dos outros dois santos, representados como adultos. Minha memória de criança ficou marcada por esta festa e por aquele olhar do menino santo.

Morando em Petrolina, desde o ano de 1976, guardei, ao longo de muitos anos, a embalagem de uma caixa de fogos e mais dois cartazes de propaganda que tinham este São João menino, já com a intenção de, um dia, desenhá-lo e pintá-lo. Somente no final de 2004, tendo minhas primeiras aulas de pintura com Alberto Simões, pude finalmente pintar meu primeiro São João do carneirinho. Eu o fiz despretensiosamente para dar para minha cunhada, em cuja roça, chamada de Sítio São João, nome dado por seu falecido esposo também chamado João, passávamos a noite de 23 de junho para 24, com festas lindas, memoráveis, do outro lado do rio São Francisco, em Juazeiro da Bahia. Algumas amigas que viram o quadro, imediatamente também me pediram um São João do carneirinho.

Quem pinta ou desenha, sabe disso: não dá para repetir um mesmo quadro, uma mesma criação, há sempre variantes de um mesmo tema. Fiz mais dois quadros e, enquanto pintava, ia pensando nos porquês desta figura emblemática e tão querida, assim como na possibilidade de fazer uma série de quadros ou trabalhos com o São João do carneirinho.

Comecei a pesquisar, tanto na iconografia ocidental consagrada, como nos textos, quem foi São João, o Batista. E também me surgiu a ideia de escrever um livro ou um texto sobre esta pesquisa, sobre a simbologia desta representação e porque São João ficou tão marcante no imaginário popular.

São João Batista é um santo católico, mas minha exposição, assim como minha pesquisa, diretamente, nada tem a ver com religião. É sob o prisma de um olhar cultural para esta representação popular do São João menino e das inúmeras possibilidades de recriar propostas artísticas que fiz, naquela ocasião, 14 trabalhos. Inclusive, de um aprendizado específico sobre linguagens e técnicas diferentes. Vendendo ou não, foi muito prazeroso, além de ter uma motivação, um projeto que muito me realizou.

                 Quem foi São João Batista

     São João aparece na Bíblia como aquele que prepara o caminho para a chegada do Messias. Já no Antigo Testamento encontram-se passagens que se referem a João Batista. Segundo o Evangelho de Lucas, João, mais tarde chamado o Batista, nasceu numa cidade do reino de Judá, filho do sacerdote Zacarias e de Isabel, parenta próxima de Maria, mãe de Jesus. Lucas narra as circunstâncias sobrenaturais que precederam o nascimento do menino. Isabel, estéril e já idosa, viu sua vontade de ter filhos satisfeita, quando o anjo Gabriel anunciou a Zacarias que a esposa lhe daria um filho, que devia se chamar João. Depois disso, Maria foi visitar Isabel. "Ora quando Isabel ouviu a saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre, e Isabel ficou repleta do Espírito Santo. Com um grande grito, exclamou: 'Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre! Donde me vem que a mãe do meu Senhor me visite?' " (Lc 1:41-43).

        Para complementar, observei que João Batista, às vezes, é confundido com o próprio Cristo, algo que ele sempre negou. Quando seus discípulos hesitavam, sem saber a quem seguir, ele apontava em direção a Jesus, dizendo: "Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo". (Jo 1,29). Assim, o início desta frase simbólica faz parte da representação do São João, com um cajado de pastor em forma de cruz e uma faixa onde se lê: “Ecce Agnus Dei” ou “Eis o Cordeiro de Deus”. Realço também aqui a simbologia deste “apontar”: em muitas representações João Batista aparece apontando o dedo indicador para o céu ou para o menino Jesus.

            São João Batista também costuma ser confundido com São João Evangelista, o que escreveu o Apocalipse, e que foi discípulo de Jesus, fazendo parte da última ceia. Não são o mesmo: João Batista não deixou nada escrito, assim como Jesus, seu primo.

            Outro detalhe significativo: João Batista é o único santo, além da Virgem Maria, de quem a liturgia celebra o nascimento e não a data de sua morte. E sua data de nascimento se daria em 24 de junho, dia do início do solstício de verão no hemisfério norte, repositório de antigas tradições pagãs, com cânticos e fogueiras, uma festa de renovação da vida, da fertilidade da terra iluminada pelo sol depois do inverno sombrio.

            O catolicismo associou essas comemorações ao “aniversário” de São João Batista, desde o século VI de nossa era. Os portugueses as trouxeram para o Brasil com sua colonização e, até hoje, mesmo híbrida, com elementos da cultura indígena e africana, o dia de São João é comemorado com uma fogueira e muitas festas, uma mistura religiosa e profana. Uma noite que para nós, brasileiros, é a noite mais longa – e também a mais fria do ano - ao contrário do hemisfério norte, no verão.

          Outra história que associa a fogueira do ciclo junino: diz-se que Isabel, para avisar sua prima Maria do nascimento de seu filho, acendeu uma fogueira, sinal combinado entre elas. Associado à fogueira, há também o barulho provocado pelos rojões e fogos de artifício para dar avisos. Avisos do nascimento de uma criança, de uma nova esperança, de um renascer.

        Acredito que, justamente por se comemorar o seu nascimento (assim como do menino Jesus no Natal), é que se representa o São João menino. O fato de João Batista e Jesus serem primos, leva a imaginar que brincaram quando crianças, uma afetividade que os humaniza também. Veja-se a intimidade entre os dois, relatada no Evangelho, quando suas mães ainda estavam grávidas e que “a criança estremeceu no ventre” de Isabel, mãe de João, já uma velha. Ambos os meninos foram anunciados pelo Anjo Gabriel, entre outras similaridades. 

        Todas essas circunstâncias realçam o papel relevante na relação entre João Batista e Jesus Cristo que deveriam ter, portanto, a mesma idade e que, como primos, provavelmente devem ter brincado juntos. Essa infância e este privilégio ficaram marcados no imaginário; veja-se o exemplo no meu pequeno painel (óleo sobre tela), uma “releitura” do quadro de Bartolomé Esteban de Murilo (1617-1682), pintor do barroco espanhol, nesta bela imagem de duas crianças brancas, na qual o menino Jesus é quem oferece água para João, observados por um carneirinho, símbolo do sacrifício que atingiria os dois quando adultos, numa alegoria do próprio batismo. 

         

É quase certo que a imagem mais popular de São João do carneirinho é francesa, pois havia na França grandes “impremeries”, ou sejam, gráficas, que espalhavam pela Europa representações de santos feitas por artistas populares. Há também a presença da “cardabelle”, espécie de flor típica do mediterrâneo, acompanhada de cravos vermelhos, uma imagem que não é nossa, dos trópicos.

A imagem do São João do carneirinho, como uma suave criança, é um traço típico do século XIX, do romantismo da época, no qual o mito da infância inocente se fortaleceu. Sem dúvida é uma imagem construída culturalmente, idealizada, de uma criança perfeita, perto de Deus e de seus símbolos. Um exemplo para todas as outras crianças.

            Numa releitura desta representação, substitui, no quadro abaixo (óleo sobre tela) a cardabelle europeia pela xanana (ou chanana) esta flor que viceja livre nos interstícios das calçadas de algumas cidades, como eu vejo aqui em Petrolina.


        Invariante, constata-se a presença do menino (às vezes um pré-adolescente como hoje classificamos, nesta faixa de 9 a 12 anos), com cabelos cacheados, vestido parcamente com pele de camelo ou de carneiro, um ombro nu, segurando um cajado fino de madeira que ostenta a faixa com os dizeres em latim “Ecce Agnus Dei” (Eis o Cordeiro de Deus), um cordeiro ou um carneirinho filhote no colo, geralmente numa paisagem que lembra uma noite de céu estrelado e ostentando, na parte inferior, um arranjo simétrico de flores.

            Resumindo:

  • Representação da criança, menino:  sua aparência meiga, bela, serena, está mediada por um olhar idealizado da criança, fortalecida no século XIX, com as teses do Romantismo. Observe-se que esta criança nunca está sorrindo: há uma atmosfera de melancolia, certa tristeza no semblante, caracterizando a essência da própria história de João Batista e seu martírio. Esta representação é bem diferente da sensualidade e até mesmo certa dubiedade nos meninos da pintura clássica, renascentista, que representam São João.
  • Veste de pêlo de camelo ou de carneiro: alusão ao fato de ele ter sido uma pessoa pobre, de origem humilde, que foi para o deserto se penitenciar. Lembrem-se que o camelo, assim como o carneiro, faz parte dos animais da Palestina da época, solo áspero, quase desértico. Lembra também o despojamento pregado por Cristo.
  • Cajado de madeira em forma de cruz: os pastores sempre têm à mão um cajado para orientar o rebanho ou espantar inimigos. Em forma de cruz, lembrando o símbolo maior do sacrifício do Cristo crucificado: cruz que é também o símbolo da fé cristã, que orienta os fiéis e os conduz para a fé.
  • Faixa branca com os dizeres em latim, língua oficial do catolicismo: “Ecce Agnus Dei” - Eis o Cordeiro de Deus – frase atribuída a João Batista quando apontava para Jesus. A maioria das pessoas a quem entrevistei desconhecia o significado desta frase.  Escrita em cor vermelha, ela simboliza o martírio do cordeiro, do Cristo e, também, através de tanta similaridade, do próprio João Batista que viria a ser degolado quando adulto.
  • Cordeiro: é um símbolo com vários significados. Desde a ovelha perdida que o pastor procura no deserto ou a que volta, pródiga, para o rebanho, nas parábolas de Cristo até a analogia do animal com o próprio Cristo, sacrificado para salvar a humanidade, segundo a fé cristã. Na tradição judaica, o cordeiro pascal do Velho Testamento e o sacrifício do cordeiro num ritual de adoração a Deus, é citado várias vezes. Também o cordeiro é um símbolo de humildade, associado ao povo, considerado dócil pelo poder, porque subjugado. O próprio Jesus, várias vezes, também se identifica como um pastor de ovelhas, isto é, de almas a serem redimidas.
  • Céu estrelado, com nuvens, às vezes até um arco-íris: é a representação da santidade de São João, num céu simbolizado, aquele que ascendeu, subiu para o paraíso. É uma noite clara, iluminada por pequenas estrelas e cores que fazem o fundo da imagem. Esta claridade, que circunda a cabeça do menino, a auréola (dourada) que o distingue como santificado, um ser especial que ostenta sua aura, resplandece como um sol, símbolo da vida.
  • Flores: interpreto como uma homenagem ao pequenino João, um santo querido. Sejam flores europeias ou não, elas “enfeitam” e finalizam a extremidade inferior dos quadros, lembrando a terra, onde ficamos nós, mortais. Se pensarmos em interpretações mais sutis, poderemos lembrar dos 4 elementos da natureza, base da alquimia e de outras relações: ar (nuvens no espaço), terra (flores, cordeiro), água (já que ele é o Batista, o que batiza nas águas) e fogo (sol, aura, luzes, além do “batismo de fogo” anunciado por ele).

                       Um menino especial

Xangô menino – óleo sobre tela

         Outra bela história, outra simbologia. O orixá Xangô é a divindade, no candomblé e na umbanda, que rege o fogo, o trovão, os raios, muito semelhante a Javé, Zeus, Odin e Tupã. O valor simbólico e filosófico de João Batista ultrapassa o dogma católico: João batizava os seus adeptos com água (ou seja, utilizando um símbolo material), mas afirmava, que o que viria depois dele "batizaria com fogo", isto é, o Espírito Santo. 

        Assim, associou-se o Xangô da cachoeira com São João Batista, por causa do batismo de Jesus, de lavar a cabeça na água doce para se purificar. Com o poder do fogo de Xangô é queimado, destruído tudo o que é de ruim e ocorre a transmutação, trazendo tudo o que é de bom, todo o bem possível, de acordo com o nosso merecimento. Isso é o que os adeptos da umbanda pedem nas fogueiras do mês de junho e por isso ele é tão poderoso.

O seu machado é o símbolo da imparcialidade. Xangô é uma divindade da vida, representado pelo fogo ardente e por essa razão não tem afinidade com a morte e nem com os outros orixás que se ligam à morte. Segundo minhas pesquisas, Xangô, sincretizado com São João Batista, é também o patrono da linha do oriente, na qual se manifestam espíritos mestres em ciências ocultas, astrologia, quiromancia, numerologia, cartomancia. Por este motivo, a linha dos ciganos está também relacionada com este sincretismo.

Lembrar agora de Caetano Veloso e Gilberto Gil, os doces bárbaros da década de 70, que cantaram e destacaram este Xangô menino e sua simbologia. Outros artistas também o louvaram.

“Olha pro céu, meu amor,
veja como ele está lindo
Noite tão fria de junho, Xangô,
canto tanto canto lindo

Fogo, fogo de artifício,
quero ser sempre o menino
As estrelas deste mundo Xangô,
ah, São João, Xangô Menino”
 

https://www.youtube.com/watch?v=tKomMQ1zdvI

                      Bandeiras ou estandartes de São João



            Arte mista: pintura sobre tecido, depois colagem de adereços para ornamentação.

            Bandeiras ou estandartes são alegorias muito representativas de festejos, de instituições militares ou civis e religiosas. Veja-se o exemplo no carnaval com as associações de blocos e escolas de samba. Há alguns exemplares magníficos pelo trabalho artesanal, pela riqueza dos detalhes. Eu me interessei também por esta representação, até porque existe, embora com menos evidência, toda uma tradição ligada às bandeiras de São João.

            No Recife e nas cidades vizinhas, ainda existe a procissão dançante da Bandeira de São João, a tradicional “Acorda povo”.  Inclusive com detalhes em vermelho e branco, as cores de Xangô, na decoração e nas vestimentas, marcas do sincretismo religioso. Indico um livro lindo, de Ronaldo Brito e Assis Lima, com ilustrações de Rosinha: Bandeira de São João, editado pela Bagaço, do Recife, em 1996. Acompanha também um CD, musicado por Antônio Madureira, muito precioso. Na apresentação do CD, os autores confirmam a multiplicidade do São João, de alguns arquétipos e representações: “A festa de São João adquire o valor de uma “sagração da primavera”, louvando-se com cantos, danças, casamentos e brincadeiras o santo que propicia a fertilidade. (...) Santo sagrado e pagão, solto no mundo com sua bandeira de dançarino, a serviço dos homens e de Deus.”

            Nas minhas bandeiras procurei diversificar os modelos e a simbologia colando elementos os mais variados possíveis, mas que têm uma significação “junina” como flores de grãos de milho, retalhos, fitas coloridas, cristais etc. Pintei o menino João com tinta de tecido e depois parti para a experiência de trabalho manual, criando e reciclando alguns elementos decorativos. Depois destes estandartes fiz muitos outros, porém numa perspectiva artesanal, decorativa.

       Contato com um informante francês, através da web.

 

             

"Inspirada" nesta foto e no mito cosmo-agrário de São João eu o desenhei e pintei, como se fora no deserto, misto de nossa caatinga nordestina. 

A foto é da década de 40 do século XX, em La Feuillé, na Bretagne, França. Eu "descobri" isto em minhas pesquisas pela web e, por incrível que pareça, me correspondi com o menino, M. Jacques Thepaut, claro que, agora, um senhor idoso. Eles chamam lá de "pardon", no sentido quase nosso de romaria, peregrinação, uma procissão na verdade. Inclusive com estandartes. Segundo M. Thepaut, não há mais le pardon, apenas fogueiras, "le feu de la Saint Jean". Em Mônaco, no Canadá francês (Quebec), também na Córsega, Itália, há festas de São João, nos dias 23 e 24 de junho, com crianças vestidas como se fossem São João. No Brasil, não há um cultivo regular desta representação. Aqui as crianças se “fantasiam” de caipiras ou matutos para dançar a quadrilha junina, um estereótipo que ainda persiste. 

              Caminhos e atalhos de uma pesquisa em andamento

 

            Além de muitos textos, consegui encontrar e montar uma galeria de quase 100 representações de São João Batista menino/criança ou adolescente, nunca adulto, selecionadas dessa forma, em close ou só, como destaque principal. São nomes consagrados da pintura ocidental, desde Leonardo da Vinci, Caravaggio (o que mais pintou São João menino), Murilo, Bouguereau, enfim passando por todos os séculos e fases da história da arte, até os nossos dias, até o Brasil. É incrível este passeio pelo universo artístico. Inclusive com representações até mesmo bastante sensuais do menino, sobretudo no Renascimento italiano.

            Ao lado disso, também fiz uma “galeria” de representações anônimas, a que chamei de populares, em santinhos e algumas réplicas dos pintores consagrados. Evidentemente que estas representações são mais próximas, em termos de tempo, do século XIX em diante.

            Meu objetivo é o de escrever um trabalho mais amplo sobre estas representações, comparando os elementos constitutivos e simbólicos, interpretando olhares e significados.

 

             Destaques da exposição “Acorda João”: registro de outros trabalhos

 

           Algo completamente novo para mim na época, mas de que gostei muito, foi  o São João bordado. Sempre gostei de bordar, de pequenos trabalhos manuais e me veio a ideia de também bordar um São João, como um desafio. Já havia visto os trabalhos admiráveis na ilustração de livros infantis da família Dumont, de Minas Gerais e isso me deu mais motivação. Pesquisei pontos e me lancei. Deu muito trabalho... acredito que muito mais do que as pinturas, mas o resultado ficou bem interessante. Pergunto-me: será arte? Arte-objeto, como me disseram.


                                            


Abaixo, uma aquarela e uma pintura em madeira com colagem tipo “casinha”.

                              


            Aprendi muito com esta exposição, em vários sentidos. Desde o sentido do fazer, do executar uma proposta, dos caminhos inesperados que ela pode conter, até o sentido da pesquisa e de tentar compreender os mistérios desta escolha. Mistérios da espiritualidade humana, de suas crenças, convicções e desejo de recepção, de se comunicar artisticamente. E poder “esquentar” meu coração, como nos versinhos:

            “O céu é tão lindo

            e a noite é tão boa.

            São João, São João,

            Acende a fogueira

            No meu coração.”

 

 

Petrolina, reescrito em junho de 2022

Elisabet Gonçalves Moreira

 

Um encontro especial: João Batista, Caravaggio e eu em Florença, Itália (2017). Repensando a temática e o fazer...


                                       



sábado, 21 de maio de 2022

MÉTODOS E SEGREDOS DA PESQUISA: DECIFRANDO PISTAS E INTERPRETANTES

 

(Foto de Sílvia Nonata)

                             Um ferro de marcar boi.

Estranhei. Onde as iniciais do dono, semelhança que perfaz a referência lógica, usual e visual?  Esclarecendo: meu interesse por coisas da região onde habito, às margens do rio São Francisco, entre Pernambuco e Bahia, sempre me motivaram. E esse ferro de marcar boi faz parte do acervo histórico e cultural destas margens.

A partir desse estranhamento, como um desafio, o pesquisador – assim me coloco - quer ir além da “mera curiosidade”. E as associações, as coincidências, as leituras vão se projetando, tecendo um produto mais elaborado, uma reflexão, ensaio ou artigo.

Como um detetive, vamos não atrás de um assassino, mas do conhecimento. Estudos relacionados à Semiótica sugerem leituras em interação, pois “A compreensão da cultura como informação determina alguns métodos de pesquisa. Ela permite examinar tanto etapas isoladas da cultura como todo o conjunto de fatos histórico-culturais na qualidade de uma espécie de texto aberto, e aplicar em seu estudo métodos gerais da Semiótica e da Linguística Estrutural”. (LOTMAN, 1979)

Assim, pretendo mostrar alguns exemplos pessoais de como este “texto” nos é dado a ler, se realmente queremos com ele interagir. Espero também associar aqui que o segredo é o desafio e o método é a chave.

Dizem por aí que o vaqueiro cura o boi no rastro... Foi no rastro de pistas e indícios que caminhei e caminho, porque também sei do inacabamento de leituras e interpretações.

Modelos epistemológicos rígidos não conseguem dar conta de certa subjetividade inerente ao processo de pesquisa, seja pela imersão “apaixonada” do pesquisador, seja pelas limitações de uma atitude hipotética-dedutiva ou indutiva tão somente.

Mesmo que a observação e a dedução constituam basicamente o método do detetive, é preciso ressaltar também, que há, muitas vezes, um “elemento sorte” na dedução. As melhores hipóteses para desvendar um crime são obtidas em pormenores, na verdade “em indícios imperceptíveis para a maioria.” (GINZBURG, 1989)

No “caso” dos ferros de marcar boi, primeiramente as investigações foram feitas in loco: vaqueiros, fazendeiros, ferreiros, gente honesta e boa a dar informações. E ferros, muitos ferros, que compõem uma pequena coleção.  Consegui encontrar até uma raridade: o Livro de Registro de “ferros, marcas e signaes” da Villa de Petrolina, dos anos de 1872 e 1873, hoje desaparecido da Biblioteca Municipal do município de Petrolina.

Mas foi a ponte com a literatura que me levou a outros índices de deciframento nesta investigação, cruzando com os dados já recolhidos.  Nós, pesquisadores, devemos ser um atento leitor de signos, uma vez que decifrar o enigma é sair à busca de rastros, é gostar deste percurso e ter o prazer da descoberta.

Ariano Suassuna, no seu romance A PEDRA DO REINO, refere-se ao desenho dos ferros dentro de uma “Heráldica sertaneja” e sua simbologia, repleta de mistérios e elementos mágicos. Segue-se o fragmento de um diálogo esclarecedor:

“...é que, na espádua esquerda de Dom Pedro Sebastião, tinham ferrado, a fogo, um ferro desconhecido e que não é nenhum dos ferros familiares de ferrar boi do Sertão da Paraíba” (...)

- Você ainda se lembra como era o ferro?

- Me lembro como se fosse hoje, Excelência! Era uma espécie de lua, ou melhor, para ser mais fiel à nobre Arte da Heráldica, um crescente, com as pontas viradas para cima e encimado por uma cruz.

(...)- E não havia nenhum sinal do fogo onde esquentaram o ferro?

- Nenhum, Excelência! Eu já não expliquei que no aposento elevado da torre da capela, não havia nada, a não ser o sino?”   

Essa pista, esse sino, representa e simboliza o signo, também adivinha, que invocara Pedro Quaderna um pouco antes: “Para o meu enigma, portanto, só um Decifrador brasileiro e de gênio!” (SUASSUNA, p. 293)

(Observação: desenho feito no Paint para este trabalho, a partir da descrição no livro)

Meia lua e cruz, símbolos muçulmano e cristão, que remetem às batalhas das cruzadas. Um mundo medieval no sertão onde as antigas novelas de cavalaria fazem parte do imaginário de Suassuna. Necessário pensar todo o contexto da obra e podemos “decifrar” este enigma.

Também Guimarães Rosa em A Hora e a Vez de Augusto Matraga “ferra” o seu personagem-título:

“E, aí, quando tudo esteve a ponto, abrasaram o ferro com a marca de gado do Major – que soia ser um triângulo inscrito numa circunferência -, e imprimiram-na, com chiado, chamusco e fumaça, na polpa glútea direita de Nhô Augusto. Mas recuaram todos, num susto, porque Nhô Augusto viveu-se, com um berro e um salto, medonhos.” (GUIMARÃES ROSA, p. 335/6)

E, coincidentemente, surge na lembrança, um detetive referência: Sherlock Holmes. Sim, em O Vale do Terror, de Conan Doyle, o primeiro morto da história também tem o seu antebraço ferrado com o mesmo sinal usado por Guimarães Rosa. E outras vítimas também aparecem com a marca, ao longo da história.

“O braço direito do morto apresentava-se, até a altura do cotovelo, fora da manga do roupão, no centro do antebraço, um desenho de cor castanha, um triângulo dentro de um círculo, que se salientava vivamente na pele clara. (...) Não é tatuagem, afirmou o médico. (...) O homem foi marcado, há algum tempo, a fogo, como se usa para fazer com o gado.” (CONAN DOYLE, p. 38)

E, lá como cá, embora com as devidas diferenças, a marca era o símbolo de uma associação de criminosos – espécie de Máfia – que no início só fazia o bem, mas que se degenerou.

Pesquisando o significado místico: círculo com triângulo em seu interior simboliza o ternário divino, ou o princípio espiritual dentro do todo, do universo (que é o círculo). Sabe-se que Guimarães Rosa era um estudioso e conhecedor de magia e mitos e, no texto, o ferro assinala mais que a marca do pecado, simboliza a queda e a salvação de Nhô Augusto, sua hora e sua vez.

E por isso não estranhei quando, entrevistando gente mais antiga, falou-se de costumes como o de ferrar somente na lua nova ou cheia para garantir a reprodução do gado. E cruz para livrar da peste.

Em O Signo de Três (ECO & SEBEOK, 1991), uma antologia de 10 ensaios de diferentes autores, onde também se inclui o texto citado de Ginzburg, impressionaram-me as referências e observações entre os métodos dos detetives Sherlock Holmes de Conan Doyle e Dupin de Edgar A. Poe, comparados com os estudos semióticos de Charles S. Peirce. Por isso, ressalto um aspecto fundamental nesta compreensão.

 “Um signo, ou representamen é aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria na mente dessa pessoa um signo equivalente ou talvez um signo mais desenvolvido. Ao signo assim criado, denomino interpretante do primeiro signo”. (PEIRCE, 1977)

 A semiose se dá numa relação triádica, gerando um processo dinâmico e ilimitado de significações, de interpretantes.

O ferro de marcar boi que, em nível primário de leitura, seria apenas um signo, o visual do desenho ou a forma “ferrada”, com a função de identificar a rês ou o animal do patrão em outrora campos abertos, não cercados, cerca-se, no entanto, de uma rede de interpretações sígnicas, muito maior que sua intenção primitiva. Uma “leitura” das relações intersígnicas dos ferros de marcar boi desnuda também, metonimicamente, o processo econômico, social e cultural, típico de nossa estrutura fundiária, onde a posse tem que ser assinalada e delimitada. Um símbolo de Poder.

A propósito, uma velhinha, ao ver o ferro que tanto estranhei, por sua simplicidade, comentou: “essa é a marca de quem tem pouco mais ô nada”. E o dono do ferro era um pobre vaqueiro que tinha somente poucas cabeças de gado...

Assim é que, na malha de signos constitutivos de uma pesquisa, sobretudo na área de humanidades, temos um enigma (ou vários) a ser revelado num continuum de possibilidades interpretativas, sem reduzi-lo apenas ao aspecto descritivo. O método, mesmo que empírico, leva a descobertas e ao conhecimento como substrato prazeroso de nossas escolhas por índices esclarecedores. 

Além disso, o pesquisador acaba também por preencher  lacunas, muitas vezes resgatando do esquecimento aquilo que foi posto de lado pela história. Não é à toa que a pesquisa como um trabalho investigativo se torna um jogo, um exercício lúdico de descobertas,

Referências

DOYLE, Conan. O Vale do Terror. São Paulo: Melhoramentos, 1982.

ECO, Umberto & SEBEOK, Thomas A. O signo de três. São Paulo: Perspectiva, 1991.

GINZBURG, Carlo. SINAIS Raízes de um paradigma indiciário in Mitos, Emblemas, Sinais. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.

LOTMAN, Iúri M. Sobre o Problema da Tipologia da Cultura in Semiótica Russa. São Paulo: Perspectiva, 1979.

PEIRCE, C. Sanders. Semiótica. São Paulo: Perspectiva, 1977.

ROSA, J. Guimarães. A hora e a vez de Augusto Matraga in Sagarana. Rio: José Olympio, 1976.

SUASSUNA, Ariano. Romance d´A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-E-Volta. Rio: José Olympio, 1976.

Nota: Este texto foi publicado na revista Contexto nº 7 – Petrolina: julho/dezembro 2013, p. 90-92.

 

 

terça-feira, 10 de maio de 2022

CONTO E ENSAIO VERSOS...

 

ATO CONTÍNUO

A menina gostava de ler. Sabia que isso era importante. Quem lia mais, sabia de tudo. E podia impressionar qualquer um.

Onde ler? Para não ser incomodada com o barulho irritante da casa viva, dos irmãos correndo, da mãe sempre a chamando para fazer isso ou aquilo, Corina lia embaixo da cama. Naquele espaço sombreado, sem calor, viajava nas aventuras, beijava nos amores, sentia emoções e comichões que não lhe eram permitidas.

Transportava-se para seu personagem do dia. Um homem relativamente idoso, moreno claro, que lia também. Sem precisar se esconder, lia às claras, mesmo sendo noite, com um abajur em foco sobre o livro encadernado. Sentado confortavelmente numa poltrona que, mesmo reformada, tinha uma aparência de antigo mobiliário. Seus pés repousavam num pufe, parte da poltrona.

A sala de uma pequena biblioteca doméstica estava atulhada de livros nas estantes de alumínio, bem acessíveis no mercado, além de tralhas espalhadas aqui e ali. Um telescópio que nunca foi usado, alguns remédios, caixas com material de pesca, uma placa comemorativa, antigas fitas cassete de cursos de língua que esperavam, há décadas, uma aprendizagem além do primeiro módulo.

Mas ali ele se sentia seguro, sem nada que lhe incomodasse. Corina sabia disso, antevendo um futuro no próximo século. Não era bem o que ela queria, sonhando com um herói de romance, mas a vida lhe ofereceu um leitor. Sem mais ilusões, ele lia um dos muitos diagnósticos da realidade econômica e social, onde teorias da conspiração manipulavam a história.

Corina achegou-se por detrás, procurando seu livro de contos para uma referência, estantes laterais naquele mundo especial de enlevo e prioridades. Não havia muito o que falar entre os dois, só ler. Ela estava exausta de tanta solidão a dois. Nada era mais possível. A vida havia escoado e tudo eram apenas lembranças registradas nos álbuns fotográficos enfileirados na parte inferior da estante mais larga.

Naquele momento ela viu que poderia mudar o destino, se ambos quisessem. Ele não quis. Continuava a ler, como sempre. Não havia nada que pudesse mudar o roteiro.

Então Corina voltou para debaixo da cama.

 Petrolina, junho 2019


                     Há um balanço dos domingos de manhã

                    Amassam-se os sonhos nos volantes conferidos da loteria

                    Quinas, senas, seis jogos diversos

                    Diversos tentos, tento versos

                    O grande prêmio que nunca chega

                    Jogo adiado... jogando.

(16/05/21)

                                               Cultivo antúrios.

                                              De preferência vermelhos.

                                              Há antúrios miniaturas.

                                              Encolheram.

                                              Como os espaços e tempos do hoje

                                              Mas um pênis ereto se eleva prenhe além do verde

                                              Que penso ao vê-los em desafios cotidianos??

21/02/22)

 

 

 

sexta-feira, 22 de abril de 2022

DONA FRIDA


Mais um daqueles “tipos inesquecíveis” que marcaram minha vida... memórias que me salvam da rotina e reconstroem o poder da simpatia e dos afetos.

Dona Frida era uma simpática senhora, catarinense, descendente de alemães. Vivia sozinha, numa kitchenette em São Paulo, no “Bixiga” ou Bela Vista, num prédio antigo, que dava para a Avenida Nove de Julho, lado direito saindo do centro. O prédio fazia esquina com uma ladeira, de onde eu pude apreciar, da sacada de meu apartamento alugado, décimo andar, também uma kitchenette, o vai e vem de tanta vida a pulsar, nos espaços dos apertos e da poluição paulistana.

Pois bem, o apartamento de Dona Frida ficava nos fundos do andar e do meu apartamento. Havia muitos vasos de plantas ao redor de sua porta. Dedicada, limpava com um pano úmido suas folhagens. Era conhecida de todos no andar, como a minha vizinha da frente, uma sergipana cheia de filhos que gritava “Zezinho” muitas vezes ao dia... Havia também um casal jovem; a moça estava grávida quando cheguei ao prédio.

Morando com meu futuro marido, trabalhando e estudando, numa vida com alguns sobressaltos, dificuldades muitas, mas muito tesão... em vários sentidos, bem sentidos. E que os moradores do andar percebiam pois ficavam atentos; realmente a vizinhança de um andar é assunto para muita fofoca e observações maliciosas.

Recebíamos muitas visitas, éramos jovens e curtíamos o início dos anos 70 com tudo que estivesse a nosso alcance. Artistas de vários naipes, atores, hippies, até professores iam e vinham... certa vez fiz uma feijoada que a vizinha da frente veio pedir um pouco para a moça grávida do andar, pois o cheiro havia se espalhado no ar.

O fato é que também fiquei grávida. Embora estivesse entusiasmada em ser mãe, tive um parto muito difícil. Operada, sentia dores da cirurgia e o leite das mamas “empedrou”. Fiquei traumatizada, não aguentava sequer ouvir o choro da criança. Meu marido tentava de tudo, mas choro de criança de madrugada, quem passou por isso é que sabe...

Foi aí que Dona Frida entrou em nossa vida; um desses acasos que nos salvam daqueles aperreios prontos para nos destruir... Ela chegou a nossa porta e se ofereceu para cuidar da criança, me ensinando nestes manejos que não se aprende na escola, a dar banho, trocar fraldas (de pano!!!), a higienizar potes e mamadeiras, inclusive a colocar compressas no meu seio dolorido.

E então fiquei sabendo quem era Dona Frida. Ainda hoje me emociono com sua confissão. Ela havia sido enfermeira, cuidadora de crianças, de muitos recém-nascidos nos “berços de ouro” da alta burguesia paulista. Um trabalho de muita dedicação, horário integral, que as mães verdadeiras pagam para suas substitutas babás, garantindo tranquilidade e uma vida sem sustos e cuidados com seus pequenos.

Sem dúvidas Dona Frida deveria ter sido bem requisitada. Branca, loira, de aparência impecável, uma senhora distinta e experiente. Nada a ver com o estereótipo ridículo da babá alemã. Sabia trocar fraldas, acalmar o choro, fazer mamadeiras e cativar as crianças... mas aí é que estava o problema. Ela também era cativada, amorosamente; passava em geral dois anos no máximo com os bebês que acompanhara desde o nascimento. E, então, era mandada embora para nunca mais vê-los, sequer ter notícias desses filhos dos outros. E havia sempre outro bebê na fila de espera...

Seu coração doía de tanta dor. Ela cobrava “caro”, tanto que conseguiu comprar seu apartamento onde morava. Entretanto, chegou uma hora que não aguentou mais. Não havia oferta que a fizesse voltar ao antigo ofício. Seus filhos eram agora suas plantas, o cuidado extremoso com seu vigor e beleza.

Mas, e meu filho? 

Também por ele se apaixonara; perguntei quanto ela iria cobrar pela ajuda fundamental que me dera, por mais de uma madrugada em que batíamos na sua parede, pedindo socorro. Ela disse que eu não lhe devia nada, mas, se quisesse, poderia lhe dar um vaso de plantas. Comprei um lindo vaso repleto de antúrios e dei com gosto e vergonha. Porque sabia que mais uma dor iria lhe cortar o coração.

Então, antes de completar um ano, nos mudamos para uma pequena casa no bairro de Veleiros, parada final do ônibus. Eu a convidei para a festinha de aniversário do meu bebê, com alguns parentes e amigos. Ela foi. Depois, nunca mais a vi.


Petrolina, 22 de abril de 2022.

terça-feira, 29 de março de 2022

A MEDIDA DO TESTEMUNHO E A MEDIDA DO POÉTICO

 

Análise do conto Medição Individual de Varlam Chalámov

(in Contos de Kolimá 1, São Paulo: Editora 34, 2018, p. 46/49)

Elisabet Gonçalves Moreira

Desde que tive acesso a uma parte da literatura de Varlam Chalámov (1907-1982), textos em prosa reunidos em seis volumes, com o nome de Contos de Kolimá, me vi desafiada por outra perspectiva da assim chamada “literatura de testemunho” e seu impacto contemporâneo. Traduzidos diretamente do russo, relatos, contos, ensaios, até mesmo dois poemas, cujo foco denuncia a vida (e a morte) nos Gulags, campos de trabalhos forçados na ex-Soviética União, região de Kolimá, no extremo leste da Sibéria, onde Chalámov foi prisioneiro por dezessete anos. 

GULAG: Sigla em russo para "Administração Central dos Campos" na ex-União Soviética. Reduzidos após a morte de Stalin, em 1953, duraram até os anos 90. 

Os extremos, sejam geográficos, condições climáticas, exaustão e sobretudo a fome, levam ao paroxismo o extermínio ali praticado durante a repressão stalinista. Au delàs da questão ideológica do regime, Chalámov trabalha as idiossincrasias morais que aniquilam qualquer humanidade possível. Corpos e mentes em desacordo, desapiedados e indiferentes à ignomínia.

Particularizando, foi no primeiro volume que me deparei com um conto, sim, posso classificá-lo nesse gênero, que, de certa forma, mostrou aquele que, para mim, revela um procedimento exemplar de sua poética. “Medição Individual” é tomado aqui como parâmetro de um testemunho em que realidade e arte se conjugam.

Sem fazer uma paráfrase, o leitor deste trabalho também poderá ir e vir no texto do autor, complementando referências e lacunas.

MEDIÇÃO INDIVIDUAL

                              VARLAM CHALÁMOV

No final da tarde, enrolando a trena, o encarregado disse que a medição de Dugáiev no dia seguinte seria individual. O chefe da brigada, que estava de pé ali ao lado e pedira emprestada ao encarregado “uma dezena de centímetros cúbicos até depois de amanhã”, calou-se de repente e fixou os olhos na estrela vespertina cintilante, na crista da sopka nua. Baránov, parceiro de Dugáiev, que ajudara o encarregado a medir o trabalho feito, pegou a pá e pôs-se a limpar a galeria de mina que há muito já fora limpa.

Dugáiev tinha 23 anos de idade e tudo o que via e ouvia aqui mais o surpreendia do que assustava.

A brigada reuniu-se para a contagem, entregou as ferramentas e voltou ao pavilhão numa formação irregular. O dia difícil terminara. No refeitório, sem se sentar, Dugáiev tomou a porção de sopa de cereal rala e fria pela borda da tigela. O pão distribuído de manhã para o dia todo há muito fora comido. Vontade de fumar. Olhou ao redor, imaginando de quem podia pechinchar uma guimba. Na beira da janela, Baránov juntava num papel os fiapos de makhorka da bolsa de tabaco revirada. Juntou-os zelosamente, enrolou um cigarro fininho e estendeu-o a Dugáiev.

- Fume e devolva – propôs ele.

Dugáiev ficou surpreso, ele e Baránov não eram amigos. Aliás, com fome, frio e sono, não se fazia amizade nenhuma, e Dugáiev, apesar de jovem, compreendia toda a falsidade do provérbio sobre amigos temperados na infelicidade e na desgraça. Para que a amizade fosse amizade era preciso uma base sólida, formada quando as condições e a vida ainda não tivessem atingido aquela última fronteira, além da qual já não há nada de humano no ser humano, a não ser desconfiança, maldade e mentira. Dugáiev lembrava bem o provérbio nortista dos três mandamentos do detento: não confie, não tema e não peça...

Dugáiev absorveu avidamente a fumaça doce da makhorka e sua cabeça girou.

- Estou ficando fraco – disse ele.

Baránov não disse nada.

Dugáiev voltou ao pavilhão, deitou-se e fechou os olhos. Nos últimos tempos, dormia mal, a fome não o deixava dormir direito. Os sonhos eram especialmente martirizantes; bisnagas de pão, sopas grossas fumegantes... A sonolência demorou a chegar, mas, apesar disso, meia hora antes do toque de alvorada, Dugáiev já abria os olhos.

A brigada chegou ao trabalho. Foi cada um para a sua galeria.

- Você, espere aqui – disse o chefe da brigada a Dugáiev. – O encarregado é que vai dizer.

Dugáiev sentou-se no chão. Já estava tão esgotado que enfrentava com total indiferença qualquer mudança no destino.

Os primeiros carrinhos de mão caíram com estrondo sobre o passadouro de madeira, as pás bateram nas pedras, rangendo.

- Venha cá – disse o encarregado a Dugáiev. – Seu lugar é aqui.

Ele mediu a cubatura da galeria e colocou uma marca: um pedaço de quartzo.

- Até aqui – disse ele. – O tabueiro vai estender as tábuas até o caminho principal. Aí você leva até lá, como todo mundo. Tome: pá, picareta, pé de cabra, carrinho de mão. Ande.

Dugáiev começou o trabalho, obediente.

“Melhor assim”, pensou ele. Nenhum dos companheiros ia ficar resmungando que ele trabalhava mal. Ex-lavradores não eram obrigados a entender, nem podiam saber que Dugáiev era novato, que tinha ido para a universidade logo depois do colégio e trocara o banco universitário por essa galeria de mina. Cada um por si. Não eram obrigados a entender e não entendiam que há muito tempo ele estava esgotado e faminto e que não sabia roubar: no Norte, um talento importante era a habilidade de roubar, em todas as suas formas, começando pelo pão do companheiro e terminando pelos milhares de pedidos oficiais de prêmios à chefia por resultados inexistentes, não alcançados. Não era da conta de ninguém se Dugáiev não conseguia aguentar um dia de trabalho de dezesseis horas.

Dugáiev empurrava o carrinho, escavava e carregava; de novo empurrava o carrinho, escavava e carregava.

Depois do intervalo do almoço, o encarregado chegou, examinou o que Dugáiev tinha feito e saiu calado... Dugáiev voltou a escavar e a carregar. Ainda faltava muito até a marca de quartzo.

No final da tarde, o encarregado apareceu de novo e esticou a trena. Mediu o que Dugáiev fizera.

- Vinte e cinco por cento – disse ele e olhou para Dugáiev. – Vinte e cinco por cento. Está ouvindo?

- Estou – disse Dugáiev.

Surpreendia-lhe essa cifra. O trabalho era pesado, a pá pegava tão pouca pedra, era tão difícil escavar. A cifra, vinte e cinco por cento da cota, parecia muito grande a Dugáiev. As batatas da perna doíam sem parar por causa do peso do carrinho de mão; as mãos, os ombros, a cabeça doíam insuportavelmente. A sensação de fome há muito o abandonara. Dugáiev comia porque via os outros comendo; algo lhe dizia: é preciso comer. Mas ele não tinha vontade de comer.

- Bem, é isso – disse o encarregado, afastando-se. – Desejo boa sorte.

De noite, mandaram Dugáiev ao agente de polícia. Ele respondeu quatro perguntas: nome, sobrenome, artigo, pena. Quatro perguntas que faziam ao detento trinta vezes ao dia. Depois Dugáiev for dormir. No dia seguinte, trabalhou de novo com a brigada, ainda como parceiro de Baránov, mas, passados, dois dias, à noite, os soldados levaram-no por detrás da estrebaria, passando pela trilha do bosque até o local, onde, quase cortando um pequeno desfiladeiro, ficava uma cerca alta, de arame farpado, estendida até em cima, e de onde, à noite, ouvia-se um farfalhar longínquo de tratores. E, tendo compreendido o que ia acontecer, Dugáiev lamentou ter trabalhado em vão, ter padecido em vão no trabalho aquele dia, aquele último dia.

(1955)


 






À esquerda: Trabalhos forçados em Kolimá na Sibéria  À direita: o escritor  Varlam Chalámov, na prisão, em 1937.


Qual foi o objetivo de minha análise? Demonstrar, neste texto de Chalámov, o procedimento construtivo em que realidade e arte se conjugam. A medida do poético e da consciência do horror vivido e recriado como expressão escrita.

 “No final da tarde, enrolando a trena, o encarregado disse que a medição de Dugáiev no dia seguinte seria individual.”

O que significa o anúncio dessa medição individual, destacada desde o título?

É, a partir daí que, imediatamente, nos situamos no núcleo motivador da narrativa, para acompanharmos os acontecimentos em que o destino de Dugáiev é decidido no desenrolar de uma trena. Neste início, de imediato, justificam-se o leitmotiv, o título e a sequência da narrativa. Uma rede de significados é construída a partir desta referência.

A despersonalização de Dugáiev já está neste nome, sem prenome e patronímico. Um entre tantos... ou, como tantos outros. Condenados do sistema, não existe futuro. Subentende-se um desafio que Dugáiev jamais poderá cumprir como meta de produção. Todo o tempo, ele parece tão anestesiado pelo sofrimento que nada o assusta mais.

Ao redor do personagem Dugáiev, aparecem os coadjuvantes com suas tarefas de fiscalização e punição que fazem o sistema funcionar. Temos o “encarregado”, cumpridor de ordens e de metas e, na sequência do primeiro parágrafo, vão aparecer mais dois personagens da cena inicial.

O chefe da brigada – que não precisa ser nomeado – seu cargo e importância já bastam, e Baránov, o parceiro de Dugáiev. Destaca-se a indiferença do chefe, seu silêncio repentino e a atitude inusitada e reveladora da esperteza de Baránov a limpar a galeria da mina que já fora limpa. Eles todos sabem, sem dúvidas, o que aguarda Dugáiev, menos o próprio.

Ficaremos sabendo que Dugáiev não é um lavrador ou um blatar, o bandido comum, referência em outros contos de V. Chalámov. O fato de ser jovem, 23 anos, estudante, pode até justificar certa ingenuidade e fraqueza para a realidade dos trabalhos forçados, demonstrar sua inexperiência e ter agravada sua punição. E até atrair nossa simpatia, enquanto leitores.

Ressalto nesta frase inicial duas referências a um tempo cronológico: o que acontece no final da tarde e o que acontecerá amanhã. Um tempo também medido, delimitado, criando antecipadamente uma situação narrativa e um suspense.

Sabe-se que, no sistema penal, é justamente no controle do tempo e garantindo sua utilização que se assegura o poder sobre o outro e o que ele representa; conserva-se o domínio nessa duração, na pena imposta aos condenados. No caso deste conto, abrevia-se não só o tempo como a narrativa.

Uma dinâmica quase cinematográfica nos leva a imaginar o cenário, seus atores e sutis contrapontos para o caminhar do inevitável. Há um narrador onisciente sim, mas isso não é documentário, é literatura. Há um segundo plano onde o leitor atento perceberá (ou não?) o desenrolar anunciado pela trama, seus personagens, atitudes e silêncios. E é justamente nesse plano que tudo adquire significação.

Há suspense até na estrutura dos parágrafos, intercalando um pequeno parágrafo ou uma fala, depois de uma narração em que certos detalhes do local e das condições físicas e necessidades de Dugáiev, como comer e fumar, são mostradas através de frases curtas, incisivas.

Apesar da tensão implícita na condução da narrativa, percebe-se uma sequência de normalidade onde tudo é previsível, pois, afinal, aquilo é o cotidiano nos campos de Kolimá.  Uma voz narrativa vai refletir sobre a falsidade onde não se tem, nem se pode ter, qualquer amizade neste lugar - o Norte - e nestas condições, a invariante da fome, do frio e dos trabalhos forçados.

“...aquela última fronteira, além da qual já não há nada de humano no ser humano, a não ser desconfiança, maldade e mentira.”

A desconfiança na capacidade de trabalho de Dugáiev já fora “delatada” implicitamente. No Gulag demonstra-se a verdade de “cada um por si.”  O mais são mentiras que todo detento deve bem saber.

Afinal “Não era da conta de ninguém se Dugáiev não conseguia aguentar um dia de trabalho de dezesseis horas.” Isso é o que o personagem parece concluir, pela voz do narrador. Um contraponto com a fiscalização dos trabalhos dos detentos e as metas a serem atingidas por esses escravos de um regime que, além de condenados, os quer “produtivos”. Tolerância zero, como dizemos hoje.

Dentro da estrutura desses aparatos da repressão, de sua hierarquia, não consigo deixar de pensar na referida maldade, não como uma abstração, mas como ela é organizada, disciplinada. Na expressão “banalidade do mal”, Hannah Arendt admiravelmente deduziu, no julgamento de Eichmann, o nazista genocida, um homem comum, aquele que se julga inocente, pois apenas cumpre – e muito bem – as ordens superiores.  Realmente é difícil aceitar que burocratas assassinos possam ser também dedicados e sensíveis cidadãos.

Nesse conto, ainda no primeiro parágrafo, o chefe da brigada, autoritário nas exigências e que implicam no destino sem saída de Dugáiev, “...calou-se de repente e fixou os olhos na estrela vespertina cintilante...”  Nesse silêncio explícito e olhar para o alto, no contraponto do que ele já sabe, podemos inferir algum traço de humanidade? Na verdade, ele apenas cumpre o seu dever, como um chefe eficiente.

E Dugáiev, o novato nas lavras, aquele “que tinha ido para a universidade ... e trocara o banco universitário por essa galeria de mina”, o sujeito punido, não trocara coisa nenhuma, já que, ironicamente, fora condenado a trabalhos forçados sem direitos e futuro.

Sabe-se que grande parte dos presos no Gulag eram presos políticos, geralmente opositores do regime ou aqueles que, mesmo fazendo parte do governo, muitas vezes caíam em desgraça por um motivo ou outro, sendo perseguidos, silenciados e punidos.

No caso desse conto em análise, nem sequer sabemos qual foi a “culpa”, o motivo da prisão de Dugáiev; supomos uma oposição qualquer, como estudante, ao regime da época stalinista, provavelmente o temível artigo 58, que podia abarcar qualquer denúncia e que levou à prisão enorme contingente de pessoas, os “inimigos do povo”, incluindo grande número de inocentes.

A simpatia pelo jovem também nos faz perguntar: seria ele um inocente, uma vítima? A literatura de Chalámov não deixa escapar nem o prisioneiro, nem qualquer intervenção. “Cada um por si”, já fora explicitado.

Certo que o escritor, em alguns ensaios, no volume 4 dos Contos de Kolimá, tenha feito um apanhado geral dos tipos presos nestes campos de trabalhos forçados, distinguindo o bandido contumaz - assassinos, ladrões, estupradores: os blatares - dos outros condenados. Sua organização e violência o levou não só a descrever os blatares, mas fazer um discurso moralista e condenatório de sua perversidade sem limites. Aí sim temos o posicionamento e o testemunho desnudado, em detalhes.

Entretanto, o escritor nunca deixa de ser um escritor. Nesse sentido, literariamente, há contos admiráveis das ações desses bandidos em outras obras, de sua total indiferença a possíveis sentimentos de benevolência e a submissão de outros prisioneiros, muitas vezes para sua autopreservação, ou derrocada moral naquele ambiente sub-humano.

“Tão difícil escavar”, admite o novato Dugáiev, sem experiência o corpo todo dói, sequer a fome o atormenta mais. Prisioneiros sacrificados pelo castigo da fome, na letargia da subnutrição, sabemos que o personagem já não tem alternativa. Discurso indireto, o autor mergulha no corpo e mente do personagem. Inclusive são “martirizantes” os sonhos do personagem, eloquentes nas imagens de alimentos simples, como bisnagas de pão e sopas grossas.

Somente uma testemunha dessa tortura, como foi Chalámov, possa dela falar com tamanha força. Aqui, no Nordeste, há uma expressão popular, usada em situações difíceis, de filas longas, metáfora de uma miséria crônica: “comprida como um dia de fome”.

Voltando à narrativa, então tudo se completa: o personagem escava, trabalha, mas a medição individual deu apenas vinte e cinco por cento do que lhe havia sido imposto. Irônico, o encarregado ainda lhe deseja boa sorte. O que, evidentemente, Dugáiev jamais terá.

Nem há um clímax descrito para o final ou a execução; isso já vinha se desenrolando, só Dugáiev não desconfiava. Tantos índices e marcas que o jovem não percebera. A violência é, pois, simbolicamente demonstrada.

No último parágrafo, a sequência de fatos e ações tem ritmo mais lento e detalhado. A presença do agente de polícia e o interrogatório parecem não constituir uma anormalidade. Dugáiev dorme, ainda trabalha em parceria com Baránov, dois dias se passam. Mas à noite, levado pelos soldados, o cenário improvável, deslocado do cotidiano, não deixa dúvidas sobre a execução. Dugáiev, assim como o leitor, finalmente compreendem o que “ia acontecer”.

Quase epifania, essa compreensão constitui um corte, o momento fundamental da narrativa. Não dá para sair ileso de um testemunho literário como esse. E, sobretudo, entender, também, dolorosamente, assim como o personagem, que tudo fora “em vão”, que fora seu último dia.

“E, tendo compreendido o que ia acontecer, Dugáiev lamentou ter trabalhado em vão, ter padecido em vão no trabalho aquele dia, aquele último dia.”

 

Sem ceder ao melodramático, Varlan Chalámov, testemunha e sobrevivente dessa realidade, destrói em sua narrativa qualquer possibilidade de romantização do horror vivido. Isso, ele mesmo fez questão de deixar claro. No fragmento do ensaio “Sobre a prosa” defende uma literatura forte, vivida, nunca “de fora”. Situações extremas, repletas de significação. Também  nos tornamos testemunhas.

 

 

Petrolina, 2 de março de 2022.

terça-feira, 1 de março de 2022

CARNAVAL SEM CARNAVAL


Dinara me pergunta: Você gosta e brinca carnaval?

Não consigo responder diretamente... De qual carnaval? Ela envia uma avalanche de postagens, como fã e entusiasta do carnaval da cidade do Recife, onde mora, de lembranças do frevo, de compositores e maestros, de tantos blocos e fantasias.

Nunca ao vivo, vi. Nunca desci (ou subi) as ladeiras de Olinda na folia, mas gostaria de ter tido essa chance, de ter participado dessa diversidade de festas, de ritmos e ter me despojado de muita repressão e pudor. Circunstâncias pessoais e familiares, até mesmo de contexto histórico, não me deixaram “cair na folia”.

Em minha infância, antes de morar em São Paulo, numa pequena cidade do interior, minha mãe não me deixava brincar carnaval, nem pensar nisso eu podia! Para ela, filha de imigrante italiano, absurdamente católica, o Carnaval era a festa do diabo. Quem participasse, era um pecador sem salvação.

Principalmente para mim isso foi um trauma... sim, porque todas as minhas amiguinhas participavam, iam aos bailinhos infantis, com fantasias, confetes, serpentinas e... lança-perfume. Era a moda das marchinhas, que se cantava com entusiasmo. Havia desfile alegórico e ainda pude assistir alguns, mas nem pensar em brincar.

Fui buscar esta foto no meu álbum. Minhas amiguinhas fantasiadas. A mãe de Nilzinha chegou a implorar para minha mãe deixar que eu participasse... como eu chorei! Hoje penso também que ela talvez não tenha deixado por uma questão de dinheiro para a fantasia, mas mesmo sem fantasia nunca pude brincar carnaval. Aliás, eu era proibida de usar shorts ou calça comprida! Só quando moça, trabalhando, comprei minha primeira calça comprida, uma rancheira, o jeans daqueles tempos.

Mas há uma passagem especial, do carnaval de 1969, quando, jovem e estudante em São Paulo, viajei, com alguns amigos, para o Rio de Janeiro. Fui expectadora, uma única vez, de um desfile das escolas de samba quando não existia Sambódromo, ainda na Avenida Presidente Vargas.

O Salgueiro arrasou, com o samba enredo Bahia de Todos os Deuses, cantado por Elza Soares.  As cores vermelho e branco, o ritmo, tudo tão empolgante!

“Terra abençoada pelos deuses
E o petróleo a jorrar
Nega baiana
Tabuleiro de quindim
Todo dia ela está
Na igreja do Bonfim, oi
Na ladeira tem, tem capoeira
Zum, zum, zum, zum, zum, zum
Capoeira mata um
Zum, zum, zum, zum, zum, zum
Capoeira mata um
Zum, zum, zum, zum, zum, zum
Capoeira mata um”

O fato de ter ficado a noite sem dormir e o calor impiedoso, quase me fizeram sucumbir... sempre fui muito frágil fisicamente para aguentar este tipo de “repuxo”. Mas, à noite, não pude deixar de ir ao famoso baile gay do Scala. Que experiência! O que vi jamais sairá de minha memória!

Fiquei num canto com um amigo que não foi dançar, mas percebia seu olhar mais do que curioso. Hoje, até me lembro que não havia lésbicas ou gêneros afins, somente homens. 

Pois bem, quem eu vi lá? Um homem lindo, engenheiro na empresa onde eu trabalhava em São Paulo, aos beijos e abraços com outros homens. Ele fingiu não me ver - ou não me reconheceu mesmo - e eu também “fiquei na minha”. Quem iria supor que eu também estaria lá, no Rio, e num baile gay... Na empresa ele era altivo e sério, paquerado por todas as moças, um dos poucos solteiros. Quando voltei para o trabalho, nunca disse nada e ele também continuou a não me reconhecer.

São Paulo, capital, no final dos anos 60 e início da década de 70, não era uma cidade carnavalesca, bem o sabemos. Pode ser que hoje isso esteja diferente, mas não havia um carnaval onde pudéssemos, inclusive, nos sentir seguros. Havia uma ditadura militar em pleno exercício. Ademais, eu não tinha nem tempo nem condições para brincar o carnaval, casada, estudando e com filho pequeno.

Morando depois em Petrolina, também não tive ocasião de brincar carnaval. Era uma forasteira, sem vínculos com a festa que, por sinal, era bem restrita.  Minhas filhas, quando jovens, foram se divertir do outro lado do rio, em Juazeiro da Bahia, nos tempos das bandas do Axé, muito mais animadas. Mas, esse tipo de festa não fazia gosto para mim, nem para meu marido.

Ainda teve um ano que fomos para Salvador, depois de muita insistência minha. E foi um desastre... não dava para acompanhar trio elétrico, era tudo muito longe, as crianças eram pequenas, não havia amigos ou parentes para nos dar um suporte. Recife, muito menos.

Estou me justificando muito, mas para mim isto funciona também como uma explicação. Hoje, aos 75 anos, é bom repensar, já que não dá para reviver o que não foi vivido. Nem o será, na festa proibida onde a máscara não é fantasia...

Não brinco, não brinquei... nem na ala das baianas, nem no Bloco da Saudade.

 

Petrolina, 1 de março de 2022